segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Laboratorial (RJ)

Marcello Valle vive Marcello Vale em cena
Foto: divulgação

A delicadeza do bom teatro

O espetáculo “Laboratorial”, produção integrante da comemoração dos 25 anos da Companhia dos Atores, é excelente. Simples, dinâmica, criativa e muito inteligente, a peça articula uma série de questões que, ao mesmo tempo em que fazem a arte pensar sobre si própria, promove um espaço para o homem pensar sobre si mesmo, sobre o lugar para onde a maturidade o leva e sobre que tipo de contemporaneidade o circunda. Minuciosa, delicada e pontual, a peça parte de um lugar de sublime convivência entre um ator (Marcelo Valle) e o público, esse tão essencial ao teatro desde a sua aparição. Indo adiante, vai encontrar-se com a contemporaneidade – o aparato tecnológico – e com a multiplicidade das pessoas discursivas dentro de uma só pessoa. Somos, afinal, o perfil do Facebook, do Instagram, do Whatsapp e do Grooveshark, o cidadão que defende mudanças na política e opina sobre tudo, sem deixarmos de ser o filho, o namorado, o aluno, o profissional, o locatário e o cliente. Por fim, a peça faz uma volta ao ponto que é anterior ao inicial: antes de estarmos diante de outros homens e de sermos muitos homens, somos homens. E aí, na solidão de Cabíria, encontramos graça em recomeçar, pois não há outra alternativa para seguir. Escrita por Diogo Liberano, a montagem se situa ao lado de “Sinfonia Sonho” e de “Maravilhoso” no currículo de ótimos textos desse jovem dramaturgo. Dirigida por Cesar Augusto e pelo inglês Simon Will, a peça faz do extremo íntimo o seu maior palco e, por isso, se coloca no roll dos grandes espetáculos desse ano carioca tão rico. Vale muito a pena ver! 

É certo que o maior desafio do teatro é a sua existência e isso está no sangue que corre em suas cortinas. Diferente das outras artes, o teatro não sobrevive além dos artistas e além do público que assiste aos artistas, pois, quando acaba o momento de encontro, acaba o teatro. Ou seja, falar sobre teatro é sempre falar sobre algo que já não existe em sua corporalidade. Quando Marcelo Valle (propositalmente o nome do personagem e o nome do ator são o mesmo) se propõe a discutir que tipo de ator tem sido, que tipo de homem tem sido, o que ele quer de sua vida para dali adiante, para o quê serve a sua profissão, o personagem se torna metáfora do teatro. Ao dizer que precisa da ajuda do público para imaginar um corpo que não está fisicamente em cena, por exemplo, pontua o fato de que teatro, desde os gregos, é "lugar de onde se vê". Esse corpo a ser imaginado é, por sua vez, metáfora para o laço que une público e plateia, processo e realização, início e fim do espetáculo – acordos esses que fazem parte da liturgia cênica no âmbito de suas partes. Quando, ainda, o ator propõe uma interação dele próprio com figuras de si exibidas através de monitores de televisão, câmeras de vídeo ligadas ao vivo e imagens fotográficas de si próprio recortadas, o teatro se questiona sobre o seu lugar na parafernália internética em que, quanto mais acessíveis estamos e acessados somos por outrem, mais sozinhos também ficamos. Por fim, depois de dois atos completamente estéreis, teórico-argumentativos, frios, alguém abre uma porta por onde se vê a vida lá fora da sala de espetáculos. Nisso, o teatro vira discurso feito para lembrar que o homem só é homem enquanto é parte da natureza e é nesse ser parte que nos encontramos – ator e público. 

Com um roteiro aparentemente despretensioso, “Laboratorial” constrói suas estruturas invisivelmente. O espectador acompanha o discurso de Valle e se perde em tentativas de dar sentido para o que vê, entender o que está acontecendo e encontrar, assim, o seu lugar dentro da proposta do espetáculo. É de propósito, pois a peça precisa estruturar esse lugar de abandono para só então dizer a que veio em sua potência. E diz sublimemente. Na direção, cada passo, cada movimento, cada frase são articulados em grande delicadeza, de forma que, ao longo dos minutos da apresentação, o encontro deixa de ser vulgar ou mero entretenimento e volta a ganhar a importância que, no teatro, felizmente nunca deixou de ter (apesar das pessoas insistirem em não desligar celulares, em gostar de filmar peças, em fotografar cenas, em comer balas barulhentas). Contudo, o maior destaque dessa produção é o modo como o vídeo está presente na cena, esse a partir de projeto de Alexandre Bastos (NovaMidia). Sem serem ilustrativamente cenográficas, as projeções também não concorrem com o ator, mas o questionam e interrogam o teatro como todo no seu maior desafio já exposto: a existência. Nesse sentido, “Laboratorial” atinge o objetivo, mas só é realmente bom porque nos força a levar o resultado dessa experiência (laboratorial) para a vida que, ao final, contemplamos lá fora na beleza da diferença que a arte propõe. 

Antes de terminar, feitas quase todas as considerações mais importantes, é preciso elogiar Marcelo Valle por tudo, mas principalmente pela qualidade de seu uso vocal. Nisso, mostra-se um ator infelizmente cada vez mais raro: aquele que sabe dizer o texto de forma clara, inteligente, criativa e efetiva com toda a força de cada sílaba e com toda a intenção consciente de cada tom ou pausa. Excelente. 

“Laboratorial” cumpre temporada na Sala Rogério Cardoso, da Casa de Cultura Laura Alvim. Fica a exortação para fruir esse momento bastante especial que essa análise tentou descrever (e avaliar). 

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Ficha técnica
Com: Marcelo Valle
Direção: Cesar Augusto e Simon Will
Dramaturgia: Diogo Liberano
Assistente de direção: João Marcelo
Estágio de direção: Breno Motta
Cenário: Aurora de Campos
Figurino: Antonio Guedes
Iluminação: Maneco Quinderé
Trilha sonora: Felipe Storino
Projeto de multimídia: Alexandre Bastos / NovaMidia
Direção de produção: Tárik Puggina
Produção: Nevaxca Produções
Coprodução: Treco
O espetáculo foi criado colaborativamente entre Cesar Augusto, Diogo Liberano, Marcelo Valle e Simon Will

Academia do coração (RJ)

Cristina Pereira, Arlindo Lopes,
Ernani Moraes e Sandro Christopher em cena
Foto: divulgação

Menor

Ninguém discorda de que os livros de autoajuda são um tipo de literatura menor, como também não sobre o artesanato em relação às artes plásticas. O motivo é claro: o preço estético na produção de um objeto que seja vendável (sendo artístico também) é muito alto. "Academia do coração" é uma comédia (?) de autoajuda e, por isso, representante de um teatro menor. Na história mal escrita pelo célebre dramaturgo Flávio Marinho, o jovem Lucas, após receber um novo coração via transplante, passa a frequentar uma clínica de medicina esportiva, onde é colega de um ex-cantor lírico (Sandro Christopher), de uma artista plástica que gostaria de ser bailarina (Cristina Pereira) e de um dançarino de sapateado (Ernani Moraes), todos eles também em tratamento. Como um "anjo de perfeição", em que absolutamente nenhuma fala não seja um “emendar de pílulas de sabedoria”, esse protagonista há de transformar a vida daqueles que com ele convivem. Ao final de um ano, com a chegada do natal, Lucas ganhará alta da doutora Ângela (Bia Nunes), que também sentirá falta do paciente ao lado do professor de educação física Uóxinton (Renato Reston). É quando a ficha de Lucas não será encontrada e todos vão duvidar do fato dele ter realmente existido. Ou seja, ao longo de noventa minutos, uma sucessão de clichês mal articulados entedia tanto aqueles que vão ao teatro em busca de um pouco mais de profundidade sobre qualquer assunto quanto aqueles que querem apenas se divertir. O elenco experiente, há que se dizer, tenta, mas não consegue fazer dessa produção algo merecedor de outra avaliação que não seja “teatro menor”. A peça, que tem direção do seu autor, está em cartaz no Teatro Maison de France.

Em dois terços da narrativa, todas as falas do diálogos são voltadas para a apresentação dos personagens. Liz (Cristina Pereira) produz obras visuais a partir da maconha plantada em sua própria casa e, talvez por isso, elas não são aceitas em nenhuma galeria há cinco anos. Petrus (Sandro Christopher), um colunista social aposentado, já não tem mais fôlego para cantar as árias que cantava outrora e preocupa-se, agora, com a manutenção de sua vida sexual. Duda (Ernani Morais) ainda amarga a viuvez e a saudade que tem dos netos, que moram nos Estados Unidos, além de sofrer o fechamento da escola de dança em que fazia aulas de sapateado. Dra. Ângela (Bia Nunes) tenta segurar “as pontas” do financeiro da clínica recentemente aberta, enquanto se envolve em relacionamentos amorosos cada vez mais difíceis (um especialista em calefação no nordeste, um surfista mineiro, um gaúcho vegetariano, um motorista de Teresina, entre outros). Uóxinton (Renato Reston) corre de um emprego para outro de bicicleta até que ela é furtada na porta de um supermercado. Com a chegada de Lucas (Arlindo Lopes), Liz voltará a dançar, Petrus voltará a cantar, Duda voltará a dançar, Ângela conseguirá terminar o namoro e uma nova bicicleta será comprada para o esforçado professor. Concretizando um tipo de “fada madrinha”, o personagem torna todos os desafios fáceis de transpor, esvaziando a trama e superficializando a narrativa. Como base, os três pacientes (Liz, Petrus e Duda) são sessentões com seus próprios vícios: um fuma maconha, outro cigarro e outro gosta de comer. No entanto, a base se desfaz, pois, logicamente, com um herói tão poderoso, não há causa invencível.

Em todas as cenas, os convites ao choro ou ao riso são claros demais constragedoramente. Cristina Pereira, em sua performance, usa todo o seu repertório que fez dela uma grande atriz comediante para tirar algum proveito dessa situação caótica. Arlindo Lopes, em contrapartida, repete o que já fez em “Ensina-me a viver” e em “Jardim Secreto”, trazendo novamente a candura angelical treinada com os personagens problemáticos, mas de bom coração, das dramaturgias melhores em que esteve envolvido. Em uma cena, após propor “uma vaquinha” para comprarem uma nova bicicleta para Uóxinton, o personagem de Arlindo pára no centro da clínica com a mão espalmada para baixo e, um a um, todos o seguem, colocando as palmas umas por cima das outras e selando o pacto. O momento açucarado em excesso parece obrigar o espectador a se emocionar e, por isso, está longe de conseguir. Esses para citar dois exemplos.

Quanto aos elementos outros, é elogioso o cenário de Edward Monteiro, por construir um lugar cheio de pequenos ambientes, mantendo em nível alto o clima geralmente cafona de uma academia esportiva e seus múltiplos aparelhos (esteiras, bicicletas ergométricas, alteres, etc). É positivo também o figurino da Espetacular! Produções & Artes por criar detalhes significativos na presença dos personagens (o lenço no pescoço de Petrus, a bolsa de Duda, os vestidos de Liz, por exemplo).

É preciso dizer, antes de concluir, que “Academia do Coração” tem um momento que faz valer a pena ter ido ao teatro. Em uma cena, Sandro Christopher interpreta à capela a canção “Ol’ Man River”, do musical Show Boat, de 1927. Por ser difícil e de extrema beleza, é raríssimo encontrar alguém que consiga tal façanha com tamanha galhardia. O feito é, de fato, aplaudidíssimo e merece sê-lo mais.

Com ares de politicamente correto, mas voltado única e exclusivamente ao consumo e, por isso, menor, “Academia do coração” não representa o valor artístico dos seus realizadores, Flávio Marinho e elenco principalmente. Felizmente, outros espetáculos por eles assinados virão. 

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FICHA TÉCNICA
Texto e Direção: Flavio Marinho
Assistente de Direção: Andrea Dantas

Elenco / Personagens:
Cristina Pereira / Liz
Ernani Moraes / Duda
Bia Nunnes / Dra. Ângela
Sandro Christopher / Petrus
Arlindo Lopes / Lucas
Renato Reston / Uóxinton

Cenógrafo: Edward Monteiro
Figurinista: Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faedo (Espetacular! Produções & Artes)
Iluminação: Paulo César Medeiros
Trilha Sonora: Flavio Marinho
Coreografia: Mabel Tude
Preparação Vocal: Angela de Castro
Personal Trainer: Rafael de Oliveira Martins
Visagismo: Marcelo Dias
Fotos: Beti Niemeyer
Programação Visual: Gamba Junior
Texto do Programa: Luiz Fernando Vianna
Cenotécnico: André Salles
Costureira: Odília Lúcia de Almeida
Produção Executiva: Christiane Régis
Assistente de Produção: Marcus Vinícius de Moraes
Direção de Produção e Administração: Fábio Oliveira
Realização: F.M.O. Produções Artísticas Ltda
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany

domingo, 24 de novembro de 2013

No táxi (RJ)

Jorge Neves interpreta o taxista Sergio em peça
escrita, dirigida e producida por Cristina Fagundes
Foto: Cerejeira Produções

O hiper-realismo em um EXCELENTE espetáculo na programação do Rio

É para peças como “No táxi” que as leis de incentivo governamentais são feitas. Com um elenco de sete pessoas, a lotação máxima de público é de três. Apenas três pessoas podem assistir a “No táxi” por vez, porque apenas 3 pessoas cabem no banco de trás de um táxi. Com texto, direção e produção de Cristina Fagundes, o espetáculo é nada menos que excelente. Tem excelentes interpretações, excelente trabalho de direção, mas também é um excelente motivo para pensar em Jean Baudrillard e as reflexões dele sobre o estado limite entre realidade e não-realidade, o que ele chama de hiper-realidade. Na produção, o espectador entra em um táxi no Sindicado do Chopp, no Leme, zona sul do Rio de Janeiro, e aguarda a peça começar. Sérgio (Jorge Neves), o taxista, está tomando um café nas redondezas quando volta ao trabalho, entrando no carro e ligando o motor. “No táxi” não é performance (nesse gênero, o espectador não sabe o que é personagem e o que é ator), mas é teatro no seu gene mais puro. Apesar de ser um táxi que realmente existe em um lugar da verdade que é além da narrativa e apesar desse carro andar por ruas da cidade que fervilham de vida não ficcional, sabemos que é uma peça, sabemos que são atores interpretando o personagem e sabemos que há um texto, uma direção e uma concepção estética bem amarrada. E, se olharmos para o caminho que o espetáculo aponta, vamos ter a certeza de que é um excelente teatro.

Primeiro sobe um turista em visita ao Rio (Marcelo Dias), depois uma senhora dona de um envelope (Mabel Cezar), em seguida uma mulher (Ana Paula Novellino) vinda de um almoço com a irmã (Cristina Fagundes) e, por fim, um ex-presidiário (Fernando Melvin). No meio caminho, uma das amantes do taxista o surpreende mentindo (Rita Fischer). O todo, assim, mistura histórias da vida pessoal do taxista e também dos seus passageiros, mas, embora tudo isso seja bem feito, não é aí que está a potencialidade maior dessa produção. Durante o trajeto, pessoas fazem sinal para o táxi, trabalhadores do posto de gasolina assistem à briga entre Sérgio e sua amante, o rádio ligado no interior do carro está realmente transmitindo a programação de uma rádio em tempo real. Como se não bastasse, há outras camadas: no banco de trás, o balanço do carro é como um balanço além da narrativa. Os barulhos da cidade, a vista, o ritmo do trânsito, os cheiros, tudo isso pertence ao mundo além do teatral. A experiência, mantendo-se dentro de altos padrões de qualidade estética da ordem da interpretação, da direção e da dramaturgia, é também uma experiência sensorial de mundo, pois o espectador, como um fantasma, está no banco de trás sem ser visto, preservada a quarta parede, como um voyeur bastante íntimo.

Em termos de teoria teatral, sabemos que, diferente do que acontece com as outras artes, não há uma especificidade teatral, um signo que seja próprio do teatro e só dele. O teatro vive de signos tornados teatrais. Uma cadeira que existe além da peça, no palco, pode ser um trono se, ao seu lado, estiver um ator interpretando um Rei. Em outras palavras, o teatro torna seu aquilo que não é seu. Em “No táxi”, o processo é surpreendentemente outro, pois o teatro, aqui, não se apropria de um objeto do mundo, desventindo-o de suas regras primeiras e investindo-o sobre outra lógica, mas apropria-se DO MUNDO, fazendo conviver a lógica teatral com a lógica não-teatral concomitantemente. Na plateia, o espectador sabe, com um olho, que está assistindo a uma história, mas sabe também, com outro, que uma série de vários acontecimentos imprevisíveis pode acontecer. Além disso, “No táxi” recupera a discussão de José Carrera sobre a dicotomia entre o “teatro de rua” e o “teatro na rua”. Embora partamos da segunda opção, sabemos que o carro está na rua, mas nós estamos dentro dele (e, durante a peça, só sairemos se quisermos), de forma que, também nesse ponto, a produção vai além, pois discute o espaço teatral com ainda maior profundidade.

São notórias as nuances interpretativas do trabalho de cada um do elenco. Como estamos bastante próximos da cena, os gestos que dão a ver os personagens são positivamente minuciosos: a caída de um olhar, um segundo de tempo mais demorado, o toque das mãos do taxista na coxa do passageiro ao mudar de marcha, entre outros. Em rápidos momentos, os atores quebram a barreira com o público, olhando para eles através do retrovisor. Nesse microssegundo, o acordo é ratificado: “estamos contando uma história pra você”. No todo, não há destaques no trabalho de interpretação, pois todos os intérpretes oferecem belíssimos trabalhos de atuação, o que salto positivo também para a direção de Cristina Fagundes.

Além do já tratado, vale uma atenção particular para o texto. De um lado, temos cenas (o taxista e os passageiros) e entre-cenas (o taxista antes e depois dos passageiros) bem construídas, com contornos surpreendentes, bastante engraçadas e não menos tensas. De outro, temos uma dramaturgia alternativa que se esforça no estabelecimento de marcas de hiper-realidade: comentários visuais, respiração mais demorada, inserção de “cacos” sem exagero (o que aumentaria negativamente a insegurança e criaria uma espécie de desvalor) de forma que o que acontece dentro do táxi teatral dialoga com o mundo que o circunda fluentemente. O jogo é bastante positivo, cheio de méritos.

“No táxi” é uma produção que não tem como viver de bilheteria por partir de uma situação que impede formalmente isso (o mesmo acontece com o Teatro de Lambe-Lambe, por exemplo, esse feito para apenas um espectador por vez). É, no entanto, uma obra artística cheia de potencialidades reflexivas e que proporciona uma experiência estética ímpar. Olhando para o programa da peça entregue antes de entrarmos no táxi, há que se ver com tristeza nenhum incentivo público. Isso precisa ser corrigido! O mais, aplausos e vida longa!

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FICHA TÉCNICA
TEXTO E DIREÇÃO: Cristina Fagundes
ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: José Auro Travassos
ELENCO: Ana Paula Novellino (Lídia), Cristina Fagundes (Selma), Fernando Melvin (Bigorna), Jorge Neves (Sérgio), Mabel Cezar (Diva), Marcelo Dias (Jorge Maiquel ) e Rita Fischer (Vânia).
PRODUÇÃO: Cristina Fagundes
ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO: Herton Gustavo
FIGURINO: Luana Monteiro
TRILHA: Egressos do Clube
PROGRAMAÇÃO VISUAL: Marie Moreira
FOTOS: Cerejeira Produções
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Lyvia Rodrigues
REALIZAÇÃO: Fagundes Produções

Pra sempre nunca mais (RJ)

Caio Paduan e Patrícia Vazquez
Foto: Marcelo Faustini

Bom entretenimento

“Pra sempre nunca mais” é uma comédia romântica diferente. O gênero é muito fechado, devido a tantas atualizações no cinema, cujos filmes são sempre reprisados pela TV aberta. Fazer algo novo nele é um desafio raramente vencido. Nesse caso, foi. O normal é estarmos na plateia apenas vendo o como as coisas acontecem uma vez que já sabemos que o casal, depois de muitas brigas, ficará junto no final. Quando um roteiro é bom o suficiente para nos fazer esquecer do já previsto, então, temos um diferencial. Esse é o caso de “Pra sempre nunca mais”, escrito por Flávia Bessone e por Júlia Rodrigues e dirigido por Wendell Bendelack. PC (Caio Paduan) é um jovem que quer estar em um relacionamento ao invés de fugir dele, como geralmente são vistos os homens nessas produções. Bob (Patrícia Vazquez) é uma moça que duvida que conseguirá fazer um homem feliz por muito tempo, então, envolve-se sempre com pessoas diferentes e com elas não fica muito tempo. Os dois se conhecem em 2001, no dia em que caíram as Torres Gêmeas e, até a Copa de 2014 (que ainda não aconteceu), vão se encontrar e se desencontrar muitas vezes. Paduan, que como Vazquez precisa apenas ratificar o personagem já apresentado nos primeiros segundos de narrativa e nada além, está em bom trabalho de interpretação, “cavando”, vez que outra, momentos para dar um pouco mais de bem vinda complexidade à construção sem comprometer a superficialidade prometida pelo gênero ao público. Apesar dos diálogos, a curva narrativa é o melhor da peça que está em cartaz no Teatro das Artes, no Shopping da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro.

Lá pelas tantas, o espectador se vê diante de um roteiro estagnado, que se preocupa apenas um cumprir o protocolo de encontros e desencontros, cujas tensões irão apontar para o final já muito conhecido. É quando o público mais atento pode notar uma nuance: falidas as tentativas anteriores, os personagens parecem querer se tornar o seu oposto. Nesse processo, que é muito sutil, o equilíbrio necessário para o final, aquele que irá unir os dois lados opostos, começa a ser preparado às avessas nesse texto de Bessone e de Rodrigues. O comum, nesse tipo de dramaturgia, é homem é mulher abrirem mão, cada um, de parte de si para ficar com o outro. Aqui não é o outro que motiva uma mudança em si, mas o contexto em que cada um vive consigo próprio. Diferente do cinema, o realismo do teatro é muito mais arbitrário, pois suas marcas são mais dificilmente expostas. Nesse sentido, focado em identificar as justificativas para a impressão de simbiose sentida, o espectador (bingo!) se esquece de que é certo que o casal ficará junto. E, quando se esquece, passa a torcer. E, quando torce, a produção pode se orgulhar de ter atingido o seu objetivo. Por isso, “Pra sempre nunca mais” merece uma avaliação positiva.

Apesar de carismática, Vazquez não tem uma condução vocal nesse trabalho. As palavras, ditas com pouca variação, saem atrapalhadas e sem força. As intenções também perdem a oportunidade de dar a ver um pouco mais da personagem além da frivolidade já apresentada nos segundos iniciais da narrativa. Por outro lado, Paduan consegue um bom resultado, por explorar a sua atuação com vistas a apresentar novas potencialidades do seu personagem que, a princípio, também é sempre o mesmo. O gesto ajuda a deixar mais sutil ainda a atitude em questionar-se, em modificar-se, resultado esse que irá ser necessário para o fim. Sua voz é forte e sua retórica é boa. Seu movimento é irregular e é possível encontrar um jogo interno de tensões e distensões que é positivo. De um modo geral, Bendelack faz aí um bom trabalho de direção, conduzindo a narrativa com dignidade, apesar da vulgaridade do tema a princípio.

As concepções de figurino (Patrícia Muniz), de cenário (André Sanches), de projeções em vídeo (Thiago Stauffer/Studio Prime), de iluminação (Marcelo Andrade) e principalmente de trilha sonora (DJ Rafael Augustto) são bastante positivas, porque embalam a produção com tem que ser. “Pra sempre nunca mais” é uma peça de puro entretenimento, mas nem por isso deve ser desvalorizada do ponto de vista da potencialidade estética. E o preconceito deve ser extirpado sobretudo em se tratando de objeto artístico como aqui é o caso.

Sem o humor prometido, não havendo boas piadas, o texto reserva no seu desenhar pontos de interrogação interessantes que dão a impressão de fazerem o tempo passar mais rápido. O destaque fica para a cena final, quando ouvimos a narração da final da Copa de 2014 entre Brasil e Espanha. Por tudo isso, eis aqui uma boa peça de divertimento.

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Ficha Técnica:
Texto: Flávia Bessone e Júlia Rodrigues
Direção: Wendell Bendelack
Elenco: Caio Paduan e Patricia Vazquez
Iluminador: Luiz Paulo Nenen
Figurinos: Patrícia Muniz
Cenário: André Sanches
Produção Musical: DJ Rafael Augustto
Supervisão de Movimentos: Ana Paula Bouzas
Fotografia: Marcelo Faustini
Projeções: Thiago Stauffer | Studio Prime
Perucaria: Ernane Pinho
Assistente de Iluminação e Operador de Luz: Marcelo Andrade
Assistente de figurino: Patricia Delvaux
Sonorização e elenco de apoio: Tarso Gusmão
Cenotécnico: Cristófaro
Contrarregra e camareiro: Kaká Silva
Projeto Gráfico: Zele Comunicação Mídias Sociais e Marketing Digital: Isabella Robinson
Assessoria de Imprensa: Ciranda Comunicação
Assistente de Produção: Bianca Moraes
Coordenação de Produção: Ágatta Marinho
Direção de Produção: Alina Lyra
Produção: Alkaparra Produções
Realização: Patricia Vazquez

Pacto - Relações podem ser fatais (RJ)

André Loddi e Gabriel Salabert em cena
Foto: Dalton Valério
Bom, mas é pouco

“Pacto – Relações podem ser fatais” (“Thrill Me – The Leopold and Loeb Story”) não agrada, mas é bom. O primeiro ponto é ligado ao gosto pessoal e o segundo é da ordem da análise crítica. Escrita em 2003, por Stephen Dolginoff, a peça recupera sentimentos que são muito superficiais ao público de início de século XXI. Trata-se de um opereta (ainda que com um tom contemporâneo nas melodias), isto é, uma história simples cantada quase que o tempo inteiro através de música, com poucos personagens e quase nenhum cenário ou figurino ou mudança de luz e de trilha. Diferente do que acontecia em final de século XIX, quando o gênero atendia aos interesses do público burguês, esse já enfastiado com as grandes óperas, mas disposto a não aceitar as revistas e as comédias populares. Hoje a vida é mais complexa e, por isso, a peça não emociona. Por outro lado, nota-se que é bem feita. Ivan Sugahara, comportadamente, exibe um trabalho de direção que é simples, pobre, mas dignamente enquadrado dentro do espaço rítmico que a música lhe oferece para encenar. Marya Bravo se esforça para oferecer uma versão brasileira que inclua o espectador na música, cheia de ganchos popularescos, rimas pobres e frases óbvias, atendendo bem à concepção. Gabriel Salabert e André Loddi interpretam bem os dois personagens melodramáticos, situando a contento as oposições entre eles, justamente o que faz com que a narrativa se estenda. Há também um belo trabalho de iluminação de Paulo César de Medeiros, que, como o cenário (Carolina Sugahara e Ivan Ivan Sugahara) e o figurino (Tarsila Takahashi), preservam o clima noir, esse pleno na sua função de embalar um melodrama do tipo policial, que se passa em Chicago na primeira metade do século XX. Assim, a peça não é boa, mas é bem feita.

Trinta e quatro anos depois de ter sido preso por assassinato, Nathan Leopold (Gabriel Salabert) está diante de juízes e advogados, tentando pela quinta vez obter liberdade condicional. Nas vezes anteriores, faltou ao processo o esclarecimento sobre o motivo que levou ele e seu amigo Richard Loeb (André Loddi), então com dezenove anos, a assassinar um menino no parque. Os fatos do crime começam a ser revisitados e o espectador começa a ver quem são os dois personagens protagonistas. De um lado, temos um personagem feio, baixo, gordinho e efeminado. De outro, temos um personagem bonito, alto, forte e másculo. Estando um apaixonado pelo outro sem ser correspondido, um jogo de poder começa entre eles, que levará ao crime. Diante de tamanha superficialidade, esse roteiro melodramático oferece apenas um desafio um pouco mais complexo: o de se deixar perceber que aquele que parece ser o mais frágil, talvez, não o seja. Com exceção disso, a trama estruturada em pontos bastante sydfieldianos (O saudoso roteirista Syd Field faleceu na semana passada infelizmente.) ocupa o espectador sonolento com o desejo de saber como os fatos se desenrolam já que ele já sabe o que acontece, com quem e o porquê.

André Loddi e Gabriel Salabert parecem cantar sem dificuldade as músicas que também não lhes exige muito. As interpretações são um exercício de ratificação dos tipos, esses nada complexos: o malvado e o ingênuo. Há boa dicção, boas entonações, de forma que os objetivos são plenamente alcançados – um mérito! No figurino de Takahashi, a calça hiperapertada de Loddi e a camisa com uma alfaiataria contemporânea expressa o desejo de despertar o espectador para os atributos sensuais do personagem, levando o espectador a se identificar com o apaixonado Nathan Leopold positivamente. De forma bem marcada, a iluminação de Paulo César de Medeiros dá a imagem soturna à narrativa, o lugar escuro em que dois homens têm uma relação proibida, permitindo que esse encontro os levem para ainda outras ações ainda mais proibidas. A trilha sonora ao vivo, interpretada unicamente pela pianista Priscilla Azevedo acompanha os tempos de movimentação e não apenas age por sobre as canções positivamente. O som do piano de Azevedo, nessa história contada a três, é um personagem.

Quando alguém se vê diante de uma obra, não é o seu todo que ela recupera. Tanto o fruidor como a obra estão parciais um diante do outro. “Pacto – Relações podem ser fatais”, na forma comportada como se apresenta, hoje, necessita do espectador apenas a sua piedade em relação ao personagem que narra a história aos investigadores. Faz bem, mas é pouco.

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FICHA TÉCNICA
Texto, Música e Letras Originais: Stephen Dolginoff
Direção: Ivan Sugahara
Elenco: Gabriel Salabert e André Loddi
Piano: Priscilla Azevedo / Antônio Ziviani
Versão Musical Brasileira: Marya Bravo
Direção Musical e Preparação Vocal: Ricardo Góes
Tradução: Gabriel Salabert
Revisão de Tradução: Daniele Ávila
Assistência de Direção: Cristina Lago
Cenário: Nello Marrese
Figurino: Tarsila Takahashi
Iluminação: Paulo César Medeiros
Projeto Gráfico: Fernando Nicolau
Fotografia: Dalton Valério
Assessoria de Imprensa: LEAD Comunicação
Direção de Produção: Tárik Puggina
Produção Executiva: Aline Mohamad
Idealização: Gabriel Salabert
Realização: Gabriel Salabert e Nevaxca Produções

domingo, 17 de novembro de 2013

O filho eterno (RJ) (3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios)

Charles Fricks no melhor momento de sua carreira
Foto: divulgação

A tragédia ao contrário: excelente espetáculo

Teríamos uma visão menos rica de “O filho eterno” se analisássemos essa peça como uma abordagem dos problemas familiares ocasionados pelo nascimento de um bebê com Síndrome de Down. Há uma proposta mais rica: observarmos o quanto a relação entre pai e filho, fadada a se modificar até, talvez, se acabar com a adultez do segundo, pode se entender “eternamente”. Baseado em livro homônimo de Cristiano Tezza, o monólogo é uma produção da Cia. Atores de Laura, com adaptação de Bruno Lara Resende, direção de Daniel Herz e interpretação de Charles Fricks. Participou da programação do penúltimo dia do 3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios/Rio de Janeiro.

No início, temos um escritor frágil, ainda em pequenos trabalhos e fazendo bicos para sustentar-se enquanto a esposa dá conta das outras contas e engravida. A alegria do nascimento do filho marca uma bela metáfora que é passagem da adolescência para a adultez, afinal, dali por diante, ele estará por alguém, isto é, alguém dependerá dele. O diagnóstico de síndrome de down cai como uma bomba no colo do pai e, nesse momento, a partir de belas nuances da interpretação, vemos a complexidade do conflito essencial da peça emergir. É bonito notar que a dramaturgia literária (Tezza/Resende) está imiscuída na dramaturgia cênica (Herz) de forma a não conseguirmos identificar os limites de uma e de outra. No palco vazio, as cores da entonação de voz de Fricks, ao interpretar o personagem do pai mas também dos demais, vai fundando as estruturas, as paredes de concreto invisíveis pelas quais o espectador há de transitar. A dureza da doença do filho oferece um alívio: o filho há de morrer logo e a vida voltará ao normal. Só que o filho não morre. E se aquilo é bonito, isso é lindo!

O monógolo “O filho eterno” está longe de partir de lugares comuns. O pai não é visto como um ser abnegado em favor da criação dos filhos, mas um ser humano que tem desejos, sonhos, e almeja por liberdades, o que faz dele alguém mais próximo do homem comum e, por isso, menos idelizado. Quando o alívio da certeza da possível prematura morte do filho doente faz fisgar os valores morais da plateia, que julgam esse pai verticalmente, o desconforto é geral. Fricks e Herz brincam com esse desconforto, a arte cênica se mostra viva. Apenas uma cadeira no palco e um precioso movimento de iluminação fazem girar a roda da narrativa de forma que não há meios de prendê-lo e de julgá-lo, impossibilidade essa que, na estética, define a relação com o espectador. Os anos passam na história e a tragédia acontece: o filho não morre.

Fosse apenas uma peça, que estreou em  2011, sobre síndrome de down, a plateia emocionar-se-aí pela identificação com familiares ou próximos doentes. Não é. A massa que nos faz unirmos uns aos outros, várias pessoas em uma só plateia na escuridão da audiência, é o fato de todos termos ou pai ou mãe ou ambos e todos sabermos que, um belo dia, saímos de casa e, prontos, deixamos de ser filhos e filhas e passamos a ser maridos e esposas, pais e mães, adultos. Felipe, o filho, é o filho eterno: abraçado ao pai, dele dependente, dele companheiro para toda a vida. O rito teatral, que une os homens ao redor de uma luz a ouvir a uma história, é revivido pela singeleza da interpretação, pelo preciosismo da narrativa e pela aparente simplicidade da encenação, que, na verdade, é bem complexa. 

Charles Fricks e Cristiano Tezza acumulam prêmios desde o lançamento do livro e da peça. Que também seus aplausos sejam sempre renovados e eternos. Obrigado!

*

Ficha técnica:
Texto: Bruno Lara Resende a partir do livro de Cristiano Tezza
Direção: Daniel Herz
Interpretação: Charles Fricks

Al final de la noche (Equador) (3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios)

Verônica Falconi, em cena, como a velha que
vem cobrar da nova a vida e a juventude
Foto: divulgação

Teatro lírico

“Al final de la noche” é um espetáculo lírico (oposição à epopeia, à drama e à performance) do grupo equatoriano Contra el viento. A partir do tema da circularidade do universo feminino, a peça celebra a capacidade das descendentes de Eva de recomeçar, de encontrar no hoje um motivo para, apesar dos desafios, enfrentar o dia seguinte, adiando o fim. Coberto de signos e, mais ainda, de seus usos potentes, não temos, no palco do 3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios, uma narrativa, mas uma poesia cênica à mulher e a tudo o que ela representa, mesmo quando atualizada em homens.

Escrito por Patrício “Pato” Vallejo Aristizabal e interpretado por Verônica Falconi, o espetáculo parte de uma figura feminina que habita a margem, o limite, o lugar desconfortável que não é o centro. Lá essa personagem lírica convive com uma duvidosa imagem de deus, com uma trágica realidade cheia de vícios e prazeres e com o terrível julgamento moral. Nessa concretização cênica, os sons, as cores, as texturas, os movimentos, os gestos, as pausas, os silêncios, as luzes e as escuridões valem tanto quanto o significado das palavras, ditas em espanhol. Sem hierarquização sígnica que advenha da peça, a produção foge de uma concepção burguesa de espetáculo e empurra para o espectador a responsabilidade por dar sentido ao todo. “Ao final de la noche” será aquilo que o espectador decidir que é.

São meritosos os usos de signos que sejam mais acessíveis ao espectador devido a sua recorrência: o pó que se esvai com o tempo, o cutelo afiado, a moldura que apresenta, o cabelo branco e a velha, a sensualidade a a mulher jovem, a boneca. Os movimentos de Falconi podem ser lidos como expressão da colheita da maçã que a expulsou do paraíso, da sensualidade temerosa, do uso de drogas e da prostituição. Embora haja muito de ilegível, há o que é passível de ser lido pelo público em geral, reforçando a disposição da produção em trazer várias camadas de fruição. Valem a perfeição dos gestos mínimos e a potência dos usos dos signos, assegurando um ritmo que ora sustenta a tensão, ora a expõe. Esse jogo, fazendo jus ao gênero textual, pode bem ser comparado às rimas na poesia literária. Nisso ressalta-se a boa dramaturgia, tanto literária quanto cênica, de Pato.

De novo, mas agora em específico, é bastante elogioso o trabalho de interpretação de Verônica Falconi: excelentes usos da potência vocal e corporal, em um ritmo preciso de tensão e distensão que pontua as mudanças mais significativas. Considerando a importância dela em tornar teatral todo o emaranhado de palavras teatrais (objetos, gestos, entonações, etc) de que a peça se utiliza para se dar a ver, é possível avaliar sua participação como excelente haja vista a sua função fundamental. “Al final de la noche” surpreende os corações mais abnegados das plateias mais entregues ao teatro contemplativo. Por assegurar o valor desse quinhão, deve receber aplausos.

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Ficha técnica:
Texto e direção: Patricio Vallejo Aristizabal
Interpretação: Verônica Falconi

quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Sonhos de um sedutor (RJ)

George Sauma em excelente trabalho de interpretação


Foto: divulgação

Excelente comédia

Engraçado, divertido, elegantemente produzido. “Sonhos de um sedutor” é uma deliciosa comédia em cartaz no Teatro Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro. Texto de Woody Allen, com direção de Ernesto Piccolo, a peça passa pelo desafio de fazer rir os brasileiros com um texto tão americano, tão não nosso, o que exemplifica o talento dessa dramaturgia de atingir outros tempos e outras plateias. Escrita em 1969, a trama conta a história de Allan Felix, interpretado pelo excelente George Sauma, que foi deixado pela mulher Nancy (Georgiana Góes) e encontra em um casal de amigos (Luana Piovani e Heitor Martinez) o apoio para recomeçar a vida. Visões do personagem Humphrey Bogard, interpretando a si próprio através do ator Martinez, estimulam o protagonista a descobrir outras facetas de sua personalidade enquanto conquistador. As aventuras, os dramas, as expectativas criadas, destruídas e recompensadas fazem rir em alto nível. Tudo é positivo, embora alguns elementos estejam melhores que os outros.

O maior desafio de interpretar Allan Felix é a proximidade existente ele e seu criador, Woody Allen. O esquema é quase uma performance, fosse Allen o seu realizador agora no palco carioca. Sauma vence com galhardia a dificuldade, oferecendo ao público brasileiro uma versão especial, particular e, por isso, tão viva e tão rica. A avaliação vem do fato da percepção de que, a determinado momento, consegue-se fazer esquecer a origem, abandonar as expectativas e fruir a comédia com entrega, confiança, segurança. O todo é bem arranjado e proporciona essa experiência. Sauma é ágil no avançar de nuances, criativo em estabelecer bases sólidas para as mudanças, talentoso e técnico em manter o ritmo, cativar o interesse e, assim, contar bem a história. Georgiana Góes, na multiplicidade de suas personagens, consegue, em rápidos segundos, apresentar suas construções ao mesmo tempo em que deixa claras as suas intenções, suas funções na narrativa. Como Sauma, a atriz potencializa a comédia e faz avançar a história nas particularidades essenciais das possibilidades de suas aparições. Luana Piovani cumpre bem a tarefa de assegurar o realismo e fazer o contraponto: é pelo seu personagem que Felix irá se apaixonar e aí ganhar novo desafio e recriar o contorno do drama, levanto a peça para um ponto menos óbvio. Apesar de não ser criativo em cena, Heitor Martinez oferece um trabalho que não atrapalha. Assim, a direção de Piccolo faz do elenco um saldo tão positivo como já é o texto e sua articulação com o cenário, trilha sonora, luz e figurinos.

O cenário de Clivia Cohen é excelente. A sala do apartamento de Allan parte do meticuloso e delicado realismo para ir além, situando um personagem que fala com um ator através da tela da televisão, sem o exagero fantástico, mantendo o tom de crônica que é lugar confortável para essa narrativa se dar. O mesmo se diz dos figurinos de Helena Araújo: realistas nos protagonistas, vivo nas personagens de Góes, particulares cujo movimento é visível. A luz (Jorginho de Carvalho) e a trilha sonora (Rodrigo Penna) operam em favor do ritmo positivamente de forma inteligente, nobre e pontual em cada momento.

O tempo em “Sonhos de um sedutor” passa fluentemente através das mudanças que o texto literário e cênico estabelecem. Novas histórias parecem surgir sem que as anteriores tenham se resolvido totalmente, o que poderia ser um defeito não fosse a habilidade da direção. O resultado é uma justaposição de intenções artísticas que, ao invés de pesar a comédia, a aprofunda. Os motivos para esse sucesso são raramente vistos e, por isso, o destaque positivo para essa montagem. A produção, pela coragem, merece os parabéns. Os aplausos vêm pelos valores trazidos à realização. Parabéns!

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Ficha técnica:
Autor: Woody Allen
Tradução: Caulos
Direção geral: Ernesto Piccolo
Direção de movimento: Deborah Colker
Luz: Jorginho de Carvalho
Trilha sonora: Rodrigo Penna
Assistência de Direção: João Maria Peixoto e Theo Nogueira
Cenário: Clivia Cohen
Figurino: Helena Araújo
Cabelo e maquiagem: Ton Reis
Produção executiva: Mariana Bezerra e Pedro Nóbrega
Assistente de produção: Thiago Menezes
Direção de produção: Miguel Colker
Direção executiva: Pedro Pirim

Elenco: George Sauma, Georgiana Góes, Luana Piovani e Heitor Martinez

Aqueles dois (MG) (3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios)

Os atores em cena em peça a partir do conto de
Caio Fernando Abreu
Foto: divulgação

Potência, inteligência e técnica: o teatro em várias camadas

“Aqueles dois” é um privilégio. O espetáculo, da companhia mineira Luna Lunera, homenageia o gaúcho Caio Fernando Abreu com a sensibilidade da arte e com a técnica do repertório estético cultural. Composto de várias camadas, assistir-lhe e assistir-lhe novamente são tarefas que podem sempre acrescentar. Atualizando (atualizar não é sinônimo de verter para 2013, mas construí-lo a partir do que não é virtual, de signos que sejam visíveis, cenicamente palpáveis, concretos) o conto homônimo, a montagem celebra o olhar do outro e a criação de abismos que separam os dois protagonistas do resto mundo, fazeres esses que são o tema da crítica do contista realista psicológico gaúcho. Como fizeram Machado de Assis e Dostoievski no século XIX, e também como fez Clarice Lispector no XX, Caio critica a sociedade, situando o leitor em uma realidade psicológica específica. Nesse caso, temos Raul e Saul, um do sul e outro de norte, que se encontram em São Paulo, mesa ao lado de mesa, em uma repartição cheia de telefones tocando, arquivos se abrindo e se fechando, máquinas de escrever gritando e cafés mal feitos sendo a única saída para tamanho stress. Enquanto o mundo de muitos olhares censores vai sendo construído, o mundo particular de dois desconhecidos que vão se unindo vai crescendo e se preparando para o embate. No espetáculo dirigido coletivamente, esses dois movimentos se dão a ver discretamente, mas não menos potente. Quando prontos, não resta outra alternativa ao espectador se não ser julgado ou julgar e, provavelmente, cair de joelhos. Belíssimo!

Na primeira parte de “Aqueles dois”, não temos um ator a interpretar Saul e outro a Raul, porque ambos, quem sabe, são vistos como mais dois em uma massa de ternos, gravatas, listas de presentes e fofocas cotidianas de um mundo burocrático bem estruturado. É aos poucos que, à francesa, os dois vão se separando dos demais. Quando começa a segunda parte da peça, a forma como o espetáculo se dirige ao público também muda. Caio deixa de olhar para todo e passa a olhar o todo através de Raul e de Saul que, e aí está o preciosismo, não notam que também estão sendo olhados. Essa tripartição – o escritório e como ele olha para “aqueles dois”, os dois protagonistas e como nós olhamos para ambos – vai sendo jogada pela narrativa teatral de forma equilibrada, sem apontar um vencedor ou um perdedor, mas mantendo a tensão até os últimos minutos do segundo tempo. Quando vem o final, esse é sucedido pela sugestão de um epílogo, uma possível prorrogação, em um momento em que apenas o espectador tomará parte, já que tanto o escritório como “aqueles dois” já estarão em outra dimensão. Caio finaliza e critica como a ele cabe, mas não impõe uma resposta final gentilmente.

O universo de Raul e de Saul parece ir brotando de um espaço recheado de máquinas de escrever, luminárias, pastas e xícaras de café. O cenário, em que todos os objetos estão no chão e a parede de fundo é preta, proporciona o visualizar desse movimento que remete à flor nascendo no asfalto. No final, os olhares criticados estão no alto, aterradores, perscrutadores, refletindo, talvez, o nosso olhar. É quando o soco maior de Caio e da Luna Lunera nos atinge cabalmente. Até aí dramaturgia, movimentação, interpretações, figurinos e trilha sonora já não nos deixaram dúvidas, já construíram uma realidade bem segura, já nos convidaram para fruir o drama e nós já aceitamos ao seu convite.

No todo e em cada parte, o teatro de “Aqueles dois” é forte, é potente, é necessário. Os aplausos unânimes que a peça vem obtendo desde 2007, quando estreou, têm aqui alguns justificativas. Vale ver para descobrir outras.

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Ficha técnica:
Texto: Caio Fernando Abreu
Direção: Cláudio Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati
Elenco: Cláudio Dias, Guilherme Théo, Marcelo Souza e Silva e Odilon Esteves

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Água na terra seca (RJ) (3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios)

O Grupo Viola`s em sua formação anterior para
esse espetáculo
Foto: divulgação

O aplauso apesar das diversidades

“Água na terra seca” é uma adaptação de “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare, feita por Marciel Pires, do Grupo Viola`s, de Três Rios, interior do Rio de Janeiro. A peça abriu o terceiro dia de espetáculos do 3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios.

Evitando os nomes originais (Hérmia, Lisandro, Demétrio, Puck...), os personagens permanecem os mesmos. Assim, temos a história de Maria que ama José, mas que é também amada por João, o noivo ideal na opinião de seu pai. Condenada a casar-se com quem não quer ou morrer pelo Juiz Henrique, ela aceita a proposta do amado de ambos fugirem através da floresta durante a madrugada. Helena, a melhor amiga de Maria, é a única a saber da fuga e promete não contar para ninguém, mas quebra o promessa, contando para João, seu amado verdadeiro. Ele parte para a floresta atrás da noiva prometida e Helena arrependida por ter delatado a amiga vai em seu encalço. Paralelo a isso, Tupã e Araci, duas divindades da mata, estão em crise conjugal em função de um filho que o deus espera de sua esposa. Para vingar-se dela, Tupã manda seu fiel ajudante Pomb enfeitiçar Araci, para que ela se apaixone por algum animal da floresta. Com pena da pobre Helena, que ama João que ama Maria, ele também pede a Pomb enfeitice João para que o amor de Helena seja correspondido. Ocorre que o “bom robin” confunde João e José, enfeitiçando o segundo que, a partir daí, deixa de estar apaixonado por Maria e passa a amar Helena, que continua apaixonada por João, que segue apaixonado por Maria, que ainda ama José. Para completar a história, um grupo de atores ensaia uma peça de teatro sobre Lampião e Maria Bonita na floresta, a fim de apresentar o espetáculo na noite do casamento do Juiz Henrique. Um dos atores é transformado em jumento por Pomb e é por ele que a rainha Araci se apaixona perdidamente devido ao feitiço. Cheio de peripécias e com uma larga evolução dramática, a comédia escrita no fim do século XV na Inglaterra dá margem para o olhar por sobre quatro gêneros narrativos: a tragédia, porque os feitiços aprisionam os personagens em sentimentos que não são seus; a farsa, vista na peça que está sendo montada pelo grupo de atores na floresta; o vaudeville francês, que dá conta de justificar o ritmo acelerado e a abertura de vários plots narrativos; e, claro, a comédia, fazendo emergir o que há de pior no ser humano, segundo o conceito aristotélico. De fato, na tese de Shakespeare, os homens ficam ridículos quando apaixonados.

O grupo, formado por alunos egressos de um curso de formação e agora amadores, apresenta bom resultado ao trazer o espetáculo para uma das praças de Três Rios numa manhã de segunda-feira. O olhar atento do público, cuja curiosidade foi desperta a ponto de enfrentar o sol e o calor para fruir a histórica quatrocentenária, é o sinal do sucesso que todos os artistas cênicos, sejam eles estudantis, amadores ou profissionais, almejam. Ainda que enrijecidos pelas marcas ainda não corporalizadas (foi a terceira apresentação da peça em largos intervalos entre uma e outra), que afoitos com relação ao espaço novo (a peça nunca fora apresentada na rua) e que corajosos em uma apresentação cheia de desafios (a ausência arbitrária do músico, as substituições no elenco, etc), o fazer teatral foi levado ao cabo com galhardia. Carecem-lhe técnica vocal, técnica corporal e organização que lhes prepare mais adequadamente para o teatro, no respeito que a arte merece e deve inspirar, mas devem ser valorizados os belos trabalhos de interpretação de Yanca Firmino, de Lavínia de Oliveira, de Marcos Mendes e, principalmente, de Valéria Bastos, de Jorge Oliveira e de Marciel Pires. Esses evidenciam, embora a inexperiência e o acesso dificultado à formação teórica e técnica, bons ritmos, dicções precisas, intenções claras, o que talvez possibilite ver um talento natural.

Os elementos outros da estrutura cênica não são bem usados. Os figurinos uniformizam o elenco em três grupos (os humanos, os atores andarilhos e os seres da floresta), mas as marcas não são suficientemente claras, sobretudo porque um mesmo ator interpreta mais de um personagem e não há tempo de trocar o figurino. As máscaras utilizadas também não têm justificativa encontrável e parecem ser mais um elemento cujo sentido não faz falta. A dramaturgia remete ao sotaque nordestino quando a história de Lampião e de Maria Bonita é contada, mas fica em um lugar televisivamente neutro, misturando língua falada e língua escrita, português pomposo com falar popular sem muita ordem, o que depõe contra a beleza. A escolha por cantar as músicas à capela devida a ausência irresponsável do músico foi um mal passo também. Tudo isso, tendo ganhado aplausos efusivos no final, faz ver o mérito do texto e de algumas interpretações, mas tanbém o quão bem o teatro se comunica com o público quando um se abre para o outro apesar das dificuldades.

O título “Água na terra seca” é uma bonita metáfora para o amor que brota no coração do Juiz Henrique, prestes a se casar, e também nos casais João e Helena, José e Maria, Tupã e Araci, esses em busca de quem amam e que lhes ame também em retorno. É sobretudo uma boa imagem para o teatro que chega na praça em uma manhã de um dia comum.

*

Ficha técnica:
Texto: Marciel Pires, baseado em “Sonho de uma noite de verão”
Direção: Marciel Pires
Elenco: Larissa Gonçalves, Ananda Almeida, Mariah Oliveira, Marcos Mendes, Jairo Paiva, Yanca Firmino, Mariana Araujo, Alexandre Oliveira, Lavínia de Oliveira, Jorge Oliveira, Marciel Pires e Valéria Bastos

Entre-nós (BA) (3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios)

Igor Epifânio e
Anderson Dy Souza
Foto: divulgação

O simples excelente e necessário

“Entre-nós” é tão bom esteticamente quanto o é socialmente e a prova disso é que, para a análise e para a assistência, não é difícil encontrar as justificativas para a ovação recebida na segunda noite do 3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios. Com texto e direção de João Sanches, a peça, que estreou em janeiro de 2012, conta com os atores Igor Epifânio e Anderson Dy Souza, interpretando os muitos personagens e operando a luz, e com o músico Leonardo Bittencourt, dando conta da trilha sonora ao vivo. Dois personagens-atores se vêem diante de uma grande personagem-plateia para construir e, ao mesmo tempo, para apresentar um espetáculo sobre a diversidade sexual. Ambos não sabem como será isso, mas usarão o repertório cênico de que dispõem para dar cabo do objetivo. Nesse momento, a peça já começou.

Bastante interessante é identificar as marcas da amarrada articulação entre os diversos elementos cênicos vistos em “Entre-nós”. A começar pela movimentação da dupla de atores, vemos o palco vazio, as bambolinas levantadas, os refletores e a mesa de luz à mostra e o músico sob um foco. O caminho que inicia no público e vai até o fundo do palco começa a ganhar divisões ao longo da narrativa, determinando a esquerda para um personagem-ator e a direita para outro, alternando-se em alguns momentos, mas deixando claro o estabelecimento de um lugar seguro para quem quer que nele esteja. Começam aí as pistas para o público se identificar com os atores, numa conversa que pretende ser positivamente de igual para igual, apesar da altura do palco e da plateia permanecer às escuras. A frente, o proscênio, parece estar destinada ao contato direto com a audiência, enquanto o centro e o fundo são os lugares privilegiados para os personagens que contarão a história que habita, por sua vez, dentro dessa história já iniciada. Os movimentos são ágeis, os olhares determinam os limites, as figuras habitam o espaço mesmo quando não concretizadas em nenhum ator. (Há momentos em que dois personagens interpretados pelo mesmo ator estão em cena. Esse ator, então, não viabiliza nenhum deles, mas narra o que acontece para o público que, através da poética, vê as duas figuras em curso.) Desde a cena de abertura, a tensão entre cada ator-personagem consigo próprio e entre um e outro são visíveis e isso dá força para cada um resolver o seu nervosismo com uma boa participação na narrativa que parece estar sendo criada ao vivo. Tanto um como o outro não sabem exatamente o que fazer e como lidar com um tema tão difícil quanto a diversidade sexual, mas suas fraquezas se tornam impulsos para participar de uma espécie de jogo entre eles. De cada lado, um não quer perder para o outro e essa relação fisga definitivamente o espectador para dentro da história.

Vamos à história. Rodriguinho é um adolescente terminando o ensino médio. Apesar de ser um dos garotos mais bonitos e cobiçados da escola, mantém-se virgem. Com a chegada de Fabinho à classe, o interesse gerado pelo novato vem acompanhado do questionamento acerca de sua própria sexualidade. Rodrigo pergunta para si próprio: “será que sou gay?” Em paralelo a isso, os pais exigem a perda da virgindade, os amigos o empurram para encontros e Fábio o mantém mais e mais distante. Talvez porque tratam-se de atores-personagens adultos interpretando personagens adolescentes, o tema ganhe a força que um drama adolescente poderia não ter. Porque a encenação dirigida por Sanches está recheada de esforços no apagamento das marcas de teatralidade, a relação da plateia com o palco não encontra desafios e flui, fazendo rir das dificuldades que cada cena que parece nascer impõe. Os dois atores-personagens interpretam mulheres, meninas, fortões, prostitutas, professoras, homossexuais afetados e homossexuais não-afetados com o mesmo valor, dividindo com público a oportunidade da crítica. O diálogo é limpo, rápido, potente. O ritmo é mantido de forma ascendente com vistas a um ápice cada vez mais esperado, a partir das respostas que as perguntas vão ganhando: Rodriguinho é mesmo gay? Rodrigo e Fábio ficarão juntos? Como será suas vidas? Haverá beijo entre dois atores homens no palco? Cada momento é como um ponto de mudança sydfieldiano, apontando a narrativa para o fim, arrastando facilmente a atenção para o desfecho.

As mudanças de iluminação e da trilha sonora, bem como as intervenções da fumaça cênica, marcam a passagem das cenas com breves intervalos necessários ao respiro da boa fruição narrativa. Para haver a distensão é preciso cultivar a tensão afinal. O figurino de ambos age em total relação com o texto, também viabilizando quebras: a parte superior é formal (ternos e camisas) enquanto a parte inferior é casual (bermudas e tênis). As partituras interpretativas são positivamente farsescas, tirando desse gênero a rapidez que a comédia precisa para encarar um tema tão sério sem tirar-lhe a força. O contato com o público é espontâneo, a fruição torna-se vibrante.

Por tudo isso, “Entre-nós” tem justificados os aplausos recorrentes em cena aberta e a natural contribuição do público na cena que antecede fim, quando uma votação acontece com vistas a como se dará o fim da peça. Ao largo dos moralismos, da cafonice estética, das lições de comportamento, a peça tem o mérito de discutir os valores de forma humana, com a manutenção de um real que só não é mais próximo do além da narrativa porque aí não seria teatro. E que bom que o é. Viva o bem dito através do bem feito! E obrigado.

*

Ficha técnica:
Texto, direção, figurino e iluminação: João Sanches
Elenco: Igor Epifânio e Anderson Dy Souza
Trilha sonora: Leonardo Bittencourt
Produção: Patrícia Rammos (Da Preta Produções)

domingo, 10 de novembro de 2013

Ratos no sótão (RJ) (3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios)

O cenário com andaimes de "Ratos no sótão"
Foto: divulgação

A coragem de investigar o teatro expressionista


“Ratos no sótão” é mais interessante por manifestar cenicamente a briga entre os diferentes afetos que compõem a mente do protagonista, do que propriamente por falar de um homem em crise consigo próprio. A partir de texto escrito por Denise Maia Xavier, o espetáculo dirigido por essa e por Maria Elisa Amorin é melhor lido pelo gênero expressionista, aquele que dá conta de um olhar do homem por sobre o mundo bastante corrompido pelas suas emoções. Sem ter sido convidado, um senhor de meia idade se encontra dentro de sua mente e, sem ser exatamente o causador ou a vítima dos problemas que sofre, precisa resolver a confusão. A produção é do GATVC, de Três Rios, segundo fontes, um dos grupos de teatro amador mais antigos em atividade do Brasil. A peça, que estreou em setembro último, abriu o segundo dia do 3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios.

A montagem merece elogios por construir bem a situação dramática. Estafado de tanto trabalho, o Homem é pego de surpresa ao receber o pedido de demissão de um funcionário que ele mesmo queria demitir. O momento de impotência é a porta de entrada e o convite para viajar por dentro de si mesmo, vendo esse mundo interior de forma corrompida, caótica, torta. Esclarecido, porém, para o espectador qual é o universo onde o drama irá ocorrer, inicia um mau período de estagnação na narrativa. Interpretado por Wesley Altino, o personagem permanece na mesma crise durante todo o tempo a seguir da peça com igual potência, sem que haja resoluções ou mesmo suas pistas. A partir daí o olhar da audiência se ocupa em identificar os afetos manifestados pelos demais atores. A Culpa, o Medo, a Decisão, a Consciência, o Ego, a Confiança e vários outros são os personagens que vão se mostrando aos poucos e suas falas são praticamente tudo o que o público tem para desvendar as identidades que povoam o interior do protagonista. Alguns de forma dramaturgicamente mais privilegiada, outros menos, o jogo de reconhecimento é jogado pelo espectador que se esquece de quem conta a história, aquele cujo mundo é expresso na peça (a palavra Expressionismo vem daí). Linear, o ritmo cai vertiginosa e fatalmente, o que é uma pena considerada a forma interessante como se dá o movimento da encenação no palco e o cenário com andaimes que expressa com retas diagonais uma rede intricada de relações, além do figurino e da maquiagem a reforçar o clima soturno, mórbido, tenso da estética da produção.

Considerando a pouca experiência do elenco no ofício de atuar, a escolha por construções superficiais é positiva porque com mais chances de acerto. (O personagem do Homem é o único que poderia ter mais complexidade, mas essa possibilidade não lhe foi ofertada pelo texto dramatúrgico em questão, portanto isso não pode do ator ser cobrado.) São destaques as interpretações de Lucas Steiner, de Dinho Kojiro e de Fábio Ghaspar, além de Altino, cujas presenças cênicas são tão fortes como parece ter querido a concepção da dupla de diretoras. É bastante negativo o trabalho de Caroline Gama, com uma retórica sem força, péssima dicção, gestos inexpressivos e olhares perdidos. 

Amador é um gênero de produção e não cênico-narrativo. Assim como o teatro profissional e o teatro estudantil, deve ser cobrado de quem o viabiliza a mesma responsabilidade para com a beleza artística (no sentido hegeliano). “Ratos no sótão”, a primeira incursão do grupo no teatro adulto em décadas, apresenta boas intenções e algumas concretizações positivas a serem valorizadas. Avante!

*

Ficha técnica:
Texto: Denise Maia Xavier
Direção: Denise Maia Xavier e Maria Elisa Amorim
Elenco: Alexandre Braga Alves, Bruno Lucas Carvalho, Caroline Gama, Denise Maia Xavier, Diego Fonseca, Dinho Kojiro, Fábio Ghaspar, Iago Almeida, Luana Caren, Larissa da Silva, Lucas Steinert, Rouse Meire Santana, Thaiane Magiole e Wesley Altino

Júlia (SC) (3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios)

Reveraldo Joaquim e Yonara Marques em "Júlia"
Foto: divulgação

A gargalhada que fere


Júlia e Palheta, personagens do espetáculo “Júlia”, vêm para colocar o homem de frente ao seu pior: o preconceito, a sua dificuldade em aproximar-se do diferente, a sua tendência em julgar os outros homens pela sua aparência, a sua mania de se diferenciar com vistas a posições supostamente superiores entre os seus iguais. O bufão não é um gênero cênico-narrativo, mas interpretativo, como o clown ou o teatro de bonecos, por exemplo. Isto é, no caso dessa peça, importa menos a história e muito mais a forma como os personagens lidam com o olhar do público sobre si. Empurrada sobre uma carroça, Júlia, que não mexe as pernas, promete dançar. E, enquanto o seu show é preparado na praça, as relações entre ela e Palheta são expostas: o poder e a submissão, a necessidade de independência e o amor, o sexo, o dinheiro, a vaidade, a carência e, principalmente, a fome. Ocupado com as peripécias da dupla, o público gargalha para, no final, descobrir que esteve rindo de si próprio, fazendo vir a sua podridão, absorto na ilusão de estar debochando de outrem. Produzido pelo grupo Cirquinho do Revirado, o espetáculo encerrou o primeiro dia de atividades do 3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios.

Com um chicote nas mãos, Júlia determina as ações de Palheta: estender roupas, situar a carroça, apresentar o show que está para começar. Aproveitando-se do fato de não movimentar as pernas, clama para si, em momentos específicos e convenientes, a piedade tanto do companheiro como do público. Porque acontece em uma praça ao ar livre, o público está interpretando a si próprio, incluído sem licenças nas ações de ambos os personagens. A gargalhada tem seu preço: a plateia será ofendida, injuriada, comprometida, o que ratifica o acordo que, no final, será imprescindível para o sentido completo se dar a ver. “Júlia” fala de homem para homem de forma muito mais séria do que aparenta e, pela alta qualidade dos trabalhos de dramaturgia, direção e de interpretação, além da excelente articulação dos demais elementos que constroem o todo, merece vastos aplausos.

Yonara Marques (Júlia) e Reveraldo Joaquim (Palheta) têm grande carisma, despertando, a partir de suas ações, a piedade, o riso, a indignação. No contorno de suas interpretações, é visível a consciência corporal, essa disposta de jeito bem dosado, equilibrado e com vistas a um ápice positivamente aterrador. O idioma utilizado no início do espetáculo ou vai se modificando em um português mais próximo dos ouvintes (nós), ou vai sendo melhor compreendido em função do acostumar-se a ele por parte do público. O jogo é sutil, delicado e, por isso, nobre. As tensões que acontecem entre um agir e outro na multiplicidade dos desafios – descer da carroça, banhar-se, apanhar, ir embora ao ser adotado, ganhar aplausos e dinheiro, etc – mantém presos a atenção e o interesse. Os tons de voz, as intenções, a relação proxêmica e, principalmente, o ritmo com que as surpresas vão aparecendo diante da plateia justificam a avaliação da direção de Pepe Sedrez, assistido por Fabiano Peruchi, como excelente.

É mister destacar o belíssimo trabalho de cenário e de figurino de “Júlia”. Superficial e inicialmente visto como cheio de teatralidade, os objetos assim postos concordam com o todo também “puxando as orelhas” do analista, cujos olhos podem estar fechados para a potencialidade estética dos moradores de rua, esses como nós tão cheios de vaidade. Nesse sentido, a peça se apresenta com fortes marcas de coerência e de coesão, essas responsáveis pela articulação de um discurso em favor de uma tese tão séria como é o contato do humano com outros humanos.

O grito final de “Júlia” alerta para dois caminhos: mantermos os preconceitos ao enxergarmos os diferentes como farsantes ou encararmos o desafio em avaliar-nos ao ver esses diferentes como farsantes como nós. Sem obrigar ninguém a se posicionar, gentilmente o espetáculo fere (e sangra) com a excelente desculpa de ter nos feito rir e entreter. Maravilhoso!

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Ficha técnica:

Texto: Yonara Marques, Reveraldo Joaquim, Fabiano Peruchi e Pepe Sedrez
Direção: Pepe Sedrez
Assist. De Direção: Fabiano Peruchi
Elenco: Yonara Marques e Reveraldo Joaquim

Espia Só! (SC) (3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios)

Sandra Knoll, Laércio Amaral, ReNata Batista e Jô Fornari
à espera do público
Foto: divulgação

Puro deleite!

“Espia Só!” faz vir à tona o que há de melhor no ser humano. Estabelecendo concreta e narrativamente um intervalo no mundo urbano e impessoal, o espetáculo viabiliza uma possibilidade de deslocarmo-nos para um outro ponto de vista sobre as velhas paisagens. A singeleza das caixas de Lambe-lambe, a pequenice das histórias contadas em três minutos, a delicadeza de um espetáculo acontecido para uma pessoa de cada vez são Davi diante do gigante. Como na história bíblica, Davi vence e se torna rei. Produzido pela Cia Andante Produções Artísticas, a peça acontece com a chegada de quatro ciganos na praça da cidade, três deles munidos com uma caixa que lembra as velhas máquinas fotográficas dos tempos do daguerreótipo. Dentro delas, pequenos bonecos são manipulados pelos atores enquanto o público (uma só pessoa) “espia” através de um buraco e ouve uma música advinda de um par de fones de ouvido. O momento, por demais especial, aconteceu no primeiro dia de atividades do 3o OFF-Rio, Multifestival de Teatro de Três Rios.

Dirigido por Marcelo F. de Souza, “Espia Só” atualiza o gênero teatro de Lambe-lambe, bastante difundido no sul do Brasil, mas infelizmente nem tanto nas outras regiões. O tom confessional de uma pessoa (o público) e outra (o ator) trocando uma história situa a arte teatral em um lugar de sublime destaque: eis aí um momento especialíssimo, porque íntimo, de poesia cênica. O pano que é jogado por sobre a cabeça do espectador, além de evitar a luminosidade exterior da praça, valorizando a luz que vem de dentro da caixa, é um muro protetor que permite ao homem sonhar. O boneco, seja feito de tecido, de lã ou de papel, é desculpa bem aceita por esse mesmo homem para não pensar, naqueles três minutos, em si, mas dedicar-se a ouvir uma história. As mãos aparentes do manipulador segurando dentro da caixa os pequenos bonecos são um convite a quem frui de fazer a sua parte: há que se contribuir para o acordo acontecer, fazendo esquecer o fato de que se trata de um boneco sem vida e, assim, emprestar-lhe vida e história na imaginação. O resultado é um pacto único, pessoal, instransponível e que acaba por ser inesquecível também.

A história contada em cada caixa é uma peça dentro de uma peça maior. “Espia Só!” já é espetáculo antes do público sentar diante do manipulador. Jô Fornari, Láercio Amaral, ReNata Batista e Sandra Knoll estão caracterizados como ciganos, possibilitando pensar na fruidez do momento que está por vir e na importância de aproveitá-lo em sua potência. Além disso, suas roupas e sua tenda deixam ver as costuras por cima dos tecidos, evidenciando que tudo foi feito à mão e, portanto, não é industrial, em série, mas único, particular, individual. A elogiosa riqueza de detalhes dos cenários e dos bonecos dentro das caixas, auxiliada pelos efeitos de iluminação e de trilha sonora, além, claro, da delicadeza dos movimentos do manipulador, fazem ver o rigor estético que a produção reclamou para si. O todo não nos dá outra alternativa a não ser aplaudir.

Em um mundo cada vez mais cheio de grandes atos, submersos em populações cada vez maiores e contatos cada vez mais emergentes, a profundidade merece destaque. “Espia Só!” é puro deleite.

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Ficha técnica:
Texto: Cia Andante
Direção: Marcelo F. de Souza
Elenco: Jô Fornari, Laércio Amaral, ReNata Batista e Sandra Knoll

quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Deixa clarear (RJ)

Clara Santhana entre dois músicos
Foto: divulgação

Para os fãs (e apenas eles)

“Deixa clarear” perde uma grande possibilidade: a de homenagear a cantora Clara Nunes a quem não a conhece. Ao começar com cenas em que se veem os personagens do pai e da irmã da cantora mineira, o espectador tem a impressão de que, assim como seus fãs, sairá conhecendo e gostando mais da “Sabiá”. Ledo engano. Tirando os fatos de que Clara Nunes participou de um programa do Chacrinha e de que foi a cantora que vendeu 100mil cópias de um de seus discos, nada, absolutamente nada se sabe dela pelo texto. Vendido como um espetáculo sobre Clara Nunes, “Deixa clarear” é apenas motivo de encontro entre seus fãs mais próximos, esses que, aliás, não precisam de motivos para ouvi-la. 

Como também aconteceu no espetáculo sobre Clementina de Jesus recentemente, o espectador tem, na peça em cartaz no Teatro Café Pequeno, uma justaposição de canções interpretadas por Clara Nunes e um pouco de sua poética. Sente-se a relação da cantora com o candomblé e sente-se a atitude humanista dela em relação aos preconceitos culturais do Brasil. No entanto, nada sabemos sobre sua vinda de Belo Horizonte para o centro do país, sua vida afetiva-amorosa-sexual, sobre seu não envolvimento com a política brasileira de forma evidente (o Brasil vivia o período da ditadura!) e, principalmente, sobre os fatos que levaram a sua morte, essa acontecida aos 40 anos. “Deixa clarear”, por isso, parece ser uma produção feita para exibir a interpretação das músicas da cantora por uma atriz e por um grupo de músicos sem que nem a mesmo a canção mais importante de seu repertório seja ouvida além de uma simples menção: “Morena de Angola” não consta no repertório do espetáculo.

O texto mal escrito por Marcia Zanelatto permite que, em determinados momentos, a atriz Clara Santhana, que interpreta Clara Nunes, fale em primeira pessoa, anunciando-se como uma atriz que irá interpretar outra Clara. Esse feito coloca ainda outra opção para quem frui o espetáculo: será a peça sobre a relação entre a cantora famosa e a jovem atriz? De novo, a possibilidade não é aproveitada e, como a anterior, tem-se a justificativa para a avaliação de desperdício. 

Quanto a interpretação, Clara Santhana imita Clara Nunes na execução das canções, mas o espetáculo, de um modo particular e também geral, não tem profundidade. A atriz tem bons agudos e carisma, mas seus graves dificultam (e muito!) o entendimento das letras, pois não só não se entende o que ela fala como também, nesses momentos, não ouvimos, apesar da presença do microfone na pequena sala do Teatro Café Pequeno. Os músicos têm participação engraçada na cena de Chacrinha que, nesse contexto difícil, parece ser o melhor momento de “Deixa clarear”.

Com direção de Isaac Bernat, esse espetáculo deve servir para quem conhece e gosta de Clara Nunes encontrar-se com os seus pares. Nada mais.

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Ficha Técnica:
Texto - Marcia Zanelatto
Direção - Isaac Bernat
Direção Musical - Alfredo Del Penho
Direção de Movimento - Marcelle Sampaio
Atuação - Clara Santhana
Coordenção de Produção - Clara Santhana
Direção de Produção - Diga Sim! Produções, Sandro Rabello
Produção Executiva - Igor Veloso
Assistência de Direção - Daniel Belmonte
Assistência de Produção - Abner Valentim
Iluminação - Aurélio de Simoni
Figurino - Desirée Bastos
Cenário - Doris Rollemberg
Programação Visual - Side 2
Percussão - Michel Nascimento / Victor Ponce
Percussão - Bidu Campeche
Violão/ Cavaquinho - Felipe Rodrigues
Flauta/ Violoncelo - Lauro Lira
Vídeo Divulgação - Alexandre Rudah
Fotos Divulgação - Claudia Ribeiro
Foto Cartaz - Miguel Santiago

Mulheres do Brasil (RJ)

Janaína Azevedo e Beth Lamas em cena
Foto: Sonia Moraes

Simplicidade e força


“Mulheres do Brasil” é sobre a força feminina na história da música brasileira, mas principalmente sobre a responsabilidade que cada cantora tem ao cantar e, assim, fazer parte desse grupo cheio de grandes estrelas do passado e do presente. Tendo estado em cartaz no Teatro Clara Nunes no Shopping da Gávea, a peça, que tem direção de Sergio Módena e de Gustavo Wabner, tem como grandes pontos positivos a química entre Beth Lamas e Janaina Azevedo, além dos elogiáveis talento e a técnica que ambas em particular utilizam ao viabilizar momentos de grande deleite. Merece, por isso, mais e mais temporadas.

É notória a qualidade vocal de Beth Lamas e de Janaína Azevedo e do belo repertório escolhido e dado a ver desde a primeira canção em meio ao, também, belo texto de José Mauro Brandt com poesias de Luiz Alfredo Millecco. Mesmo assim, é preciso dizer que “Mulheres do Brasil” começa mal, pois as cenas iniciais expõem uma situação que é muito frágil aparamente, com pouca força para levar adiante o interesse por sobre a obra que esteve em cartaz. Uma das personagens, Joana (Lamas) teve uma desilusão amorosa e, nesse ínterim, uma voz desconhecida passa a ser ouvida. Essa aparência inicial de teatro comercial mal feito felizmente se desfaz em determinado momento. É quando e a força da peça surge com galhardia afastando as impressões iniciais: essa voz que é ouvida por Joana não é qualquer voz e há que se ver a peça para saber de quem ela é. Nesse momento, o espectador entende o que uma personagem faz diante da outra e a importância das duas para algo de que compartilhamos: o prazer em ouvir boa música (brasileira). Aí o espectador entra na peça e sente-se confortável para fruir as canções sem ter mais que esforçar-se para dar sentido ao espetáculo. Os aplausos estão prontos para virem.

São extremamente positivos os figurinos de Nello Marrese e a movimentação cênica assinada por Mariana Baltar, enfrentando o desafio da ação em meio aos números musicais com inteligência, criatividade e elegância. Por isso, é também negativa a participação de Samir Farias como ator, apresentando-se mal vestido, mal situado e sem uma fração da força de Lamas e de Azevedo enquanto intérprete musical ou cênico. Sua presença, por ele ser o diretor musical e arranjador, parece ser mais afetiva do que realmente profissional, o que é um desvalor. Mesmo assim, valem os elogios enquanto responsáveis pela instrumentação das canções. 

“Mulheres do Brasil” fala sobre cantoras, mas poderia falar sobre qualquer profissão: a peça é um argumento em favor de cada um encontrar-se no mundo. Cheio de méritos, esse musical encanta pela simplicidade e contagia pela força. Depois dessa primeira temporada, que surjam mais oportunidades para o aplauso merecido.

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Ficha Técnica:
Elenco: Beth Lamas, Janaina Azevedo e Samir Farias
Direção: Sergio Módena e Gustavo Wabner
Direção musical e arranjos: Samir Farias
Textos: José Mauro Brant
Poesias: Luiz Alfredo Millecco
Preparação Corporal e Direção de Movimento: Mariana Baltar
Cenário e Figurino: Nello Marrese
Iluminação: Paulo Roberto Moreira dos Santos
Designer de Som: Fernando Cunha
Idealização: Beth Lamas, Janaina Azevedo e Samir Farias
Gestão do Projeto: Três! Ideias e Soluções Culturais_Gabriela Mendonça, Paula Salles e Renato Bavier
Assessoria de Imprensa – Lu Nabuco Assessoria em Comunicação

Facínora (RJ)

Bruno Caldeira e Gustavo Rizzotti em cena
Foto: divulgação

Quando não se sabe como reagir ao texto

“Facínora” perde a oportunidade de investir em seu melhor. Reconhece-se o esforço e a criatividade da direção, mas a carência de boa dramaturgia é muito grande nesse espetáculo de forma que os defeitos dominam a sua estrutura essencial. Em um apartamento, Facínora e Porfírio (ela falando e ele ouvindo) conversam sobre a vida particular de todos a sua volta: vizinhos, família, amigos. O tom extremamente ácido e preconceituoso, bem aos moldes de “Caco Antibes” e de “Senhora dos Absurdos”, de tão constrangedor, acaba sendo muito engraçado e esse é o ganho maior da peça. No entanto, em vários momentos, duvida-se das intenções do artista, pois ora Bruno Caldeira, que assina o texto, brinca com o exagero no politicamente incorreto, ora expõe verdades que realmente precisam ser consideradas na convivência contemporânea. Assim, em dúvida sobre quais os momentos em que o espetáculo é “sério” e quais aqueles em que ele é “debochado”, o espectador se prende em pensamentos e desvia a atenção. Tendo estado em cartaz na Casa da Gávea, o resultado foi negativo, mas a peça ofereceu motivos interessantes para pensar sobre arte e sobre sociedade.

O problema de “Facínora” é mesmo o texto. A mesma personagem que fala mal da velhice, dos negros, dos homossexuais, da feiura e da pobreza fala, por exemplo, sobre não jogar lixo no chão, sobre economizar dinheiro e sobre higiene, de forma que difícil reconhecer, como já se disse, quando é puro deboche e quando o assunto é sério. E, nesse trabalho de reconhecer o lugar de cada fala e aí, sim, posicionar-se rindo ou refletindo, o público perde facilmente o ritmo das muitas histórias contadas e o foco por sobre o todo. De um modo geral, infelizmente, o todo acaba por ser monótono.

Os dois atores, Bruno Caldeira e Gustavo Rizzotti, têm bons trabalhos de interpretação, embora reconheça-se que falta técnica a Caldeira para interpretar um personagem tão duro como Facínora. É visível o esforço feito na viabilização da voz e o cansaço do intérprete ao fim da peça. O aparato vocal é usado em larga amplitude os movimentos vistos são notoriamente resultado de profunda pesquisa, o que é positivo. A participação de Rizzotti é bastante positiva, sobretudo porque opõe a total discrição com um momento bem histriônico, sem dúvida, um dos melhores da peça. Na direção de Caldeira e de Rizzotti, os personagens têm movimentos rigidamente partiturarizados, distendendo e estendendo as tensões da fala a partir do controle rígido das pausas tanto no verbo, como no gestual, o que também expressa significado.

A peça está ambientada em uma sala que mais parece de um castelo medieval – com candelabros, espelhos em molduras pesadas, móveis frios e cheios de detalhes, tudo em dourado – apesar de estarmos diegeticamente dentro de um apartamento comum no início do século XXI. A oposição entre esse ambiente e do seu exterior é fator relevante para entendermos essas figuras que ali moram e seus posicionamentos antiquados, uma diferença que significa e é por isso bem vinda à produção. A personagem Facínora (Caldeira) usa vestidos longos, chapéus chamativos e um tapa-olho marcante. Todo o vestuário dela é preto e, depois, branco, enfrentando o público visualmente. Primeiramente nu, Porfírio (Rizzotti) veste, em seguida, bermuda, camisa e colete, todo banhado em dourado, desaparecendo coerentemente em meio aos móveis. Seu papel ali é mesmo apenas escutar a verborragia trash de sua esposa e não opinar, submisso ou sucumbido, aos seus disparates. Portanto, o seu desaparecimento é também positivamente significativo. Apesar do visível durex que une a unha postiça à mão de Facínora, o resultado estético do espetáculo atende bem às expectativas, pois o realismo fantástico é bem usado: há profundidade, há marcas de realidade (cabide), há surpresas (o telefone). Os figurinos estão impecáveis , os movimentos de luz atendem à concepção gótica-barroca do cenário, a trilha sonora informa, sem marcar-se positivamente.

“Facínora” fez uma passagem interessante na programação do Rio apesar de seus percalços. O ar corrosivo de boa parte do texto, integrado aos elementos outros da encenação, mérito para a direção de XX, forneceu uma alternativa rara ao que há para ser visto no teatro carioca. 

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Ficha técnica:
Texto: Bruno Caldeira
Direção e Elenco: Bruno Caldeira (Facínora) e Gustavo Rizzotti (Porfírio)
Iluminação: Gustavo Rizzotti
Cenário, Figurino e Trilha Sonora: Bruno Caldeira
Coordenação de produção: Frederico Magella