sábado, 22 de dezembro de 2012

Jacinta (RJ)

Foto: Nil Caniné

Andrea Beltrão em má direção de Aderbal

            “Jacinta” é um bom espetáculo, porque tem ótimas interpretações e bom usos dos elementos cênicos (cenário, figurino, trilha sonora e iluminação). Seu problema está na ordem da direção. Muitas coisas acontecem nas primeiras duas partes da narrativa, o que causa um certo cansaço no público ainda antes da metade da história. O clímax é, na verdade, um anticlímax, uma vez que as cenas mais líricas e com menos ação aparecem no final. É difícil sustentar um ritmo veloz por muito tempo e mais complicado ainda é fazê-lo crescer sem perdas. Aderbal Freire-Filho não consegue, o que é uma pena. 

No século XVI, a primeira experiência da personagem Jacinta como atriz acontece diante da Rainha de Portugal. Horrorizada com a péssima interpretação, a monarca morre e a jovem artista é condenada a ir para o Brasil, nesse tempo, uma colônia praticamente abandonada. Tem continuidade aí a saga de Jacinta em busca dos aplausos. Andrea Beltrão interpreta a personagem título com força e criatividade. Com talento notório e larga experiência, a atriz não precisaria surpreender, mas o faz, exibindo excelente uso da voz, do sotaque português, do canto e do corpo. Completando o elenco, Augusto Madeira, Gillray Coutinho, Isio Ghelman, José Mauro Brant e Rodrigo França exibem igualmente os mesmos bons valores. Ágil e pontualmente coreografado por João Saldanha e por Marcelo Braga, o grupo mostra agilidade, construindo cenas ricas e interessantes. 

Com texto de Newton Moreno (em que colaborou Freire-Filho), “Jacinta” apresenta uma história mais bem contada do que boa, mesmo sem privilegiar o público. Os personagens são apresentados muito rapidamente no desenvolvimento das cenas, deixando o tempo de reflexão para os números musicais. Com direção musical de Branco Mello, a peça intercala a narrativa com uma crítica acerca dela em um grande número de canções, o que prejudica ainda mais o ritmo. Apesar desse problema de concepção, o resultado estético do musical é bom, com boas execuções de Ricardo Rito (tecladista), Tassio Ramos (baixista), Helio Ratis (baterista) e de Maurício Coringa (guitarrista). 

A qualidade estética de “Jacinta” também pode ser vista nos elementos cenográficos propostos por Fernando Mello da Costa, nos figurinos de Antônio Medeiros e na iluminação de Maneco Quinderé. Em cada um deles, o espectador pode ver apuro nos detalhes e bom uso das potencialidades de cada signo. 

Em cartaz no Teatro Poeira, no Rio de Janeiro, eis aí um espetáculo em certa medida engraçado, mas em todas elas feito com cuidado e dedicação. 

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Ficha Técnica:
Texto de Newton Moreno, com colaboração de Aderbal Freire-Filho 
Canções de Branco Mello (melodias), Aderbal Freire-Filho e Newton Moreno (letras)
Direção: Aderbal Freire-Filho
Diretor-assistente: Fernando Philbert
Direção Musical: Branco Mello
Direção vocal: Cris Delanno
Prosódia: Iris Gomes da Costa
Coreógrafo: João Saldanha
Coreógrafo-assistente Marcelo Braga
Cenários: Fernando Mello da Costa
Figurinos: Antonio Medeiros
Iluminação: Maneco Quinderé
Elenco: Andrea Beltrão, Augusto Madeira, Gllray Coutinho, Isio Ghelman, José Mauro Brant e Rodrigo França
Músicos: Ricardo Rito (tecladista), Tassio Ramos (baixista), Helio Ratis (baterista) e Maurício Coringa (guitarrista)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Oréstia (RJ)

Foto: divulgação

Com méritos, o Rio de Janeiro encara a tragédia grega


            “Oréstia” é um excelente espetáculo, estando entre os melhores da programação teatral do Rio de Janeiro. Capitaneado por Malu Galli, que a dirige e a interpreta, a peça é uma adaptação da trilogia de Ésquilo (525-456 a.C.), composta de “Agammenon”, “Coéforas” e “Eumênides”. É puro preconceito achar que o Rio de Janeiro, apesar da praia e do clima tropical, não é talhado para a dureza da tragédia grega. É um prazer ver um gênero tão árduo recebendo tão nobre atualização. Para quem gosta de bom teatro, assistir a “Oréstia” é um dever que se cumpre com prazer. 

O único senão da montagem atual, em cartaz no Teatro da Casa de Cultural Laura Alvim, é o final. Depois de excelente adaptação, em que se mantém a retórica absolutamente clara, com boas dicções e vivas entonações, Gisele Fróes entra em cena, interpretando a deusa Atená, e quebrando infelizmente um paradigma. O falar solto trazido por essa personagem, contaminando negativamente o falar de Otto Jr., que dá vida ao deus Apolo, corrompe as sólidas e bem vindas estruturas construídas até ali. Com uma direção firme, Galli, ao lado de Bel Garcia, deixa ver na forma uma incoerência interna que é inexplicável e prejudicial. Se, por um lado, já é estranho reconhecer, pela primeira vez na tragédia, um deus que divide o seu poder com os humanos, estabelecendo uma votação que poderá influir em sua decisão acerca do destino de alguém, por outro, fica impossível aceitar o tom de voz mole, a entonação irresponsável, o bate-papo inconsequente que parece se estabelecer na cena final entre esse deus e os demais personagens. Caem por terra a força de todas as cenas anteriores, o rigor das interpretações sólidas e do discurso pontual. 

Com direção de movimento de Dani Lima, o conjunto de atores apresenta excelentes trabalhos. Não há problemas de dicção, as presenças são fortes, as pausas bem postas e o ritmo é bem conduzido, sobretudo porque não apresenta entraves. São nítidas as transformações dos personagens em coro ou em outros personagens, possibilidade essa que o teatro contemporâneo legou ao seu público. “Oréstia” não é nem um resumo da trilogia, tampouco uma adaptação do texto milenar para uma estrutura contemporânea. No palco, há a supressão de muitas passagens das obras originais pela potencialização de algumas cenas principais. Porque na parte há a semente do todo, a encenação rica dos trechos permite um olhar sobre a obra que permanece sem ressalvas (apesar da cena final). E essa encenação é também mérito do que se vê nas destacáveis construções de Julio Machado (Agamenon/Orestes), Malu Galli (Clintemnestra/Eletra), Otto Jr. (Egisto/Apolo), Luciano Chirolli (Corifeu/Erínias) e de Daniela Fortes (Ifigênia/Cassandra). 

Apesar da execução aparente (visível), oriunda de um computador em cena, a trilha sonora de Rômulo Fróes e de Cacá Machado dá impulso positivo à história e ganha lugar privilegiado no jogo em que os atores cantam trechos das falas originais do coro. Coerente com a proposta de potencializar alguns momentos para dar vista aos demais, as músicas articulam as cenas, fazem a fruição positivamente reflexiva e conduzem para o fim com notório mérito. Em igual sentido, a iluminação sempre elogiada de Maneco Quinderé enche de vida lugares específicos do palco, pontuando, com a harmonia apolínea da tragédia grega, o equilíbrio que uma boa encenação do texto requer. Quanto aos figurinos e ao cenário, há que se dizer que sua neutralidade é boa porque ela dá movimento às trocas de personagens e de lugares narrativos, mas em consequência negativa suas escolhas não agregam valor. 

Apresentada pela primeira vez em 458 a.C., “Oréstia” trata das histórias da família de Tântalo, filho de Zeus. Tântalo, um dia, roubou comida da mesa dos deuses e serviu aos mortais, contando a eles os segredos do Olimpo. No lugar do manjar, serviu pedaços do corpo de seu próprio filho, Pélope. De volta à vida, Pélope, depois de ter sido amante do deus Poseidon, se enamorou de Hipodâmia, filha de Enomau. Para que houvesse o consentimento para se casar, Pélope deveria vencer Enomau em uma corrida de carros contra Mírtilo. Com a ajuda de Poseidon, Pélope venceu a corrida, matando Mírtilo que lançou uma terrível maldição sobre a família de Pélope. Atreu, filho de Pélope e de Hipodâmia, instigado pela mãe, matou, com seu irmão gêmeo Tiestes, o irmão menor Crisipo. Atreu e Tiestes fugiram para Micenas onde foram acolhidos pelo rei Euristeu, que acabou por deixar para eles o trono. Atreu, marido de Aerópe, descobriu que seu irmão o traia tendo relações com sua esposa. Para se vingar, Atreu matou os filhos de Tiestes e servindo a carne dos sobrinhos em um jantar para o irmão. Anos depois, Tiestes teve um filho com sua própria filha Pelópia que se chamou Egisto. Atreu, que já era pai de Agamenon e de Menelau, se casou com Pelópia e o casal criou o filho dela com Tiestes. Quando crescido, Egisto matou Atreu, se tornando, junto de seu pai Tiestes, o governante de Argos. Refugiados em Esparta, Agamenon e Menelau se casaram com as princesas Clientemnestra e Helena, herdando o trono e expulsando, em seguida, o primo-irmão Egisto da Grécia. Vindo de Tróia, o príncipe Paris roubou Helena de Menelau e teve-se início uma grande guerra. Para poder ir ao mar com o exercito, Agamenon precisa de ventos. Para mandá-los, a deusa Artemis pediu Ifigênia, a filha do rei, em sacrifício. Durante a Guerra, Egisto retornou e seduziu Clintemnestra, que não havia perdoado o marido Agamenon pela morte da filha Ifigênia. Quando Tróia foi vencida, Clintemnestra matou o marido, exilando o filho Orestes na Fócida. Apadrinhado por Apolo, Orestes retornou, assassinando a mãe e Egisto, seu amante. Perseguido pelas Erínias, Orestes ganha julgamento pela deusa Atená, cena final da trilogia de Sófocles, que meritosamente integra a programação de teatro do Rio de Janeiro. 

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Ficha técnica

Texto - Ésquilo
Tradução - Alexandre Costa e Patrick Pessoa
Dramaturgia – Patrick Pessoa
Concepção geral e direção – Malu Galli
Co-direção - Bel Garcia
Elenco – Malu Galli, Gisele Fróes, Luciano Chirolli, Otto Jr, Júlio Machado e Daniela Fortes
Direção de arte e cenografia – Afonso Tostes
Iluminação– Maneco Quinderé
Direção musical e trilha sonora original – Rômulo Fróes e Cacá Machado
Direção de movimento – Dani Lima
Producao Executiva: Gabriel Bortolini
Producao: Bianca De Felippes / Gavea Filmes

sábado, 15 de dezembro de 2012

9 dias Contagem Regressiva (RJ)

Foto: divulgação

Sem dizer a que veio

            “9 dias! Contagem Regressiva” tem como maior problema o fato de não dizer a que veio. Apesar da boa iluminação, figurino e trilha sonora, contando ainda com a excelente interpretação de Adriana Valdevina, a estrutura exibe um projeto que ainda está no meio do caminho. Filha e Namorado sequestram o pai, um rico empresário, pedindo o dinheiro de resgate à Mãe, que pechincha até chegar a um valor simplório. Mãe e Filha fazem terapia com uma psicóloga que foi, no passado, namorada do Lennon, o sequestrador. Cheio de quebras na narrativa, a história, além de não ser bem contada, nem deixa o espectador seguro de como lhe deve fruir, nem parece precisar da insegurança de quem lhe assiste. Escrita e dirigida por Sandro Pamponet, o espetáculo está em cartaz no Espaço 2 do Solar de Botafogo. 

Fosse comédia, o espectador precisaria se sentir seguro. Para isso, todas as marcas de verossimilhança deveriam estar bem realçadas e dispostas a uma testagem inicial que garantiria a livre fruição e um ritmo rápido. Apesar dos nomes remeterem a um universo de novelas mexicanas e de uma situação também um tanto quanto melodramática, as cenas são recortadas demais, a narrativa é não linear e boa parte dos diálogos são tensos. Ou seja, o espectador ri em alguns momentos, mas não sabe se o que vê é realmente cômico ou se sua risada está sendo inconveniente. Fosse pós-dramático, a narrativa não resultaria em um modelo redondo, com personagens tão superficiais e acessíveis, mas estaria mais aberta e reflexiva. Apesar das informações sobre a história não serem apresentadas logo no início, mas durante a encenação, elas o são a contento até o final, de forma que o espectador não necessita de sua própria interpretação pra entender o que vê, mas tem, no quadro, todas as chaves dessa estrutura. Assim, sem ser Almodóvar e tampouco Lehmann, “9 dias! Contagem Regressiva” parece ser apenas uma experimentação dramatúrgica apresentada como espetáculo. 

Com exceção de Adriana Valdevina, que tem ainda voz baixa, os trabalhos de interpretação vão de ruins a péssimos. Carolina Freitas, Flavio Meira, Leobruno Gama e Manuela Moog apresentam construções sem vida, sem graça, sem força. Não são nem superficiais o suficiente para serem cômicos, nem profundos para serem dramáticos. A dicção é ruim, as intenções dispersivas, as entonações frouxas. Por outro lado, Valdevina parece se divertir com sua personagem (Mãe), oferecendo presença marcante, clareza nos objetivos e foco. 

Fernanda Mantovani e Leobruno Gama trazem meritoso trabalho de figurino e de iluminação respectivamente: as opções são ricas e potentes, manifestado desejo em aproveitar-se do espaço e da história positivamente em um esforço em narrar que não é em vão. O espetáculo tem ainda boa trilha sonora de Jô Bilac que age na mesma direção e com o mesmo bom resultado.

Diferente de todas as artes, o teatro, ao mesmo tempo em que não consegue se desligar do seu autor, não pode dispensar o seu público. O encontro entre quem faz e quem assiste está no cerne ontológico de sua existência. No momento em que “9 dias! Contagem Regressiva” parece não dialogar consigo próprio, a produção deixa ver que ainda não está preparada para conversar com o público. É portanto mais um exercício em sala de ensaio. Que venha para ser digno dos aplausos que recebe e há de receber. 

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Ficha Técnica:

Direção e Dramaturgia: Sandro Pomponet
Supervisão de Dramaturgia: Jô Bilac
Elenco: Adriana Valdevina, Carolina Freitas, Flavio Meira, Leobruno Gama, Manuela Moog
Cenografia: Natália Lana
Figurino: Leobruno Gama
Iluminação: Fernanda Mantovani
Preparação Vocal: Veronica Machado
Foto: Paula Kossatz
Trilha Sonora: Jô Bilac
Direção de Produção: Miçairi Guimarães
Produção Executiva: Taciana Barros e Alexandra Arakawa
Produção: Diga Sim Produções

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Shrek - O Musical (RJ)

Foto: divulgação
Aquém dos musicais que o Brasil tem produzido


            Duas horas de atraso. Foi com duas horas de atraso, sem a imprensa ter recebido nem release, nem a ficha técnica ou o programa do espetáculo, e ter ficado quase cinquenta minutos na fila (e no calor) para conseguir o ingresso, que o espetáculo “Shrek – O Musical” estreou no Rio de Janeiro. Para piorar a situação, a produção deixou ainda entrar o constrangedor grupo “Pânico” no interior do Teatro João Caetano, evidenciando um certo deslumbre negativo pelo mundo dos grandes musicais. Produzido pela Kabuki Produções e pela XYZLive, o espetáculo apresenta boas interpretações, um excelente cenário, um belo figurino, uma iluminação adequada. Mesmo assim representa um retrocesso ao que já foi conquistado no Brasil em termos de excelência no gênero e, sobretudo, de respeitabilidade. 

Alguns fatos sobre a obra. Shrek foi primeiro um livro, lançado em 1990, escrito pelo americano William Steig (1907-2003). Foi, onze anos depois, um filme que gerou mais três continuações, produzido pela DreamWorks. Por fim, a partir de dezembro de 2008, foi o musical mais caro (até então) na Broadway com músicas de Jeanine Tesori e com letras e roteiro de David Lindsay-Abaire. Apesar de boas críticas recebidas e de várias indicações a prêmios, o espetáculo fez curta temporada na Big Apple e saiu de cartaz antes que pudesse resultar em um fracasso financeiro. Com muitas alterações desde a première em Seattle, a peça foi ainda muitas vezes modificada ao longo do período e continua sendo até hoje nas suas versões pelo mundo. A explicação é simples: é um erro pensar que o sucesso obtido no cinema pode ser repetido no teatro. O cinema permite à sua fruição algo que o teatro não provê (e vice-versa). 

Duas questões são bastante relevantes no diálogo entre cinema e televisão que o musical "Shrek" propõe. A primeira é da ordem da trilha sonora. No filme, há estreita relação entre a obra e o além do filme. Trata-se de uma chanchada: o público reconhece as músicas (Smash Mouth, Eels, Jason Wade,...), cantando as melodias, enquanto se diverte com a história e as piadas que agem no mesmo sentido. No musical (teatro), as músicas (Tesori) são composições feitas especialmente para o filme, ou seja, desconhecidas pelo público. Na versão brasileira, as letras de Claudio Botelho são traduções para português, o que é ainda mais problemático. Além de não reconhecer as músicas, o ouvinte brasileiro sabe que há algo de estranho naquelas letras, que algo parece “não se encaixar”. 

A outra questão relevante diz respeito ao visual. A direção de fotografia do cinema permite planos americanos, planos de peito, closes e big closes. O grande ogro verde Shrek domina a tela. A relação de grandeza do protagonista em relação aos demais personagens (Fiona, o Burro, o Gato de Botas, o Biscoito) é clara: Shrek é muito maior que todos os outros, só não sendo maior que o Dragão. No teatro, isso não é possível. O espectador vê todo o palco ao mesmo tempo, ou seja, as relações de tamanho não acontecem da mesma forma. Nesse sentido também, os acordos do cinema com o público e do teatro com o público não são iguais. No teatro, o público assiste a operadores carregando o Dragão e ao Biscoito sendo manipulado como um fantoche. A necessidade de estabelecer essas combinações com quem vê dá ao ritmo um peso que o cinema dispensa. 

Ritmo é o pior elemento de “Shrek – O Musical”. A versão brasileira assinada por Diego Ramiro (direção), por Marcelo Castro (direção musical) e por Fernanda Fernandes e Cristina Bério (roteiro) é longa demais. Com toda a agilidade do cinema, o filme tem noventa e dois minutos. Com toda a dificuldade do teatro em atualizar a obra, a peça tem três horas, o dobro. Com um punhado de músicas inúteis, redundantes, dizendo de novo o que já foi dito, e sem coreografias ou grandes movimentações de cenário que possam chamar a atenção do espectador, a narrativa fica monótona e desinteressante em vários momentos. Rodrigo Sant’Anna não tem preparo para cantar e é visível o seu constrangimento quando ele é obrigado a fazer isso. Excelente ator que ele é, o resultado dói ainda mais na plateia. 

No que diz respeito às interpretações, há destaques bastante positivos. Rodrigo Sant’Anna, que interpreta o Burro, é a grande presença do espetáculo. São dele os melhores momentos da narrativa no que diz respeito ao roteiro. Assim como Maria Clara Gueiros, em “O Mágico de Oz”, a escolha é grande mérito do casting. Julie Andrews Brasileira, Sara Sarres, que dá vida a Fiona, lidera os melhores momentos musicais da produção. Com graça e elegância, o trabalho da atriz em cena é um grande investimento da produção em termos de técnica e de qualidade. No mesmo sentido, mas com menor participação, agem Camila Braunna, que dá voz ao Dragão, e Thaynara Bergamim, que faz a Fiona ainda criança. Marcelo Octávio (Lord Forquaad) apresenta um boa performance, mas que deverá ficar melhor ao longo da temporada. Nele, assim como em Diego Luri, que interpreta o apagado protagonista Shrek, falta o carisma de que necessita o personagem. Sem momentos negativos, o elenco conta ainda com as boas participação de Renan Mattos (o assistente do Príncipe) e de Lucas Drummond (Pinóquio). 

“Shrek – O Musical” tem ainda bons figurinos de Luciano Ferrari e boa iluminação de Guilherme Bonfati. O destaque positivo é do cenário de Paula de Paoli, sobretudo na Torre de Fiona e no Castelo de Forquaad. As entradas são ágeis, as opções preenchem o palco com vivacidade e chamam a atenção pela riqueza de detalhes. 

Com esforço em aproximar o público do palco, oferecendo vários níveis de fruição, como acontece no filme e no livro, a direção de Diego Ramiro conduz a história para o ápice final, com afinadas marcas nos saltos de evolução da história ao longo da narrativa. O esforço, diante de tantos números musicais e problemas da ordem da produção na recepção do público, vem a calhar. Apesar das baixas, “Shrek – O Musical” cumpre o seu papel em atualizar o gênero, mas não é um espetáculo para se aplaudir em pé. 

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Ficha Técnica:

Elenco:

Diego Luri
Sara Sarres
Rodrigo Sant’Anna
Marcel Octavio

Mauro Gorini, Renan Mattos, Giulia Nadruz, Alice Motta, Analu Pimenta, Tatiana Sobral, Elton Towersey, Thadeu Matos, Mariana Gallindo, Camilla Carmargo, Fabricio Negri, Lucas Drummond, Camila Braunna, Fabiana Tolentino, Rooney Tuareg, Juliana Lago, Tato Maiuolo, Giselle Lima, Conrado Helt, Marcelo Ferrari, Bruno Kimura, Julia Gomes e Thaynara Bergamim.

Direção – Diego Ramiro
Versão Brasileira – Claudio Botelho
Tradução de texto – Cristina Berio e Fernanda Fernandes
Direção Musical – Marcelo Castro
Direção de Movimento – Caio Nunes
Cenógrafia – Paula de Paoli
Figurino – Luciano Ferrari
Desenho de Luz – Guilherme Bonfati
Desenho de som – Fernando Fortes
Produção Executiva - Lilian Cordeiro ,Diego Ramiro, João Paulo Affonseca
Direção de Produção – Katia Fanticelli
Coordenação de Produção – Giovana Menniti
Consultoria Cultural – Karem Lis
Lider de projeto XYZ – Guilherme Rodrigues Alves
Gerente de Atendimento – Renata Babolin
Diretor Financeiro – Ailton Vieira
Financeiro Kabuki – Rosa Maria Ramiro
Financeiro XYZ- Fernanda Wernz , Alessandra Federighi, Flavia Pinho , Rosa Maria Biasi
Produção de Elenco – Juliana Costa e Alice Wolfenson
Making of – Kushen Pillay
Jurídico – Tilkian & Marinelli
Midia – Fabricio F. Bermelo de Andrade
Criação de material e site – Ricardo Gertrudes, João Carlos Prado e Filipe Levy

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Primeiro Amor (RJ)

Foto: divulgação

Ana Kfouri e Antônio Guedes: um Beckett bem feito!


             Com direção de Antônio Guedes, em cartaz no Teatro Poeirinha, Ana Kfouri interpreta "Primeiro Amor", de Samuel Beckett (1906-1989) com força, com coragem e com determinação. Surgido como conto nos anos 40, a obra veio antes de serem escritos os clássicos “Esperando Godot”, “Fim de Jogo” e “Dias Felizes”, as mais conhecidas do autor. Desde lá, o dramaturgo irlandês já traduzia em arte a solidão como maior desafio do homem contemporâneo. Para quem gosta de sutilezas, é uma ótima opção. Pra quem gosta de palavras afiadas, é um excelente programa. Para quem gosta de reflexões profundas, é uma pauta imperdível.

Para o homem do texto, a solidão para não é uma escolha, mas uma prisão dentro da qual ele foi colocado sem se lembrar qual foi o crime que cometera. Ser e estar, para Beckett, são sinônimos e o tempo é as grades desse ser/estar só. “Primeiro Amor” começa em um cemitério com a morte de um pai e termina com o nascimento de uma criança, um filho. O amor está bem no meio quando o personagem se encontra com uma mulher. Só em um banco, em um universo árido, em tons escuros e uma projeção bastante clara, Ana Kfouri tem poucos recursos a mão para dar vida a essa figura cheia de profundidade. É nesse pouco que vê-se o seu muito. Os olhos e as faces do rosto são exploradas de diversas formas, em vários níveis e, assim, são responsáveis por momentos de aceleração e de pausa no ritmo que evolui para o fim em crescente. As palmas das mãos estão sempre abertas, os dedos sempre separados com os braços avançando para cima e para baixo como que marcando o compasso desse tempo cujo passar é cada vez mais trágico. Então, inesperada e surpreendentemente, Kfouri fica em pé e o espectador sabe que estamos no ápice. As palavras, martelando na boca da história, permanecem transbordando mesmo quando é silêncio. E elas saem sem um motivo claro, uma motivação específica. Elas saem. 

Os vídeos de Helena Trindade expressam a relação entre as palavras e seus significados e significantes. As letras são vistas como cenário onde os significados podem acontecer ou não. O absurdo é a ausência de lógica e o amor é sentido apenas na ausência da pessoa amada. A iluminação, que proporciona um jogo de sombras, uma relação entre positivo e negativo, luz frontal e contra, cadencia o ritmo da história e no seu pouco também faz muito. “Primeiro Amor” é, assim, um todo coeso e coerente, que se utiliza da falta de lógica como sua própria lógica de articulação. Não significar é significar. 

É preciso ter coragem para assistir a Beckett e mais ainda para fazê-lo. Nele está a chave para a compreensão sobre o hoje, o espelho de uma época que ele, enquanto homem deste mundo e falecido há duas décadas, nem chegou a experimentar. Palmas! 

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Ficha Técnica

Texto Samuel Beckett
Tradução Célia Euvaldo
Concepção Antonio Guedes
Atuação Ana Kfouri
Assistente Flávia Naves
Vídeos, Identidade Visual e Projeto Gráfico Helena Trindade
Assistente de Design Gráfico Patrícia Gerstner
Sonoplastia Antonio Guedes
Assistência Técnica de Vídeo Renato Livera
Comercial de TV/Filmagem Eduardo Chamon
Assessoria de Imprensa André Gomes
Fotos de Divulgação Dalton Valerio
Operador de Som, Luz e Vídeo Walace Furtado
Cenotécnica Carlos Augusto Campos e Leandro Ribeiro - Articulação Cenografia
Controller Rodrigo Gerstner
Assistentes de Produção Simone Vidal e Taty Maria
Direção de Produção Ana Paula Abreu e Renata Blasi
Produção Diálogo da Arte Produções Culturais
Realização Cia. Teatral do Movimento
Idealização Ana Kfouri

Calango Deu (RJ)

Foto: divulgação

Suzana Nascimento é Dona Zaninha em linda homenagem a Minas Gerais


           “Calango Deu – Os causos de Dona Zaninha” é o novo frisson do teatro carioca, porque celebra o encontro de seres humanos, a valorização do tempo, do ato de contar histórias. Parece coisa simples, mas não é. É bem feito mesmo. E bem feito em todos os sentidos. De forma inteligente, a peça idealizada, escrita e interpretada por Suzana Nascimento se apresenta sem as marcas de complexidade com que foi construída. No palco do Teatro Café Pequeno, no Leblon, a narrativa flui ao natural durante os noventa minutos de monólogo que passam voando. E poderia durar mais. 

Dirigida por Isaac Bernat, Suzana Nascimento é Dona Zaninha, uma senhora mineira, que mora no interior de Minas Gerais. Tal qual Riobaldo conta suas histórias pro Compadre Quelemém de Gois, em “Grande Sertão: Veredas”, ela “desfia seus causos” para o público que lhe visita em sua casa. Faz café, ouve rádio, conversa com passarinho e com cachorro, costura, reza, homenageia seus antepassados, se reinventa. Com o sotaque bem trabalhado no universo complexo que o distancia do estereótipo, a atriz apresenta excelente trabalho, esse visível no corpo, na postura, nos movimentos e na forma de se relacionar com o espaço, com o cenário, com as histórias que conta. Como Dani Barros, em “Estamira”, o público sente que a intérprete está abrindo um pouco de sua história pessoal nessa montagem. Sentir-se digno de tal confiança é ser especial e é assim que o público de teatro gosta de se sentir. Esse tipo de relação faz emergir uma fruição mais familiar, mais amigável, um tanto quanto mais íntima. O homem contador de histórias ainda existe e impressiona. 

A dramaturgia é um dos elementos mais interessantes dessa estrutura. Do ponto de vista intelectual, é possível prever que o texto dramático no papel seja uma espécie de caos monótono, uma justaposição de histórias cuja articulação é frágil e imprecisa. No palco, não. A dramaturgia cênica, a partir da direção de Bernat, é viva e construída fundamentalmente na relação entre a intérprete e o público. Os acordos são mantidos por ambas as partes sem esforço: um mérito duplo. 

Excelentes o figurino e o cenário de Desirée Bastos. O modelo de caixas que se abrem e deixam ver os móveis e os cômodos da casa de Dona Zaninha expressa, ao mesmo tempo, o delicado cuidado com cada minúsculo detalhe e a praticidade do conjunto em relação ao palco. Se, no texto, a personagem narra seus vôos, as “malas” expressam concretamente essa disponibilidade da peça em viajar. Nesse sentido, as partes são símbolos do todo e o todo se mostra coeso e coerente entre si, o ponto de partida básico para a catarse de “Calango Deu”. 

Ao final, espontaneamente, a plateia puxa a canção “Oh, Minas Gerais! Oh, Minas Gerais! Quem te conhece não esquece jamais! Oh, Minas Gerais!”. O gesto prova que não só se entendeu a peça como dali não se quer sair. Houve emoção, houve gargalhada, houve um excelente programa teatral. Dona Zaninha, a personagem, ficou para sempre nos corações de quem assistiu. E que “Calango Deu” tenha vida longa nesse Brasil imenso e rico. 

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Ficha Técnica:


Concepção, texto, direção musical e atuação: Suzana Nascimento
Direção: Isaac Bernat
Cenário e Figurino: Desirée Bastos
Direção de movimento: Marcelle Sampaio
Supervisão musical e preparação musical: Pedro Amorim
Edição de som: André Poyart
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenotécnicos: Articulação Cenografia & Eventos
Fotografia: Sergio Santoian
Projeto gráfico: Raquel Alvarenga
Operador de Luz: João Gioia
Administração do projeto: Amanda Cesarina
Direção de Produção: Aline Mohamad
Produção Executiva: Diana Behrens
Assistência de produção: Heder Braga
Participações nas fotos: Olavo José e Maria Mirabel
Realização: Luminis Produções Artísticas

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Myrna (SP)

Foto: divulgação

Excelente trabalho de interpretação em dramaturgia ruim

Apesar da excelente interpretação de Luciana Borghi, o monólogo “Myrna” não vence o desafio teatral de narrar um contexto através do tempo. Costurado a partir das crônicas de Nelson Rodrigues (1912-1980), publicadas no livro “Não se pode amar e ser feliz ao mesmo tempo”, o texto, que tem assinatura de Elias Andreato, tem ganchos fracos e que não sustentam a situação a contento. A direção de Renato Borghi e de Elcio Nogueira Seixas, por seu turno, deixa muitos espaços em branco ao longo do trabalho, de forma que cabe à intérprete os grandes méritos desse espetáculo vacilante. 

Sob o pseudônimo de Myrna, o jornalista Nelson Rodrigues respondia a cartas de leitoras sobre assuntos do universo feminino em sua coluna no jornal Diário da Noite. Em cena, a Myrna de Luciana Borghi é um misto de figura mística, locutora de rádio, mulher e, de alguma forma, de uma versão do próprio Nelson. Ora como colega, como funcionário e como antagonista, o personagem do sonoplasta, interpretado por Rocky Gomes, também não apresenta uma definição suficientemente precisa. O jogo entre os dois, apesar disso, fornece alguns momentos cômicos que divertem a plateia. 

O público está no estúdio de um programa de rádio, o programa de Myrna. A locutora, que chega com atraso, dá início, pedindo a atenção dos presentes, dividindo suas falas entre frases que vão ao ar e frases apenas compartilhadas com as pessoas do auditório e não com os supostos ouvintes. Na peça, a primeira parte compõem-se da leitura e da resposta de cartas enviadas ao rádio. Seguem o horóscopo e a sessão tragédias diárias. Com intervalo comerciais, o “Programa de Myrna” tem ainda números musicais. Tudo é ambientado nos anos 50, o fim da era de ouro do rádio. Ao longo de noventa minutos, a justaposição das cartas e das histórias bastaria com um ritmo menos entrecortado. 

Primeiro, a necessidade de ir ao banheiro à guisa do programa que está no ar. Depois, uma carta misteriosa que chega trazendo uma novidade sobre a vida amorosa da locutora. Além, uma cena de bebedeira e de valsa. As histórias de Nelson Rodrigues parecem não ter sido o suficiente para Andreato ou para a dupla de diretores Borghi e Seixas. As forças, assim, que impulsionariam a narrativa para o fim são fracas, sem fontes narrativas claras e esteticamente de gosto duvidoso. 

Luciana Borghi, com grande carisma, expressa a sua personagem com excelente uso corporal, facial e vocal. Sem uma direção que, de forma potente, organize suas reações, a construção da atriz parece simplesmente improvisar sem destino ou roteiro definido. A sensação de imediatismo dessas marcas são positivas para o público, que pensa estar vendo algo diferente dos outros públicos. A opção, por outro lado, resulta no alargamento de um tempo que já, por si só, é largo uma vez que não será uma história, mas uma coleção delas ao que se vai assistir. 

“Myrna” tem ótimo resultado estético no que diz respeito ao figurino de Daniela Sampaio, da iluminação de Tomate Saraiva e da trilha sonora de Rocky Gomes. A roupa preserva o ar de mistério da personagem, conservando um certo glamour, que são positivos para a sua apresentação. As músicas, partindo de uma narração de “O Direito de Nascer” e passando por clássicos musicais do rádio e por números de sonoplastia, dão ritmo, na medida do possível, à narrativa juntamente com a iluminação. 

“Myrna”, que faz temporada simultaneamente no Rio de Janeiro e em São Paulo deixa a desejar enquanto homenagem a Nelson Rodrigues. Vale, mesmo assim, por trazer o universo do rádio para o teatro. 

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FICHA TÉCNICA:

Texto: NELSON RODRIGUES
Adaptação Dramatúrgica: ELIAS ANDREATO
Direção: RENATO BORGHI E ELCIO NOGUEIRA SEIXAS
Interpretação: LUCIANA BORGHI (Myrna) e ROCKY GOMES (sonoplasta)
Trilha Sonora Original: ROCKY GOMES
Cenário: SANTUSA CASTRO
Figurino: DANIELA SAMPAIO
Fotos: ABOUT PRODUÇÕES
Iluminação: TOMATE SARAIVA
Produção: LUCIANA BORGHI Produções Artísticas
Assessoria de Imprensa: PAGU COMUNICAÇÃO
Realização: CIA DE VESTIDO

TôTatiando (SP)

Foto: divulgação

Zélia Duncan: música, literatura e teatro

A proposta de Zélia Duncan no show “TôTatiando”, dirigido por Regina Braga, que fez curtíssima temporada no Theatro Net Rio, era fazer teatro a partir de música e de literatura. Com composições do paulista Luiz Tatit, Doutor em Semiótica da Música, felizmente o foi. Duncan manipula em cena os sons que circulam nas letras de Tatit com a habilidade que é fruto de sua vasta experiência como cantora. O resultado feliz é um projeto de extremo bom gosto musical, teatral e literaário, pronto para agradar públicos de todas as idades e em todos os lugares onde houver falantes e amantes de português, de música e de teatro. 

Da forma como os músicos Webster Santos e Tercio Guimarães reproduzem em cena os sons da cidade antes do espetáculo começar, passando pela forma como ele realmente começa e, num pulo de sessenta minutos, chegando em como ele termina, o teatro é organizador das canções que se interpõe como filtro bem posto entre a música e o público. É ele quem articula os significados, esses que permanecem afinal parcialmente dispersos, livres como eles são. Os personagens interpretados por Zélia Duncan surgem de pequenos traços, pequenas relações possíveis entre expressões, figurino, motivações, mas também das canções que fazem parte do repertório. Braga tem presente um excelente trabalho de direção, considerando Duncan como cantora e nunca como atriz. Depretencioso, “TôTatiando” agrada pela sua simplicidade que é apenas aparente. Por trás do visível cuidado por tantos detalhes, é certo que houve um trabalho árduo na construção de “TôTatiando”.

Ao contrário do que tantas vezes se vê por aí infelizmente, o show apresenta um considerável investimento em cenário e em figurino. Com direção de arte de Simone Mina e iluminação de Wagner Freire, o palco expressa o amor pela literatura, mas também pelo teatro: letras em madeira espalhadas, ripas penduradas parecendo estalactites, listas verticais brancas no fundo: o espaço possibilita universo interessante para as cenas que se desenvolvem com fluência no roteiro cuja direção musical é de Bia Paes Leme. 

A presença cênica de Zélia é viva, ágil, inteligente, além, claro, de oferecer excelentes resultados em termos musicais. Sua voz grave e sua flexibilidade corporal garantem um espetáculo cujo ritmo é bem mantido e esse de forma positivamente ascendente. O fim chega como se pegasse o público de surpresa, sinal de houve bom divertimento. Em se tratanto de Tatit e de Duncan, sobretudo para o coração. 

Acreditando e defendendo que a canção vem da voz falada e de nossas entonações cotidianas, Tatit compõe pensando nisso. Sua pesquisa é profunda e muito rica, e suas letras falam das idiossincrasias de forma direta. Assim, o poeta e a cantora vão apontando paradoxos e subjetividades, desmitificando também o isolamento. Eis o encontro teatral celebrado por esse momento cheio de boa literatura, boa música e bom teatro. 

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FICHA TÉCNICA

Com Zélia Duncan
Direção geral Regina Braga
Direção musical Bia Paes Leme
Músicos Webster Santos e Tercio Guimarães
Direção de arte Simone Mina
Design de luz Wagner Freire
Identidade visual Daniel Trench
Figurinos Lu Pimenta
Make up & hair Silvana Gurgel
Preparação corporal Cristiane Quito di Paoli
Preparação corporal (RJ) Marcia Rubim
Assistente de direção Isabel Teixeira
Assistente de iluminação Melissa Guimarães
Projeto de sonorização Andrea Zeni
Captação de apoios e parcerias Amalia Tarallo
Assessoria de imprensa Casé Assessoria
Produção técnica Fernanda Tein
Coordenação de produção Patrícia Albuquerque
Coordenação geral Deco Gedeon
Realização Fidellio Produções

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Sobre nós dois (RJ)

Foto: divulgação

O incômodo bem-vindo

“Sobre nós dois” é um espetáculo que positivamente incomoda. A montagem em cartaz no Espaço 2 do Solar de Botafogo parte de um texto bem escrito por Daniel Freitas para uma encenação com bons e com maus momentos dirigida por Marcelo Aquino e interpretada por Freitas e por Fabiano Bernardelli. À noite, um rapaz sofre uma tentativa de assalto em um caixa eletrônico bancário. Por errar a senha três vezes, ele é levado pelo suposto assaltante para sua casa. Tem início um sequestro em que a vítima é um jovem franzino e branco e o criminoso é grande e negro. Com diálogos de abertura estranhamente cheios de humor versus um jogo tenso de agressões próximas do real além da narrativa, a dramaturgia esconde o que negativamente a encenação, em alguns momentos, evidencia. De forma positiva, o final é surpreendente e o texto, por vencer os empecilhos, se mostra mais profundo do que aparenta ser. Sem dúvida, a peça tira proveito da proximidade com que o público a frui no espaço cênico apertado, mas poderia tirar mais. 

Marcelo Aquino apresenta um bom trabalho de direção de atores que é visível nas boas construções de Daniel Freitas e de Fabiano Bernardelli. Enquanto o primeiro, apresenta uma voz que, fraca, parece sair apenas com esforço, o segundo traz nela o que já é visível no corpo: a força. Ambos com excelentes desenhos corporais, com pausas bem postas e com emoções bem dosadas oferecem um trabalho de que não é possível tirar os olhos. O problema da direção está na superficialidade com que o movimento entre os dois se dá a ver sobretudo em determinadas cenas. 

A produção, que segue bem na maior parte do tempo, perde, nas cenas coreografadas, a proximidade com Plínio Marcos, cuja guerra pelo poder o dramaturgo santista tão delicada e, ao mesmo tempo, fortemente deixou claro em “Dois perdidos numa noite suja”. Em “Sobre nós dois”, o Refém tem algo que o Sequestrador não tem. Depois, o jogo se inverte e, não fossem as “quebras” na fluidez da narrativa, sofrer-se-ia a maior impacto. A sequência de abertura, as cenas de tiro, o tango suavizam o ritmo, fazem ver o teatro, impedem a catarse, desviando, assim, a profundidade. O cenário de Jan Macedo e de Caio Braga cria um universo estético muito aparente (o emaranhado de barbantes ilustrando o relacionamento entre os personagens é é uma opção rasteira) para o texto que pulsa realismo em quase todos os seus momentos. No mesmo sentido, a trilha sonora de Sérgio Pascolato e de Felipe Dias lembra negativamente o público de que o que se está vendo é falso. 

São positivos o desenho de iluminação de Rubia Vieira e o figurino da mesma dupla que assina o cenário. O grande valor da obra como um todo, no entanto, é sua capacidade de revelar corajosamente um vencedor em uma situação que parece ser de empate. O caminho que leva para esse fim gera um incômodo que, como toda reação ao bom teatro, é bem-vindo!

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FICHA TÉCNICA:

Direção: Marcelo Aquino
Texto: Daniel de Freitas
Elenco: Daniel de Freitas e Fabiano Bernardelli
Direção de Produção: Antonio Libonatti
Cenário e Figurino: Jan Macedo e Caio Braga
Assistente de Produção: Liana Villa Verde
Assistente de Produção: Kaio Lima
Trilha Sonora: Sérgio Pascolato e Felipe Dias
Operador de Som: Felipe Dias
Iluminação: Rubia Vieira
Design Gráfico: Coral Michelin

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Freud - a ultima sessão (RJ)

Foto: divulgação

A nobreza de um teatro da melhor qualidade


           “Freud – A última sessão” é um tipo de teatro que hoje é infelizmente raro. Cenário com os mínimos detalhes, interpretações próximas do real além da narrativa, um excelente texto sendo muito bem dito pelos atores, um discurso reflexivo daqueles que fazem a gente ter muito assunto para depois da peça. Escrito e muito premiado pelo americano Mark St. Germain, o texto foi apresentado pela primeira vez em 2009, no circuito Off-Broadway, onde continua em cartaz. Nele há o encontro do psicanalista tcheco Sigmund Freud (1856-1939) e do crítico literário crítico Clive Stamples Lewis (1898-1963). Baseado no livro escrito por Armand Nicholi, “Deus em Questão”, a montagem brasileira tem direção de Ticiana Studart e está em cartaz no Centro Cultural dos Correios, no centro do Rio de Janeiro. 

O ano é 1939, em Londres, momento recentemente reproduzido pelo filme ganhador do Oscar, “O Discurso do Rei”, cujo trecho é ouvido na peça pelos dois personagens. Hélio Ribeiro interpreta Freud e Leonardo Netto faz o papel de Lewis. A discussão é sobre Freud, um ateu convicto, não admitir que um intelectual com todas as possibilidades de Lewis seja um cristão fervoroso. Deus criou o Mundo? Ou será que essas possibilidades são fantasias criadas pelo homem para seu suporte? Falas cortantes, contundentes de ambas as partes, mas delicadamente cheias de humor, uma vez que o sarcasmo e a ironia rondam toda essa discussão. C. S. Lewis e Sigmund Freud argumentam lado a lado, refletindo sobre os pontos fracos e as alternativas aos seus posicionamentos. Ambos consideraram o problema da dor e do sofrimento, a natureza do amor e do sexo, e o sentido da vida e da morte. 

No cenário rico em minúcias de detalhes de José Dias, em que também está pormenorizada a brilhante trilha sonora assinada por Marcelo Alonso Neves, os dois personagens convivem com a iminência de uma nova grande guerra. Em meio ao diálogo rápido e potente, bombas, telefones que tocam, o cancro bucal de que sofria o psicanalista desafiam a evolução dos assuntos. Inteligentemente, os obstáculos são momentos de respiração para o público que coloca os pensamentos no lugar e pode encontrar o seu lugar no duelo travado entre os dois. 

Com interpretações elegantes, realistas, sóbrias e, por tudo isso, bastante positivas, Ribeiro e Netto apresentam excelentes trabalhos. A movimentação no espaço é inteligente, as pausas são bem postas, tudo valoriza a catarse e a reflexão. Sem dúvida, Ticiana Studart tem aqui um dos trabalhos mais nobres de sua carreira. E o teatro carioca uma peça que deve ser muitas vezes aplaudida. 


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Ficha Técnica:

Autor: Mark ST. Germain
Tradução: L.G. Bayão
Direção: Ticiana Studart
Elenco: Helio Ribeiro e Leonardo Netto
Iluminação: Aurélio De Simoni
Cenário: Jose Dias
Figurinos: Kiara Bianca
Direção Musical: Marcelo Alonso Neves
Direção de Movimento: Sueli Guerra
DIretora Assistente: Melise Maia
Preparação Vocal: Rose Gonçalves
Aderecista: Flavia Sauerbronn
Assistente de Movimento – Olivia Vivone
Fotografia: Dalton Valério
Design Gráfico: Voisin Design
Assessoria de Imprensa: Will Comunicação / Luiz Menna Barreto
Direção de Produção: Cássia Vilasbôas
Produção Executiva: Fernando Duarte
Assistente de Produção: Mayara Travassos
Estagiário de Produção: Lucas Studart
Produção: NOVE PRODUÇÕES
Realização: Ticiana Studart Produções

sábado, 1 de dezembro de 2012

À Gaivota (RJ)

Foto: divulgação

A versão experimental de "A Gaivota"


O espetáculo “À Gaivota”, da UNIRIO, tem entre vários méritos o de estar no lugar certo: a VII Mostra Estudantil de Teatro do Ministério da Cultura e do Banco do Brasil. Diferente do Teatro Comercial, no Teatro Estudantil, vale mais o processo de construção da obra como exercício de aprendizagem para quem o faz. Aqui, dirigido por Maíra Kestenbergh, tem-se uma adaptação da obra de Anton Tchekhov (1860-1904), “A Gaivota”, escrita em 1895 e 1896. Apresentando brilhantes interpretações de Vanessa Garcia (Arkádina) e de Guggo Morales (Sorin), o resultado estético, enquanto exercício, vale como tal. O dramaturgo russo, assim como todos os dramaturgos da história universal, pode e deve ser adaptado da literatura para o teatro, mantendo o teatro vivo e a literatura conhecida. Tirar, no entanto, os textos clássicos de sua zona de conforto é, muitas vezes, um ato necessário, mas, sem dúvida, sempre para artistas corajosos. No caso de “À Gaivota”, por exemplo, a solução encontrada está longe demais do ideal. A sala de aula é, por isso, lugar perfeito para a montagem em questão.

O jovem dramaturgo, o personagem Trepliov é o elemento central da trama, o protagonista. Tchekhov escreve teatro realista psicológico, como o norueguês Henrik Ibsen (1828-1906), seu contemporâneo. O texto é um fluxo de consciência, o leitor/espectador está sobre a cabeça de Trepliov, olhando de cima para baixo e vendo o interior de sua alma, vendo o mundo a partir de seus olhos, dialogando com os outros personagens a partir de suas palavras. Por isso, o dramaturgo prevê poltronas, livros, jogo de loto, tantos objetos em um cenário detalhado. Os movimentos são medidos, as intenções indicadas. Tudo está previsto para a história fluir sem entraves, para o espectador “se banhar” em catarse no universo interior do personagem. Sábia, Kestenbergh, tem a oportunidade de ouro de estar trabalhando com um elenco em exercício e experimenta o texto russo com uma “receita” diferente. O que numa temporada comercial seria um mal passo, aqui é uma ótima pedida. No palco, vemos o quanto Tchekhov estava certo em sua rigorosa descrição das cenas, pois, ao introduzir “inovações”, o ritmo cai vertiginosamente, as palavras perdem o sentido, o drama vira uma comédia e a maior parte dos personagens e das situações perdem a importância. 

Na versão da UNIRIO, há diversos entraves para a fruição de “A Gaivota” (sem crase, sic). A concepção estabeleceu uma nova linguagem cênica para a encenação: tudo passa a ser um teatro na medida em que todos os atores estão sempre visíveis. Quando não em cena, o elenco fica de fronte para uma bancada individual e móvel que remete, pelo grande e longitudinal espelho, a um camarim. Na parte superior do vidro, há galhos secos e a união das bancadas deixam ver uma espécie de floresta morta, uma metáfora talvez para a decadência do campo e das relações (uma referência ao “Jardim das Cerejeiras”, outra obra de Tchekhov, talvez). Identificar o jogo dos camarins, entender que determinados atores estão e outros não estão em cena, perceber (no segundo ato) que algumas expressões são rubricas (indicações próprias do texto dramático) e outras são realmente frases do diálogo são trabalhos extras para o público que já aceitou entender que um elenco jovem está fazendo personagens muito mais velhos. O embaraço é cansativo, as cenas são modorrentas, os solilóquios intermináveis. 

Os figurinos de Inessa Azevedo e de Nathalia Valadares concordam com o cenário Fabio Kohler e de Karen Macedo, estando coesos com a direção de Kestenbergh de que já se tratou. Nesse sentido, são também prejudiciais os fones de ouvido em um personagem que é para ser o administrador de uma fazenda no fim do século XIX (por que então Trepliov não usa um IMac para escrever seus textos e Trigorin um IPad para ler seus livros?), apenas para citar um detalhe dos muitos entraves que também estão presentes na concepção de figurinos. Isto é, identificar os personagens também é complicado nessa nova linguagem, que inseriu canções atuais nas falas, prejudicando ainda mais a fruição. 

Leonardo Hinckel está bem no papel de Trepliov: ágil, forte, másculo, vigoroso. O único senão é que, embora o intérprete varie no volume sua potência vocal, segue discurso segue sempre no mesmo tom, o que é cansativo, porque impreciso. Quanto às demais interpretações, há bons e maus trabalhos. De um lado temos Vanessa Garcia (Arkádina), Guggo Morales (Sórin) e Guilherme Stutz (Medvedenko) com participações vibrantes, bastantes próximas de Tchekhov, isto é, próximas do real além da narrativa (eis aí o conceito primeiro de realismo). De outro, temos construções exageradas, tendendo ao cômico rasteiro, como em Ana Carolina Leite (Polina), Renato Borges (Dorn) e em Matheus Gomes da Costa (Chamraiev). Em uma terceira posição, há interpretações apáticas, com performances sem cor e discursos monocórdios, como em Alexandre Vollu (Trigorin), Fernanda Nascimento (Macha), Samara Pinheiro e Sofia Vasconcellos e Sá (Nina). 

A metáfora do pássaro que morre vítima do tédio ganhou novas cores, mas permaneceu sem acontecer no espetáculo dos alunos da UNIRIO. Fica o sentimento positivo de que é na escola o lugar do exercício, do experimento, dos erros e dos acertos. Por isso, o parabéns e o aplauso a todos da equipe sem exceção. 

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Ficha Técnica:
Direção: Maíra Kestenbergh
Orientação de direção: Ricardo Kosovski
Assistente de direção: Andrea Santiago
2o assistente de direção: Leonardo Hinckel
Cenografia: Fabio Kohler e Karen Macedo
Assistente de cenografia: Lia Maia
Orientação de cenografia: Lidia Kosovski
Cenoténico: Alexandre Guimarães
Figurinos: Inessa Azevedo e Nathalia Valadares
Assistente de figurino: Aline Besouro
Orientação de figurino: Beth Filipecki
Direção de movimento: Carolline Helena Cantídeo / Flávia Naves
Treinamento de ViewPoints: Jarbas Albuquerque
Trilha sonora original: Pedro Curvello
Desenho de luz: JP de Andrade / Rafaela Rocha / Paula Cruz / Maíra Kesten
Orientação de iluminação: Jorginho de Carvalho
Caracterização: Paula Sholl
Orientação de caracterização: Mona Magalhães
Assessoria teórica: Andrea Santiago / Marina de Assis / Luciana Serpa
Orientação de teoria: Vanessa de Oliveira
Programação visual: Peter Boos
Produção executiva: Andrea Santiago e Maíra Kesten
Direção de produção: Maíra Kestenbergh

Elenco:
Alexandre Vollu
Ana Carolina Leite
Elis Negrão
Fernanda Nascimento
Guggo Morales
Guilherme Stutz
Leonardo Hinckel
Matheus Gomes da Costa
Renato Borges
Samara Pinheiro
Vanessa Garcia

Gozados (RJ)

Foto: divulgação

Puro entretenimento

Gozados” assusta no início pela grande quantidade de palavrões, mas “pega” o espectador quando esse se acostuma com a proposta. O resultado é um programa divertido, cheio de deboche e com excelentes números musicais. Com direção de Stella Miranda e com a própria no elenco ao lado de Luis Salém, a dupla apresenta uma comédia burlesca, parodiando músicas, citando com humor fatos da vida diária na política, na sociedade e na mídia brasileira. Puro entretenimento, a brasilidade está no reforço ao riso a partir das nossas próprias mazelas: a diferença social, o preconceito, o medo da velhice, o sonho da fama, a corrupção, a alienação política. 

Os quadros de stand up comedy são excelentes, sobretudo os de Luis Salém. Seus tempos de comédia são bem usados, bem como as diferentes nuances de tom no jeito de dizer o texto. A expressão facial garante a ironia a partir da articulação de suas possibilidades e o resultado é um ritmo pulsante que, pelo contraste, causa o riso. Stella Miranda tira proveito da sua ótima técnica vocal, força e afinação, responsabilizando pelos melhores momentos musicais. 

Com versões de Aloísio de Abreu e de Luis Salém, “Gozados” apresenta paródias de “Alegria, Alegria” (Caetano Veloso), “Corrente” (Chico Buarque), “Sunny”(Bob Hebb), “Hoje” (União da Ilha) e “Rehab”(Amy Winehouse). Entre os personagens, vemos a Bicha que Entrou no Armário, a Mulher Rica, a Bahiana Cansada, o Stand Up blasé e o Musical Passado. 

Em termos de direção de arte, a produção é cuidadosa. Com figurinos assinados por Victor Dzenk e Isabel Salustiano e cenário que inclui a gravura de d João Sanchez, a direção de arte de Gringo Cardia apresenta uma paleta de cores fortes e contrastantes, oferecendo um ambiente vivamente preenchido. 

O estranhamento inicial é substituído pelo relaxamento. “Gozados”, afinal, apresenta no título a que veio. 

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Ficha Técnica:

Textos e Versões: Luis Salem e Aloisio de Abreu
Direção: Stella Miranda
Com Luis Salém e Stella Miranda
Direção de arte: Gringo Cardia
Gravura: João Sanchez
Programação Visual: Bruno Warchavsky (Meninos)
Direção Musical: André Poyart
Fotografia: Nana Moraes
Desenho de luz: Paulo Cezar Medeiros
Figurinos: Isabel Salustiano
Victor Dzenk veste Stella Miranda
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Elenco e direção de palco: Jota Bruno
Maquiagem: Mayco Soares
Costureira: Severina Rodrigues
Operador de Som: Tom Rocha e Marcelo Felix
Operador de Luz: Mario Junior
Direção de Produção: Luiz Salém e Stella Miranda
Produção Executiva: – Sandro Souza
Assessoria de Imprensa: PAGU Comunicação

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Depois da Queda (RJ)

Foto: divulgação

Com medo de Arthur Miller


“Depois da Queda” é um projeto interessante, porque tem como desafio o cruzamento de três estruturas independentes: o texto, a encenação e o ícone Marilyn Monroe. Escrito pelo norte-americano Arthur Miller, em 1964, a montagem em cartaz no Teatro Glaucio Gill, em Copacabana, Rio de Janeiro, tem direção de Felipe Vidal. No papel de Maggie, está a atriz Simone Spoladore. Infelizmente, a direção de Vidal tirou pouco proveito das possibilidades que hoje o trio tem a oferecer. Mais parecendo duas peças do que uma em dois atos, “Depois da Queda” se arrasta por três horas se equilibrando em momentos bons e ruins, grandes interpretações e em números musicais dispensáveis. 

Arthur Miller (1915-2005) não tem em “After the Fall” seu maior trabalho. Autor de peças como “A morte do caixeiro viajante” e “Panorama Visto da Ponte”, no texto de “Depois da Queda”, há duas confusões diferentes: a) quem é o protagonista? Quentie ou Maggie? b) Considerando o fato de Miller ter sido casado com Marilyn entre 1956 e 1961, tendo esta falecido em 1962 e a peça ter sido escrita em 1964, sabe-se que há forte referência entre Maggie e Marilyn. Mas de que Marilyn o autor trata? Sua esposa ou a grande ícone do cinema ocidental? Desses dois problemas, partem as questões de recepção do texto e, claro, do espetáculo a partir dele que não lhe faz nenhuma alteração dentre as muitas possíveis. O caso lembra “Dorotéia” e Nelson Rodrigues: mesmo um grande dramaturgo pode ser alterado, mas são poucos os corajosos que o fazem. 

No texto, é Quentin o protagonista. Maggie é apenas mais uma dentre as mulheres com quem o anti-herói se relaciona, distanciando-se das demais, porque, a princípio, exige-lhe pouco, mas aproximando-se delas novamente, porque lembra a ele sua incapacidade de se entregar. Palavra ao lado de palavra, Maggie/Marilyn tem mais importância na literatura de Miller apenas porque, de início, faz Quentie se sentir diferente. No palco, os personagens não são feitos de letras negras em fundos brancos, mas têm cor. No teatro, Maggie é a protagonista. 

Produzida pela primeira vez no Brasil há quase cinquenta anos, com Maria Della Costa e por Paulo Autran nos papéis principais, “Depois da Queda” continua, desde sua estreia, interessando apenas porque narra algo similar aos últimos anos da vida de Marilyn Monroe (1926-1962). É sua figura quem está nos cartazes das diversas montagens ao redor do tempo e do mundo, são imagens dela que vemos logo no início da peça dirigida por Vidal, ainda que a personagem Maggie só vá aparecer, de fato, no final do primeiro ato. Uma direção hábil precisaria evidenciar que o ícone Maggie/Marilyn re-hierarquiza os signos da obra, colocando eles em lugares de importância diferentes. Na montagem atual, infelizmente fiel ao texto, de um lado temos um arrastamento das histórias entre Quentie e suas outras mulheres, família e amigos. De outro, temos um arrastamento da história entre Quentie e Maggie, ficando ainda mais pesado pela incursão estranha de números musicais bastante mal interpretados (não há um só ator que cante bem no elenco). Ou seja, tanto no primeiro como no segundo ato, há um esforço desnecessário em contar uma história que acaba por ficar duplamente desinteressante, porque repetitiva. 

Com boas interpretações, sobretudo no elenco masculino, “Depois da Queda” se salva em vários momentos. Um deles é a discussão entre amigos sobre o comunismo, de que participam Leandro Daniel Colombo, José Karini e o protagonista Lucas Gouvêa. Os três, em todos os seus momentos, mas principalmente nesse, apresentam louváveis trabalhos: cheios de força, vigor, masculinidade e de profundidade. No elenco feminino, destacam-se Thaís Tedesco e Simone Spoladore, essa última em uma exuberante interpretação de Marilyn Monroe. Ambas têm fortes participações, representando lados opostos do feminino: a sensualidade em uma e a responsabilidade em outra. 

A montagem atual de “Depois da Queda” também garante saldo positivo nos elementos visuais. O cenário de Aurora dos Campos é rico em potencialidade e oferece vastos recursos ao encenador. O figurino de Flávio Souza, por sua vez, além de marcar uma determinada época, descreve o personagem e colore a narração com elegância. A movimentação do elenco no espaço cênico é pontual e segura dentro da concepção de Vidal de que já se tratou. 

Estando o teatro mais vivo do que é visto em “Depois da Queda”, fica na retina a imagem de Simone Spoladore em um grande momento de sua carreira como atriz. 

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FICHA TÉCNICA

Texto: Arthur Miller
Direção e Tradução: Felipe Vidal

Elenco: Lucas Gouvêa, Simone Spoladore, Gabriela Carneiro da Cunha, José Karini, Paulo Giardini, Thais Tedesco, Leandro Daniel Colombo, Talita Fontes, Paula Tolentino e Luciano Moreira

Cenografia: Aurora dos Campos
Figurino: Flávio Souza
Iluminação: Tomás Ribas
Direção musical: Luciano Moreira e Felipe Vidal
Preparação corporal: Denise Stutz
Direção de produção: João Braune - Fomenta Produções e Daniele Avila Small
Idealização do projeto: Felipe Vidal
Realização: Complexo Duplo e Projéteis Cooperativa Carioca de Empreendedores Culturais

O Desaparecimento do Elefante (RJ)

Foto: divulgação

O vigor do Teatro do Absurdo

Caco Ciocler, Kiko Mascarenhas e, principalmente, Marjorie Estiano brilham em “O Desaparecimento do Elefante”, peça bem dirigida pelas realizadoras Monique Gardenberg e Michele Matalon a partir de cinco contos do romancista japonês Haruki Murakami (1949) escritos ao longo da década de 80. Com um visual de extremo bom gosto, a produção exibe de forma relevante sua habilidade em narrar histórias pela coesão dos diversos elementos cênicos, além da boa interpretação do conjunto de atores. Dentro do universo vigoroso do Teatro do Absurdo, as histórias marcam os desafios do homem contemporâneo, esses expressos no teatro desde Jean Genet (“As criadas, 1947), Eugène Ionesco (“A cantora careca”, 1951), Samuel Beckett (“Esperando Godot”,1953) e, não nos esqueçamos!, desde Qorpo Santo (1829-1883). A peça, que cumpriu temporada no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro, apresenta seus personagens em uma situação de abandono próxima do americano Edward Albee (1928), recentemente encenado com "A Peça do Casamento"e em vias de produção com "Quem tem medo de Virgínia Wolf?" Em “O Desaparecimento do Elefante”, está claro que a visão de mundo expressa é a partir da ausência de lógica ou de leis de causa e efeito. 

Abandonados em uma situação alheia a eles, os personagens, que não chegam a ser vítimas, dão apenas continuidade ao desregramento. O desempregado permanece submisso a sua mulher (“O Pássaro de Cordas”), assim como, na cena seguinte (“O Comunicado do Canguru”), o encarregado de responder às cartas de reclamações dos consumidores (Kiko Mascarenhas), ao se apaixonar por uma das cartas, envia um vídeo confessando o seu amor. Depois, dois jovens recém-casados (Caco Ciocler e Marjorie Estiano), para espantar uma maldição e a própria fome, assaltam uma loja de fast food, sem querer levar dinheiro algum, mas apenas uma grande quantidade de lanches. Por fim, dizendo ser testemunha ocular do caso, um jovem conta a uma jornalista a sua versão do desaparecimento de um elefante de um zoológico abandonado. A única história que destoa do recorte feito por Gardenberg e por Matolon é “Sono”. Nela uma mulher (Maria Luisa Mendonça), que não dorme há dezessete dias, lê o romance “Ana Karenina” e começa a confundir ficção com realidade. O fato (forte) da insônia ser encarada como uma doença afasta essa história das demais. Reconhece-se a causa dos acontecimentos quando veem-se os efeitos. Nisso, a sequência contrasta, pesa, subverte e cansa. Longa, ela parece uma peça dentro da peça, ainda que interpretada e encenada com mesmo valor que as demais. 

Não há más interpretações no elenco, mas há excelentes trabalhos, como é o caso de Marjorie Estiano (A jovem esposa cosplay), de Caco Ciocler (O marido desempregado) e de Kiko Mascarenhas (Como o apaixonado). Fernanda de Freitas tem destaque como a adolescente da sequência inicial e Rafael Primot, num difícil mas valoroso tom monocorde, como o rapaz obcecado pelo elefante desaparecido na sequência final. De um modo geral, as construções são delicadas e divertidas, proporcionando bons momentos ao espectador independente da cena. 

O cenário transparente de Daniela Thomas é lugar ideal para os vídeos de Henrique Martins e de Frederico Machuca, promovendo uma estrutura cheia de espaços a serem preenchidos, movimentados, reinventados ao longo da encenação. Os figurinos de Claudia Kopke e o desenho de luz de Maneco Quinderé são definitivos para a excelência estética já destacada. 

Dentre as muitas metáforas possíveis, sem dúvida, a do elefante que desaparece é uma das mais acessíveis, sendo, positivamente, a última a ser contada. O zoológico foi fechado, todos os animais se foram, e o animal ficou abandonado até que desapareceu, sumindo sem deixar marcas. Murakami, através de Gardenberg e de Matalon, talvez esteja nos dizendo sobre os grandes problemas que, quando esquecidos, deixam de existir. Essa, no entanto, é apenas uma possibilidade de sentido das muitas que esse belo espetáculo tem a oferecer. 

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Ficha técnica:

Contos de Haruki Murakami
Adaptação: Monique Gardenberg
Direção: Monique Gardenberg e Michele Matalon

Com: André Frateschi, Caco Ciocler, Clarissa Kiste, Fernanda de Freitas, Kiko Mascarenhas, Maria Luisa Mendonça, Marjorie Estiano, Rafael Primot e Rodrigo Costa.
Participação Especial: Felipe Abib
Participação Virtual: Jiddu Pinheiro

Cenografia: Daniela Thomas
Figurinos: Claudia Kopke
Iluminação: Maneco Quinderé
Visagismo: Juliana Mendes
Preparação de Movimento: Marcia Rubin
Fotos: André Gardenberg
Imagens e Projeções: Henrique Martins e Frederico Machuca
Assistente de direção: Isabel NessimianProdução executiva: Gabriel Bortolini
Produção: Bianca de Felippes / Gávea Filmes
Co-produção: OZ

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A arte e a maneira de abordar o seu chefe para pedir um aumento (RJ)

Foto: divulgação

A humildade do texto diante da excelência do teatro


            “A arte e a maneira de abordar o seu chefe para pedir um aumento” é tão interessante para quem vê quanto para quem estuda. Enquanto espetáculo, fica o prazer de ver uma excelente interpretação por um dos nossos mais renomados atores, Marco Nanini. Ao seu lado, junto a ele, grandes trabalhos de também grandes artistas: o cenário é de Bia Junqueira, a iluminação é de Beto Bruel e o videografismo é de Batman Zavareze. Enquanto obra, fica o interesse em perceber a fragilidade de um personagem que só existe enquanto figura em uma caminhada narrativa que não termina, mas é meramente interrompida em uma de suas muitas possibilidades. Eis uma palestra que, bem escrita pelo francês Georges Perec (1936-1982), tem sua ironia, seu drama e comicidade, e seu movimento bem dirigido para a cena por Guel Arraes para Nanini. Tão simples em conceito, mas tão complexo em suas minúcias, o resultado é merecedor do sucesso que tem obtido nas duas temporadas já realizadas na capital carioca. 

Marco Nanini tem um trabalho nada menos que excelente. As pausas delicadas, o minucioso olhar, o ritmo dos seus movimentos faciais e corporais, as intenções bem medidas, a retórica em prol dos argumentos do texto e da peça, a dicção perfeita e por aí segue uma lista interminável de detalhes que positivamente podem ser vistos na sua interpretação de “Palestrante”. Sozinho em cena, conversando com o público, o jogo proposto pelo “personagem” é realizado diretamente com a plateia. Alternado pelos intervalos propostos pela distribuição das diversas alternativas que podem surgir quando um funcionário vai ao seu chefe pedir-lhe um aumento, a narrativa se desenvolve. O crescimento, isto é, a curva dramática ascende não por algum fato que aconteça, porque nada acontece, mas porque há a aparente redução das alternativas. É quando o esgotamento do tema parece (repito: parece) se aproximar é que a peça termina, ficando a graciosa sensação de que poderia haver um pouco mais. Interessante é notar que, no caso dessa montagem obviamente, o um pouco mais de que se quer é Nanini/Arraes mais que Perec. 

Para o estudo, fica o interesse pelo personagem. O “Palestrante” não tem nome, não tem passado e nem futuro, nem sonhos, nem desejos inalcançáveis, tampouco relações, contracenas, lugares ou posições que sejam suas. A figura só tem o momento presente e um único objetivo que está sendo alcançado imediatamente: o palestrante quer palestrar e palestra. Logo, onde está ou de onde vem a força que impulsiona a narrativa? Sem enredo no texto, a trama se encontra nas expressões do ator (A) em sua interpretação do personagem (B) ao estabelecer o teatro com a plateia (C). A maestria de Perec está em entender o teatro como algo do ator, fazendo apenas o seu trabalho como bom escritor. E são raros os dramaturgos com essa humildade. 

Auxiliam Nanini no estabelecimento de jogo, o cenário de Bia Junqueira que reforça com elegância o tecnicismo do texto, bem como a iluminação de Bruel, o videografismo de Zavareze e o figurino formal de Antônio Guedes. Tudo isso arregimentado por Guel Arraes resulta em mais um ótimo espetáculo da dupla com Nanini a ser muitas vezes aplaudido! 

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Ficha técnica:

De GEORGES PEREC, tradução: JOSÉ ALMINO
Direção: GUEL ARRAES. Com MARCO NANINI

Cenografia: BIA JUNQUEIRA
Iluminação: BETO BRUEL
Figurinos: ANTONIO GUEDES
Videografismo e Programação Visual: BATMAN ZAVAREZE
Trilha Sonora: BERNA CEPPAS
Direção de Produção: Carolina Tavares
Produção: FERNANDO LIBONATI
Realização: PEQUENA CENTRAL DE PRODUÇÕES ARTÍSTICAS LTDA

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Domésticas (RJ)

Foto: divulgação

Simples na forma e no conteúdo, uma ótima produção


            O que é mais encantador no espetáculo “Domésticas” é a simplicidade com que na forma o conteúdo é expresso. São nada mais que cinco atores (Ana Paula Sant’Anna, Cacau Protasio, Ticiana Passos, Alexandre Lino e Hossen Minussi), sentados sobre uma nuvem de uniformes de domésticas, intercalando trechos de depoimentos reais colhidos no fim dos anos noventa entre empregadas domésticas. O resultado virou um espetáculo teatral em 1998 e, depois, um filme com a assinatura de Fernando Meirelles. Agora, pela primeira vez no Rio de Janeiro, a produção com direção de Bianca Byington cumpriu feliz temporada no Teatro do Sesi e está pronta para ganhar o resto do país. 

Não há movimentação, não há ação dramática. O personagem “empregada doméstica” se multiplica em diversas pessoas, com nomes, histórias, lembranças, sonhos e conformismos diferentes. No palco, está a delícia da retórica, o ato de bem dizer um texto, utilizando apenas a voz, os movimentos faciais, as mãos, as reações. O trabalho de interpretação está na ação do bem dizer mesmo quando se cala. O teatro em “Domésticas” é tão simples quanto sua história, suas personagens, seu tema: dar voz a quem é pouco ouvido, dar luz a quem vive nas sombras, aplaudir quem merece aplausos mais seguidos e em casa mesmo. 

É provável que o destaque principal do elenco seja Cacau Protásio em função do sucesso recente de sua personagem, a empregada Zezé, na novela “Avenida Brasil”. Nota-se, no entanto, a minuciosidade dos seus olhares, a forma como reage ao que os outros dizem, o jeito como “do pouco, essa atriz faz muito”, o que nos permite pensar que, no grupo, ela chama a atenção indiferente de seu trabalho na televisão. Ticiana Passos (substituindo Daniela Fontan), Alexandre Lino e Ana Paula Sant`Ana também apresentam bons trabalhos, embora com um pouco menos de exploração das nuances, mas garantindo um ótimo resultado no todo. Por algum motivo, coube a Hossein Minussi os personagens com textos mais pesados, com pontos de vista mais amargos sobre a vida. Sem deixar ver ironia, suas participações destoam dos demais o que não é de todo ruim, uma vez que, além do riso, a proposta é despertar maior reflexão. O humor negro deste “documentário cênico” está no fato de que o que é dito é apenas representado, isto é, são depoimentos reais, vidas que existem além da narrativa e que sobrevivem hoje através da arte a partir do recorte dramatúrgico feito por Renata Melo e por José Rubens Siqueira. Ouvir as vozes reais nos pequenos intervalos entre-cenas lembra o público sobre essa questão fundamental: interrompendo a catarse e produzindo o distanciamento, “Domésticas” bem entretêm e, sobretudo, faz pensar. 

A direção de Bianca Byington, na orquestração das interpretações, e na estruturação dos figurinos simples e belos de Kika Lopes, do cenário da Espetacular! Produções e Artes (Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faedo) da trilha sonora de Alexandre Elias e da iluminação de Maneco Quinderé, é positiva porque arregimenta os elementos de forma linear e boa. (Geralmente, um ritmo narrativo linear é um péssimo defeito de uma obra. Identificar como positivo esse aspecto aqui é prova de não há fórmulas prontas quando o assunto é teatro.) Como resultado final, está uma homenagem ao ser humano na riqueza de suas diferenças e na distância de suas concorrências. 

(...) “Missão de planta é embelezar e de pedra é ficar parada. Agora missão de gente é mais importante. Minha missão é ser doméstica.” (...) 

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FICHA TÉCNICA

Direção: Bianca Byington
Argumento: Renata Melo
Texto: Renata Melo e José Rubens Siqueira
Elenco: Ana Paula Sant’Anna, Cacau Protasio, Ticiana Passos/Daniela Fontan, Alexandre Lino e Hossen Minussi
Assistente de Direção: Flavio Pardal
Diretor Musical: Alexandre Elias
Iluminação: Maneco Quinderé
Cenário: Espetacular Produções e Artes – Ney Madeira/Dani Vidal/ Pati Faedo
Figurinista: Kika Lopes
Preparação corporal: Giselda Fernandes
Preparador Vocal: Marcelo Nogueira
Direção de Produção: Alexandre Lino e Ana Paula Sant’Anna
Produção Executiva: Andrea Guerra Maio
Assistente de Produção: Denise Lima e Caroline Carvalho
Estagiário de Produção: Vinicius Lucena
Design Gráfico: Guilherme Lopes Moura
Fotógrafo: Mônica Oliveira
Visagismo: Sandra Moscatelly
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Assistente de Assessoria de Imprensa: Bruna Amorim
Assessoria Jurídica: André Siqueira
Coordenação e Idealização do Projeto: Alexandre Lino e Marcelo Nogueira
Realização: CINE TEATRO PRODUÇÕES

Tim Maia (RJ)

Foto: divulgação
A maioridade definitiva do musical brasileiro


            Sucesso. E sucesso merecido. Tiago Abravanel é o homem do ano. Reiner Tenente e Evelyn Castro são duas grandes revelações, Izabella Bicalho e Pedro Lima seguem sendo duas grandes estrelas, Nello Marrese, Paulo César de Medeiros e Rui Cortez mantêm excelentes trabalhos e João Fonseca assina mais um espetáculo nada menos que vibrante. “Tim Maia – Vale Tudo – O Musical” é orgulhosamente um espetáculo musical brasileiro que provavelmente só poderá ser comparado, em tamanho e em importância histórica, a “A Gota d`água” e a “Ópera do Malandro”. 

De um jeito bastante simples, sem grandes números de dança e nem agudos inesquecíveis, com uma banda ao invés de uma orquestra e sem extasiantes caídas e subidas de cenários coloridos, o público simplesmente não vê as duas horas e trinta minutos passarem. A partir de um livro de Nelson Motta, a dramaturgia assinada pelo próprio, é ágil, envolvente, pujante. O texto é engraçado, cheio de ironias, com a crítica, os comentários e a evolução malemolente que caracteriza o musical brasileiro, que é diferente do americano. As “senhoras de Copacabana” riem de piadas sobre maconha e masturbação, os mais jovens identificam o Rei, Elis Regina e o próprio Nelson Motta, personagem na peça escrita por ele. As músicas de Tim Maia (1942-1998) são cantadas por todos, embevecidos pelo carisma excepcional (mas não estranho) de Abravanel, neto de Silvio Santos, que pode até não ser um exímio cantor e tampouco intérprete, mas segura a atenção do público com habilidade extrema. O que, talvez, falte-lhe em técnica, sobra-lhe em talento, prova de que os dois existem e são tão importantes em igual medida. 

Depois do protagonista, o destaque mais do que especial será injusto se não cair sobre Izabella Bicalho (Elis Regina), Pedro Lima (o pai) e Nello Marrese. O trio acumulou até agora longos e importantes currículos na história atual do teatro carioca, mas estrela que é estrela brilha até durante o dia. Em papéis coadjuvantes aqui, Bicalho e Lima são responsáveis por grandes momentos do espetáculo, conferindo a ele, além de elegância, a força que faltaria sem suas presenças. Por sua vez, Marrese sabe que, no ritmo vertiginoso da narrativa de Motta, é a iluminação de Paulo César de Medeiros e os figurinos de Rui Cortez quem se sobressaltam positivamente. Mesmo assim, em pequenos detalhes, em aparições minúsculas, o cenógrafo marca sua passagem com uma criatividade essencial. 

Evelyn Castro (a mãe), Lilian Valeska (Janete) e Reiner Tenente (Roberto Carlos e Nelson Motta) completam o coro de destaques de “Tim Maia”. À vontade nos papéis, trazem graça, leveza e profundidade para o espetáculo, contribuindo positivamente para torná-lo o sucesso que ele tem sido. 

João Fonseca, que assina desde grandes produções como o futuro “Rock `n Rio – O Musical”, até comédias mais banais como “Razões para ser bonita”, passando por espetáculos densos como “Não sobre rouxinóis” e polêmicos como “O Casamento”, tem aqui um dos seus melhores trabalhos. As cenas são curtas e a articulação é inaparente, a evolução é progressiva e o jogo se estabelece de forma a alimentar a vontade do espectador ávido por novidades e mais novidades, satisfazendo-o a contento. A direção musical de Alexandre Elias segue positivamente o mesmo padrão, manifestando a integração necessária entre música e encenação que se espera de uma produção como essa. 

Visto já por mais de 200 mil pessoas, “Tim Maia – Vale Tudo – O Musical” é a maioridade definitiva do musical brasileiro, esse já emancipado pelas grandiosas e não menos exitosas produções brasileiras de clássicos ingleses e americanos e habilitado com a recente volta de revistas musicais aos palcos do país. No ano em que Tim Maia completaria 70 anos, eis aqui uma mais que justa homenagem do teatro à música e à cultura popular de volta a capital carioca em cartaz no mais que especial Theatro Net Rio

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Ficha técnica

Texto: Nelson Motta
Direção: João Fonseca

Elenco:
Tiago Abravanel/Danilo de Moura
Isabella Bicalho, Lilian Valeska, Pedro Lima, Andreh Vieri, Bernardo La Roque, Reiner Tenente, Evelyn Castro, Pablo Ascoli, Aline Wirley e Leticia Pedroza

Figurinos: Rui Cortez
Iluminação: Paulo César Medeiros
Ensaiador vocal: Paulinho Medeiros
Direção musical: Alexandre Elias

Músicos:
Violão e voz: Fernanda Dias
Violão, teclado e vocal: Henrique Torres
Contra-baixo, violão, banjo e vocal: Zé Siqueira
Bateria e vocal: Bruno Sotil

Coreografias: Sueli GuerraFigurinos: Rui Cortez
Fotos de Paula Kossatz
Cenário de Nello Marrese
Programação visual: Milton Menezes
Produção: Chaim Produções
Produção executiva: Joana Motta

sábado, 24 de novembro de 2012

Perto do Coração Selvagem (RJ)

Foto: divulgação

Embora sem força, um convite a Clarice Lispector


            Ao contrário do que diz o programa, não está em Clarice Lispector (1920-1977) a dificuldade de assistir ao espetáculo “Perto do Coração Selvagem”, dirigido por Luis Artur Nunes. O complicado ali é a má interpretação de Fernanda Thuran para a personagem Joana. O livro, o primeiro de Clarice, publicado em 1943, é um referencial na literatura brasileira por inaugurar no modernismo o neo-realismo, a prosa instrospectiva, subjetiva, distante do regionalismo vigente na época (Guimarães Rosa, Erico Verissimo, Jorge Amado). Trazê-lo para o palco, e encenado com narradores falando em terceira pessoa, a rapsódia marcante das peças dirigidas por Nunes, é um ponto positivo relevante da peça. A questão negativa, entre outras, é que a fala monocorde e o rosto sem expressão com os quais Thuran dá vida para Joana faz com que a personagem mais pareça Macabéia (de “A Hora da Estrela”) do que propriamente Joana. Nela, o ritmo do espetáculo cai, permanecendo sem curvas e, a partir daí, sem força que empurre a dramaturgia para o fim. Como um todo, a peça funciona porque a salvam a direção ágil de Nunes e outros bons trabalhos do elenco. 

Das cortinas aos objetos do cenário e peças do figurino de Teca Fichinski, o vermelho se sobrepõe de forma negativamente inexplicável (assim como foi o verde em “A Moringa Quebrada”), reduzindo o sarcasmo, o veneno, a crueldade fria e livre com que, a partir de Joana, o leitor do romance e da peça vê os demais personagens e as situações. Quanto às interpretações, as construções, de um modo geral, não expressam o que está claro na novela literária: a selvageria de Joana é nada mais que um escudo utilizado por ela para se proteger do mundo que é mais cruel do que seus olhos o veem. Destacam-se positivamente as interpretações de Andréa Couto e de Alexandre Bordalho, porque sóbrias, realistas, com boas pausas, marcas de verdade que aproximam o espectador não só da peça como de Clarice. Iuri Saraiva, já elogiado na análise de “Homens”, nessa produção, com alguns momentos de exceção não apresenta bom trabalho, porque fleumático demais, cheio de trejeitos e partituras corpo-faciais expostas. 

Luis Artur Nunes é um dos grandes nomes do teatro brasileiro, tanto como pesquisador, como artista. Sua direção é marcante, isto é, sabemos quando uma peça tem sua assinatura sem precisar ler o programa (nesse ponto, estando próximo de João Fonseca, João Falcão, Gabriel Villela, Felipe Hirsh, Cibele Forjaz, Zé Celso, Luciano Alabarse, entre outros). Em “Perto do Coração Selvagem”, vemos como a dramaturgia é manipulada de forma a encenar o romance e não um texto dramático. Os atores se dividem e proporcionam um jogo em que são visíveis o momento da narração e o da representação, esses pautados pela mudança de cenários e de figurinos, pelas alterações na iluminação de Luiz Paulo Nenen (sem destaque, mas adequada) e, sobretudo, pela movimentação criativa em que os quadros se formam. 

No próximo ano, o romance “Perto do Coração Selvagem”, escrito quando Clarice tinha apenas 23 anos, completa sete décadas. Apesar dos entraves, o espetáculo em cartaz no Shopping da Gávea, é um bom convite para descobrir Clarice ou conviver um pouco mais com seu universo ainda tão atual e enriquecedor. 

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Ficha técnica:




Direção e Dramaturgia
Luís Artur Nunes

Elenco:
Fernanda Thuran
Klaís Bicalho
Monique Franco

Atores convidados
Andrea Couto
Iuri Saraiva
Alexandre Bordallo

Cenário e Figurino:
Teca Fichinski

Iluminação:
Luiz Paulo Nenen

Trilha Sonora
Pedro Veríssimo

Direção de Movimento:
Ana Bevilacqua

Preparação Vocal:
Jaqueline Priston

Assistente de direção:
Daniel Granieri

Direção de produção:
Lucia Regina Souza

Produtores Associados
Grupo Quatro Pontas
Caravana Produções