domingo, 7 de janeiro de 2018

Bibi, uma vida em musical (RJ)

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Foto: Gulga Melgar


Amanda Acosta no centro


Com enorme sucesso, estreia o mais esperado espetáculo da temporada carioca!

“Bibi, uma vida em musical” estreou para o público no último dia 5 de janeiro, trazendo uma belíssima homenagem à maior estrela viva do teatro brasileiro: a atriz e cantora Bibi Ferreira. Dirigidos por Tadeu Aguiar, um grupo de dezenove atores, mais músicos e outra enorme equipe técnica, apresenta aqui um show para ficar na memória. Em cena, veem-se nomes e partes relevantes da história recente do teatro nacional através de números interpretados por belíssimos músicos e bailarinos. Devem-se destacar Chris Penna, como Procópio Ferreira; e Léo Bahia, como o Narrador; mas principalmente Amanda Acosta, a personagem título, que brilha agora como jamais brilhou nem quando arrebatou o Brasil em sua célebre versão de Eliza Doolitlle, em 2007. Os figurinos de Ney Madeira e de Dani Vidal, o cenário de Natália Lama, mas principalmente as músicas originais de Thereza Tinoco e a direção musical de Tony Lucchesi são outros aspectos que alçam esse grande espetáculo para uma das melhores produções do verão carioca (e quiçá do ano). É correr para aplaudir varias vezes a montagem que fica em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, até 1o de abril de 2018.

Velhos problemas de musicais biográficos
“Bibi, uma vida em musical”, do ponto de vista do texto, está inteiramente apoiado no mérito da personagem a qual a peça se refere, no talento dos atores e na ordem do espetáculo, oferecendo muito pouco além de desafios para a produção. A dramaturgia de Luanna Guimarães e de Arthur Xexéu esbarra em um velho problema já muito conhecido nos musicais biográficos: a monótona curva cronológica. Sabendo que (lindamente!) Bibi Ferreira está viva em 2018, quando a narrativa chega a 1950, o público imediatamente calcula que faltam 68 anos de história para a peça terminar. Ou seja, a sensação da passagem do tempo na narrativa fica aparentemente mais lenta, pesada, pois não há surpresas. Dezenas de vezes, muita gente já apontou o mesmo defeito nas várias produções do gênero, mas os dramaturgos seguem teimosos. Simplesmente dispor as cenas de acordo com o ano do acontecimento dos fatos a serem retratados é terrível para o ritmo. Os quadros precisam de melhor articulação entre que si que o simples envelhecer da figura homenageada. 

De modo bastante empobrecido, Guimarães e Xexéu apresentam a história por meio de três narradores: um apresentador de circo (Léo Bahia), uma cigana (Flavia Santana) e uma velha (Rosana Penna). Dizendo-se avó de Bibi Ferreira, essa última é a única que tem uma ligação teórica com a protagonista. Na prática, nenhum dos três tem qualquer envolvimento com a personagem, jamais aparecendo com ela ao longo de toda a narrativa. A admiração pura e simples é a única motivação deles em contar a história a que assistimos. E isso é muito pouco.

Todos os personagens, incluindo a própria Bibi, são desprovidos de conflito, isto é, ninguém na peça sofre alguma modificação interna ao longo de sua extensão. A fama vem para a protagonista como que mais por obra do destino que lhe deu enorme talento e uma família adequada para o florescer da sua carreira do que por seus méritos próprios. As demais figuras todas são meramente ilustrativas, funcionando apenas como ferramentas de um discurso superficial: são pontes utilizadas para a história de Bibi ser narrada.

Amanda Acosta brilha entre excelente conjunto de atores
Felizmente, há outros elementos em “Bibi, uma vida em musical” que, diferente da dramaturgia, estão bastante bem desenvolvidos e garantem o sucesso do espetáculo. Na transformação do material dramatúrgico em obra cênica, é visível a qualidade do elenco dirigido por Tadeu Aguiar. Léo Bahia (o apresentador de circo), Flavia Santana (a cigana) e Rosana Acosta (a avó), com superior destaque para o primeiro, dão vida digna para os diálogos, criando situações por meio de suas expressividades que renovam as frases com sentidos muito interessantes. Bahia, de maneira muito inteligente, dá uma riquíssima oportunidade ao seu personagem de se autocriticar, o que confere à sua figura um caráter complexo dentro do possível. Aliado à sua bela e potente voz, e à sua dicção perfeita, esse recurso garante bons momentos nas cenas difíceis dos narradores.

Simone Centurione, que interpreta Aida Izquierdo, oferece uma abordagem íntegra à mãe de Bibi: com força, com emoção, com poder de influência sobre a filha. Talvez inicialmente condenada à posição secundária na narrativa, devido à sua proximidade a Procópio Ferreira e a personagem título, é da atriz o mérito pelo enorme brilho de sua personagem sobretudo no primeiro ato.

Simone Centurione, Amanda Acosta
e Chris Penna

No melhor papel de sua carreira, Chris Penna apresenta uma das mais vibrantes interpretações em musicais na temporada. Exibindo uma técnica bastante apurada, o ator reconstrói com precisão o modo de falar comum entre os atores (e locutores) brasileiros da era pré-televisão na viabilização de Procópio Ferreira, o pai de Bibi. As consoantes são muito marcadas, o ritmo é rápido, as vogais deslizam pelo céu da boca e se abrem em ondas ao longo das frases. Além disso, em sua intepretação, há todo um gestual fleumático bem como um excelente uso das intenções que reproduzem, em “Bibi, uma vida em musical”, o renomado carisma desse que foi um dos maiores atores da história do nosso país. (A vida de Procópio Ferreira também valeria um musical!)

Por mais que colaborem positivamente quaisquer elementos desse grande espetáculo, nada é comparável com o que traz a ele Amanda Acosta. Ela interpreta Bibi Ferreira ao longo de toda a apresentação, vencendo com galhardia um desafio que seria enorme na carreira de qualquer atriz brasileira. Em primeiro lugar, como dar vida a uma artista que está bem viva e muito atuante como a que se refere aqui? Depois, o que fazer quando se trata de uma das maiores intérpretes do mundo, um fenômeno da natureza, um exemplo de profissional, um monumento histórico vivo da nossa cultura? Já haveria méritos suficientes na coragem de Acosta de aceitar o convite, mas há muitos outros ainda maiores em realizá-lo.

De início, vale elogiar a maneira como Amanda Acosta se apropriou da fala, dos gestos, das expressões que Bibi dirige ao mundo em público. A cabeça baixa em 15 graus, dentes quase nunca à mostra, ombros abertos, voz clara e empostada, dicção perfeita. Há ainda, porém, que se dar vivas à alegria através da qual a homenageada também surge no palco: uma menina faceira, capaz de derreter corações incautos e responsável pelo vasto sucesso de uma carreira incrivelmente longeva; uma mulher forte, discreta e poderosa. Todas essas facetas, e outras mais, vai o espectador encontrar em Amanda Acosta em sua recriação de Bibi Ferreira. Longe de haver uma mera imitação, há aqui um íntegro trabalho de consciência corporal que faz o teatro poder ser orgulhar de ser o que é. Por fim, Amanda Acosta, além de grande atriz, é também excelente cantora e bailarina: uma estrela que, em “Bibi, uma vida em musical”, é capaz de estar em meio à luz de muitos aspectos positivos, mas ainda assim se ressaltar elogiosamente. Desde Laila Garin, em “Elis, a musical”, não se via algo assim no Rio de Janeiro.

No total, a produção conta com dezenove atores no elenco. Sobre todos aqueles que desempenham figuras menores nessa narrativa, vale considerar, antes de qualquer coisa, a seriedade do diretor Tadeu Aguiar, do coordenador de produção Eduardo Bakr e na produtora geral Cláudia Negri na escalação do grupo. “Bibi, uma vida em musical” é inteiramente defendido por atores-cantores de primeira qualidade. Não há ninguém participando do elenco porque é famoso na televisão, porque tem “perfil de captação de público”, nem por qualquer outra justificativa cafona do tipo. O público estará diante de profissionais altamente qualificados, com sólidas carreiras já elogiadas nos palcos e, melhor ainda, em contínua formação. Vale citar Guilherme Logullo, Fernanda Gabriela, Leandro Melo, Analu Pimenta e Carlos Darzé apenas para trazer alguns nomes presentes. Os dezenove estão de parabéns!

Um show de boa música
Entre os demais elementos que compõem a estrutura espetacular, a trilha sonora é obviamente uma parte muito relevante sobretudo porque esse se trata de um musical. O que, de modo mais positivo se pode destacar, é a maneira como a banda sonora está articulada entre si e com os demais elementos. Ela pode ser dividida em dois momentos que, ao longo do espetáculo, se alternam: a música original e as canções de repertório. “Bibi, uma vida em musical” apresenta belas composições originais de Thereza Tinoco. A que abre e fecha a sessão, por exemplo, defende de maneira eficaz a concepção geral de todo o trabalho. O espetáculo homenageia uma grande atriz de quase 96 anos de idade que está viva e que cuja carreira não terminou. “O circo não pode parar” resume, assim, os votos de que Bibi Ferreira permaneça com saúde e também alargando sua biografia para a nossa graça.

A outra parte é composta por canções que se mantiveram vivas na carreira da protagonista. É impossível não pensar em Bibi Ferreira e não lembrar de “My fair lady”, de “Alô, Dolly!”, de “Brasil: profissão esperança”, de “Homem de La Mancha”, de “Gota d`água”, de Piaf e de Frank Sinatra pelo menos. Tony Lucchesi, que assina a direção musical e os arranjos, viabiliza uma bela união entre todo esse repertório e as canções originais com positiva unidade. Há, porém, duas questões que impedem o ótimo ritmo de chegar ao topo: as recorrências de introduções e de apoteóses em todas os números. Pela primeira, se entende que, toda vez que um personagem fica sozinho em cena e um acorde se dá a ouvir, haverá um solo. Pela segunda, se compreende que todos os quadros musicais terminarão com um grande agudo no final. A repetição insistente desses dois movimentos no texto espetacular enrijece o todo, prejudicando-lhe a velocidade.

Ainda no quesito música, dois pontos merecem atenção. Sueli Guerra, ao assinar as coreografias, colabora bastante bem com a construção de um espetáculo alegre, jovial, glorioso. Os quadros preenchem o palco, dominam as cenas e enchem os olhos do público como deve acontecer em musicais de grande porte. Por fim, o desenho de som de Gabriel D’Ângelo, equalizando as vozes dos atores e os diversos instrumentos e recursos sonoros-musicais sobre os quais se apoia o espetáculo, vence todos os desafios e valoriza o trabalho como um todo. 

São destaques os belíssimos figurinos de Ney Madeira e de Dani Vidal
“Bibi, uma vida em musical” oferece ainda ao seu público a glória de um belíssimo guarda-roupa e o êxtase de um conjunto de cenários que demostram o quanto os produtores valorizam o projeto e também a audiência dele. Os figurinos de Ney Madeira e de Dani Vidal são um acontecimento raro no teatro carioca. Talvez tenha-se visto algo similar em “60! Década de arroma – Doc. Musical”, mas, de um modo geral, no Rio de Janeiro, são poucos os tão largos investimentos nesse item. A cada nova cena, há uma mudança radical no vestuário de modo que cada quadro enche os olhos de uma visualidade impactante. Podem-se destacar os figurinos usados no medley de “My fair lady”, que encerra o primeiro ato; e no medley de “Alo, Dolly!”, que dá início ao segundo. Tudo bem cortado, com cores articuladas ao conjunto, sólidas referencias à história: é um figurino exuberante. Desse, não se pode apartar a colaboração do visagismo de Ulysses Rabelo na composição dos personagens: (as perucas, suas maquiagens, a aparência facial das figuras). Um belíssimo trabalho de direção de arte.

O cenário de Natália Lana não perde em nada para os demais elementos, mas ganha ainda mais força quando há a melhor colaboração do desenho de luz de Rogério Wiltgen. Quando esses dois conjuntos estéticos parecem estar bem entrosados, o resultado fica ainda mais vibrante. Vale destacar positivamente as cenas de fundo do palco sob praticáveis, em que a imagem de claro e escuro serve como um ponto significativo para a narrativa também. No primeiro ato, quando há maiores entradas e saídas de grandes (e belos!) cenários, a luz abdica de suas potencialidades em alguns momentos, deixando a obra negativamente isolada. Esses pontos, certamente, hão de melhorar com a continuidade da longa temporada.

Viva, Bibis!
Negri e Tinoco Produções Artísticas, através de Tadeu Aguiar, de Eduardo Bakr e de Cláudia Negri, dão um presente para o público brasileiro contando a vida de Bibi Ferreira. Homenagens a ela nunca serão demais, mas, considerando que a própria ainda está viva e atuante, essa é ainda mais especial. Trata-se de uma bela vida que está conosco, que vive, respira, luta como nós e que tem tanto a nos ensinar. E que agora ganha o seu duplo: Bibi permanece linda em Amanda Acosta. Se assistir aos espetáculos da própria Bibi Ferreira ainda em cartaz é obrigação, aplaudir “Bibi, uma vida em musical” é um prêmio. Celebremos a vida e aproveitemos essa oportunidade! Viva, Bibis!

*

FICHA TÉCNICA – “BIBI, uma vida em musical”
Texto Artur Xexéo e Luanna Guimarães
Música original Thereza Tinoco
Direção musical e arranjos Tony Lucchesi
Direção Tadeu Aguiar
Coreografia Sueli Guerra
Cenário Natalia Lana
Figurino Ney Madeira e Dani Vidal
Desenho de luz Rogerio Wiltgen
Desenho de som Gabriel D’Ângelo
Visagista Ulysses Rabelo
Assistência de direção Flavia Rinaldi
Assistência de coreografia Olivia Vivone
Assistência de direção musical Alexandre Queiroz
Assistência de iluminação Wagner Azevedo
Coordenação de produção Eduardo Bakr
Produção geral Cláudia Negri
Realização Negri e Tinoco Produções Artísticas

Elenco [ordem alfabética]
Amanda Acosta
Analu Pimenta
André Luiz Odin 
Bel Lima
Caio Giovani
Carlos Darzé
Chris Penna
Fernanda Gabriela
Flavia Santana
Guilherme Logullo
João Telles
Julie Duarte
Leandro Melo
Leo Bahia
Leonam Moraes
Luísa Vianna
Moira Osório
Rosana Penna
Simone Centurione

terça-feira, 19 de dezembro de 2017

Se meu apartamento falasse (RJ)

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Foto: divulgação


Marcos Pasquim, Malu Rodrigues e Marcelo Medici

Musical para dormir

O musical “Se meu apartamento falasse” é a primeira bomba da dupla Charles Moeller e Cláudio Botelho desde muito tempo. A peça, baseada em um premiado filme de Billy Wilder, por vários motivos, não se conecta com a contemporaneidade e depende demais do carisma do elenco sobretudo no Brasil, que praticamente desconhece as canções e a obra original. Ainda que a produção se esmere – como sempre – em oferecer um resultado estético de alta qualidade, a dificuldade do alcance dos objetivos parece cada vez mais inviável ao longo da sessão. Com música de Burt Bacharah, a montagem é protagonizada por Marcelo Medici, Malu Rodrigues e por Marcos Pasquim. No entanto, é Maria Clara Gueiros, em pequeníssima aparição, a única a realmente apresentar bom trabalho. Tendo estreado no último final de semana no Teatro Bradesco, na Barra da Tijuca, o espetáculo deverá ficar em cartaz ao longo de todo o verão.

O mofo da dramaturgia
O filme “The apartment”, em que o musical “Se meu apartamento falasse” se baseia, foi a produção de maior sucesso do ano de 1960-1961, concorrendo unicamente com os épicos religiosos “Ben-Hur” e “Spartacus” e com o suspense “Psicose”. Trata-se de uma comédia romântica dirigida por Billy Wilder, que no ano anterior havia lançado “Quanto mais quente melhor”, e protagonizada por Jack Lemon e por Shirley MacLaine. Todo o sucesso da história se pautava em uma tese de liberdade sexual que, na época, ganhava coro: jovens executivos (casados) de uma seguradora e garçonetes da cafeteria da mesma empresa tinham encontros íntimos no apartamento de um funcionário menor. Eis, porém, que Chuck Baxter se vê apaixonado pela amante do diretor e precisa escolher entre o sucesso na vida profissional ou na vida afetiva. Tendo estreado em 15 de junho de 1960, o filme concorreu ao Oscar do ano seguinte e recebeu nada menos que dez indicações e cinco estatuetas, incluindo Melhor direção, Melhor roteiro e Melhor filme.

A versão para musical chamada “Promises, promises” estreou em dezembro de 1968. Com roteiro de Neil Simon (que tinha assinado “Sweet Charity”) e músicas de Burt Bacharah, ela ficou mais de três anos em cartaz na Broadway e conseguiu sete indicações ao Tony e as estatuetas de Melhor ator a Jerry Orbach, que interpretava Chuck Baxter; e a de Melhor atriz coadjuvante a Mariah Murcer, que dava vida à Marge Macdougall (o papel que Maria Clara Gueiros agora tem no teatro). Em 2010, uma nova produção foi lançada com Sean Hayes e Kristin Chenoweth nos papeis principais. A temporada dela foi de sete meses e ganhou quatro indicações ao Tony, incluindo as estátuas de Melhor ator para Hayes e a de Melhor atriz coadjuvante para Katie Finneran, essa no papel de Marge. Com coreografias exultantes de Rob Ashford, a montagem acrescentava às músicas conhecidas do repertório americano um frescor juvenil que auxiliava a esconder o mofo da dramaturgia. Infelizmente, não se pode dizer que aconteceu o mesmo com a versão brasileira do texto.

Considerando os sucessos obtidos nas versões fílmica e da Broadway, talvez seja injusto responsabilizar unicamente a dramaturgia pelo insucesso da versão brasileira que aqui se analisa. No entanto, ao assistir ao espetáculo mantendo os olhos na pauta pública das discussões contemporâneas, facilmente se identificará a desconexão entre “Se meu apartamento falasse” e o hoje em nossa cidade. O tema de um grupo de altos executivos de uma seguradora – homens brancos e bem-sucedidos – felizes (e depois indignados) por causa de um apartamento de um contador aonde podem levar suas amantes já prenuncia que se trata de uma história de época. Isso não seria um problema se não resultasse na alegria de que esse tempo já passou. Mulheres em posições inferiores, enganadas orgulhosamente por seus machos (que não abandonam suas esposas) até uma protagonista que tenta o suicídio por causa disso podem ter sido um ótimo mote para uma comédia sobre as loucuras e o esplendor da juventude, mas hoje em dia é, na melhor das hipóteses, esquisita. Por mais que se torça pela vitória do personagem principal, essa posição não impede um ponto de vista sobre o todo ao qual ele está vinculado. E aí seria preciso que todos os outros signos que acompanham o texto na viabilização do espetáculo tivessem outra importância na defesa da obra. Aqui eles ajudam a prejudicá-la.

Problemas da encenação
Em termos da encenação assinada por Charles Möeller e por Claudio Botelho, “Se meu apartamento” se escreve em cena sem contrabalancear os problemas da dramaturgia. A montagem brasileira parte de escolhas de elenco pouco contributivas, apresenta uma concepção de cenário difícil e não traz nenhuma coreografia relevante. Em resumo, é um musical para dormir quando não para se irritar.

Se os oito atores que participam da produção são considerados bons comediantes, nenhum deles carrega midiaticamente o estigma de símbolo sexual, o que poderia auxiliar na construção do sentido do todo como uma comédia juvenil (Pasquim sustentou o título nos anos 90). O exato oposto, porém, se pode dizer do elenco feminino, o que desequilibra o discurso cênico vertiginosamente. Se as letras são a materialidade da literatura, o teatro se imprime na aparência dos atores. E, longe de aqui fazer considerações sobre a beleza dos intérpretes (o que é realmente muito relativo e, por isso, nada importante), quer-se analisar o modo como suas figuras participam da construção do todo. Há em geral um esforço na piada que, se ocorre, não deixa de revelar uma gama enorme de preconceitos.

O modo como a orquestra aparece ao longo de toda a encenação, fazendo parte de um cenário de época de Rogério Falcão, ajuda a pesar a peça, fazendo-a parecer muito clássica e quase nada coerente com as aventuras sexuais da dramaturgia. Vale lembrar que, nos anos 60, o público do filme de Billy Wilder e da primeira montagem de “Promises, promises” vestia essencialmente o mesmo guarda-roupa dos personagens e tinha em suas casas um mobiliário com a mesma estética da do palco. Toda a produção é tão elegante e bem cuidada como sempre é. E valem os elogios ao figurino de Marcelo Marques e à iluminação de Paulo Cesar Medeiros pela valorização visual de todo o contexto. A falta de sujeira, porém, nem leva para a magia, nem debocha da realidade.

Ainda observando a encenação, “Se meu apartamento falasse” muito bem poderia ser comparado a “Como vencer na vida sem fazer força”, que a dupla Möeller e Botelho dirigiu em 2013 e que, na Broadway, sucedeu “Promises, promises” no currículo do coreógrafo Rob Ashford. O que distancia ambos é o sexo: todo o calor de “Como vencer” era lucro para aquela narrativa fria, mas aqui, tem-se a exata contrapartida. Às coreografias de Alonso Barros e à direção musical de Marcelo Castro falta um ritmo que, sendo metáfora para o desejo dos personagens, substituiria a monotonia que sobre nessa cena.

Maria Clara Gueiros
Méritos do elenco coadjuvante, desméritos dos protagonistas
Sobre o trabalho do elenco, não há muitos aspectos positivos para serem mencionados, embora negativos tampouco. Maria Clara Gueiros (Marge Macdougall) e André Dias (Dr. Dreyfuss) exploram seus pequenos personagens em um visível esforço para torná-los marcantes através de construções bem farsescas e têm sucesso nesse intento. Patrick Amstalden (Karl Kubelik) e Julie (Enfermeira Kreplinski), com oportunidades ainda menores, também têm sucesso dentro das possibilidades que lhe a princípio lhe apareceram. Antônio Fragoso, Fernando Caruso, Renato Rabelo e Ruben Gabira apresentam uma abordagem cômica para a qual aparentemente foram escalados com resultados até surpreendentes dentro dos desafios da proposta e Marcos Pasquim, na figura de vilão, atinge mérito similar. No entanto, todos esses têm aparições pouco influentes na dramaturgia e suas contribuições, assim, mudam o quadro muito sutilmente.

São nos protagonistas Malu Rodrigues (Fran Kubelick) e Marcelo Medici (Chuck Baxter) que se encontram os maiores problemas. Não há drama em qualquer um deles, mas, ao contrário, uma linha reta sobre a qual nada além das palavras se vê. Comendo os fins das frases musicais e inexplicavelmente substituindo, apesar de sua belíssima voz, o canto pela prosódia na defesa das canções, em Rodrigues nesse espetáculo, não se vê curva dramática, mas as mesmas reações na dor e na alegria, na excitação e na sonolência. Pior do que isso, em Medici, não se encontra a única questão realmente relevante na dramaturgia: ou investir no sucesso profissional ajudando seu chefe ou no sucesso afetivo na conquista pela amada. Em lugar disso, desde sempre, o público já sabe qual é a decisão de seu Baxter, o que previne o espetáculo de algum maior interesse da audiência. A interpretação da canção final, que dá título para o todo, surge na estreia com desafinos brutais.

Burt Bacharah
Burt Bacharah, compositor americano de grande renome, já foi tema de espetáculo de Charles Möeller e de Claudio Botelho, há quinze anos, em produção chamada “Cristal Bacharah”. A obra do músico, da qual fazem parte canções como “I say a little prayer”, “A house is not a home”, “Raindrops keep fallin’ on my head”, merece ser revisitada. Aqui vale rir com Maria Clara Gueiros em sua cena mais aparentemente minúscula do que de fato seja.

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Ficha técnica:

‘SE MEU APARTAMENTO FALASSE ...’

Um espetáculo de CHARLES MÖELLER & CLAUDIO BOTELHO

Texto de NEIL SIMON
Baseado no roteiro do filme THE APARTMENT de BILLY WILDER e I.A.L. DIAMOND - vencedor do oscar de melhor filme de 1961

Musica de BURT BACHARACH

Letras de HAL DAVID
Produzido originalmente da Broadway por DAVID MERRICK

Com MARCELO MEDICI, MALU RODRIGUES, MARCOS PASQUIM, MARIA CLARA GUEIROS, FERNANDO CARUSO, ANDRÉ DIAS, ANTONIO FRAGOSO, RENATO RABELO, RUBEN GABIRA, PATRICK AMSTALDEN, KAREN JUNQUEIRA, JULLIE, CARU TRUZZI, LOLA FANUCCHI,PATRICIA ATHAYDE, DUDA RAMOS, MARIANNA ALEXANDRE, MAYRA VERAS e YASMIN LIMA.

CHARLES MÖELLER
Direção

CLAUDIO BOTELHO
Versão Brasileira

MARCELO CASTRO
Direção Musical, Arranjos Adicionais e Regência

ALONSO BARROS
Coreografia

CHARLES MÖELLER
Direção de Movimento

ROGÉRIO FALCÃO
Cenário

MARCELO MARQUES
Figurinos

ADEMIR MORAES JR.
Design de Som

PAULO CESAR MEDEIROS
Iluminação

BETO CARRAMANHOS
Visagismo

TINA SALLES
Coordenação Artística

CARLA REIS
Produção Executiva

Patrocinio: Elevadores Atlas Schindler

Apoio Cultural: Hilton Barra Rio de Janeiro

Realização: M&B e OPUS PROMOÇÕES

O Jornal – The Rolling Stone (RJ)

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Foto: divulgação


Marcos Guian e Danilo Ferreira

Uma peça essencial

A excelente “O Jornal – The Rolling Stone” é a mais nova peça com a assinatura Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas em cartaz no Rio de Janeiro. Com texto do jovem inglês Chris Urch, ela narra uma dolorosa história de amor entre dois jovens condenados por serem homossexuais em uma sociedade conservadora. O drama, que de modo brilhante oferece pauta para discussões sobre preconceito racial, fundamentalismo religioso, colonialismo e machismo, está situado na contemporaneidade e tem seu lugar em Uganda, no centro leste africano. Trata-se de uma abordagem comovente que, para além dos seus méritos sociais, vale a pena de ser vista pelo brilhantismo da direção, das interpretações e do modo como se articulam todos os seus outros aspectos. É uma dos melhores espetáculos teatrais de 2017 na capital fluminense, ficando em cartaz até o fim do próximo mês de fevereiro no Teatro Poeira, em Botafogo.

Uma história que precisa ser contada
Em uma pequena comunidade religiosa anglicana, os irmãos Joe, Dembe e Wummie começam a reorganizar suas vidas depois do recente falecimento de seu pai, que lhes deixou uma vida financeira apertada. O quadro tem chances de melhorar a partir da influência política de Mama, uma vizinha do trio, que é tida como uma das pessoas mais respeitadas na congregação local. É graças a ela que Joe, o mais velho, ascende ao posto de Pastor. Ela acredita que a juventude de Joe, em meio a experiência de líderes religiosos de idade muito avançada, poderá representar arma eficaz contra as transgressões morais das novas gerações. Nessa luta ultraconservadora de valores considerados “santos”, um pequeno jornal comunitário passa a publicar nomes e fotos de pessoas que devem ser castigadas por seus atos "antibíblicos". Entre os condenados, está um amigo de infância de Dembe, que acaba sendo morto por seus vizinhos pelo exercício de sua homossexualidade.

Se assusta Dembe, a morte horrível de um amigo de infância não o impede de, em segredo, manter encontros íntimos com Sam, um jovem médico nascido na Irlanda do Norte, mas cuja mãe é ugandesa como o namorado. A princípio, nem um nem outro percebem a seriedade do contexto, mas pouco a pouco os atos cada vez mais violentos em prol de uma “limpeza religiosa” parecem se tornar gradativamente mais aceitos na comunidade e, por isso, mais perigosos para o casal. A Sam e principalmente a Dembe, caberão enfrentar os desafios juntos ou separados.

A dramaturgia ficcional de “O Jornal – The Rolling Stone” (“The Rolling Stone”) se refere a um pequeno jornal de uma localidade de Kampala, a capital de Uganda, que funcionou entre agosto e novembro de 2010. A publicação, assinada por três jovens universitários da Universidade Federal de Makerere, publicou nomes e fotos de centenas de homossexuais, exortando para que fossem linchados em uma ode ao preconceito. No país, onde praticamente nem luz elétrica tem, a prática da homossexualidade é considerada criminosa, estando o homossexual sujeito à prisão perpétua se for pego em flagrante a partir de lei federal de 2014. (Antes, estava-se sujeito à pena de morte.) O ativista David Kato (1964-2011) foi uma das cem pessoas listadas em outubro de 2010 pelo “The Rolling Stone”. Não há exatamente ligação direta entre a denúncia e o assassinato, e explora-se o fato de que o assassino Sidney Nsubuga Enoch, hoje condenado a trabalhos forçados, era um garoto de programa que não foi pago pela prestação de serviços sexuais. No entanto, desde o ponto de vista do Brasil, sabemos que homofobia e fundamentalismo religioso são males que andam de mão dadas, sim.

A bíblia, uma coleção de livros milenares que reúne quase a maior parte da humanidade em torno de um conjunto de valores culturais, foi durante muito tempo e ainda é em alguns países o único padrão legal para as normas civis. Uganda é um exemplo desses países. No livro, em toda a sua enorme extensão, há apenas três versículos diretamente relacionados à prática da homossexualidade. No Antigo Testamento (seguido por judeus, muçulmanos e cristãos), em Levítico (Lv 18,22), consta que é abominável um homem deitar-se com outro como se fosse mulher. No Novo Testamento (seguido somente pelos cristãos), na carta de São Paulo aos Romanos (Rm 1, 26-27), em uma lista de sinais de que o homem mergulhou na escuridão contra Deus, o autor cita entre eles o abandono do homem “do uso natural” da mulher, apaixonando-se por outro homem e fazendo entre si “coisas vergonhosas”. E, na primeira carta do mesmo São Paulo aos Coríntios (1Cor 6, 9-10), entre uma lista de pessoas que não herdarão o Reino de Deus, consta os efeminados. Deixando de lado todas as inúmeras questões da ordem da tradução de um livro que se arrastou copiado a mão por entre quatorze e dezessete séculos até ser impresso pela primeira vez, e, a partir daí, traduzido novamente outras incontáveis vezes para idiomas muito diferentes ao redor do mundo; e, deixando de lado também que apenas três versículos, em um universo de aproximadamente trinta e cinco mil, significa nada, pode-se dizer que a relação entre fundamentalismo religioso e homofobia é, pelo menos, ignorância. Nada aparece sobre o tema em nenhum dos quatro livros do Evangelho e, de maneira muito mais contundente, aparecem prescrições contra o adultério, o assassinato, a avareza ou a falta de fé, por exemplo. Certo, pois, é o fato de que o estímulo ao regramento sexual, na valorização do comportamento heteronormativo, antes de estar baseado em uma defesa da moral bíblica, tem a ver com jogo político. Menos numerosamente voltados à constituição de família, não-heterossexuais fazem da liberdade uma poderosa arma em benefício do próprio sucesso intelectual e financeiro. E é desse sucesso que todos os homofóbicos têm medo: não tem nada a ver com a salvação.

O elenco em cena

“O Jornal – The Rolling Stone”, belíssima tradução de Diego Teza para a nona obra dramatúrgica do jovem Chris Urch, é uma das primeiras montagens internacionais do texto. Os aspectos estéticos da dramaturgia revelam excelente ritmo e elogiável cuidado com as palavras além de uma destacável construção de personagens e desenho da narrativa. Comparado no mundo ao clássico “As bruxas de Salém”, do americano Arthur Miller (1915-2005), mas também fácil de ser associado a “O santo inquérito”, do brasileiro Dias Gomes (1922-1999), eis aqui uma história que precisa ser contada.

No todo e em cada parte, grandes trabalhos de direção e de interpretação
A direção compartilhada de Kiko Mascarenhas e de Lázaro Ramos, com assistência de Ana Luiza Folly, tem o mérito de instaurar na abordagem um quê de artístico que nutre o drama positivamente. A musicalidade das palavras, o movimento dos atores no espaço, o modo como as cenas estão articuladas, o figurino e a trilha sonora, entre outros elementos em conjunto, inauguram uma atmosfera mítica. O Brasil pouco conhece da África como um todo e sabe menos ainda de Uganda em específico. E Mascarenhas e Lázaro não fazem desse desconhecimento um entrave para a fruição da peça, mas parecem associar na encenação o particular e o universal, fazendo das questões locais metáfora para uma triste narrativa que poderia acontecer (e acontece) em qualquer lugar do mundo. De modo positivo, eles aproveitam para tematizar o preconceito não como uma característica de um terminado tempo ou grupo social, mas como uma mazela que precisa ser erradicada esteja onde estiver.

A história, porém, não é ainda marcada em cena apenas por esse tipo de investimento estético. “O Jornal – The Rolling Stone” permanece fazendo conexão com a verdade além da cena pelo modo como os atores se relacionam com o público. Há olhares diretos, há aproximações físicas e todo um conjunto de silêncios por meio dos quais as catarses conseguem se realizar. Todos os intérpretes mobilizam um conjunto de qualidades artísticas que aproximam seus corpos discursivos da realidade: não se trata de uma tragédia (força contra o qual não poderá o homem lutar), mas de um drama (realidade que precisa ser alterada).

Todo o elenco apresenta excelente trabalho mesmo individualmente. Danilo Ferreira (Dembe), Indira Nascimento (Wummie) e André Luiz Miranda (Joe) dão vida a um trio de irmãos tão próximos no discurso, como também nas expressões, nos movimentos dos corpos, nas intensidades das emoções. Heloisa Jorge (Mama) no falar é tão sonora quanto silenciosa é Marcela Gobatti (Naome), sua filha, ambas explodindo nos medos que as atemoriza nos quadros onde aparecem suas personagens. Marcos Guian (Sam), trazendo uma dose de leveza inicial, é a única figura estrangeira do coletivo, essa que acaba submersa no desenrolar da trama, o que é justamente a parte mais importante da história. Os seis intérpretes têm pouca experiência em teatro, mas isso só se descobre lendo sobre eles além da narrativa. Quem os vê no palco alcança apenas felizes méritos aos quais se deve aplaudir.

Uma peça que precisa ser vista
“O Jornal – The Rolling Stone” é, além de tudo, uma peça que vale a pena ser vista pelo preciosismo na contribuição dos demais elementos estéticos. O desenho de luz de Paulo Cesar Medeiros recorta os personagens no espaço, criando quadros de íntima beleza no oferecimento de pontos de vista tocantes. Os figurinos de Tereza Nabuco colaboram com essa composição, explorando desde os níveis mais superficiais da África Mítica até elementos de uma cultura mais urbana e globalizada. A trilha sonora de Wladimir Pinheiro age no mesmo sentido, começando pelo hino nacional da África do Sul, que é também uma canção-tema para o continente em geral, até ir a melodias mais originais e igualmente belas.

Por causa do tema, mas sobretudo pelo modo como o debate se estabelece no campo estético, “O Jornal – The Rolling Stone” merece lugar de destaque na programação teatral desde fim de primavera e início de verão. Aplausos!

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Ficha Técnica
Texto de Chris Urch
Tradução de Diego Teza
Direção de Kiko Mascarenhas
Codireção de Lázaro Ramos
Com André Luiz Miranda (Joe), Danilo Ferreira (Dembe), Heloísa Jorge (Mama), Indira Nascimento (Wummie), Marcella Gobatti (Naome) e Marcos Guian (Sam)
Assistência de Direção de Ana Luiza Folly
Direção de Movimento de José Carlos Arandiba (Zebrinha)
Preparação Vocal de Edi Montecci
Realização e Produtores Associados Lázaro Ramos e Kiko Mascarenhas
Produção KM ProCult e BR Produtora
Direção de Produção Viviane Procópio e Radamés Bruno
Produção Executiva e Administração Viviane Procópio
Assistência de Administração Jandy Vieira
Equipe de Produção Igor Dib, Milena Garcia e Diego Teza
Iluminação Paulo César Medeiros
Assistência de Iluminação Júlio Medeiros | Montagem de Luz Boy Jorge, Luíza Ventura, Fabiano Gomes, Vilmar Ollos eRodrigo Emanuel
Operação de Luz Walace Furtado
Trilha Sonora Original Wladimir Pinheiro
Operação de Som Marcito Vianna
Estúdio de Gravação "DRS" e "FD"
Cantores Flavia Santana, Lu Vieira, Renato Ribone, Wladimir Pinheiro
Cenografia Mauro Vicente Ferreira
Assistência de Cenografia Rogério Chieza
Construção de Cenário Em Família Cenografia e Eventos
Adereços Mauro Vicente Ferreira
Figurinos Tereza Nabuco
Assistência de Figurinos Júlia Custódio
Costureiras Adélia Andrade e Severina da Silva Viana (Mainha)
Calçados Jailson Marcos
Assessoria de Imprensa de Antonio Trigo
Comunicação Web Urgh
Arte e Lay Out do Projeto Léo Dória / BR Produtora
Projeto Gráfico Novo Traço
Fotos de Estúdio Jorge Bispo