sábado, 1 de abril de 2017

Vamp - O musical (RJ)

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Foto: divulgação


Ney Latorraca e Claudia Ohana

A tão esperada volta de Vlad


“Vamp – O musical” é a versão para teatro da novela das sete de enorme sucesso. A produção escrita por Antônio Calmon e dirigida por Jorge Fernando foi protagonizada por Claudia Ohana e por Ney Latorraca, indo ao ar no horário das sete na TV Globo entre 1991 e 1992. Agora, com os mesmos nomes liderando a equipe, a narrativa voltou em março ao público em grande produção assinada pela Aventura Entretenimento. Claudia Netto, Erika Riba, Evelyn Castro e grande elenco completam o quadro com coreografias de Alonso Barros e direção musical de Tony Lucchesi. Se há problemas no cenário e no figurino, vale elogiar as vitórias da dramaturgia e principalmente dos trabalhos de interpretação. Em cartaz no Teatro Riachuelo, na Cinelândia, até junho, eis aqui uma oportunidade de matar a saudade de ótimo momento da teledramaturgia brasileira que ressurge aqui para permanecer inesquecível.

A novela: um sucesso de audiência no horário das sete
A história começa quando o misterioso conde Vladymir Polanski (Ney Latorraca) entra na vida de Natasha (Claudia Ohana), uma bela jovem que não consegue emplacar sua carreira como cantora de rock. Ele, que é um poderoso vampiro, promete ajudá-la em troca de sua alma para sempre. Ela concorda e Vlad morde seu pescoço, fazendo de Natasha uma vampira também. Em Veneza, na Itália, o célebre produtor de rock Gerald Lamas (Guilherme Leme Garcia) ouve sua voz e a torna uma celebridade mundialmente famosa, cumprindo a promessa de Vlad.

Por trás do interesse de Vlad por Natasha, há um passado que aos poucos foi se tornando conhecido pelo público ao longo da novela. Em 1781, Vlad foi muito apaixonado por uma mulher chamada Eugênia Queiroz (Ohana), mas ela amava outro, o nobre cavaleiro Felipe Rocha (Reginaldo Faria). Logo depois de ser mordida pelo conde, Eugênia apunhalou-se em suicídio, entregando-se à morte por amor. Desesperado, Vlad matou Rocha, mas foi também atingido em batalha por fiéis que empunhavam uma poderosa e brilhante Cruz de São Sebastião. Debilitado, Vlad perdeu a forma humana durante séculos em que a cruz ficou esquecida.

De volta ao século XX, o irmão de Eugênia - Diogo Queiroz (Marcos Breda), também chamado Anjo Rafael – reaparece para proteger Natasha, a reencarnação da donzela. Ele revela à roqueira o paradeiro da cruz perdida que poderá salvar o mundo contra Vlad. Como objeto histórico, a cruz foi resgatada do fundo do mar na Armação dos Anjos, cidade litorânea do Rio de Janeiro, onde mora o Capitão Jonas Rocha (Reginaldo Faria), a quem deve Natasha pedir ajuda. Trata-se da reencarnação do cavaleiro Felipe.

A antiga ligação entre Felipe e Eugênia não se repete com Jonas e Natasha. No início da novela, o Capitão, que é viúvo e pai de seis filhos, conhece a historiadora Carmen Maura (Joana Fomm), ela também viúva e mãe de outros seis. Os dois se conhecem, se apaixonam e se casam e juntos passam a ser pais de doze crianças e adolescentes, administrando uma pousada. Em busca da Cruz de São Sebastião, a roqueira Natasha se hospeda lá, se tornando a sensação da cidade. Em seu encalço, a investigadora inglesa Mrs. Alice Penn Taylor Smith (Vera Holtz), que é, na verdade, uma caçadora de vampiros.

Tão logo fica sabendo do paradeiro de Natasha, Vlad arma o seu exército. O prefeito Matoso (Otávio Augusto), sua esposa Mary Ramos, seus filhos e outras pessoas, vão se tornando vampiros por Vlad. Uma nova guerra vai se armando na narrativa original de Calmon, com colaboração de Tiago Santiago, Vinícius Vianna e de Lilian Garcia. Atualmente, a novela se encontra lançada em DVD para quem quiser saber como ela terminou. Em suas últimas palavras, Vlad diz que os homens são piores que o pior dos vampiros. E que poderá morrer, mas deixará no mundo coisas horríveis como a fome, a miséria, a injustiça e as guerras. E afirma: “Eu voltarei!”.

Muitos méritos na dramaturgia teatral
A dramaturgia do musical se empenha nos mesmos valores do roteiro da novela com algumas modificações. Estão lá, o passado de Vlad (Ney Latorraca), de Eugênia (Claudia Ohana) e de Felipe Rocha (Luciano Andrey), como também o início da aventura de Natasha (Ohana) depois de ter sido mordida por Vlad: a fama ajudada por Gerald (Pedro Henrique Lopes) e a fuga dela da caçadora de vampiros Mrs. Penn Taylor (Evelyn Castro). Na Armação dos Anjos, Carmem Maura (Erika Riba) e Capitão Jonas (Andrey) não têm na peça tantos filhos quanto tinham na novela, mas o impacto aqui é outro. Mary (Livia Dabarian), na TV, era uma atriz pornô aposentada. No teatro, ela surge como uma irmã de Carmen Maura, mas que igualmente se casa com Matoso (Osvaldo Mil), indo fazer parte do exército de Vlad.

Sumiram na peça todas as referências à igreja católica (e a outras religiões e crenças) que havia na novela. A Cruz de São Sebastião, que ficou no fundo do mar por dois séculos, se tornou o Medalhão do Poder, passando de pai para filho desde os ancestrais de Felipe Rocha até o Capitão Jonas Rocha, que dá a peça de presente de casamento à Carmem Maura. A personagem, assim, passa a ter maior importância nessa narrativa do que possivelmente teria sem o objeto. Frei Bartolomeu, Padre Osvaldo, Padre Estevão e Padre Garotão, como também o Pai Gil desapareceram, concentrando suas importâncias na figura da personagem Mrs. Penn Taylor. De novidade, essa versão da narrativa trouxe Madrácula (Cláudia Netto), a mãe do Conde Vlad, por quem ele chamava desde a novela, mas que lá não tinha aparecido. De ascendência portuguesa, ela reforça o aspecto infantiloide de Vlad que, na versão para TV, mas ainda aqui, é tão positivamente forte.

Em termos de estrutura narrativa, “Vamp – O musical”, segue contendo as contradições que dão corpo para a história. Por causa disso, ela pode continuar sendo interessante tanto para crianças como para adultos. O segundo grupo vai se divertir com vampiros e não-vampiros e com as lutas entre esses grupos. Há também os shows de rock, os morcegos e as pessoas bonitas na praia. Já os adultos poderão refletir melhor, por exemplo, sobre o fato de Natasha ter almejado tanto a fama a ponto de trocar por ela sua alma, mas, a tendo conseguido, prefere voltar ao passado, pois sente o peso da eternidade. Há também a força da maternidade que dá poder à Carmem Maura e à Madrácula, ainda que essas sejam mães de lados opostos na guerra entre o bem e o mal. E, por fim, e mais importante, o lado humano que pode ser encontrado no Conde Vladymir Polanski. A tese de que Natasha é a reencarnação de Eugênia faz dele um homem fiel à mulher que ama através dos séculos, almejando ser amado na mesma medida em que ama: eternamente.

De problemas na dramaturgia, talvez se possa apontar que o núcleo “jovem-praia” da versão para teatro pesa um pouco demais o ritmo da narrativa. Não se pode, no entanto, deixar de perceber, nessa avaliação, que a força da trama central (Vlad-Natasha-Jonas-Maura-Penn Taylor) depende dos respiros oferecidos pelas menores. Em outras palavras, como em um carro na troca de marchas, é preciso diminuir a velocidade às vezes para aumentá-la. “Vamp – O musical”, em termos de dramaturgia, é por tudo isso a melhor produção da Aventura Entretenimento desde “Se eu fosse você – O musical”.

Aspectos da direção de Jorge de Fernando e de Diego Morais
Quanto à direção de Diego Morais (com direção geral de Jorge Fernando), a peça tem, de modo controverso, a tosquice que a novela tinha. Vale dizer que, do jeito como foi produzida, a novela “Vamp” talvez não encontraria hoje lugar na grade de programação televisiva, porque os tempos são outros. Ao longo dos últimos vinte e seis anos, os padrões visuais se modificaram, o olhar estético do público contemporâneo é muito mais exigente, a responsabilidade das qualidades técnicas são maiores. Quem perdia um capítulo da novela só podia sonhar com uma reprise dele no Vale a Pena Ver de Novo, uma realidade impensável atualmente. Nesse sentido, “Vamp – O musical”, com diversos problemas nas trocas de cenário – contrarregras arrastando móveis em cena aberta e cabos sendo colocados a olhos vistos –, exige do espectador maior compromisso do que talvez ele tenha para (ou queira) oferecer. Fosse uma peça de Brecht, justificar-se-ia tudo isso como uma opção estética em favor do reavivamento da fruição em busca de um engajamento político da audiência em relação à cena. Mas aqui são só falhas toscas que muito bem poderiam ser evitadas, porque elas prejudicam demais o ritmo da encenação.

Claudia Ohana e principalmente Ney Latorraca, como intérpretes queridos de uma memória cara que o público mais adulto pode conservar, são fortes em cena o bastante para alterar a organização dos signos felizmente. Dito de outro modo, suas presenças, nessa versão de “Vamp”, são carregadas por valores que vão além de suas marcas expressivas, dizendo respeito às suas relações com a obra anterior. Esse é um dos motivos pelos quais, em toda vez que eles não estão em cena, o ritmo tende a cair naturalmente. Nesse sentido, sem desmérito aos outros artistas que fazem parte desse elenco, talvez os resultados seriam mais positivos houvesse outros atores da novela além de Ohana e de Latorraca colaborando para o equilíbrio da nova versão.

O brilho mágico de Ney Latorraca
De um modo geral, os trabalhos de interpretação são muito positivos. Para analisá-los, como sempre!, é preciso considerar seus desafios. Esses podem ser divididos de acordo com sua relação com a novela – sejam originais ou novas leituras – ou somente no que diz respeito à peça. Thadeu Matos (Matosão), Osvaldo Mil (Matosão), Livia Dabarian (Mary Matoso), Xando Valois (Matosinho), Pedro Henrique Lopes (Gerald) e Evelyn Castro (Mrs. Penn Taylor) são artistas que enfrentam, nessa versão, o desafio de oferecer novas abordagens de personagens que foram defendidos na TV por atores que eram (e são) queridos pela audiência. Ou seja, antes deles conseguirem trazer suas leituras, precisam enfrentar as expectativas que o público traz. E conseguem com galhardia o feito! Vale destacar o belíssimo trabalho de Castro, talvez um dos melhores destaques aqui, nessa peça. Com voz fulgurante, alto carisma e presença viva, a atriz imprime sua marca sem que se esqueça, mas se valorize também o que foi feito por Vera Holtz no passado. A voz de Dabarian também é aplaudida com alegria.

Luciano Andrey e Erika Riba também tiveram desafio parecido, mas dificuldades ainda maiores porque seus personagens – Capitão Jonas e Carmem Maura – são mocinhos contra vilões tão fáceis de se apaixonar como Natasha e Vlad. Considerado isso, vale aplaudir Erika Riba, atriz de longa carreira no teatro musical brasileiro mas cada vez mais merecidamente valorizada, que, na pele que já foi de Joana Fomm, oferece uma heroína pela qual vale a pena torcer. Oscar Fabião, como o Lipe de Fábio Assunção, tem desempenho comparável, mas em menor escala. Riba e Fabião melhoram “Vamp – O musical” com suas vozes que bem servem à proposta em meio a outros elementos de elogiável construção.

Claudia Netto, em duas aparições, apresenta sua Madrácula em cenas de grande destaque. Observando a força de Vlad, a mãe dele consegue parecer ainda maior, o que revela que, até mesmo alguém grande, pode ser pequeno. O público adora! Netto, cujo talento já foi tantas vezes elogiado, é mais uma feliz aposta dessa produção que a valoriza pelo modo criativo e forte com que dela participa. Dos papeis menores, vale destacar Renan Mattos cujo empenho faz sobressair figuras rápidas, mas que acabam por ficar marcantes.

Claudia Ohana, antes de tudo, desafia a ciência. Vinte e cinco anos depois do último capítulo da novela (que foi ao ar em fevereiro de 1992), ela continua igualmente jovem e linda. (Será ela uma vampira de verdade? rs) Melhor quando o registro musical é o rock, a intérprete não faz da fama da personagem uma desculpa, mas evidencia empenho na defesa de sua Natasha para essa nova geração de espectadores. Sob vários aspectos, há marcas visíveis de humanidade em contexto tão controverso que Calmon criou e recriou e que ela defende com galhardia vibrante.

“Vamp – O musical” parece ser de Ney Latorraca cujo Vlad é um dos personagens mais queridos da história da teledramaturgia brasileira. Ele é malvado como uma criança: poderoso, potente, carismático. Além disso, é dele a responsabilidade maior da peça, que é a de aproximar o público do palco. Inúmeras vezes, como fazia na novela, ele quebra a quarta parede, saindo da narrativa e lembrando o público de sua presença diante de uma obra estética. (Em uma cena da novela, o diretor Jorge Fernando atuava como um pequeno personagem que era seu inimigo. Foi ao ar uma fala de Latorraca dizendo: “Até o diretor contra mim?!”, que trazia à narrativa uma informação que não era de ordem estética, mas da produção.) Com a plateia totalmente entregue, o ator garante os melhores momentos da encenação, fazendo valer a pena estar ali. Aplausos!

Ainda em se tratando das interpretações, é mister falar das excelentes coreografias de Alonso Barros, em especial, a do fim do primeiro ato: o quadro de “Thriller”. Ele sucede um longo momento com ritmo bastante lento, empurrando o público para o intervalo com vontade de voltar e ver o resto da montagem. No todo, Barros colabora muito para a direção de Jorge Fernando e de Diego Morais, esses assistidos por Pedro Rothe.

Problemas do cenário e méritos da direção musical
A cenografia de José Claudio Ferreira repete incessantemente o uso das escadas de modo pouco criativo e que, em sua execução como um todo, mais traz problemas do que ganhos. Os figurinos de Lessa de Lacerda, em resultado um pouco melhor que o cenário, são interessantes, mas também perdem oportunidades caras. Ferreira e Lacerda são nomes técnicos que participaram da versão de “Vamp” para televisão, mas que, diferente de Ohana e de Latorraca, pouco contribuem na releitura. Trata-se do velho erro da Aventura Entretenimento de não perceber que teatro não é o mesmo que a televisão e que, portanto, exige quadros técnicos específicos. Na equipe criativa, assim, a iluminação de Maneco Quinderé fica com muitos problemas. Dito de outro modo, luz, cenário e figurino notoriamente não foram criados dentro de uma mesma proposta e surgem pessimamente articulados no palco.

Ao lado do já citado Alonso Barros, vale destacar com elogios a colaboração de Tony Lucchesi, diretor musical cuja carreira é cada vez mais positivamente reconhecida no cenário do teatro musical brasileiro. Como foi na novela, a trilha sonora de “Vamp – O musical”, tanto em termos das canções já criadas como naquelas originais (em que o compositor Tauã Delmiro colaborou), é excelente. O público se diverte enquanto acompanha a história, valorizando o trabalho dos atores, mas também os músicos que interpretam ao vivo o repertório.

Musical de Telenovela: novo subgênero
“Vamp – O musical”, ao lado de “Estúpido Cupido” recentemente produzido, talvez marque o início de um novo subgênero do teatro musical brasileiro. Depois do biográfico, vem aí o musical de telenovela. Mal de pode esperar por “Que Rei sou Eu?”, por “Perigosas Peruas” e por tantas outras comédias escritas originalmente para TV que também agradariam. 

*

Ficha Artística
Texto – Antonio Calmon
Concepção e Direção Geral – Jorge Fernando
Direção – Diego Morais
Coreografia – Alonso Barros
Direção Musical, Arranjos e Preparação Vocal - Tony Lucchesi
Cenografia – José Claudio Ferreira
Figurino – Lessa de Lacerda
Visagismo – Martin Macias
Desenho de Luz – Maneco Quinderé
Desenho de Som – Carlos Esteves
Produção de Elenco – Marcela Altberg
Assistente de Direção – Pedro Rothe
Assistente de Coreografia – Alan Resende
Orquestração e Assistente de Direção Musical – Alexandre Queiroz
Assistente de Cenário - Daniele Fontes
Figurinista Assistente – Teresa Abreu
Elenco: Ney Latorraca, Claudia Ohana, Evelyn Castro, Claudia Netto, Luciano Andrey, Erika Riba, Pedro Henrique Lopes, Xande Valois, Livia Dabarian, Thadeu Matos, Osvaldo Mil, Gabriella Di Grecco, Oscar Fabião, Mariana Cardoso, Duda Santa Cruz, Daniel Brasil, Rafa Mezadri, Talita Real, Mariana Gallindo, Lana Rodhes, Laura Ávila, Carol Costa, Carol Botelho, Jessica Gardolin, Renan Mattos, Lucas Nunes, Matheus Paiva, Leonardo Senna, Franco Kuster, Murilo Armacollo, Gustavo Della Serra, Marina Mota, Gabriel Querino, Andressa Tristão, Leonardo Rocha

sexta-feira, 24 de março de 2017

Bita e a imaginação que sumiu (RJ)

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Foto: divulgação



Elenco em cena




Delicioso musical traz para palco sucesso entre as crianças

“Bita e a imaginação que sumiu” é a versão para teatro do universo Bita, famoso personagem para crianças lançado em 2011 pela dupla de pernambucanos João Henrique Souza e Chaps Melo ao lado de Enio Porto e de Felipe Almeida. Assinada por Souza, a dramaturgia une algumas histórias já conhecidas pelo público do mercado editorial, da internet e da TV. Com as canções, essas composições originais de Melo, acontece o mesmo. A trilha sonora é cantada ao vivo pelos atores Rodrigo Drade, Bárbara Ferr, Isabela Quadros, Robson Lima, João Manoel, em ótimos trabalhos ao lado de João Velho, esse em excelente atuação. A direção é assinada por Alessandra Colasanti na produção de Bianca de Felippes e de Gabriel Bortolini que fica em cartaz até domingo, dia 26 de março, no Teatro ABEL, em Niterói.

O mundo Bita
A peça começa quando dois habitantes do distante planeta Plot (Rodrigo Drade e Bárbara Ferr) começam a sofrer a falta de imaginação, seu combustível motor. Sem ela, é como se eles vivessem sem oxigênio, correndo o sério risco de deixar de exigir. Por isso, recorrem a Bita (João Velho), o grande sábio intergalático. Para resolver o problema, ele recorre aos seus amigos Lila, Tito e Dan (Isabela Quadros, Robson Lima e João Manoel), um trio de crianças na Terra em quem se pode confiar. Primeiro eles precisam voltar a produzir e a enviar imaginação aos plots. Depois, vão ter que descobrir se há algo bloqueando a comunicação entre os dois planetas. As crianças precisarão se unir.

A direção de Alessandra Colasanti, assistida por Lorena Morais com direção de cena de Lucia Martinusso, abre caminho em cena para que o público, principalmente o infantil, possa participar da peça. Os personagens, em vários momentos, dialogam com as crianças, mantendo-as interessadas na narrativa da qual elas vão tomando ciência e aparentemente gostando. Ao longo do espetáculo, a algazarra comum do apagar das luzes vai dando lugar à participação uníssona, sinal de que a plateia está envolvida. Nos trechos finais, a excitação de quem está curtindo volta a tomar conta e é uma alegria contagiante lembrar de como é bom ser criança e acreditar que é possível, como heróis do cotidiano, mudar o mundo. Os adultos que assistem à peça, se se porem no lugar dos pequenos, poderão levar para casa a sensação desse gostinho de retorno ao olhar infantil do qual nunca é bom se afastar de todo.

Mantendo um ritmo adequado à integração do público de idades bem pequenas até as maiores, a encenação tem o mérito de não fazer do previsível um problema, mas uma espécie de poesia sempre bom de ser recontada. As aventuras de Bita, em sua simplicidade narrativa, vai se parecendo um mito repassável de boca e em boca, e isso, tendo sido valores dos positivos dos trabalhos de criação, de dramaturgia e de direção, chega à audiência do teatro graças aos dos atores.

O enorme carisma de João Velho
Robson Lima (Tito), João Manoel (Dan) e principalmente Isabela Quadros (Lila) apresentam ótimo trabalho de atuação, contribuindo aos méritos do espetáculo sobretudo em termos de canto e de dança. Bárbara Ferr e Rodrigo Drade, na viabilização de diversos personagens menores, vão ainda além por defender um conjunto grande de pequenas figuras com elogiável profissionalismo. O trio, mas principalmente a dupla de intérpretes elevam a qualidade do trabalho como um todo positivamente, valendo destacar o modo como empregam grande repertório de marcas expressivas na construção de uma narrativa cênica que, dentro da proposta, vai muito a contento.

João Velho (Bita), com enorme carisma tantas vezes destacado, aqui recebe contínuos parabéns. Com delicadeza, o ator agrega ao texto uma dose de complexidade que ele talvez não tenha, buscando incluir o público adulto nos conflitos mais profundos das situações dentro dos limites a que o contexto parece ter se proposto. Em outras palavras, a atuação de Velho deixa ver a problemática do personagem título na busca por salvar seu mundo, providenciando de sobra uma melhora na Terra, sempre percebendo a importância do feito e também suas dificuldades.

Um mundo melhor
“Bita e a imaginação que sumiu” se constrói a partir de belos efeitos dados a ver através da direção de arte de Clívia Cohen e da iluminação de Russinho, mas também da direção de movimento de Renato Linhares e da preparação vocal de Pedro Lima. Quase sem fazer uso de tecidos estampados, em preferência a quadros lisos e de cores fortes, o panorama aproxima o palco das versões da narrativa para outros contextos artísticos visuais, como as ilustrações nos livros e os vídeos na internet. A opção se define como voltada ao público de idade mais tenra, interessado nas paletas menos complicadas e mais chamativas. Assim, talvez, permita a mais rápida identificação de quem vá ver a peça já conhecendo os personagens de antes dela.

As canções de Chaps Melo, todas elas composições originais do personagem, divertem as crianças que, já apropriadas dos personagens antes da peça, cantam ao longo do espetáculo. “Bita e a imaginação que sumiu”, por tudo isso, acaba sendo uma festa onde todos se divertem, aprendem e redescobrem o prazer de lutar por um mundo melhor.

*

Ficha técnica:

Texto: João Henrique Souza

Músicas: Chaps Melo

Direção Artística: Alessandra Colasanti

Produtores Associados: Bianca de Felippes e Gabriel Bortolini



Elenco:

Bárbara Ferr

Isabela Quadros

João Manoel

João Velho

Robson Lima

Rodrigo Drade



Direção de Arte: Clívia Cohen

Direção Vocal: Pedro Lima

Direção de Movimento: Renato Linhares

Iluminação: Russinho



Assistente de Direção: Lorena Morais

Visagismo: Auri Alex Mota

Sonoplastia: Roberto Silva

Direção de Cena: Lucia Martinusso

Programação visual: Leonardo Gomez

Produção Executiva: Marcela Epprecht

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Desesperados (RJ)

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Foto: divulgação


Pedroca Monteiro, Marcus Majella e Pablo Sanábio

Deliciosa comédia

“Desesperados” é a nova ótima comédia dirigida por João Fonseca. Escrita por Fernando Ceylão, ela narra as desventuras de Bia e de Marcondes em dias preenchidos por mais de quatro dezenas de outros personagens tão desesperados quanto eles. Marcus Majella, Pablo Sanábio e Pedroca Monteiro, esse último indicado ao Prêmio APTR de Melhor Ator Coadjuvante de 2016, estão no elenco em atuações engraçadíssimas que revelam, além disso, suas vastas variedades expressivas aqui disponíveis. A peça estreou na última sexta-feira, dia 17 de fevereiro, no Teatro Abel, em Niteroi (RJ), e segue para Americana (SP), Manaus (AM) e para outras cidades desse enorme Brasil nas próximas semanas.


Ótimo texto de Fernando Ceylão
São várias histórias paralelas justapostas que, talvez, se encontram de alguma forma na excelência do texto de Fernando Ceylão. Cheia de problemas familiares, a designer Bia (Pablo Sanábio) levou um fora do namorado na mesma época em que foi demitida e agora está inconsolável. Em outra região da cidade, em uma noite, o antigo brigão da escola Marcondes (Marcus Majella) esbarra com Ricardo (Pedroca Monteiro), uma de suas vítimas e por ele se apaixona. Só que Ricardo é hétero e, no momento, está tentando oxigenar seu casamento, obtendo novas fontes de renda. O público acompanha, ao longo da narrativa, as desgraças nas vidas desses personagens e de muitos outros em volta deles.

Com maestria, Ceylão emparelha inúmeras anedotas, permitindo que, aos poucos, o público estabeleça (ou perceba) relações muito sensíveis entre elas. Lá pelas tantas, o emaranhado é tão grande que, no melhor momento da dramaturgia, a narrativa ultrapassa seus limites e invade a linguagem. Quem assistir descobrirá uma “rebelião” do conteúdo sobre a forma, expondo de modo interessantíssimo o quanto esses dois pontos de vista estão misturados.

João Fonseca e os outros méritos da produção
A direção de João Fonseca, contribuindo com a proposta do texto, faz com que o jogo entre os atores na encenação assuma o seu protagonismo no argumento. Os três atores – Sanábio, Majella e Monteiro – dão vida aos mais de quarenta personagens de “Desesperados” por meio de composições corporais e vocais, mas essas são bastante ajudadas por um elemento cenográfico: placas com indicações verbais das figuras interpretadas e dos objetos participantes. Durante o espetáculo, os intérpretes colam (e descolam) no próprio corpo palavras que, em primeiro momento, ajudam o público a compreender a evolução dos quadros, mas depois se tornam o próprio quadro. O ritmo é exuberante em mais uma meritosa direção de Fonseca.

O cenário de Daniel de Jesus cumpre movimento similar às placas na construção do sentido de “Desesperados”. Inúmeras mesas e cadeiras de plástico vermelhas, compondo um fundo e invadindo o palco na composição das cenas, ajudam a destacar os personagens vestidos de preto em panorama essencialmente da mesma cor. Porém, elas dão a ver uma espécie de teia em que os inúmeros personagens estão envolvidos, essa um sistema que, mesmo fora da ficção, é capaz de fazer todos se desesperar. Consequentemente, o cenário assim aponta o heroísmo de quem mantém a sanidade em meio ao caos. A peça tem figurino da Reserva, luz de Daniela Sanchez e trilha sonora de Carol Portes, essa que assina também a assistência de direção. Vale destacar a coreografia de Clara da Costa em uma deliciosa brincadeira dessa peça com o filme “La La Land”.

Os três intérpretes oferecem ótimas atuações, valorizando as intenções, o jogo da comédia, o fluxo cheio de quebras da narrativa e sobretudo o vibrante diálogo com o público. Cheio de carisma, o trio traz a atenção da audiência e a sustenta ao longo de toda a sessão de modo elogiável. Sai-se do teatro, levando para casa seus personagens favoritos e suas piadas preferidas, o que marca o alcance do objetivo com sucesso na defesa de valores estéticos.

Um viva para a boa comédia
Talvez um dos resquícios de nosso longo período de colonização seja o pouco apreço que damos às comédias apesar desse ser nosso gênero preferido na hora de escolher ao que assistir seja no televisão, no cinema ou no teatro. Por que quase nunca as narrativas cômicas são indicadas a prêmios e os intérpretes que mais frequentemente se envolvem com esse tipo de composição são pouco valorizados? Nosso país - tão célebre pelo seu carnaval, capaz até mesmo de fazer piada com suas piores desgraças - deveria “sair do armário” e assumir aquilo que mais espontaneamente leva o nosso aplauso. Vale a pena aplaudir “Desesperados” e se divertir com esse trabalho da Gargalho e da Chaim Produções. Vida longa!

*

FICHA TÉCNICA
Texto e Concepção: Fernando Ceylão
Direção: João Fonseca
Assistente de Direção: Carol Portes

Elenco:
Marcus Majella - Marcondes / Leila / Marcia / Strip / Ladrao / advogado / Dependente 1 / Chefe
Pablo Sanábio - Bia / Advogado / Strip / Amigo / Dependente 3 / TV Divã/ Diretor / Ladrao / Mente de Ricardo / Garçons / Uber
Pedroca Monteiro - Ricardo / Monica / Marcondes ideal / Amigo / Crispim / Daniel / Renato / Polícia / Manicure / Cabeleireiro

Cenário: Daniel de Jesus
Trilha Sonora: Carol Portes
Figurino: Reserva
Iluminação: Daniela Sanchez
Coreógrafa: Clara da Costa
Música da Bia: Tony Lucchesi
Operador de luz: Rayner Basilio
Operador de Luz e Contrarregra: Tallys Moreno
Produção Executiva: Arthur Monteiro
Produção Geral: Sandro Chaim
Idealização: Marcus Majella e Pablo Sanábio
Realização: Gargalho Produções e Chaim Produções