sexta-feira, 26 de outubro de 2012

A Revista do Ano - O Olimpo Carioca (RJ)

Foto: divulgação

O melhor espetáculo musical do ano


           “A Revista do Ano – O Olimpo Carioca” é o melhor espetáculo musical do ano no Rio de Janeiro. É engraçado e ágil, faz uma crítica oportuna, tem excelentes intérpretes, grandes cantores e um figurino belíssimo. É puro divertimento para toda a família e uma produção que honra o país, a sua cultura e sobretudo faz jus ao público de teatro da Cidade Maravilhosa. Com supervisão de João Fonseca, a peça tem direção de Sérgio Módena, direção musical de Marcos Pereira e dramaturgia de Tânia Brandão. Em cartaz no Teatro Clara Nunes, do Shopping da Gávea, eis aí um programa imperdível e uma pauta obrigatória. Enfim, o verdadeiro Teatro Brasileiro aparece com toda a sua potência e dignidade. Que seja bem-vindo com as plateias cheias que ele merece. 

Uma “revista” é , antes de tudo, uma revisão dos fatos mais importantes que marcaram o ano. Com uma história tola, cujo único objetivo é ser base de ligação para os fatos revisitados, a narrativa deve correr veloz como o ritmo da comédia assim o pede. Músicas conhecidas do universo popular ganham novas letras, ratificando o tom da crítica ácida. Em todos os elementos de sua estrutura devem pairar, eis a brasilidade que separa a comédia burlesca americana da revista brasileira, a malícia, a chanchada, o apelo sensual e o tom pessimista sempre ricamente embalado em uma terna declaração de amor ao país. “A Revista do Ano – O Olimpo Carioca” tem tudo isso e partem daí os motivos para os elogios que abriram a análise. 

Fugindo do Olimpo, os deuses Hefaísto e Dionísio (Rogério Freitas e Alcemar Vieira) e a musa Labareda (Helga Nemeczyk) escolhem a capital carioca para morar, lugar onde também faz calor, mas onde o povo não se importa muito com isso. Tão logo chegam, se perdem, pois Hefaísto (Freitas) acaba indo parar no subúrbio, enquanto Dionísio e Labareda (Vieira e Nemeczyk) o procuram na zona sul. A trama é lugar potente para o encontro de vários personagens. Aparecem a República (Stela Maria Rodrigues) e o Brasil (Celso André), tomando banho de sol nas areias de Copacabana; o Escândalo (Milton Filho), sempre de olho nos acontecimentos mais vendáveis; além da Lei Seca (Vera Novello), constantemente de olho nos pontos da carteira, inclusive quando o veículo em questão é uma bicicleta laranja. Em busca de Hefaísto, Dionísio e Labareda se encontram também com o agradecido Mosquito da Dengue e a chorosa Perimetral (Cilene Guedes, substituindo Ana Carbatti), com o rejuvenescido Micróbio da Gripe e a legalizada Cidade do Samba (Marta Metzler), com os índios do Rio+20 e com o FDP – Futuro Do Prefeito (Édio Nunes), e com a Colombiana preocupada em decorar as novas regras da sustentabilidade (Ana Velloso). Tudo isso, em meio às explosões de bueiros, às marchas de todos os tipos, à revitalização do Cais do Porto e da Lapa e aos discursos políticos. Recheada com números musicais, as cenas são rápidas e divertidas, as canções bem interpretadas e executadas ao vivo por um conjunto de sete músicos (Itamar Assiere, Nando Duarte, Ricardo Rente, Humberto Araújo, Pedro Mann, Carlos César Motta e Firmino). O malandro carioca e o misticismo religioso, marcas identitárias desse povo amado pelo país, está presente nas devidas pompas e circunstâncias. 

Assistido por Erika Riba, Sérgio Módena tem o mérito de construir um espetáculo em que o grupo tenha destaque como um todo, mesmo que alguns chamem mais a atenção positivamente. Rogério Freitas, mas sobretudo Helga Nemeczyk e e Alcemar Vieira estão excelentes nos papéis protagonistas. Ana Velloso (Colombiana), Édio Nunes (Cais do Porto) e principalmente Milton Filho (Escândalo) se destacam também. Não há uma só participação negativa no grupo que teve vital direção de movimento e ágeis coreografias assinadas por Sueli Guerra. 

Com bom cenário e desenho de luz, o espetáculo tem como grande valor a concepção dos figurinos de Ronald Teixeira e de Flávio Graff. Em uma narrativa cujos personagens são figuras representativas (a Perimetral a ser demolida, a Cidade do Samba e sua relação com o jogo do bicho, Copacabana e seus moradores idosos, além do número de abertura no Olimpo), as roupas, além de apresentar rapidamente o personagem, precisam corroborar com o todo também estabelecendo a crítica. A dupla Teixeira e Graff atinge o alvo em cheio, oferecendo um belíssimo trabalho. 

Idealizado por Marta Metzler e por Marco Pereira, “A Revista do Ano – O Olimpo Carioca” é uma declaração de amor ao Teatro Brasileiro com letras maiúsculas de galhardia. Vida longa ao melhor espetáculo musical do ano! 

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FICHA TÉCNICA

Dramaturgia e Roteiro Musical: Tania Brandão
Direção: Sérgio Módena
Direção Musical: Marco Pereira
Supervisão: João Fonseca

Elenco:
Helga Nemeczyk - Mulher Labareda
Alcemar Vieira - Dionísio
Rogério Freitas - Hefaísto
Ana Carbatti - Yabá Neuza / Assessora / Mosquita da Dengue / Índia / Teatro Carlos Gomes / Perimetral
Ana Velloso - Filha de Santo / Político / Dona de Casa (Rio +20) / Lapa / Bueiro da Laite / Dinheiro da Merenda
Marta Metzler - Filha de Santo / Assessora / Microbio da Gripe / Espaço Sesc / Imprensa / Cidade do Samba
Stella Maria Rodrigues - República / Teatro Clara Nunes
Vera Novello - Estudante / Lei Seca / Vovó Copacabana / Político / Índio / Bueiro da Segue / Dinheiro da Mala
Celso Andre - Miliciano / Brasil / Teatro Municipal
Édio Nunes - Miliciano / Concierge / Cacique / Bandido / Futuro do Prefeito / Cais do Porto
Milton Filho - Escândalo / Bandido / Dinheiro na Cueca

Ator Convidado:
Marcelo Capobiango - Político / Povo / Índio / Bombeiro / Passeata / Hefaísto (stand in)

Elenco / Stand In:
Cilene Guedes - Musa do Olimpo / Estudante / Mulher da Praia
Mona Villardo - Musa do Olimpo / Estudante / Cantora Lírica / Passeata
Thiago Pach - Político / Índio / Bombeiro / Passeata

Músicos:
Itamar Assieri (piano)
Pedro Mann (baixo)
Carlos Cesar Motta (bateria)
Nando Duarte (violão)
Firmino (percussão)
Ricardo Rente (flauta em dó / sax alto e sax soprano)
Humberto Araújo (flauta em dó / flauta em sol e sax tenor)

Cenários e Figurinos: Ronald Teixeira e Flávio Graff
Direção de Movimento e Coreografia: Suely Guerra
Iluminação: Renato Machado
Preparação Vocal: Debora Garcia
Fotos: Eduardo Alonso
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

Razões para ser bonita (SP)

Foto: Caio Gallucci

Com boa vontade, um bom espetáculo surgindo


            “Razões para ser bonita” é a nova comédia de Ingrid Guimarães depois do sucesso de “Cócegas”. O êxito da atriz é o mesmo, ou , talvez, maior, exibindo grande talento e técnica através da exposição de sua força enquanto intérprete e do bom uso de suas expressões e pausas. Ao lado do ator Gustavo Machado, sob a heroica direção de João Fonseca, é quando se veem os bons momentos da peça, cujo texto do americano Neil LaBute (ou adaptação de Susana Garcia) é recheado de muitas partes mal construídas. Não fosse Ingrid, Gustavo e João, teríamos, sem dúvida, um grande fracasso. Felizmente, os temos e o resultado, com boa vontade, não é negativo. 

O tema anunciado é a obsessão pela beleza. Steph (Ingrid Guimarães) é casada há quatro anos com Greg (Gustavo Machado), colega de trabalho de Leo (Marcelo Faria), cuja esposa Carla (Aline Fanju) é a melhor amiga de Steph. Um dia, numa conversa casual, Greg comenta com Leo que acha o rosto de sua esposa comum. Através de Carla, que escutou o comentário, a informação chega rapidamente aos ouvidos de Steph. A peça abre com a briga de Steph com seu marido Greg por causa disso. O casal chega a vias de se separar, pois Steph não consegue conviver com a certeza de que Greg não a ache bonita. A situação criada por LaBute é simples e potente. Steph diz impropérios para Greg motivada pela raiva e todo esse sentimento ruim não é páreo para o despretensioso comentário dele para um amigo em função do peso da verdade que havia ali. Positivamente, porque de forma bem clara, o tema da importância beleza abre a narrativa, colocando o espectador em estado de atenção. Com excelentes interpretações de Guimarães e de Machado, o jogo inicial se estabelece em plenitude com tensão e graça, reflexão e entretenimento. 

A partir da segunda cena, no entanto, “Razões para ser bonita” não se apresenta como uma boa narração e tampouco se configura como uma dissertação bem escrita. Na sequência entre os colegas Léo e Greg, apesar de uma menção quanto a importância de manter a saúde e o corpo em forma, o que corrobora com o tema da beleza, o diálogo começa e se aprofunda sobre as diferenças entre os homens e as mulheres. O tema batido, cansativo, superficial e cafona começa a imperar negativamente, apresentando, a partir daí, personagens com concepções divergentes. Enquanto Steph e Carla (Aline Fanju) sofrem em relação à importância da beleza, Greg se mostra como desapegado de tudo isso e interessado em continuar vivendo um bom casamento ao lado do amor de sua vida. De forma oposta e estranha, Leo é o personagem ligado unicamente a sexo e ao puro prazer, desperdiçando negativamente uma possível ligação ao narcisismo, o que poderia aproximá-lo do tema central. A terceira cena é uma exata repetição da primeira e, na quarta, já não há muito para ser apresentado. O final é previsível e, de novo, só não é pior em função das boas interpretações e de uma direção cuidadosa. 

Marcelo Faria repete o personagem que a TV lhe consagrou: o cara bonito, malandro, conquistador e superficial. Como esperado, pela ausência de desafios, a performance está a contento. Aline Fanju, que dá a vida a bela Carla, defende com fragilidade a sua personagem, ficando infelizmente muito aquém de Ingrid Guimarães. O ideal, que não aconteceu na sessão de estreia carioca, mas poderá acontecer na continuidade da temporada, seria que a mesma força, que age em sentidos opostos, tivesse a mesma intensidade. 

Os figurinos de Antônio Medeiros são positivamente óbvios, mas se esquivam de trazer o “a mais” que a iluminação de Daniela Sanchez e o cenário de Fernando Melo da Costa trazem. São elogiáveis as placas transparentes que oferecem possibilidades ricas de sentido com as palavras “Por que”, “Sexo”, “Comum” e “Espelho”. João Fonseca, com maestria, aproveita a possibilidade e aprofunda a reflexão usando bem esses elementos. No mesmo sentido, a iluminação de madrugada cria um ambiente silencioso e não menos pantanoso para as conversas que nessa hora da noite acontecem. A trilha sonora de Ricardo Leão age em total parceria com o ritmo imposto à encenação por João Fonseca. 

“Razões para ser bonita”, em cartaz no Teatro dos 4, do Shopping da Gávea, no Rio de Janeiro, estreou em São Paulo em setembro último. Trata-se de uma peça de entretenimento disposta a fazer rir, emocionar e refletir. Apesar dos percalços, evidentes na narração de uma história frágil e na dissertação superficial de um tema importante, é possível em função dos méritos ver aí um bom espetáculo surgindo. 


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Ficha Técnica:

Texto: Neil LaBute
Direção: João Fonseca
Tradução e Adaptação: Susana Garcia
Elenco: Ingrid Guimarães, Marcelo Faria, Gustavo Machado, e Aline Fanju
Iluminação: Daniela Sanchez
Cenário: Fernando Mello da Costa
Figurinos: Antonio Medeiros
Produção musical: Ricardo Leão
Programação Visual: Rene Machado
Fotos Estúdio: Nana Moraes
Preparação vocal: Rose Goncalves
Designer de lutas: Dani Hu

terça-feira, 23 de outubro de 2012

Barco de Papel (RJ)

Foto: Rodrigo Castro

Ótimo texto em encenação nem tanto

Escrito por Maria Mariana, autora de “Confissões de Adolescente”, o texto da peça “Barco de Papel”, em cartaz na sala Rogério Cardoso da Casa de Cultura Laura Alvim, é um dos melhores exemplos de boa dramaturgia para monólogos do ano teatral carioca. O tema é a vida (da mulher) aos 40 anos quando, em alto mar, o barco já não consegue ver a margem de origem, mas ainda tem muita água pra navegar. Inteligente, ágil, simples e potente, o universo dramatúrgico dá conta de apresentar positivamente uma personagem banal a partir de um olhar bem profundo. Além do texto, no entanto, o espetáculo não oferece para o espectador os mesmos ganhos. Sem bom ritmo, após a primeira cena, o espaço cênico está poluído e poucas alternativas restam a quem começa, a partir daí, a sentir o tempo se alargar. Sem muito além para se ver, fica o teatro de joelhos diante de uma boa literatura. “Barco de Papel” tem direção e interpretação, além das concepções de cenário e figurino, sob a mesma assinatura da dramaturgia. 

Ao oferecer um ponto de vista diferente sobre algo que é comum através de uma história bem estruturada, coesa e coerente, Maria Mariana compartilha aberta e carinhosamente de si de uma forma bastante poética. Um barco está em alto mar. Para seguir viagem, é preciso que ele esteja leve e, para tanto, espaços vazios deverão surgir. É quando algumas forças começam a aparecer. Vera, a mulher sedutora; Maria Gilda, a jovem escritora; Diana, a maternal; e Marta, a espiritualista, pouco a pouco, vão se deixando conhecer e abrindo mão da viagem nesse barco que já não carece mais de suas presenças. É bonito contemplar (e identificar-se) com as várias pessoas que habitam uma única mulher, vê-las apresentarem-se e, depois, com certa dificuldade, partirem. Na vida coberta de novidades constantes, o texto contemporâneo se torna metáfora para a necessidade do desapego, essencial para não se perder o equilíbrio. Como há 20 anos, Maria Mariana, que outrora fez sucesso nacional falando de seus embates enquanto adolescente, agora, mais uma vez, merece louros por falar habilmente do princípio da meia idade. 

Falta em “Barco de Papel” um olhar mais delicado sobre os demais elementos que constroem a espetacularidade além do texto. No palco, pairam papéis espalhados, rasgados e amassados, que preenchem o espaço inteiro logo nos primeiros minutos da narrativa, pesando a imagem e fazendo negativamente cair o ritmo. Sobra para a intérprete explorar apenas o corpo e a voz, o que não é feito em profundidade. As figuras (Vera, Maria Gilda, Marta e Diana) são construídas superficialmente, com sutil alternância no registro vocal e um pobre novo desenho de corpo. A movimentação é simples, o iluminação de Fred Eça é óbvia, a trilha sonora é sem grandes momentos, o figurino é básico. Há pouco para se ver, um pouco que é discordante com o que se ouve. 

Coberto de frases impactantes que causam boas reflexões, “Barco de Papel” carece de imagens (cênicas) que sustentem o discurso verbal, oxigenando as velas do espetáculo e fazendo esse “barco” seguir viagem. Fica o mérito de um grande texto de uma grande autora novamente bem-vinda ao seu posto, lugar de onde ela, de fato, nunca deveria ter saído. 

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FICHA TÉCNICA

Texto, direção, atuação, cenário e figurino: Maria Mariana
Supervisão de direção: Domingos Oliveira
Supervisão de cenografia: Fernando Mello da Costa
Supervisão de figurino: Priscila Rozembaum.
Luz: Fred Eça
Produção: André Pessanha
Supervisão de produção: Fernando Gomes
Fotografia: André Valentim
Programação visual: Carlos Paiva

domingo, 21 de outubro de 2012

Coisas que a gente não vê (RJ)

Foto: Renato Mangolin

Um emocionante espetáculo sobre o carinho

“Coisas que a gente não vê” é um excelente espetáculo porque atinge em cheio o alvo, isto é, encara o lado adulto que existe no interior de cada criança. A capacidade, um tanto quanto cruel, da criança de ter que lidar com a solidão, com a rejeição, com a solução dos problemas de relacionamento, com a carência de afeto, desafios esses que parecem estar cada vez mais no dia a dia da infância infelizmente, são o tema da produção que tem Débora Lamm e Kelzy Ecard liderando o ótimo trabalho de interpretação de todos no elenco. Escrito por Renata Mizrahi (Prêmio Zilka Salaberry com “Joaquim e as Estrelas”) e dirigido por Joana Lebreiro (“Meu Caro Amigo”), o espetáculo tem lindas músicas originais de Bruno Alexander e ótima direção musical de Igor Araújo. Em cartaz agora no Sesc Arena Copacabana, mas, em novembro de 2012, no Solar de Botafogo, a produção carioca merece destaque na programação cultural das famílias e de pessoas de todas as idades interessadas em bom teatro.

A peça conta a história de Yasmim (Débora Lamm), uma menina que tem tudo o que quer, mas que não consegue parar de chorar. Sem entender o motivo de tanta choradeira, seus pais, Clara (Kelzy Ecard) e Manoel (Alexandre Moffati), exibem de forma inconsciente o desconhecimento de algo tão sublime: a importância do carinho como expressão maior do afeto. Dividida entre seus dois amigos, Beatriz (Angela Bellonia, substituindo Elisa Pinheiro), menina rica e mimada, que vive preocupada com as aparências, e Raimundo (Anderson Cunha), garoto simples e cheio de vida que gosta de brincar na rua, Yasmin se vê terrivelmente só em seu quarto em pleno domingo de sol. Muitos brinquedos, roupas bonitas e doces à vontade não são o bastante para preencher sua vida ainda tão jovem. Com uma excelente direção de movimento de Sueli Guerra, Joana Lebreiro dá vida a essa história colorida, mas não menos densa. A narrativa, em perfeita ascensão, age no sentido de ir cada vez mais positivamente direto ao ponto: é preciso encarar o problema ao invés de continuar fugindo dele. Tão jovem, Yasmin tem força para mostrar para a plateia de todas as origens e idades um belo exemplo de coragem. 

As interpretações são exitosas em todos os exemplos de forma afinada e sem destaques porque todos se destacam em conjunto. Deve-se apenas chamar a atenção para o trabalho de Débora Lamm, porque ela, recentemente, interpretou Isadora, uma outra personagem também menina no espetáculo “Os Mamutes”, dirigido por Inez Vianna, da Cia. OMondé. Correndo o risco de repetir a performance, a atriz vence o desafio e oferece uma figura completamente diferente, mas de novo com ótimo resultado. 

O texto rimado de Renata Mizrahi guarda na forma o lugar do lúdico que falta no conteúdo de matriz tão profunda, mas tratado de forma tão delicada e humana. As canções interpretadas por Felipe Ridolfi e por Marcelo Rezende, por sua vez, oferecem o respiro para o espectador que ganha aí o tempo de que precisa para fazer a catarse e se deixar embalar pela história cenicamente contada. Os figurinos e os objetos de cena de Ney Madeira, Dani Vidal e de Pati Faedo são boas menções no espaço cênico, ilustrando, mas também oferendo possibilidades de jogo, sem poluir ou pesar. A iluminação de Aurélio de Simoni age em harmonia com o ritmo e sobretudo com o espaço onde a história se dá a ver. 

O bom teatro infantil é sempre aquele é feito para as crianças que vivem dentro dos adultos simplesmente porque é difícil, impossível até, saber ao certo o que se passa esteticamente na cabeça de uma criança para se prever o que, na opinião dela, realmente é bom ou ruim enquanto objeto de arte. “Coisas que a gente não vê”, em forma e em conteúdo, é, por isso, uma produção que emociona e faz refletir digna de muitos elogios. Aplausos! 


FICHA TÉCNICA
Idealização e Texto: Renata Mizrahi
Direção: Joana Lebreiro
Elenco: Debora Lamm, Elisa Pinheiro, Kelzy Ecard, Alexandre Mofati e Anderson Cunha
Músicas Originais: Renata Mizrahi e Bruno Alexander
Arranjos: Igor Araújo, Felipe Ridolfi e Marcelo Rezende
Direção Musical: Igor Araújo
Assistente de Direção: Nathália Melo
Músicos de cena: Felipe Ridolfi e Marcelo Rezende
Iluminação: Aurélio de Simoni
Equipe de Cenário e Figurino: Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faedo
Direção de Movimento: Sueli Guerra
Assistente de Movimento: Priscila Vidca
Preparação Vocal: Pedro Lima
Projeto Visual: Letícia Rumjanek
Assessoria de Imprensa: Daniela Cavalcanti
Assistente de Produção: Marcelo Pires
Produção Executiva: Amanda Lima
Direção de Produção: Maria Alice Silvério Lima
Coordenação Administrativa: Alan Isidio
Patrocínios: Eletrobrás Furnas e Prêmio Montagem Cênica

Ensina-me a viver (RJ)

Foto: Marco Antônio Gambôa 

É preciso assistir e assistir de novo

Ensina-me a viver” encerra agora sua última temporada de sucesso depois de exatos cinco anos da estreia. Com direção de João Falcão, a peça é a adaptação para teatro feita pelo australiano Collin Higgins (1941-1988), autor do roteiro do filme que antecedeu a versão teatral chamado “Harold and Maude”. Glória Menezes, que completou 78 anos de vida e 53 anos de carreira no palco no dia da reestreia, interpreta Maude ao lado do ator e produtor Arlindo Lopes, que dá vida a Harold. Sucesso de público e de crítica, a produção já ganhou 4 prêmios Qualidade Brasil (Melhor Espetáculo Drama, Melhor Diretor, Atriz e Ator Drama), o Prêmio Contigo de Melhor Atriz para Glória Menezes e o de Melhor Produção no Prêmio APTR de Teatro em que foi recordista de indicações. De volta a cartaz, é um dos melhores espetáculos na programação teatral carioca, fazendo parte da reinauguração do belo Centro Cultural João Nogueira – Teatro Imperator, no Méier, zona norte do Rio de Janeiro. 

A narrativa é contada de um jeito ágil, jovial alegre em termos de ritmo ao mesmo tempo que os elementos visuais ilustram positivamente o clima dark do personagem Harold, que conduz a narrativa. Sensível, inteligente e rico, Harold, 20 anos, não conheceu o pai, convivendo apenas com a mãe (Ilana Kaplan), essa indiferente e autoritária. Porque a relação entre os dois é desprovida de qualquer contato afetuoso, o atormentado Harold tenta chamar a atenção da mãe simulando tragicômicas tentativas de suicídio, enquanto se diverte frequentando velórios e enterros de pessoas desconhecidas. Num deles, conhece a quase octogenária Maude. Ao contrário de Harold, Maude tem uma paixão incomparável pela vida, aproveitando cada segundo de sua existência como se fosse o último. O contato entre esses dois não poderia ser mais inusitado e improvável, modificando definitivamente a vida e a morte da dupla. Maude, cheia de alegria e positividade, ensina ao deslocado Harold os prazeres da vida e da liberdade. Harold presenteia Maude com um fim pra lá de especial. Collin Higgins faz rir e faz emocionar, proporcionando reflexão e entretenimento de altíssima qualidade. A direção de João Falcão age positivamente no mesmo sentido. 

A encenação é vibrante, inteligente e nobre. As cenas são rápidas, o ritmo corre na medida certa, as trocas de cenário, caraterizadas não apenas pela mudança do excelente desenho de luz de Renato Machado, mas pela “dança” das bambolinas (pernas serlianas, coxias), são feitas pelo ótimo elenco de apoio, formado por Verônica Valentim, Guilherme Siman, Walisson de Souza e Jamil Pedro. Assistido por Duda Maia, João Falcão dirigiu o elenco em duas concepções que garantem positivamente a narrativa em termos de forma, mas também de conteúdo. De um lado, temos Menezes e Lopes com interpretações realistas. De outro, Ilana Kaplan, Antônio Fragoso (Tio Vitor, Dr. Matias, Padre Finney, Inspetor Marcos e Caçapa ) e Elisa Pinheiro (Silvia Gazela, Nancy e Dora Alegria) sustentam construções que garantem o lado cômico da história com muita graça e carisma. Enquanto Maude e Harold estão interessados na vida de verdade, o resto do mundo vive das superficiais aparências. Todos no elenco oferecem excelente resultado estético e são dignamente merecedores do sucesso estrondoso que essa temporada de encerramento coroa. A sensibilidade expressada pela total entrega de Arlindo Lopes é comovedora e, por isso, tão cheia de êxito. Com os tempos bem usados e as entonações na medida, a jovialidade de Glória Menezes encanta o público. O fleumatismo exagerado de Kaplan, o excelente uso da voz de Fragoso e e o universo criativo potencial nas construções de Pinheiro são alvos de aplausos agradecidos. 

Kika Lopes exibe um trabalho de altíssima qualidade em todos os figurinos, sobretudo no movimento da palheta de cor das roupas usadas por Harold e no vestido final de Maude, além das roupas das personagens de Elisa Pinheiro. A cenografia de Sérgio Marimba, principalmente nos objetos da casa de Maude, garante ótimo resultado estético. Os efeitos especiais das tentativas falsas de suicídio de Harold são méritos de André Fuentes. A trilha sonora, que encerra positivamente com Beirut, é uma participação meritosa de Rodrigo Penna. Na união de todos esses elementos, Maria Siman está de parabéns. 

Como narra a peça, um sábio persa escrevia em cabeças de alfinetes frases como “Isso também passará”. Se Harold e Maude passarão, assim como nós, o teatro continua nos ensinando a viver. É preciso, no entanto, assistir ou assistir de novo à peça para ter a chance e o privilégio de aplaudir. 

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Ficha técnica

Texto: Colin Higgins
Tradução: Millôr Fernandes
Direção: João Falcão
Elenco: Glória Menezes, Arlindo Lopes, Ilana Kaplan, Antonio Fragoso e Elisa Pinheiro
Elenco de Apoio: Verônica Valentim, Guilherme Siman, Walisson de Souza e Jamil Pedro
Assistente de Direção e Direção de Movimentos: Duda Maia
Cenografia: Sérgio Marimba
Figurinos: Kika Lopes
Iluminação: Renato Machado
Trilha Sonora: Rodrigo Penna
Efeitos especiais: André Fuentes
Designer gráfico: Dulce Lobo
Designer gráfico assistente: Tatiana Souza
Fotos Projeto Gráfico
Capa: Guilherme Maia
Internas: Marco Antônio Gambôa
Assistentes de cenografia: Ester Cotrim e Vanessa Couto
Cenotécnico: Alceu Reinaldo dos Santos
Assistentes de Figurinos: Letícia Ponzi e Masta Ariane
Costureira: Nena Rocha
Dora Alegria veste Ronaldo Fraga
Preparação Corporal: Walisson de Souza
Preparação Corporal Arlindo Lopes: Monnica Emílio
Professor de Banjo Arlindo Lopes: César Rebechi
Operador de som: Vitor Osório
Produtor Executivo de frente e Administração: Luciano Marcelo
Idealização do projeto: Arlindo Lopes
Gerenciamento de projetos: Paula Salles
Direção de Produção: Maria Siman
Realização: Primeira Página Produções Culturais
Produtores Associados: Arlindo Lopes, Glória Menezes e Maria Siman

sábado, 20 de outubro de 2012

Gonzagão - A Lenda (RJ)

Foto: divulgação

A homenagem do teatro ao Rei do Baião


“Gonzagão – A Lenda”, o novo musical de João Falcão, deixa a gente com orgulho de ser brasileiros. Com um excelente grupo de músicos e de atores, a encenação é ágil, o espetáculo é bonito de se ver, a trilha sonora é bem executada, o tempo flui. O tema, a celebração da vida de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião (1912-1989), é tratado como uma forma de homenagear com o teatro um dos artistas mais importantes da cultura popular do Brasil. 

Com um cenário discreto, mas muitas cores nos figurinos de Kika Lopes, muitas formas nos objetos cênicos de Sérgio Marimba e, sobretudo, muito jogo de cena, o palco se enche de vida logo nos primeiros minutos de espetáculo bem iluminado por Renato Machado. Utilizando sanfonas cenográficas, uma alusão inteligente, rica e engraçada ao instrumento que popularizou Luiz Gonzaga e o Baião, o elenco composto por Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fabio Enriquez, Laila Garin, Marcelo Mimoso, Paulo de Melo, Renato Luciano e Ricca Barros canta, dança e oferece excelentes resultados de interpretação. Com positivo para destaque para Penho e Barros, mas, principalmente, para Garin, Mimoso e Alves, o que se vê é teatro de altíssima qualidade. Executadas ao vivo por Beto Lemos (Viola e Rabeca), Hudson Lima (Cello), Rick De La Torre (Percussão) e Rafael Meninão (Acordeon), as canções foram bem escolhidas e receberam arranjos que organizam a narrativa de um jeito pujante, mas não menos denso. 

Assinado pelo diretor João Falcão, o roteiro é o único elemento não totalmente positivo de “Gonzagão – A Lenda”. Com mais de cinquenta músicas mencionadas na trilha sonora, a história não é contada uniformemente, ou seja, a concepção dramatúrgica não é clara. Disposto mais a celebrar o mito Luiz Gonzaga do que oferecer dados biográficos, a narrativa, que assim se anuncia no release, não cumpre totalmente o que promete. Temos um grupo teatral formado apenas por homens a vagar em um lugar e um tempo não determinado, mas com claras referências nordestinas. Eles começam a apresentar a história do Rei do Baião quando se descobre, entre os integrantes do grupo, uma atriz que se diz tão valorosa quanto os homens, exigindo, por isso, o seu direito de permanecer mesmo sendo mulher. O líder do grupo quer expulsá-la, mas prefere refletir melhor. Enquanto isso, o temido mal acontece: ela desperta as paixões dos homens, pondo o grupo em conflito. Tudo isso é contado em paralelo aos fatos da vida de Luiz Gonzaga sem que estejam claras as relações entre um lado e outro dessa dramaturgia. Além disso, na parte em que Gonzaga tem espaço, são valorizados detalhes como quando, onde e o que aconteceu com o homenageado no início da peça que, depois, se perdem, sendo substituídos pela simples citação das músicas. Fluído demais em relação a abertura, o fim é discordante, o que não é de todo negativo, mas diferente. A agilidade da interpretação garante, no entanto, um final apoteótico como se espera em todos os musicais, inclusive os brasileiros. 

No ano em que se celebra os 100 anos de Luiz Gonzaga, muitas homenagens estão acontecendo. Eis aqui uma delas maior do que João Falcão e seu grupo. É o teatro, através de tão excelente uso do idioma, quem fala em “Gonzagão – A Lenda”. E fala muito bem!

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FICHA TÉCNICA

Texto e direção: João Falcão

Elenco:
Apresentando – Marcelo Mimoso
Atriz Convidada – Laila Garin
e
Adrén Alves, Alfredo Del Penho, Eduardo Rios, Fabio Enriquez, Paulo de Melo, Renato Luciano e Ricca Barros

Músicos:
Beto Lemos – Viola e Rabeca
Hudson Lima – Cello
Rick De La Torre – Percussão
Rafael Meninão / Marcelo Guerini – Acordeon

Direção musical: Alexandre Elias
Direção de movimento: Duda Maia
Direção de produção e Idealização: Andréa Alves
Cenografia e Adereços: Sergio Marimba
Figurinos: Kika Lopes
Iluminação: Renato Machado
Preparação vocal: Carol Futuro
Assistente de Direção: João Vancine
Assistente de Direção musical: Carol Futuro
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Programação Visual: Gabi Rocha
Fotos: Silvana Marques
Assistente de Assessoria de Imprensa: Bruna Amorim
Coordenação de Produção: Janaína Santos
Produção Executiva: Regiane Sobral e Thalita Mendes
Estagiária de Produção: Andreza Lima
Coordenação de Planejamento: Mariana Sacramento
Assistente de Planejamento: Clarissa Verdial
Financeiro e Administrativo: Luciana Verde
Prestação de Contas: Ana Caroline Araújo
Apoio de Produção e Administração: Carlos Henrique
Produção e Realização: Sarau Agência de Cultura Brasileira

Macbeth (SP)

Foto: João Caldas

Mais vistoso do que realmente bom



           Gabriel Villela é uma grife. E uma grife cara. Não importa se a peça é “Romeu e Julieta” ou “Tio Vânia” ou, ainda, a história do nascimento de Cristo ou “Ópera do Malandro”. Quem conhece teatro e vai atrás de Gabriel Villela sabe que verá, antes de tudo, muitas marcas de teatralidade. Caras pintadas, musicalidade, símbolos fortes, figurinos coloridos, cenário que reaproveita objetos inusitados, versões alternativas para os textos de origem, todas essas “pistas” são os registros que, porque se repetiram em sua trajetória como encenador, o caracterizam enquanto artista. Ou seja, não é possível dizer que foi ver Shakespeare e não o encontrou. Quem dirige “Macbeth”, em cartaz nesse final de semana (apenas) no Teatro dos 4, no Rio de Janeiro, é Gabriel Villela. Ao público leigo, lhe carece uma pesquisa. No entanto, sobre o caso em questão, se geralmente, a força criadora do encenador não prejudica as obras fontes, agora é possível dizer o contrário. “Macbeth” pode até ser um bom espetáculo, mas não é um bom exemplo de Gabriel Villela. 

Partindo do texto: a adaptação proposta à tragédia de Shakespeare (1564-1616) superficializa demais a obra literária de um dos maiores dramaturgos da história ocidental. A história de Macbeth não é um drama adolescente como em “Romeu e Julieta” nem tampouco uma alegoria como o nascimento de Cristo (alusão ao espetáculo “A rua da amargura”). Há muito mais profundidade, filosofia, reflexões que os cortes retiraram. As bruxas viraram fofoqueiras, o Rei Duncan virou um senhor bondoso, Lady Macbeth uma mulher cruel e Macbeth um homem ambicioso. Ou seja, todas as contradições internas de cada personagem, a riqueza de suas construções, os detalhes de seus embates pessoais (o que querem versus o que fazem) se perderam. Em cena, a história contada é um “Macbeth para Jovens Leitores”, no pior significado do termo. 

Partindo dos objetos (outras obras fontes, para não dizer que se privilegia apenas o texto): malas e cadeiras de cinema não estabelecem ligação com a narrativa cênica. A justificativa, se há uma que reforce a escolha, não está visível. São objetos, trazem uma carga simbólica fácil de reconhecer, mas o que querem dizer ali? Apenas mostrar que uma mala pode virar um escudo, que um efeito interessante pode ser obtido retirando o fundo de uma mala e abrindo-lhe o zíper não são o bastante. As entradas e saídas da fila de cadeiras de madeira pesa o ritmo da narrativa em que os atores são também os contrarregras. O grande tear, visível, altivo em cena em todos os momentos do espetáculo é muito pouco usado, embora faça final e positivamente referência à história que as bruxas tecem e os personagens vivem. 

Partindo do elenco: não se entende o porquê Lady Macbeth é interpretada por um homem (Claudio Fontana), assim como também não se justifica a concepção andrógina e atemporal em traços tão visíveis em todos os personagens (o figurino é assinado por Gabriel Villela e por Shicó do Mamulengo). São boas, porém, as interpretações. O texto é bem dito (antropologia da voz assinada por Francesca Della Monica e direção de texto por Babaya) e as intenções são claras. O ritmo do discurso verbal e da movimentação expressa um cuidadoso trabalho de musicalidade (Ernani Maletta). No papel de protagonista, Marcello Antony oferece um movimento interessante à análise. Resistente à ironia das bruxas e do Narrador, que observam a condução alheia dos destinos, ele segue a concepção maniqueísta de todos os outros demais personagens (ou bons, ou maus) que apenas vivem. No final, no entanto, quando Macbeth vê se aproximar a floresta, é possível perceber na interpretação dele um pouco mais de leveza, como quem passa a enxergar a própria vida como vista de fora. Eis aí um detalhe a ser valorizado, destaque em um elenco de bons trabalhos, apesar do visagismo carregado.

O “Macbeth”de Gabriel Vilella é mais vistoso do que realmente bom. Para seus admiradores, um opção obrigatória. 

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Ficha técnica

Elenco

Macbeth Marcello Antony
Lady Macbeth Claudio Fontana
Duncan / Macduff Helio Cicero
Banquo / Dama de Companhia Marco Antônio Pâmio
Narrador Carlos Morelli
Bruxa 1 / Nobre José Rosa
Bruxa 2/ Malcolm / Ross Marco Furlan
Bruxa 3/ Donalbain / Angus / Velho / Mensageiro/ Porteiro Rogério Brito

Texto - William Shakespeare
Tradução - Marcos Daud
Colaboração – Fernando Nuno
Direção e adaptação - Gabriel Villela
Assistência de Direção - César Augusto, Ivan Andrade e Rodrigo Audi
Figurinos – Gabriel Villela e Shicó do Mamulengo
Cenografia - Marcio Vinicius
Iluminação– Wagner Freire
Antropologia da voz- Francesca Della Monica
Direção de texto – Babaya
Musicalidade da cena - Ernani Maletta
Trilha Sonora – Gabriel Villela
Direção de Movimento - Ricardo Rizzo
Adereços- Shicó do Mamulengo e Veluma Pereira
Apliques e patchwork - Giovanna Vilela
Costureira- Cleide Mezzacapa Hissa
Maquiagem para ensaio fotográfico - Eliseu Cabral
Assistência de Maquiagem para ensaio fotográfico- Patricia Barbosa
Coordenação do Ateliê - José Rosa e Veluma Pereira
Assistência de Cenografia - Julia Munhoz
Fotografia- João Caldas
Assistência de fotografia – Andréia Machado
Fotografias de ensaio / making of – Dib Carneiro Neto e João Caldas
Programação Visual- Dib Carneiro Neto, Jussara Guedes e Suely Andreazzi
Assistente de Produção Julia Portella e Lucimara Santiago
Produção Executiva - Clissia Morais e Francisco Marques
Direção de Produção - Claudio Fontana

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Nós sempre teremos Paris (RJ)

Foto: divulgação


Falta a beleza de Paris

Desde que as luzes se acendem, o espectador sabe que não poderá esperar por muito de “Nós sempre teremos Paris”. Despretenciosa, a nova produção da Barata Comunicações quer ser uma comédia romântica com músicas em francês que ficaram famosas no Brasil e no mundo. A história é sobre um encontro entre um homem e uma mulher de meia idade em um café em Montparnasse, onde lembram de suas vidas desde que estiveram no mesmo lugar vinte anos antes. O espetáculo é isso e nada além ao longo dos seus (apenas) quarenta minutos de narrativa cênica. A questão é que isso é pouco. Menos ainda quando, além de Barata, estão na ficha técnica nomes como Artur Xexéu (que assina o texto), Jacqueline Laurence (a direção) e Tadeu Aguiar e Françoise Forton (no elenco). Frustrante até mesmo para quem esperava pelo pouco prometido. 

Artur Xexéu conduz a narrativa de um jeito leve, fluente, ágil. As histórias contadas guardam em si pontos de mudança que surpreendem o espectador e têm o poder de levar a história para outros caminhos que não muito longe (positivamente) dos previstos. Jacqueline Laurence dirige bem a dupla de atores, que expressam a contento o carisma e a tendência para a comédia sofisticada, com nuances nas pausas, nos movimentos de olhar, na forma de dizer o texto. Os figurinos de Valéria Stefani estão de acordo com os personagens e com a proposta: simples, discretos, mas com um toque de elegância. 

“Nós sempre teremos Paris” perde uma boa oportunidade de ser comparável em êxito ao “Todos dizem Eu te amo”, filme dirigido por Woody Allen (1996). Tanto a obra cinematográfica como a peça não tinham como intento ser um musical do tipo americano, com grandes vozes, figurinos brilhantes, bailes em escadarias e cenários majestosos. Tadeu Aguiar e Françoise Forton não são grandes cantores como também não o é Woody Allen (É conhecido o fato de que Allen pediu nas filmagens para Goldie Hawn cantar pior para que todos acreditassem que sua personagem era uma pessoa normal, isto é, para que a concepção distante da Broadway se mantivesse amarrada.) e isso, dentro de uma proposta estética, não é um desvalor. O fato é que faltam belezas no espetáculo do trio Barata-Xexéu-Laurence e o repertório, que é bem escolhido, não é suficiente. O cenário de Massimo Exposito é paupérrimo, enfeiando a peça e desvalorizando o público (e o teatro) carioca. Diferente de Aguiar, Forton almeja claramente um registro de voz mais agudo, o que, por não conseguir em diversos momentos, distancia uma concepção de personagem da outra, causando estranheza. Por fim, o repertório, quase completamente cantado em francês e, sem legendas, ainda que bonito teoricamente e plausível nos primeiros minutos, cansa logo em seguida qualquer um que não entenda o idioma, mesmo que concorde ser o francês uma das línguas mais românticas do mundo. 

O título “Nós sempre teremos Paris” é uma excelente alusão ao filme “Casablanca”. Paris lá é símbolo de um amor forte e inesquecível vivido entre um casal que, anos depois, se encontra em uma situação completamente diferente. A simbologia é preservada aqui e a produção atual em cartaz no Teatro das Artes do Shopping da Gávea, Rio de Janeiro, faz uma singela, mas bonita homenagem à Cidade Luz. No entanto, não se sai do audiência com um “gostinho de quero mais”, mas com uma vontade de um pouco mais de beleza. 

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FICHA TÉCNICA

Texto: Artur Xexéo
Direção: Jacqueline Laurence
Elenco: Françoise Forton e Tadeu Aguiar
Músicos: Roberto de Brito - Violão / Baixo
Talita Pereira - Percussão
Priscilla Azevedo - Piano / Acordeon
Direção musical: Marcelo Nogueira
Assistência de direção musical: Camila Dias
Preparação vocal: Danilo Timm
Figurinos: Valéria Stefani
Cenografia: Massimo Esposito
Iluminação: Adriana Ortiz
Fotos: Nana Moraes
Programação Visual e Vídeo: Luiz Stein Design
Equipe Barata Comunicação:
Coordenação de produção – Elaine Moreira
Produção Executiva – Bruno Luzes
Assistente de produção - Luisa Viotti
Imprensa – Priscilla Santos
Produção e Assessoria de imprensa: Barata Comunicação

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Alô, Dolly (RJ)

Foto: divulgação

“Alô, Dolly!”: apenas bom


           “Alô, Dolly!”, o novo musical de Sandro Chaim, tem o mérito de ser uma grande produção que movimenta a classe teatral e o público carioca, além, claro, de, como todo objeto de arte, concretizar em uma peça a arte do teatro (musical). O resultado, no entanto, não é excelente, apesar de seus bons momentos. São eles: os figurinos brilhantes de Fause Haten, as coreografias ágeis de Fernanda Chamma e a linda voz e interpretação de Alessandra Verney (Irene Molloy). Marília Pêra (Dolly Levi) e Miguel Falabella (Horácio Vandergelder), grandes responsáveis pelo projeto, juntos em cena pela primeira vez, apresentam um bom trabalho, mas sem total êxito. A versão brasileira do premiado espetáculo da Broadway é ruim, porque lenta, monótona e arrastada. Os cenários de Renato Theobaldo e de Roberto Rolnik são escuros e antecipam as situações e a iluminação de Paulo César de Medeiros, além de redundante, deixa o palco no escuro em vários momentos. Em suma, “Alô, Dolly!”, em sua grandiosidade, é um espetáculo bom, mas, como muitas produções, têm pontos negativos e pontos positivos. Seu maior feito é estar feito. 

O texto tem sua origem em uma peça chamada “The Merchant of Yonkers”, de 1938, escrita pelo americano Thornton Wilder, que foi um fracasso de público e de crítica na época. Dezessete anos depois, em 1955, baseada no texto de Wilder, mas com clara ascendência em Molière, “The Matchmaker”(A Casamenteira), escrita pelo inglês Tyrone Guthrie apresentava Dolly e Horácio como filhos legítimos de Frosina e Harpagão (da peça “O Avarento”). Em 1958, sob direção de Joseph Anthony, a peça virou filme, com Shirley Booth (Dolly), Shirley MacLaine (Irene) e Anthony Perkins (Cornélio) nos papéis principais. Então, veio o musical e, finalmente, o sucesso. Com roteiro de Michael Stewart e músicas de Jerry Herman, e com Carol Channing no papel título, “Hello, Dolly!”ganhou dez Tony, o Oscar do teatro de Nova Iorque, ficando muitos anos em cartaz. Por fim, em 1969, com direção de Gene Kelly, Barbra Streisand liderou a versão do musical para o cinema. Indicado a sete Oscar, ganhou apenas três (Melhor Som, Direção de Arte e Trilha Sonora. Streisand nem mesmo foi indicada.). Em 1966, Victor Berbara, que havia produzido “My fair lady”, trouxe o musical da Broadway para o Brasil. Com Bibi Ferreira e Paulo Fortes como protagonistas, o musical estreou no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, com versão brasileira assinada por Haroldo Barbosa e Max Nunes, realizando mais de 300 apresentações. 

Com direção musical de Carlos Bauzys, o espetáculo agora em cartaz no Teatro Oi Casa Grande tem direção geral assinada por Miguel Falabella. A encenação carece de ritmo: as cenas são arrastadas, as letras das canções ficam muito aquém da versão original e da primeira versão brasileira, a história não flui. Além disso, o espetáculo reproduz o erro de casting acontecido no filme de Gene Kelly. Assim como Barbra Streisand não convenceu como uma viúva “biscateira”, Falabella não convence como um velho feio e rabugento. O sotaque caipira do personagem é bom porque ajuda o espectador a entender que são duas cidades (algumas cenas acontecem em Yonkers, outras em Nova Iorque), mas o célebre e talentoso ator, dramaturgo e novelista brasileiro segue reafirmando seu prejudicial estigma de “Caco Antibes”, personagem do programa “Sai de Baixo”, exibido pela Rede Globo, nos anos 90. No olhar superior, no tom de voz debochado, mas sobretudo na forma como corporalmente o peito se mantém aberto com os ombros fechados para trás, Horácio repete Antibes infelizmente. Marília Pêra é responsável, juntamente com Falabella, por cenas hilárias como a janta no Jardim das Delícias. Excelente atriz e cantora há muitas décadas, a atriz apresenta uma ótima performance em termos de canto e de movimento, apesar de inexplicavelmente falar devagar demais em vários momentos, prejudicando (ainda mais) o ritmo da narrativa. No elenco, há, ainda, dois destaques positivos em pequenas participações: Patrícia Bueno (Ernestina Ricca) e Ricardo Pêra (Rudolph Reisenweber) aproveitam os curtos espaços que têm para apresentar grandes trabalhos. 

As grandes performances de “Alô, Dolly” são de Fause Haten, de Fernanda Chamma e de Alessandra Verney. Os números de Verney, além de excelentemente interpretados, são cantados com emoção, carisma e graça. Os figurinos da produção são, em detalhes, bem cuidados, criativos, ricos e visualmente vibrantes. Em todos os momentos, mas sobretudo nas cenas do trem e da entrada de Dolly no segundo ato, as coreografias (palmas aos excelentes bailarinos) dão agilidade, como já se disse, infelizmente rara nessa narrativa. Verney, Haten e Chamma ratificam o gênero comédia musical americana: o preciosismo, a técnica, a jovialidade e o idealismo. 

Os cenários de Renato Theobaldo e de Roberto Rolnik deixam a desejar assim como a iluminação de Paulo César de Medeiros. Na cena da chapelaria, por exemplo, o espectador sabe, por antemão, o que vai acontecer quando entram uma mesa e um armário. Tudo é escuro, pesado, sem vida, agindo, assim, em sentido contrário às belas composições de Jerry Herman. Basicamente monocromática, Paulo César de Medeiros varia da luz geral para o blackout, sem valorizar os figurinos de Haten, os cenários e a movimentação. Com um elenco de excelentes cantores, e Karin Hills é um feliz exemplo, não há mais outros positivos destaques em termos de interpretação. 

Parecendo (sem ser) datado, “Alô, Dolly!”, em resumo, é uma boa produção. Apenas boa, o que já é muito, considerando o valoroso (e valorizável) desgaste em produzir uma obra dessa qualidade e tamanho. Por isso, parabéns! 

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FICHA TÉCNICA

Texto de Michael Stewart
Baseado na peça The Matchmarker – A Casamenteira
Músicas e letras Jerry Herman
Versão Brasileira Miguel Falabella
Direção Geral Miguel Falabella
Direção Musical Carlos Bauzys
Coreografias Fernanda Chamma
Cenário Renato Theobaldo e Beto Rolnik
Figurino Fause Haten
Visagismo Anderson Bueno
Iluminação Paulo Cesar Medeiros
Designer de Som Gabriel D’Angelo

ELENCO
Marília Pêra – Dolly Levi
Miguel Falabella – Horácio Vandergelder
Alessandra Verney – Irene Molloy
Frederico Reuter – Cornélio Hackl
Ubiracy Paraná do Brasil – Barnabé Tucker
Ester Elias – Minnie Fay
Brenda Nadler – Ermengarda Vandergelder
Ricardo Pêra – Rudolph Reisenweber
Patricia Bueno – Ernestina Ricca
Thiago Machado – Ambrósio Kemper

ENSEMBLE
Carla Vazquez – Ensemble
Ingrid Gaigher – Ensemble
Karin Hils – Ensemble
Mariana Saraiva – Ensemble
Maysa Mundim – Ensemble
Paola Soneggheti – Ensemble
Thati Abra – Ensemble
Ale Lima – Ensemble
Arízio Magalhães – Ensemble
Daniel Cabral – Ensemble
Fábio Yoshihara – Ensemble
Guilherme Pereira – Ensemble
Ivan Parente – Ensemble
William Franklin – Ensemble

BAILARINOS
Jefferson Ferreira - Bailarino
Leandro Marbali – Bailarino
Marcel Anselmé – Bailarino
Thiago Pires – Bailarino
Ygor Zago - Bailarino

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Farnese da Saudade (RJ)

Foto: Rodrigo Castro

Casamento bem feito: Farnese de Andrade e o teatro

Farnese da Saudade” tem ganhado merecidos elogios porque é aquilo que quer ser: um “espetáculo instalação”. Leia-se nisso a vontade da obra de ser, sim, teatro, mas um tipo de encenação em que a sensorialidade pesa mais que a narrativa. De fato, na cena dirigida por Celina Sodré e interpretada por Vandré Silveira, o visual do cenário e do figurino, da iluminação de Renato Machado, da trilha sonora e da movimentação contam bem mais do que o texto dito em cena. Importa, assim, menos a história do artista plástico mineiro Farnese de Andrade (1926-1996) e muito mais a sua obra, a sonoridade de seus objetos, esses justapostos de forma a expressar as marcas do homem, do tempo, da simples passagem. 

Indicado a prêmios, o cenário é uma instalação de ferro em formato de cruz criada pelo ator Vandré Silveira, inspirada na obra de Andrade, mas com influências da obra Passage Dangereux (1997), de Louise Bourgeois. Dentro dessa espécie de “gaiola”, pairam objetos referentes ao repertório plástico de Farnese de Andrade, incluindo o próprio ator, cujo figurino e maquiagem, com uma pintura de Antônio Sodré Schreiber, é também parte desse visual. A fruição é melhor quando, esquecido o texto, a atenção é posta na evolução dos lugares em que cada objeto é posto e reposto. 

Infelizmente, a dramaturgia é cambaleante: de trechos de depoimentos de Andrade, o texto vai para orações em latim, num movimento regular, monótono e cansativo. Com ótima dicção e voz afinada, Silveira interpreta bem e consegue tirar bom resultado, fruto de grande esforço. Os melhores momentos estão no final quando, liberto da gaiola, a encenação se recria e oferece algo novo espectador. Nesse momento, o ator, bastante próximo do público, deixa ver sua entrega, sua emoção e faz da plateia uma especial audiência para o seu espetáculo. 

Fruto de uma pesquisa de cinco anos, “Farnese da Saudade” é um projeto meritoso pelo intento e pelo resultado que celebra a vida e, de forma especial, a obra de um grande artista brasileiro não tão conhecido como deveria. O teatro aqui é uma forma bem usada de dar a ver o fluxo imagético de Farnese de Andrade. O ponto alto é o desafio árduo mas vencido de mostrar sem espetacularizar, tornar teatro sem se tornar os objetos mera ilustração de uma biografia, trazer as obras sem tirá-las de todo da sua origem primeira: as artes visuais. Um espetáculo-instalação que deve ser visto e aplaudido. 


*

FICHA TÉCNICA

Com Vandré Silveira
Direção e Figurino: Celina Sodré
Assistente de Direção: Tuini Bitencourt
Texto: Dramaturgia coletiva, a partir de fragmentos de matérias e manuscritos de Farnese de Andrade e depoimentos extraídos do curta “Farnese”, de Olívio Tavares de Araújo.
Instalação cênica: Vandré Silveira
Iluminação: Renato Machado
Pintura artística (cabeça e camisa): Antonio Sodré Schreiber
Vídeo: Pedro Sodré (Copa Filmes)
Fotografia de cena: Rodrigo Castro
Direção de Produção: Davi de Carvalho
Cenotécnico: Felício Alves (Companhia Cenográfica-BH/MG) e Hélio Lopes Barcelos
Realização: Travessia Produções Artísticas
Apoio: Instituto do Ator/Studio Stanislavski 

domingo, 14 de outubro de 2012

Jantando com Isabel (RJ)

Foto: divulgação

Um incêndio sob a chuva

Jantando com Isabel” é o espetáculo de comemoração dos trinta anos de carreira de Isaac Bernat e de Xando Graça, amigos desde os primeiros trabalhos. Escrito pelo italiano radicado no Brasil Furio Lonza, o texto realista surpreende pela disposição em não surpreender. Bem dirigido por Henrique Tavares, os dois atores têm o mérito da calma em contar uma bela história sobre o tempo, sobre a amizade, sobre o amor com todas as cicatrizes de uma vida cujo passado parece ser maior e mais interessante que o presente e o futuro. 

Bernat interpreta um arquiteto hoje dedicado à construção de miniaturas desde que os seus prédios reais começaram a ruir. Graça dá vida a um lutador de boxe hoje muitos quilos mais gordo e bem mais lento que fora outrora até começar a perder nas brigas mais significativas. Ambos moram juntos há vinte anos no mesmo apartamento, os dois fracassados, dedicados a ver passar o tempo esperando por algum tipo de redenção que, talvez, nunca chegue. O espectador, de posse dos detalhes aparentemente mais ínfimos, convive com a dupla, conhece as figuras, os traços em que se encontram e as características em que se opõem. Bernat e Graça são lugares para a frieza e para a docilidade, o lúdico e o formal, para os sonhos e para a realidade de um dia que começa e parece terminar do mesmo jeito que iniciou. 

Na dramaturgia de Lonza, uma remota possibilidade surge como grande chance de escape para esse marasmo. É quando a história ganha nova vida e positivamente começa a se direcionar para o fim. Pairam, nesse contexto, o mesmo cenário meticuloso de Maria Estephânia e a iluminação positivamente discreta de Aurélio de Simoni com os quais nos acostumamos e através dos quais fomos convidados a prestar a atenção na história. Uma mulher, Isabel, modificou a vida desses dois homens cinquentões. Será ela a mesma? Como estará ela hoje? E se ela viesse para jantar? 

“Jantando com Isabel”, de um jeito delicado e, ao mesmo tempo, forte, pode ser descrito como um conto de Vera Karam: “há um incêndio sob a chuva rala”. O surpreendente é que incêndio aqui, assim como a chuva, pode não ter fim. 

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FICHA TÉCNICA

Texto: Furio Lonza | Direção: Henrique Tavares | Elenco: Isaac Bernat e Xando Graça | Luz: Aurélio De Simoni | Direção de arte: Maria Estephânia | Arte Gráfica: Tita Bevilaqua | Assessoria de Imprensa: Ney Motta | Direção de Produção: Dadá Maia | Produção executiva: Tiago D’Avila | Produção: Ciranda de 3 Trupe

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

A Marca da Água (RJ)

Foto: divulgação

Um ótimo espetáculo na cena carioca

Assistir a “A Marca da Água” é um prazer imenso. O espetáculo é delicado, puro, lúdico em todos os sentidos. O surrealismo da forma de narrar a história de Laura se torna poesia-brincadeira, doce como Mário Quintana, natural como Manuel de Barros. A direção, com uma concepção bem clara, impregnou todos os elementos então tornados teatrais do mesmo espírito, de forma que o todo produz uma imagem coerente, coesa, com uma estrutura sólida que encanta, diverte e emociona. Em cartaz na Fundição Progresso, o espetáculo comemora os 25 anos de trabalho do Armazém Companhia de Teatro, grupo que nasceu em Londrina, no Paraná, mas que agora está instalado na capital carioca. 

Distante dos moldes tradicionais, o conflito que move a narrativa está na personagem Laura (Patrícia Selonk) fazer o marido Jonas (Marcos Martins) aceitar o fato de que ela não quer fazer nenhum tratamento médico, nem tampouco tomar nenhum remédio, mas continuar sentindo os sintomas estranhos que a fazem perder a noção da realidade, preocupando o companheiro que estranha seu novo comportamento. Segundo ela, esses sintomas a fazem sentir-se viva. Na dramaturgia de Maurício Arruda de Mendonça e de Paulo de Moraes, o passado serve como (mero) argumento (literário e imagético) para essa situação de confronto de casal e só consegue bons resultados pela habilidade com que o texto e a encenação foram tão bem viabilizados, visto que esse problema dramatúrgico é a priori bastante frágil. Quando criança, numa brincadeira com o irmão (Marcelo Guerra), Laura bateu com a cabeça e, durante seis anos, sofreu três cirurgias complicadas na região do cérebro em função desse acidente. Anos depois, pais mortos e irmão esquecido, os sintomas desse sofrimento retornam no dia em que um enorme peixe aparece “do nada” na casa de Laura e de Jonas (o personagem bíblico Jonas passou três dias e três noites no interior do ventre de uma baleia), a quilômetros de distância do mar. Nesse momento, Laura passa a ouvir uma música que só ela escuta, uma canção que ela quer captar, prender, vive-la e que passa a ser o sentido de sua vida. Preocupado com a esposa, Jonas teme pela sanidade de Laura, que começa a perder a memória, a noção do tempo, do espaço e da realidade. Na verdade, a personagem inicia aí uma viagem para dentro de si mesma. 

Sensivelmente interpretado por Patrícia Selonk, o espectador viaja pelo interior das visões de Laura. A relação com o pai (Ricardo Martins), com a mãe (Lisa E. Fávero), com o irmão, com o marido e consigo própria vai sendo dividida com a plateia que brinca nesse espaço cheio de imagens projetadas, brincadeiras num tanque de água, mergulhadores, sons de acordeon e de caracóis. As cenas são rápidas, o ritmo é extremamente bem conduzido, as situações são delicadas e potentes: os mergulhos, a trilha sonora original e interpretada ao vivo (a direção musical é de Ricco Vianna), a limpeza do cenário de Paulo de Moraes, a riqueza de possibilidades do figurino de Rita Murtinho, a ludicidade no melhor do gênero surrealista no desenho de iluminação do grande Maneco Quinderé, os belos vídeos tão inteligentemente criados e editados pela dupla Rico e Renato Vilarouca e, sobretudo, pelos trabalhos de interpretação tão discretos e não menos vivos do elenco bastante bem dirigido. 

Em todos os seus aspectos, destaca-se em “A Marca da Água” a coerência que une os elementos cênicos em um todo único e forte, em uma estrutura capaz de não deixar dúvidas e nem criar espaços para o espectador atento, mas disposto a se entreter sem deixar de refletir. A vida pode ser uma viagem para dentro de si mesmo. O mundo, afinal, pode ser uma boa metáfora para o universo particular de cada um dentro das lembranças construídas e futuramente criadas. Uma ótima produção na cena carioca, sem dúvida. 

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Ficha técnica:

Elenco:
Patrícia Selonk
Ricardo Martins
Marcos Martins
Marcelo Guerra
Lisa E. Fávero

Direção: Paulo de Moraes
Dramaturgia: Maurício Arruda Mendonça e Paulo de Moraes
Direção Musical: Ricco Viana
Cenografia: Paulo de Moraes
Iluminação: Maneco Quinderé
Figurinos: Rita Murtinho
Videografismo: Rico e Renato Vilarouca
Preparação Corporal: Patrícia Selonk e Laura Noronha
Cartaz: Jopa Moraes
Projeto Gráfico: Alexandre de Castro e Jopa Moraes
Fotografias: Mauro Kury
Assistente de Produção: Fernanda Camargo
Produção Executiva: Flávia Menezes
Produção: Armazém Companhia de Teatro

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

A Três Atos do Fim do Mundo (RJ)

Foto: Cristina Froment

Sem saber para onde vai


“A Três Atos do Fim do Mundo” não é o que quis ser e isso está claro pela leitura do programa. Duas atrizes, Gentil e Querida, estão no camarim de um teatro na noite em que o mundo vai acabar no ano de 2012. Elas aguardam o apocalipse, enquanto percebem que seus colegas de elenco não vêm para a apresentação de “Um bonde chamado desejo”, peça em que ambas atuam. Dentro dessa situação, o que a produção divulga como intenções seriam 1) discutir a unidade dos povos, tema esse pertinente ao mundo contemporâneo; 2) construir o sensação de claustrofobia dentro desse lugar pequeno; 3) subverter o antagonismo da peça de Tennessee Williams; 4) tratar, em outros temas, sobre a existência de Deus, a velhice e a juventude, a fama, a relação humana entre pais e filhos e o teatro de um modo geral. Nada disso, porém, se concretiza em cena infelizmente na peça em cartaz no Espaço 2 do Solar de Botafogo, Rio de Janeiro. 

Para começar, a unidade entre os povos não é um tema pertinente apenas à contemporaneidade, mas já era discutido, por exemplo, na época da dominação do império romano. O lugar do homem diante da sua própria existência, esse sim, é um tema que tem aparecido em diversas obras nas últimas décadas, de Artaud a Lars von Trier. Duas atrizes, na fluidez ontológica do teatro, próximas do fim do mundo gera uma situação potente que, é uma pena, não se desenvolve na encenação escrita e dirigida por Caesar Moura. 

O cenário de Natália Lana é lindo, mas parece não ser para esse espetáculo, uma vez que não concretiza a claustrofobia anunciada. Fitas rosas e douradas caem em um chão cor de rosa decorado com pétalas vermelhas e pedaços de renda. Gaiolas coloridas e abertas trazem flores em seu interior. Uma cadeira vazada também é decorada com flores. Ou seja, tudo é aberto, fluído, livre, árcade, mas nada é, nem camarim, nem tampouco, cenário de “Um bonde chamado de desejo”. A iluminação de Paulo César de Medeiros também parece não ser para esse espetáculo porque situa focos de luz atrás das fitas, criando um fundo infinito, nada fechado, nada claustrofóbico. O figurino de Caesar Moura vai na mesma direção: pertence a uma concepção que não é a divulgada no programa. Se são duas atrizes, apenas colegas, nem amigas (uma, por exemplo, não sabe que a outra é mãe de um rapaz), não faz sentido ambas usarem roupas com os mesmos tons, com os mesmos tecidos, com a mesma textura. Além disso, se diegeticamente, são figurinos, o de Querida é equivocado porque Estela Kovalski não usaria correntes douradas e sapato alto. 

As interpretações de “A Três Atos do Fim do Mundo” não subvertem nenhum antagonismo, porque seguem na mesma linha. Diferente do anunciado, Tati Pasquali (Querida) sustenta uma interpretação tão nervosa (afetada, impostada) quanto Izabella Ribeiro (Gentil). Ambas se diferenciam de Vivian Leigh e de Glória Swanson, porque as duas segundas dosaram suas intenções exagerando apenas nos momentos certos nos filmes em que participaram. Pasquali e Ribeiro gritam durante quase todo o tempo da encenação, têm gestos fortes, sem pausas, com movimentos e expressões carregadas, apresentando um trabalho linear e monótono. 

Discussões sobre a fama, Deus e, sobretudo, a respeito da velhice (uma das personagens tem 40 anos e a outra 20) se perdem na tensão sempre exagerada da encenação, cujo ritmo é constante e, por isso, ruim. 

Há, no entanto, pontos positivos a serem destacados. O jogo dramatúrgico da troca de personagens, em que Filho e Mãe aparecem no lugar de Gentil e de Querida, é rico e bem realizado. A relação com o espectador é, dentro do exposto, bem desenvolvida. Em nenhum momento, as atrizes olham para o público, mas, no final, Izabella Ribeiro (não se entende o porquê Tati Pasquali também não o faz) encara a plateia. Ouve-se Maria Callas e seguem os aplausos finais. A metáfora com o fim do mundo, com a existência/não-existência do teatro, dos personagens, dos atores, com o apocalipse e o barulho das mãos batendo acontece e coroa positivamente o final. É pena que seja o final de um projeto que, em seu caminho percorrido, não conseguiu apontar para onde realmente queria ir. 

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Ficha técnica:

Texto e direção: Caesar Moura
Elenco: Tati Pasquali e Izabella Ribeiro
Iluminação: Paulo César Medeiros
Cenografia: Natália Lana
Figurino: Caesar Moura e Gabriela Adler
As atrizes vestem: Monica Negreiros
Visagismo: Beto Carramanhos
Trilha sonora: Paula Leal
Sonoplastia: Alexsandro Palermo e Cesar Moura
Preparação corporal: Virgínia Maria
Preparação vocal: Dani Calazans
Programação visual: Caesar Moura
Fotografia: Daniel Seabra, Danielle Succés e Cristina Froment
Vídeo: Octopoda Filmes
Assessoria de imprensa: CMoura Assessoria
Assistente de cenografia: Laura Storino
Operação de luz: Gerson Meirelles
Operador de som: Aluísio Netto
Produção e realização: Caesar Moura e Tati Pasquali


sábado, 6 de outubro de 2012

Pinteresco (RJ)


Foto: Guga Melgar

Uma homenagem a Harold Pinter


            “Pinteresco” tem ótimos diálogos, excelente direção, ótimos atores, figurinos, iluminação e trilha sonora impecáveis, mas não agrada totalmente porque nós não temos o mesmo humor que os ingleses e os americanos têm. Espetáculo a partir de esquetes escritas por Harold Pinter (1930-2008), a produção dirigida por Ary Coslov e em cartaz no Solar de Botafogo tem, entre vários méritos, o de resgatar uma dramaturgia rara de um dos mais importantes dramaturgos do século XX. Destacado o esforço, paira o constrangimento: essas piadas não nos fazem rir.
            Alice Borges, Leonardo Franco, Marina Vianna e Sávio Moll se revezam nos muitos personagens que compõem a galeria de pequenas histórias para teatro escritas pelo autor inglês principalmente no início de sua carreira. Uma atriz que quer chamar a atenção do seu público, dois torturadores e um torturado, um ministro da cultura e os repórteres, uma fila de ônibus, duas mulheres em um bar, um patrão e um empregado, uma mulher que recebe um anúncio de venda de homens... O roll é grande e, em todas as cenas, é possível identificar as diferentes tensões dos famosos não-ditos que tornaram o célebre o dramaturgo. O jogo dirigido por Coslov com o elenco é bom: as sequências, dentro da situação “pinteresca”, é ágil, a edição que justapõe as cenas é fluente e os detalhes são positivamente dados a ver de forma equilibrada. Na plateia, o espectador sabe que está diante de textos bons, de ótimos atores e de uma direção cheia de valores. O problema é que é sem graça, pois falta em Pinter o deboche, a sensualidade, a ironia que os povos latinos têm, o que não, de jeito nenhum, o diminui enquanto grande comediante que foi.
            Tess (2002), Esse é o seu problema (1964), Preto e branco (1959), Problemas no trabalho (1959), Ponto de ônibus (1959), Nova ordem mundial (1991), Oferta especial (1959), O último a sair (1959), Noite (1969), Coletiva de imprensa (2002), Só isso (1959) e Afora isso (2006) são cenas que receberam um primoroso trabalho de concepção de figurinos de Kika Lopes, situando os personagens com elegância, ainda que quando mais humildes. A iluminação de Aurélio de Simone confere requinte à narrativa, colaborando com o bom ritmo com que a história é contada. A trilha sonora de Coslov age em boa parceria com a iluminação. O destaque mais positivo é do elenco que, de forma sensível, defende o projeto com galhardia. “Pinteresco”é uma homenagem à Pinter e, por isso, merece ser visto.

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Ficha técnica:
Texto: Harold Pinter
Tradução: Jacqueline Laurence e Isio Ghelman
Direção: Ary Coslov
Cenário: Marcos Flaksman
Figurinos: Kika Lopes
Iluminação: Aurélio de Simone
Trilha Sonora: Ary Coslov
Programação visual: Isio Ghelman
Divulgação: Adriana Sanglard
Fotos: Guga Melgar
Assistência de Direção: Isio Ghelman e Marcela Andrade
Assistência de Produção: Bárbara Montes Claros
Direção de Produção: Celso Lemos
Realização: Arcos Produções Artísticas Ltda