segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Farnese da Saudade (RJ)

Foto: Rodrigo Castro

Casamento bem feito: Farnese de Andrade e o teatro

Farnese da Saudade” tem ganhado merecidos elogios porque é aquilo que quer ser: um “espetáculo instalação”. Leia-se nisso a vontade da obra de ser, sim, teatro, mas um tipo de encenação em que a sensorialidade pesa mais que a narrativa. De fato, na cena dirigida por Celina Sodré e interpretada por Vandré Silveira, o visual do cenário e do figurino, da iluminação de Renato Machado, da trilha sonora e da movimentação contam bem mais do que o texto dito em cena. Importa, assim, menos a história do artista plástico mineiro Farnese de Andrade (1926-1996) e muito mais a sua obra, a sonoridade de seus objetos, esses justapostos de forma a expressar as marcas do homem, do tempo, da simples passagem. 

Indicado a prêmios, o cenário é uma instalação de ferro em formato de cruz criada pelo ator Vandré Silveira, inspirada na obra de Andrade, mas com influências da obra Passage Dangereux (1997), de Louise Bourgeois. Dentro dessa espécie de “gaiola”, pairam objetos referentes ao repertório plástico de Farnese de Andrade, incluindo o próprio ator, cujo figurino e maquiagem, com uma pintura de Antônio Sodré Schreiber, é também parte desse visual. A fruição é melhor quando, esquecido o texto, a atenção é posta na evolução dos lugares em que cada objeto é posto e reposto. 

Infelizmente, a dramaturgia é cambaleante: de trechos de depoimentos de Andrade, o texto vai para orações em latim, num movimento regular, monótono e cansativo. Com ótima dicção e voz afinada, Silveira interpreta bem e consegue tirar bom resultado, fruto de grande esforço. Os melhores momentos estão no final quando, liberto da gaiola, a encenação se recria e oferece algo novo espectador. Nesse momento, o ator, bastante próximo do público, deixa ver sua entrega, sua emoção e faz da plateia uma especial audiência para o seu espetáculo. 

Fruto de uma pesquisa de cinco anos, “Farnese da Saudade” é um projeto meritoso pelo intento e pelo resultado que celebra a vida e, de forma especial, a obra de um grande artista brasileiro não tão conhecido como deveria. O teatro aqui é uma forma bem usada de dar a ver o fluxo imagético de Farnese de Andrade. O ponto alto é o desafio árduo mas vencido de mostrar sem espetacularizar, tornar teatro sem se tornar os objetos mera ilustração de uma biografia, trazer as obras sem tirá-las de todo da sua origem primeira: as artes visuais. Um espetáculo-instalação que deve ser visto e aplaudido. 


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FICHA TÉCNICA

Com Vandré Silveira
Direção e Figurino: Celina Sodré
Assistente de Direção: Tuini Bitencourt
Texto: Dramaturgia coletiva, a partir de fragmentos de matérias e manuscritos de Farnese de Andrade e depoimentos extraídos do curta “Farnese”, de Olívio Tavares de Araújo.
Instalação cênica: Vandré Silveira
Iluminação: Renato Machado
Pintura artística (cabeça e camisa): Antonio Sodré Schreiber
Vídeo: Pedro Sodré (Copa Filmes)
Fotografia de cena: Rodrigo Castro
Direção de Produção: Davi de Carvalho
Cenotécnico: Felício Alves (Companhia Cenográfica-BH/MG) e Hélio Lopes Barcelos
Realização: Travessia Produções Artísticas
Apoio: Instituto do Ator/Studio Stanislavski 

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