sábado, 28 de março de 2015

Tio Vânia (aos que vierem depois de nós) (MG)

Foto: Naty Torres
Elenco em cena


O “Tio Vânia”do Galpão

“Tio Vânia (aos que vierem depois de nós)” cumpre pequena temporada no Teatro Sesc Ginástico, no centro do Rio, como parte da programação Circuito Sesc Artes Cênicas 2015. Dirigido por Yara de Novaes, que recentemente ganhou o troféu APTR de Melhor Atriz por sua participação em “Contrações”, esse espetáculo do mineiro Grupo Galpão estreou no Festival de Curitiba em 2011. Lançado em 1897, o texto é uma versão melhorada do dramaturgo russo Anton Tchékhov (1860-1904) de uma outra peça sua, “O demônio da floresta”. A encenação, em que o Galpão apresenta uma ruptura com a estética que lhe deu fama em espetáculos como “Romeu e Julieta” (1992), “A rua da amargura” (1994) e “Um Molière imaginário” (1997), adapta o original na medida em que corta personagens e sugere alguns distanciamentos do que provavelmente foi apresentado pelo então recém criado Teatro de Arte de Moscou por Constantin Stanislávski e por Vladimir Nemiróvitch-Dântchenko. É possível que as modificações responsáveis de Novaes, no entanto, tenham feito ver com mais força (e beleza) o texto de Tchékhov no espetáculo a que agora o Rio de Janeiro tem nova oportunidade de assistir.

Aclamado durante todo o último século, o texto de “Tio Vânia” é uma obra de primeiríssima grandeza. A história se passa em uma região rural, onde o Professor Alexandre Serebriákov (Arildo de Barros) mantém a velha propriedade de sua primeira esposa já falecida. Na primeira cena, os personagens “Berruga” Teléguine (Paulo André), Doutor Ástrov (Eduardo Moreira), Vovó Maria (Teuda Bara) e Tio Vânia (Antônio Edson) conversam sobre a chegada do Professor e de sua segunda esposa Helena (Fernanda Vianna). De início, ficam claros os conflitos mais importantes. Resignados, Helena, Berruga e Vovó, de um lado, fazem ver com mais força as frustrações do Doutor Ástrov, de Sônia e principalmente de Vânia. Todos veem suas vidas se desperdiçarem com o avanço dos anos. No centro da narrativa, Alexandre catalisa as maiores contradições, gozando de fama internacional pela publicação de artigos sobre história da arte, mas padecendo de dores corporais e de grande desânimo. A possível venda da velha propriedade fará Tio Vânia, o personagem-título, reunir forças para esquecer as gentilezas e dizer tudo o que pensa a Alexandre. Eis aqui o seu ato heroico, cujas consequências tornam essa dramaturgia uma pérola entre as joias do realismo psicológico/naturalista.

O maior mérito da está no modo como a encenação enfrenta as metáforas.

Ao contrário de fugir das metáforas, a direção de Yara de Novaes, assistida por Paulo André, as enfrenta. As batidas da bengala de Vovó Maria (Teuda Bara) se relacionam com o relógio quebrado na parede e com o tempo que ou nunca passa. No mesmo sentido, a seminudez de Helena se articula com seu piano não tocado e com a árvore seca da cena inicial. Secaram os talentos de Vania na manutenção da propriedade rural enquanto esse assiste ao sucesso de Alexandre que escreve sobre arte sem saber dela. Desapareceram a floresta e os animais e, em troca, vieram o deserto, as rugas no rosto e as rachaduras nas paredes. O uso na encenação do queijo e do pão de queijo, a música em espanhol e o design moderno de algumas peças do vestuário e na cenografia não impedem que sejam propostas a crítica à sociedade burguesa hipócrita, a reflexão sobre a (in)capacidade do homem de assumir o controle da própria história e a beleza do direito de sonhar no qual todo ser humano se refugia. Quanto às interpretações, não há maiores destaques entre os bons trabalhos, além da belíssima composição de Paulo André (o “Berruga Teléguine) que faz ver alguém que já cicatrizou as mágoas embora não tenha se esquecido delas.

O cenário de Márcio Medina é um dos pontos altos de “Tio Vânia (aos que vierem depois de nós)”. Os quatro blocos que surgem na segunda cena constroem com galhardia o universo labiríntico da grande propriedade em que, apesar do tamanho, todos velam as insônias uns dos outros. Somente a partir desse “ecossistema” naturalista, é que todos os personagens podem ser avaliados em sua plenitude e os microambientes da cenografia exortam essa possibilidade. Os figurinos de Medina e a direção musical (e música original) de Dr. Morris corroboram para a complexidade, tudo enquadrado pela luz quente e evasiva de Pedro Pederneiras, em belíssima participação.

O espetáculo, que fica em cartaz até o próximo domingo (29 de março).

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FICHA TÉCNICA DO ESPETÁCULO

Elenco
Antonio Edson – Tio Vânia
Arildo de Barros – Serebriákov
Eduardo Moreira – Ástrov
Fernanda Vianna – Helena
Paulo André – Teléguine
Teuda Bara – Maria Vassiliévna
Mariana Lima Muniz (atriz convidada) – Sônia

Equipe de criação
Direção – Yara de Novaes
Texto – Anton Tchékhov
Preparação corporal e assessoria de movimento cênico – Mônica Ribeiro
Pintura das colunas e confecção da árvore – Atelier Junia Melillo
Tradução e adaptação – Grupo Galpão
Assistente de direção – Paulo André
Cenografia e figurino – Márcio Medina
Iluminação – Pedro Pederneiras
Trilha sonora e música original – Dr. Morris
Direção vocal de texto – Babaya
Caracterização – Mona Magalhães
Adereços – Marney Heitmann
Assistente de cenário – Amanda Gomes
Assistente de figurino – William Rausch
Assistente de iluminação – Wladimir Medeiros
Cenotécnicos: Helvécio Izabel, Bruno Cerezoli e Elton John
Confecção de figurino – Taires Scatolin e Antônio Malveira
Técnica de pilates – Waneska Torres e Camila Couri
Operação de som – Vinícius Alves
Produção musical – Pedro Durães
Músico – Felipe José
Professor de violão – Júlio Marques
Estagiária de cenário – Marina RB
Fotos – Guto Muniz
Projeto gráfico – Lápis Raro
Produção executiva – Beatriz Radicch
Direção de produção – Gilma Oliveira
Produção – Grupo Galpão

domingo, 22 de março de 2015

Luisa se estrella contra su casa (Argentina)

Foto: divulgação


Juan Manuel Wolcoff, Matías Vértiz e Luciana Mastromauro

Beleza e vigor incomensuráveis

O espetáculo argentino “Luisa se estrella contra su casa”, da Compañía Vilmadiamante, participou, neste final de semana, da programação do II Festival Dois Pontos. Com texto e direção de Ariel Farace, a peça foi co-produzida pelo VI Festival Internacional de Buenos Aires, em 2007. Além de Porto Alegre, em 2009, a produção já passou por Berlin e San Salvador, tendo recebido merecidos elogios por onde se apresenta. Com Luciana Mastromauro no papel título, o elenco conta também com Guido Ronconi, Matías Vértiz e Juan Manuel Wolcoff. O Festival Dois Pontos é fruto da parceria entre seis ocupações artísticas dos teatros do município do Rio de Janeiro: Ágora, Câmbio, Os Ciclomáticos, No Lugar, Projeto_ENTRE e Vem!. Infelizmente, a peça faz hoje, às 20h, sua última apresentação no Teatro Sérgio Porto, no bairro Humaitá.

Os méritos de “Luisa se estrella contra su casa” começam na dramaturgia. No texto de Ariel Farece, Luisa perdeu Pedro, a quem amava muito, em um acidente de moto. Não sabemos quem é Luisa, nem Pedro, nem qual a relação que havia entre os dois. Não sabemos quando isso aconteceu e nem há muitos detalhes sobre o acidente. Não há qualquer enredo nem antes, nem depois disso. Nesse sentido, toda a dramaturgia consiste em tentativas de dar corpo para diversas imagens que possam clarificar essa situação. Ao longo de sessenta minutos de encenação, o espectador percorre os diálogos, assumindo a responsabilidade pelas relações de sentido que encontra. Em sua beleza, o texto pode ser metáfora para sensações de perda. A frase “Há um ser que vive em mim como se eu fosse sua casa” ecoa enquanto o espetáculo vai colocando o espectador diante de aspectos muito delicados de sua existência.

Na direção de Farace, assistido por Andrés Rasdolsky, a falta de lógica das coisas leva ao sonho, mas esse lugar, longe de ser escape, funciona como um intervalo entre situações. Ali estão presentes memórias do passado e talvez mini-despertares em relação ao futuro. De um lado, todos os personagens estão congelados em uma situação: Pedro (Matías Vértiz) sorri enquanto diz nada sentir, o Vizinho (Guido Ronconi) toca sempre os mesmos acordes da mesma canção, o sapólio Odex (Juan Manuel Wolcoff) acompanha Luisa aonde ela vai e Luisa (Luciana Mastromauro) circula pelos mesmos ambientes e vivencia as mesmas imagens enquanto nada mais pode fazer. De outro, os lugares e as ações sofrem o desapego das regras convencionais. Os ramos da árvore não se movem, o frango que estava morto agora está vivo, a casa e o supermercado Coto se misturam. O ritmo dos diálogos, não lineares, é lento, marcando sua quebra com a realidade. Todos os elementos, assim, dão sua contribuição ao todo de forma efetiva e individual, dispensando a simples tarefa de ratificar, mas também revelando níveis de interpretação diferentes. É excelente a direção de Ariel Farace.

Guido Ronconi (o Vizinho), Juan Manuel Wolcoff (o sapólio Odex) e Matías Vértiz (Pedro) apresentam bons trabalhos de interpretação na medida em que suas expressões vencem o desafio de permanecerem lineares, estruturas por entre as quais o espectador deseja ver Luisa caminhar. Mas é Luciana Mastromauro (Luisa) quem tem destaque. O falar firme, aproveitando as sílabas, não esconde a emoção de cada imagem dada a ver. As expressões faciais e o corpo se equilibram em pontos sensíveis de cada cena. Os movimentos de olhar determinam os focos de atenção. Ao bater-se contra sua “casa”, a Luisa de Mastromauro nos toca.

O modo como o desenho de luz de Matias Sendon e de Ricardo Sica atua na encenação também é ponto relevante. O melhor momento é quando o foco fechado sobre Luisa quer dizer algo mais que apenas determinar em quem o espectador deve olhar. No mesmo sentido, o cenário de Cecília Zuvialde e de Farace e o figurino agem.

A economia dos elementos de “Luisa se estrella contra su casa” é apenas aparência. Em cada um, dos diálogos aos gestos, das interpretações, ao cenário, dos figurinos, da trilha e à luz, tudo foi usado com a responsabilidade de dizer algo que trouxesse algo novo ao todo da obra. Talvez esteja aí o maior motivo pelo qual a peça diga coisas diferentes a cada um e em cada momento, mas sempre diga. Por trazer ao Rio esse espetáculo, o Festival Dois Pontos prossegue sendo o ponto alto da programação do teatro carioca neste mês de março.

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Ficha técnica:
Texto e Direção: Ariel Farace
Elenco: Luciana Mastromauro, Guido Ronconi, Matías Vértiz e Juan Manuel Wolcoff
Cenário: Ariel Farace e Cecilia Zuvialde
Desenho de luz: Matías Sendón e Ricardo Sica
Operação de luz: Sebastian Francia
Música original: Guido Ronconi


Ficha técnica do Festival Dois Pontos:

Realização: Treco Produções
Direção Artística:
ÁGORA - José Della Vedova, Fabianna de Mello e Souza e Mauro Vianna
CÂMBIO - André Vieira, Cesar Augusto e Jonas Klabin
Projeto_ENTRE - Daniela Amorim, Joelson Gusson e Marta Vieira
NO LUGAR - Fabricio Belzoff, Michel Blois e Rodrigo Nogueira
Os Ciclomáticos - Ribamar Ribeiro
VEM! - Alexandre Mello e Rogério Garcia
Coordenação de projeto: André Vieira e Marta Vieira
Coordenação de logística: Leila Maria Moreno
Produção de logística: Monna Carneiro
Coordenação técnica: Felipe Argollo e Leandro Barreto
Assistência de coordenação técnica: Lia Sarno
Assistente técnico: Juju Moreira
Produção de Arte: Rodrigo Abreu
Assistência de Produção de Arte: Bruno Henriquez e Renato Barreto
Coordenação de comunicação: Paula Rollo
Produção de comunicação: Marcelo Mucida
Programação Visual: Felipe Braga
Conteúdo, Webmarketing e Vídeos: Elisa Mendes e Julia Casotti
Fotografia: Arthur Seixas e Renato Mangolin
Coordenação Administrativa Financeira: Cristiane Cavalcante
Assistente Administrativo Financeiro: Carina Ribeiro
Produção Local: Aline Mohamad, Ana Beatriz Silva, Fábio Osório, Juliana Mansur, Rogério Garcia e Ton Dutra
Tradução de peças: Carlos Alberto Della Paschoa
Consultoria de shows: Márcia Figueiredo
Parceria: Galpão Gamboa e Pequena Central
Apoio Institucional: Consulado Geral da Argentina e Instituto Cervantes
Patrocínio: Prefeitura da Cidade de Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Cultura

sábado, 21 de março de 2015

Boa noite, Mãe (RJ)

Beth Zalcman e Thaís Loureiro
Foto: divulgação

Precisa ser visto

O espetáculo “Boa noite, Mãe” felizmente cumpre segunda temporada no Teatro Eva Herz, na Livraria Cultura, na Cinelândia, Rio de Janeiro. O texto, escrito pela americana Marsha Norman em 1983, ganhou o Prêmio Pulitzer daquele ano, além da montagem original ter recebido quatro indicações ao Tony em sua estreia na Broadway (melhor direção, melhores interpretações e melhor peça). Anne Pitoniak e Kathy Bates interpretavam a Mãe (Thelma Cathes) e e a Filha (Jessie Cathes) que dão início à noite mais importante de suas vidas. No Brasil, o texto teve uma primeira célebre versão dirigida por Ademar Guerra, com Nicette Bruno (Mãe) e Aracy Balabanian (Filha) no elenco em 1984. Agora Beth Zalcman e de Thaís Loureiro são quem devem receber os aplausos por suas excelentes interpretações nesse espetáculo dirigido com vários méritos por Hugo Moss. Pela forma como a encenação viabiliza conceitos da potente dramaturgia de Norman, a produção deve ser vista por quem gosta de bom teatro.

Na abertura da peça, Jessie procura a velha arma de seu falecido pai no sótão de casa enquanto sua Mãe se prepara para ter suas unhas feitas em uma noite monótona qualquer. Em seguida, vem a terrível revelação. Jessie avisa para a Mãe que, depois de preparar tudo, e desejar boa noite, irá dar um tiro em si mesma, acabando com a própria vida. Ao longo do texto, o descrédito inicial da Mãe vai recebendo novos contornos de forma que a promessa da Filha vai se tornando cada vez mais cumprível. Dentre as várias maravilhas dessa dramaturgia de Marsha Norman, está o esforço da Mãe em modificar o desfecho. É como se, em algumas horas de narração, toda a vida de ambas passasse a não apenas ser revista, mas precisasse ser modificada a fim do breve futuro ser diferente do planejado. Ao personagem da Filha, recai a beleza de se constituir como estrutura inabalável capaz de fazer sólida oposição aos movimentos em contrário da Mãe. Nesse contexto, força e sensibilidade, dúvida e certeza, passado e futuro se alternam em um desenvolvimento dramatúrgico envolvente, aterrador e coberto de complexidade.

O desafio de Beth Zalcman (Mãe) e de Thaís Loureiro (Filha) é enorme e, porque plenamente vencido, não menores são seus méritos. Não há no texto uma só pitada de melodrama, mas o espectador só poderá reconhecer isso no final. Os diálogos são cheios de ironias e de não-ditos e dão a ver um imenso roll de antecedentes dramáticos como é bastante raro de se encontrar em textos latinos. Dessa forma, Zalcman e Loureiro, para defender bem suas personagens, precisam antes vencer o público mais acostumado com outro tipo de narrativa. E conseguem! Quanto mais a peça avança, mais se percebe que as inúmeras piscadelas e soluços de Jessie não são meras marcas de uma interpretação tipificada, mas verdadeiramente detalhes da realidade em que essa jovem mulher vive. Do mesmo modo, o andar cansado, os cabelos enrolados, a coluna curvada e o tom de voz irritado da Mãe. No melhor momento da direção de Hugo Moss, assistido por Cleiton Echeveste, está a percepção de que essa Mãe e essa Filha só se tocam quando todas as formas de reaproximação já tiverem sido tentadas. Eis aqui um trabalho belíssimo!

“Boa noite, Mãe”, além dos valores já destacados, oferece um uma essencial reflexão sobre o aparato cenográfico na construção de uma peça neorrealista como essa. Ao longo de sessenta minutos de encenação, o espetáculo se passa na sala e na cozinha da casa onde moram Thelma e Jessie. Para a narrativa fluir, o espectador não pode ter dúvidas. Em outras palavras, a torneira precisa funcionar, as gavetas devem abrir, o cigarro precisa acender. No cenário de Luna Santos e do diretor Hugo Moss, todos os armários foram construídos com caixas de papelão, mas o que conceitualmente tinha tudo para ser um fracasso semântico acabou por cumprir vigorosamente sua função. O segredo da dupla talvez esteve em repetir o tom do papelão em quase todos os outros elementos do cenário. No palco, todos os objetos variam na mesma paleta de cor: do marron ao amarelo, passando pelo verde e pelo laranja. A extrema unidade na direção de arte resultou, assim, no apagamento das caixas de papelão que potencialmente dão a ver os armários como deveria ser. O figurino criado pelas atrizes e o desenho de luz de Aurélio de Simoni ratificam o realismo e fazem bem, como o cenário, à narrativa.

“Boa noite, Mãe”, produzido pelo Grupo Assik, que vem desenvolvendo no Brasil as ideias do mestre russo Michael Chekhov, é uma ótima surpresa na programação de teatro carioca. Precisa ser visto.

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Ficha técnica:
Texto: Marsha Norman
Tradução: Hugo Moss e Thaís Loureiro
Direção: Hugo Moss
Elenco: Beth Zalcman e Thaís Loureiro
Assistente de direção: Cleiton Echeveste
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenografia: Hugo Moss e Luna Santos
Figurinos: Beth Zalcman e Thaís Loureiro
Fotografia: Hugo Moss
Identidade visual: Thaís Loureiro
Produção: Roseane Milani
Realização: Michael Chekhov Brasil e Gam Produções

As noviças rebeldes (SP)

Drika Mattos, Helga Nemeczyk, Soraya Ravenle,
Maurício Xavier, Carol Puntel e Sabrina Korgut em cena
Foto: Paprica Fotografia

Divertido!

O musical “As noviças rebeldes”, depois de temporada em São Paulo, estreou no Rio de Janeiro no último dia 13 de março. Dirigida por Wolf Maya, a peça tem montagem brasileira assinada por Flávio Marinho, dupla responsável pelas versões anteriores. Soraya Ravenle, Sabrina Korgut, Maurício Xavier, Helga Nemeczyk, Carol Puntel e Drica Mattos estão no elenco na produção assinada por Sandro Chaim. O espetáculo, que positivamente oferece mais do que se pode esperar, está em cartaz no Theatro Net Rio – Sala Teresa Rachel, em Copacabana.

A história é simples. Por terem tomado sopa feita com legumes enlatados, 52 freiras da Irmandade Salue Marie vieram a falecer. Dessas, 48 foram sepultadas, mas a falta de verba impediu que as outras quatro também fossem. A fim de obter fundos para isso, as que restaram organizam um show de variedades. A peça começa com o início desse show, mas, durante a sua apresentação dele, os desejos internos (e vaidades) de cada religiosa vão ganhando lugar, trazendo à narrativa alguns percalços engraçados. Escrita pelo americano Dan Goggin, a comédia, que tem canções do mesmo autor, estreou há trinta anos na Broadway e fez a segunda maior temporada do circuito off de lá. No Brasil, a primeira montagem aconteceu em 1987 com Fafy Siqueira, Totia Meirelles, Regina Restelli, Sylvia Massari e com Cininha de Paula no elenco. Em seguida, vieram as versões masculinas (“Nunsense A-Men”) assinadas pela Cia. Baiana de Patifaria, que também fizeram muito sucesso inclusive em Nova Iorque em 1993. (Em 2008, chegou a ser um especial de Natal da TV Globo com Xuxa e Marília Pêra no elenco.) Nessa produção de 2015, Flávio Marinho, ainda mantendo o enredo em seu lugar humilde, tem o mérito de relegar às interpretações toda a capacidade da história de envolver o público. A Madre Superiora Irmã Gardênia (Soraya Ravenle), a Chefe das Noviças Irmã Frida (Maurício Xavier), a Irmã Amnésia (Sabrina Korgut), a Irmã José (Helga Nemeczyk) e a Noviça Irmã Maria Leo (Carol Puntel) continuam sendo personagens deliciosas que pensaram que os maiores sonhos haviam ficado para trás, mas que retomam o direito de aspirar o alto ainda na Terra. Com toda a graça, mas também toda a emoção, a peça diverte, alegra e inspira estando aí alguns motivos de seu contínuo sucesso.

Composto essencialmente de quadros, em que cada personagem é vista principalmente sob o âmbito dos próprios talentos, esse espetáculo burlesco privilegia as intérpretes e suas habilidades (e nelas se apoia). Nesse sentido, outro motivo para o sucesso de “As noviças rebeldes” é o que cada um do elenco traz ao todo. Soraya Ravenle, a atriz mais experiente do conjunto, protagoniza o primeiro ponto alto do espetáculo na canção “Spotlight”, em que a beleza de sua voz compõe um número encantador, que é também o único que vincula a peça aos grandes musicais da Broadway. Carol Puntel (Irmã Maria Leo) apresenta com êxito uma bonita cena de ballet clássico. A peça, no entanto, parece ser de Helga Nemeczyk (Irmã José) e de Sabrina Korgut (Irmã Amnésia), que protagonizam as cenas mais engraçadas, com mais profundidade dramática e também as de maior alcance vocal. Nemeczyk, em seu quadro de stand-up comedy, assina suas versões de Marília Gabriela, Romário, de Ana Carolina, entre outros, além de privilegiar o público com a potência de sua voz já elogiada na recente produção musical “Lapinha”. Korgut, dando vida a uma docílima figura que sofre de perda de memória, assume com responsabilidade e mérito o momento mais esperado do espetáculo: a participação da Irmã Maria Anette, fantoche que deu origem à célebre Maria Santa, interpretada por Sylvia Massari no Programa “A Praça é Nossa” nos anos 90. Em todas as suas potencialidades, ambas intérpretes apresentam um excelente trabalho, sozinhas e com o grupo, elevando consideravelmente o nível estético do trabalho como um todo (que não tem desméritos).

A produção, dentro do que se propõe esteticamente, é consequência da união de diversas boas contribuições. A direção de Wolf Maya, assistido por Liane Maya, aproxima o espetáculo do universo popular, garantindo a comédia que justamente o gênero da peça prevê. As coreografias de Acácio Gonçalves dão nobreza à montagem, sem que ela se desfaça de suas intenções. A direção musical de Liliane Secco atende às dezesseis canções dentro de suas necessidades mais básicas. O cenário de Flávio Graff, bem iluminado por Adriana Ortiz, é excelente porque define com detalhes preciosos o contexto do colégio de freiras/convento onde as personagens viram sua vida até então passar.

Sem qualquer pretensão, “As noviças rebeldes” alegra, entretém e encanta, podendo oferecer àqueles que nada esperam um ponto de vista mais complexo por sobre as personagens aparentemente superficiais. É bonito identificar a plateia torcendo por essas “Irmãs”, que, longe de serem mais santas do que qualquer um de nós, não reprovam as vidas que levam, embora façam da dúvida motivo de responsabilidade para continuar seguindo como estão. Ou terem a coragem de tomar novo caminho. Vale a pena!

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Ficha Técnica:
Texto: DAN GOGGIN
Tradução e Adaptação: FLÁVIO MARINHO
Direção: WOLF MAYA
Elenco: SORAYA RAVENLE, SABRINA KORGUT, MAURICIO XAVIER, HELGA NEMECZYK, CAROL PUNTEL e DRICA MATTOS
Cenário: FLAVIO GRAFF
Figurino: MARIETA SPADA E NATÁLIA LANA
Designer de Luz: ADRIANA ORTIZ
Direção Musical: LILIANE SECCO
Produção Geral: SANDRO CHAIM
Produção Executiva: EDGARD JORDÃO
Apresentado por: Prefeitura do Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura e SulAmérica
Realização: MF CHAIM e CHAIM PRODUÇÕES

Melancolía y Manifestaciones (Argentina)

Lora Arias, à esquerda, e elenco em cena
Foto: divulgação


Espetáculo tocante!

O espetáculo argentino “Melancolía y Manifestaciones” abriu a segunda edição do Festival Dois Pontos no último dia 13 de março. Assinada pela companhia de Lola Arias, a peça parte, de forma bastante delicada, de experiências pessoais da autora para narrar a história de uma filha que busca compreender melhor sua mãe. O Festival ocupa seis teatros municipais e o Galpão Gamboa, oferecendo ao público carioca um panorama das artes cênicas da Argentina. Além do de Lola Arias, espetáculos assinados por Ariel Farace, Gabriel Chame Buendía e por Agostina López participam da intensa programação que vai até o dia 29 de março. “Melancolía y Manifestaciones” fez três apresentações no Teatro Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro. 

O mais belo de “Melancolia y Manifestaciones” é sentir que todos nós temos muitas histórias dentro da gente mesmo. A peça começa com a projeção de um texto através do qual o leitor toma posse de tudo o que precisará para avançar na história. Quando sua Filha mais nova nasceu, a Mãe entrou em depressão. Talvez não tenha sido o nascimento em si, talvez não tenha sido o golpe militar que aconteceu no mesmo período, levando a Argentina a viver um período de ditadura. É provável que a doença tenha apenas começado. De qualquer forma, é atrás dessas questões que a Filha vai e, com ela, o espectador. Constituída de contribuições de várias espécies - projeções em vídeo, gravações de áudio, textos para serem lidos, músicas -, o texto de Lola Arias (dramaturgia de Sofía Médici) pergunta: qual é a utilidade do teatro nessa história? Entre todas as artes existentes, o teatro é a única que depende exclusivamente do encontro. A personagem narradora Filha (Lola Arias) anuncia, no início, que recebeu a ajuda de um grupo de teatro amador de sua localidade para encenar o que vai descobrindo sobre sua Mãe (Elvira Onetto). Em “Melancolía y Manifestaciones”, o jogo é claro: atores (Beatriz Couceiro, Cargmen Roig, Elvira Onetto, Ricardo Coniglio e Vicente Fiorillo) interpretam maus atores que gentilmente se propõem a interpretar personagens da história que a Filha parcialmente descobre sobre sua vida. E é nessa delicadeza que a peça ganha o coração da plateia para quem o tema da relação entre mãe e filha, entre vários outros, é obviamente caro. Pela sua simplicidade, o espetáculo é comovente.

Quanto às interpretações, o maior mérito é que tudo é bastante delicado. “Melancolía y Manifestaciones” chega e se vai sem personagens dados a ver de forma grandiloquente, marcados e definidores de uma narrativa. A dúvida e principalmente a simplicidade definem pessoas ocupadas com as próprias existências na peça. No palco, isso está sugerido pelo modo quase inexpressivo dos atores de olhar e de falar, pelos movimentos limitados e pelos gestos econômicos, pela proximidade de tudo ao tom neutro. A forma como a encenação, dirigida por Arias e por Luciana Acuña, se dá tem completa relação com a história que o espetáculo conta. E isso tem enorme relevância do ponto de vista artístico.

Os demais elementos parecem ter atendido ao mesmo conceito. No cenário de Mariana Tirantte, uma caixa cênica está posicionada no centro do palco, lugar onde os atores amadores amigos da Filha oferecerão corpo aos personagens de sua história pessoal. A madeira é bruta, os elementos cênicos são apenas simbólicos, tudo tem cara de improviso. As projeções – um trabalho excelente de Nele Wohlatz - aparecem nas cortinas que cobrem a parte da frente dessa caixa. No conjunto, os elementos deixam pensar que se tratam de convites gentis, íntimos, nada formais para o público dividir com eles a narrativa. Nesse sentido, a estética do espetáculo (o figurino é de Sofía Berhaka, a trilha sonora de Ulisses Conti e a iluminação é de Matías Sendón) pontua o tipo de participação que ela requer: a acolhida afetiva. Do lado de fora da caixa, Lola Arias, ao lado de um músico (Ulisses Conti), fala ao microfone, narrando a história em primeira pessoa. O efeito da simplicidade é determinante para a fruição desse espetáculo. E mérito de quem o construiu.

Como a personagem-narradora, a dramaturga, diretora e atriz Lola Arias, uma das principais expoentes da nova cena contemporânea argentina, também teve uma mãe cujo diagnóstico de depressão foi dado no ano em que a ditadura na Argentina começou. De forma positiva, o tom biográfico de “Melancolía y Manifestaciones” é ponto de partida para cada um se encontrar com sua história particular e valorizá-la. Com essa produção, o Festival Dois Pontos abriu em grande estilo. Aplausos!

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Ficha técnica do espetáculo:
Texto e Direção: Lola Arias
Dramaturgia: Sofia Medici
Coreografia e co-direção: Luciana Acuña
Elenco: Beatriz Couceiro, Cargmen Roig, Elvira Onetto, Lola Arias, Ricardo Coniglio e Vicente Fiorillo
Colaboração artística: Luiz Algranti
Som / Música original (ao vivo): Ulisses Conti
Vídeo: Nele Wohlatz
Operação de vídeo: Marcos Médici
Cenário: Mariana Tirantte
Figurino: Sofía Berhaka
Desenho de luz: Matías Sendón
Gerência técnica e adaptação de luz: Gustavo Kotik
Direção técnica da turnê: David Seldes

Ficha técnica do Festival Dois Pontos:
Realização: Treco Produções
Direção Artística:
ÁGORA - José Della Vedova, Fabianna de Mello e Souza e Mauro Vianna
CÂMBIO - André Vieira, Cesar Augusto e Jonas Klabin
Projeto_ENTRE - Daniela Amorim, Joelson Gusson e Marta Vieira
NO LUGAR - Fabricio Belzoff, Michel Blois e Rodrigo Nogueira
Os Ciclomáticos - Ribamar Ribeiro
VEM! - Alexandre Mello e Rogério Garcia
Coordenação de projeto: André Vieira e Marta Vieira
Coordenação de logística: Leila Maria Moreno
Produção de logística: Monna Carneiro
Coordenação técnica: Felipe Argollo e Leandro Barreto
Assistência de coordenação técnica: Lia Sarno
Assistente técnico: Juju Moreira
Produção de Arte: Rodrigo Abreu
Assistência de Produção de Arte: Bruno Henriquez e Renato Barreto
Coordenação de comunicação: Paula Rollo
Produção de comunicação: Marcelo Mucida
Programação Visual: Felipe Braga
Conteúdo, Webmarketing e Vídeos: Elisa Mendes e Julia Casotti
Fotografia: Arthur Seixas e Renato Mangolin
Coordenação Administrativa Financeira: Cristiane Cavalcante
Assistente Administrativo Financeiro: Carina Ribeiro
Produção Local: Aline Mohamad, Ana Beatriz Silva, Fábio Osório, Juliana Mansur, Rogério Garcia e Ton Dutra
Tradução de peças: Carlos Alberto Della Paschoa
Consultoria de shows: Márcia Figueiredo
Parceria: Galpão Gamboa e Pequena Central
Apoio Institucional: Consulado Geral da Argentina e Instituto Cervantes
Patrocínio: Prefeitura da Cidade de Rio de Janeiro e Secretaria Municipal de Cultura

sexta-feira, 13 de março de 2015

Salina (a última vértebra) (RJ)


Foto: divulgação

Ariane Hime em cena


O começo áureo de 2015 no teatro carioca

No teatro carioca, o ano de 2015 começa com “Salina (a última vértebra)”, o melhor espetáculo em cartaz nesse verão. Dirigida por Ana Teixeira e por Stephane Brodt, a nova produção do célebre Amok Teatro é a primeira montagem de um texto do dramaturgo francês Laurent Gaudé no Brasil. Escrito em 2003, ficaram mundialmente famosas as montagens dirigidas pelo griot e ator malinense Sotigui Kouyaté (1936-2010) no fim de sua vida. Localizada em algum ponto da África ancestral, a história é um épico em torno de Salina, uma mulher que viu seus sonhos ruírem e está sedenta por vingança. Constituído a partir de intenso processo de seleção de atores, o elenco integralmente formado por atores negros, embora desconhecido do grande público, apresenta excelente trabalho de interpretação principalmente em Ariane Hime e em Tatiana Tibúrcio. O desenho de luz de Renato Machado, o cenário e o figurino do casal de diretores e toda a trilha sonora composta e interpretada ao vivo em cena por Fábio Simões Soares garantem ao espectador momento de rara beleza. Eis aqui um espetáculo precioso!

“Salina (a última vértebra)” começa com a entrada de Mama Lita (Luciana Lopes) levando roupas para serem lavadas longe do rio. Tratam-se dos lençóis usados na cama em que uma mulher perdeu a virgindade em sua noite de núpcias. Aquele sangue não pode sujar o rio de onde a comunidade local retira a sua água. Na história, todos esperam que a jovem Salina (Ariane Hime), adotada por Mama Lita, sangre sua primeira mocidade para depois, já mulher, sangrar também sua virgindade no seu casamento com o nobre guerreiro Saro Djimba (André Lemos), de quem ela não gosta. A melhor cena do primeiro ato se dá quando Salina vai procurar Khaya Djimba (Tatiana Tibúrcio), sua futura sogra, para pedir que ela interceda no seu caso. Almejando algum poder sobre sua própria vida, a jovem prometera-se em casamento para Kano Djimba (Thiago Catarino), irmão mais novo de Saro. Como nas melhores tragédias - gregas, clássicas e contemporâneas -, o homem que não se submete ao destino sofre as penas de sua rebeldia. Diferente do que havia sonhado, a vida no clã dos Djimbá é marcada pelo sangue, pelas derrotas, pelas agressões. Fora dele, a poeira do deserto seca as lágrimas de Salina e leva embora sua juventude enquanto o desejo de vingança a sustenta através dos tempos. O segundo ato (e o subtítulo) se apoia em uma lenda ancestral de que o morto cujo corpo não é inteiramente enterrado não descansará até que todas as suas partes sejam de novo reunidas. Salina cobra sua mocidade com a vértebra de um dos Djimba e novamente o encontro entre a protagonista e sua sogra alçam essa dramaturgia para um dos lugares destaque no teatro universal contemporâneo. Nesse excelente texto, fica a metáfora para um continente arrasado pelas guerras, pela fome, pelas doenças, pela miséria, mas que sobrevive e portanto ainda não se rendeu. E sabe de sua glória. De arrepiar!

André Lemos (Saro Djimba), Reinaldo Junior (Kwane MKrumba), Sérgio Ricardo Loureiro (Sissoko Djimba) e Luciana Lopes (Mama Lita), mas principalmente Ariane Hime (Salina) e Tatiana Tibúrcio (Khaya Djimba) tem trabalhos de interpretação em primeira grandeza na direção de Ana Teixeira e de Stéphane Brodt. O modo como os ombros estão abertos, as posições das colunas nas movimentações, a ordem dos respiros em cada frase, as entonações, inflexões e o empenho no bom exercício da retórica são alguns pontos destacáveis entre tantos que expressam o quão bem feito é esse teatro em todos os seus aspectos. Disposta através de 3h40min de encenação, a narrativa prende a atenção do público na medida em que se revela cada vez mais profunda. Assistida por Vanessa Dias, a dupla de diretores exibe aqui excelente uso do ritmo e das articulações na construção de um texto cênico repleto de símbolos potentes que alcançam o público de todas as raças, crenças e origens culturais.

Os figurinos e objetos de cena apoiam a beleza do texto, das interpretações e da direção, realçando em detalhes a exuberância e a decrepitude desses personagens retratados dentro do estilo trágico. O desenho de luz de Renato Machado atinge novamente excelente resultado no palco do Teatro de Arena do Espaço Sesc Copacabana, onde a peça cumpre temporada. Por um lado, a música composta e interpretada ao vivo por Fábio Simões Soares se apresenta de maneira essencial à viabilização dos símbolos que fincam Salina, Mama Lita e os Djimbas no imaginário coletivo de qualquer público. Por outro, ela garante junto com todos os demais elementos o tom religioso através do qual a história deve ser lida.

A equilibrada articulação de todos os elementos que dão conta da narrativa de “Salina (a última vértebra)” é o que melhor resume os muitos méritos dessa produção. Ana Teixeira e Stéphane Brodt não mágicos, mas apenas bons diretores que souberam escolher um ótimo texto e ótimos pares para a sua equipe, fazendo desse resultado um excelente presente para o teatro brasileiro. Aplausos!

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Ficha técnica:
Texto: Laurent Gaudé
Direção: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Elenco:
André Lemos, Ariane Hime, Graciana Valladares, Luciana Lopes, Reinaldo Junior, Robson Feire, Sergio Loureiro, Sol Miranda, Tatiana Tibúrcio e Thiago Catarino
Música: Fábio Simões Soares
Luz: Renato Machado
Assistente de Direção: Vanessa Dias
Coreografias: Tatiana Tibúrcio
Cenário e Figurino: Ana Teixeira e Stephane Brodt
Bonecos: Maria Adélia
Tradução: Ana Teixeira

A visita da velha senhora (RJ)


Foto: divulgação


Maria Adélia em cena

O aniversário do "Teatro na Justiça"

“A visita da velha senhora” é o espetáculo que comemora os 15 anos do programa “Teatro na Justiça” do Centro Cultural do Poder Judiciário. Em cartaz na Sala Multiuso do CCPJ, no centro do Rio, a peça escrita pelo dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt tem ótima direção de Sílvia Monte, com belíssimas atuações de Maria Adélia e de Marcos Ácher nos papeis principais. Não apenas pela beleza célebre do texto, mas principalmente pelos trabalhos de interpretação, vale a pena conferir esse trabalho que se apresenta gratuitamente de segunda a quarta-feira, às 19h, durante o primeiro semestre de 2015.

O texto é a única tragicomédia escrita por Friedrich Dürrenmatt (1921-1990), mas é também seu texto mundialmente mais famoso. Lançado em 1955, a história começa com a pequena cidade de Güllen, no coração da Europa, devastada pela pobreza que veio depois de alguns anos de glória. Eis, porém, que corre entre os moradores a notícia de que a ilustre arquibiliardária Clara Zahanassian (Maria Adélia), nascida ali, fará uma promissora primeira visita à cidade depois de 45 anos. O merceeiro Alfredo Schill (Marcos Ácher) é o escolhido para recepcionar a velha senhora, pois, no passado, ele e ela tiveram uma amizade um pouco mais “próxima”. De fato, Clara Zahanassian oferece a ajuda de um bilhão para a cidade de Güllen e seus moradores, mas condiciona esse “presente” a um pedido. Trata-se de um gesto que poderá sair muito caro principalmente a Schill. A sequência da narrativa deixa ver um jogo interessantíssimo em que reflexões sobre justiça e liberdade, evasão e responsabilidade, decadência política, passividade e interesse fazem ponte dessa dramaturgia com as tragédias gregas e clássicas, mas principalmente com Beckett, Ionesco, Pinter e, sem dúvida, com o teatro didático de Beltolt Brecht. No Brasil, recentemente, a Velha Senhora ganhou duas versões parciais na televisão, chamadas de Tieta do Agreste (Beth Faria) e Ana Francisca (Maria Ximenes), ambas bastante populares entre o grande público.

Com direção pontual que valoriza as palavras, expressando através dela todo um conjunto de ações, o elenco apresenta bons trabalhos de um modo geral. Há que se destacar positivamente Sávio Moll (o delegado), mas em especial Marcos Ácher e Maria Adélia pelo modo como esses deixam transbordar mais claramente os níveis mais profundos de compreensão de cada frase. Em Moll, Ácher e em Adélia, o jogo fica ainda mais interessante! Laura Nielsen, Anita Terrana, André Frazzi, Pedro Lamin, Rogério Freitas, Eduardo Rieche, Paulo Japyassú, Renato Peres e Pedro Messina também compõem o quadro com méritos.

O único problema de “A visita da velha senhora” é o figurino de Pedro Sayad. Com várias peças mal acabadas, incluindo o vestido da Sra. Zahanassian, o conceito tem articulação duvidosa com os demais elementos da produção. De um lado, os figurinos dos cidadãos se afastam do realismo por apresentarem-se não apenas como velhos, mas também do lado do avesso em umas peças, mas não em todas. De outro, a exuberância da Velha Senhora deixa a desejar quando o mais interessante de seu vestido é a sua reversibilidade, o que nada tem a ver com uma roupa da biliardária. Sem unidade, os trajes lançam a narrativa para pensamentos divergentes e atrapalham a estrutura.

A trilha sonora de Marcos Caminha é interessante principalmente pelas referências a “Edelweiss”, do musical “The sound of music”, e a “Love unspoken”, da opereta “A viúva alegre”. A primeira nunca foi uma canção tradicional do repertório austríaco, mas, nos últimos cinquenta anos, devido ao sucesso do filme, tem sido indevidamente tocada como se fosse o hino da Áustria. A segunda pode ilustrar o passado de Clara e de Alfredo, fazendo relação desses com Danilo e Hanna, personagens da obra de Franz Lehár. Sem dúvida, essas escolhas revelam níveis diferentes da significação possíveis.

Como tem sido nos últimos anos, o programa “Teatro na Justiça” está de parabéns. Acessível ao grande público, mais uma vez, está uma dramaturgia de alta qualidade, encenada com muitos méritos. Bravo!

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Ficha Técnica
Autor: Friedrich Dürrenmatt
Tradução: Mario da Silva
Direção e Adaptação: Sílvia Monte
Direção Musical: Marcelo Coutinho
Cenário: José Dias
Figurino: Pedro Sayad
Iluminação: Elisa Tandeta
Direção de Produção: Renata Blasi e Ana Paula Abreu
Realização:
Centro Cultural do Poder Judiciário do Rio de Janeiro
Diretoria-Geral de Comunicação e Difusão do Conhecimento
Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro

Mistero Buffo (SP)


Foto: divulgação
 
Domingos Montagner (no centro) em cena

Os bufões

“Mistero Buffo” é a adaptação do grupo paulista La Mínima para quatro de vinte monólogos do italiano Dario Fo, Prêmio Nobel de Literatura. Publicada em 1969, a antologia é formada por histórias em que o Evangelho serve como ponto de partida para uma visão crítica da sociedade e das estruturas de poder. Com dramaturgia assinada por Neyde Veneziano e pela dupla Domingos Montagner e Fernando Sampaio, a montagem conta com a participação de Fernando Paz, interpretando ao vivo a trilha sonora. Em cartaz no Teatro Poeira, em Botafogo, na zona sul do Rio de Janeiro, eis aqui uma oportunidade rara do público teatral carioca se encontrar com um estilo de interpretação bem específico, os bufões.

Os estilos de interpretação Bufão e Clown convivem no mesmo lugar, mas têm formas distintas de apresentação. Enquanto os Palhaços escondem a lágrima, revelando-a como sinal de força, os Bufões choram, riem e gritam como lembretes (para si e para os outros) de que estão vivos. “Mistero Buffo”, apesar da cena final nessa montagem, não é um espetáculo de clowns, mas uma peça de bufões. Nas quatro histórias, os personagens principais são pessoas conscientemente marginalizadas, dispostas a tirarem proveito dessas situações. Em “A ressurreição de Lázaro”, dois personagens vão ao cemitério para assistir ao milagre de Jesus. Junto de várias outras pessoas, eles fazem tudo para conseguir o melhor lugar na plateia desse “espetáculo”. Em “O Cego e o Paralítico”, as deficiências são bons motivos para não se trabalhar. Em “O Louco e a Morte”, o Louco quer tirar proveito da Morte que julga ter vindo buscá-lo. Em “O jogo do Louco debaixo da cruz”, o Louco quer a ajuda de Jesus crucificado para vencer em apostas. Em todas as histórias apresentadas, o mais bonito é encontrar-se com o desejo do homem em dar-se bem nas piores situações, traço de caráter completamente oposto ao ideário medieval de sacrifício religioso. E também diferente do Clown que sofre a prisão do próprio destino.

Na encenação de Neyde Veneziano, as histórias dividem espaço com momentos em que um Narrador (Domingos Montagner) apresenta o contexto histórico da Idade Média. Ele chama a atenção do público para os diferentes níveis que cada cena possibilita à compreensão. A inclusão de expressões mais atuais e de imagens contemporâneas aos diálogos é metáfora para a forma como os atores daquele período também envolviam questões do seu entorno na apresentação de seus enredos. Nesse sentido, “Mistero Buffo” funciona como espetáculo tanto no âmbito da narrativa como no da metalinguagem, em que são homenageados os incontáveis artistas cênicos anônimos que levaram o teatro da tragédia grega até a renascença. Talvez esse seja o maior mérito dessa produção.

Domingos Montagner e Fernando Sampaio, principalmente o segundo, exibem boa disponibilidade corporal, limpeza nos gestos, ótimo uso da voz e das expressões faciais. Montagner, com enorme carisma, faz a ponte entre as histórias e o público de forma quase afetiva. Porque as narrativas giram em torno da fé, e crença no desconhecido é algo inerente a qualquer ser humano, o encontro que a experiência teatral provoca é quase tão boa como a própria peça em si. Em outras palavras, é gostoso estar ali.

A presença do multi-instrumentista Fernando Paz é outra característica marcante de “Mistero Buffo”. Além da interpretação ao vivo da trilha sonora, que pontua sonora e musicalmente diversas passagens da narrativa, vale ressaltar a participação do ator nos quadros através do olhar atento, discreto e pontual. Assinada por Marcelo Pellegrini, a direção musical inclui a canção “Romance de uma Caveira”, da dupla sertaneja Alvarenga e Ranchinho, muito popular entre os anos 20 e 60.

Os figurinos de Inês Sacay auxiliam a concepção da montagem em viabilizar a aproximação entre a Idade Média e a contemporaneidade sob alguns aspectos. As vestimentas coloridas têm, em sua modelagem, elos de ligação com os trajes de bobos da corte ou de artistas andarilhos medievais, deixando revelar tênis, meias e calças do período atual. Há destaque para o elemento vermelho nas camisas brancas dos três intérpretes. Em cada um, ele está em um lugar diferente, o que pode ilustrar a relação entre os personagens. É positivo o uso da luz por Wagner Freire pela forma como os diferentes trechos do espetáculo ganham lugar específico em seu desenvolvimento.

Depois de ganhar vários prêmios em São Paulo, onde a peça fez longas temporadas e cheias de sucesso, a chegada ao Rio faz dessa oportunidade um ponto alto na programação. Que bom!
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FICHA TÉCNICA 
Autor: Dario Fo 
Concepção: La Mínima e Neyde Veneziano 
Direção: Neyde Veneziano 
Assistência de direção: André Carrico e Ioneis Lima 
Tradução: Neyde Veneziano e André Carrico 
Elenco: Domingos Montagner, Fernando Sampaio e Fernando Paz 
Iluminação: Wagner Freire 
Cenografia: Domingos Montagner 
Confecção de cenografia e arte: Maria Cecília Meyer 
Figurino: Inês Sacay 
Direção Musical / Música Originalmente Composta: Marcelo Pellegrini 
Direção Mímica: Alvaro Assad 
Direção de Produção e Administração: Luciana Lima 
Coprodução: Turbilhão de Ideias – Cultura e Entretenimento 
Fotos: José Maria Matheus, Lidia Ueta, Carlos Gueller, Thiago Henrique 
Fotos: Carlos Gueller / Matheus José Maria 
Secretária: Catarina Capelossi 
Produtor Original: SESI-SP 
Realização: LaMínima 
Assessoria de Imprensa: JSPontes Comunicação – João Pontes e Stella Stephany

quarta-feira, 11 de março de 2015

Um estranho no ninho (RJ)


Foto: divulgação

Felipe Martins e Ricardo Ventura


Sem contribuição

“Um estranho no ninho” é a primeira versão em solo brasileiro da peça “One flew over the cuckoo’s nest”, escrita, em 1963, pelo americano Dale Wasserman. Adaptando a novela homônima de Ken Kesey, lançada um ano antes, a obra ganhou projeção internacional em 1975 pelo filme dirigido por Milos Forman, com Jack Nicholson e Louise Fletcher nos papeis principais. Indicada a cinco Oscars e vencedora das cinco principais estatuetas (roteiro, ator, atriz, diretor e melhor filme), a obra cinematográfica é diferente da peça em alguns pontos relevantes. Nenhum deles é realmente essencial para o espectador brasileiro comum. Dirigida por Bruce Gomlevsky, a produção em cartaz no Centro Cultural da Justiça Federal conta com um elenco numeroso, mas que infelizmente apresenta um resultado aquém das expectativas. Com Tatsu Carvalho e Helena Varvaki como protagonistas, há mérito nas participações dos coadjuvantes Felipe Martins e Ricardo Ventura. A produção apresenta muitos problemas na ordem da direção e do uso dos elementos visuais como um todo. É uma pena!

O maior mérito das duas adaptações do livro do americano Ken Kesey (1935-2001) para o teatro e para o cinema talvez seja o fato das obras terem conseguido pautar a desordem em relação à rigidez do cumprimento das regras. O livro, banido em vários estados americanos durante longo período, é uma ode à liberdade e uma recusa ao pensamento que prende o homem ao meio onde vive. Diferente do livro e da peça adaptada por Dale Wasserman (autor que escreveu o musical “O homem de La Mancha” em 1966), o filme situa o personagem Randle McMurphy (Nicholson) como o herói da narrativa. No romance e no teatro, a história é contada pelo Chefe Bromden, um caboclo veterano de guerra que sofre de esquizofrenia paranoica. É ele quem filtra as batalhas de McMurphy e da Enfermeira Ratched enquanto se situa como símbolo de um país que, em suas imensas contradições, lutava na Coreia, liderava o mundo contra o comunismo e enfrentava a segregação racial. Para o público brasileiro, “Um estranho no ninho”, em suas três versões ao longo dos últimos cinquenta anos, chama a atenção porque o Hospital Psiquiátrico pode ser considerado uma metáfora para qualquer sociedade. Lá quem faz as regras e quem sofre com elas se alternam constantemente nas posições de mocinho e de vilão, como de fato acontece na nossa sociedade, em nosso tempo. A versão teatral de Gomlevsky infelizmente revela muito pouco dessa potência.

A versão teatral em cartaz quase não acrescenta a “Um estranho no ninho”. O espectador chega ao fim dos cento e cinquenta minutos de peça sabendo o mesmo que sabia na abertura e tendo as mesmas opiniões que tinha sobre os personagens na primeira cena. McMurphy é retratado como um beberrão inconsequente e irresponsável e Ratched como uma chata. O jogo de egos entre os dois perde a oportunidade de revelar seus aspectos humanos, bem como o dos pacientes, escondendo as contradições, as complexidades, os não-ditos. O ritmo é monótono apesar de três nuances: a rebelião (quando os pacientes simulam assistir à partida de basebol), o início do segundo ato (quando McMurphy fica sabendo que ele é o único obrigado a estar internado) e o bate-boca entre os protagonistas ao final. Tudo é superficial.

“Um estranho no ninho” tem boas participações de Isaac Bardavid (Doutor Spivey) e de Marcelo Morato (Cheswick), mas só atinge relevância em Ricardo Ventura (Scanlon) e em Felipe Martins (Dale Harding). Personagens pequenos em suas importâncias para o desenrolar da narrativa, essas figuras são retratadas por seus intérpretes com visível esforço em dar-lhes um pouco mais que apenas o texto decorado. Charles Asevedo (Chefe Bromden), Ricardo Lopes, Henrique Gottardo, Rafael Oliveira, Hilka Maria, Lorena Sá Ribeiro e Tatiana Muniz apresentam resultados bastante comprometedores infelizmente. Helena Varvaki (Enfermeira Ratched) perde a oportunidade de utilizar o mesmo tom de voz durante toda peça para expressar algum excesso desumano de superautocontrole, o que pontuaria com mais profundidade sua personagem. Em sua participação, o ritmo se arrasta negativamente sobretudo na cena que acontece após a festa. Tatsu Carvalho (Randle McMurphy), com a coluna curvada e com problemas para deslizar com segurança pelo palco em suas botinas, não faz cair qualquer carisma sobre o seu personagem, sendo menos interessante que qualquer um dos demais pacientes. Varvaki e Carvalho são negativamente lineares, como vários entre os demais, durante toda a narrativa.

O cenário de Pati Faedo confunde vidro com grade, tem uma janela que abre para o almoxarifado e se utiliza de diagonais de um jeito formal e nada contributivo. A iluminação de Elisa Tandeta está sozinha no oferecimento de branco ao visual da peça e comete a gafe de acender refletores vermelhos injustificadamente para expressar a festa. Os figurinos de Alessandra Padilha e de Jerry Rodrigues e a trilha sonora original de Mauro Bernan cumprem seu papel na proposta de narrativa adequadamente, mas sem destaque.

A versão teatral de “Um estranho no ninho”, que parte da versão americana da peça (com Kirk Douglas interpretando McMurphy), não foi aqui analisada em comparação com a obra cinematográfica, que é melhor referência para o grande público daqui. Se fosse, talvez o resultado seria pior. Além de justapor Tatsu Carvalho ao lado de Kirk Douglas e de Jack Nicholson em termos de realização profissional, faltou à produção viabilizar esteticamente o que ela pensa que “Um estranho no ninho” ainda pode nos dizer. E pode muito!

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Ficha Técnica:

Elenco:
Charles Asevedo (Chefe Bromden),
Felipe Martins (Dale Harding),
Helena Varvaki (Enfermeira Ratched),
Henrique Gottardo (Auxiliar Turkle),
Hylka Maria (Candy Starr),
Isaac Bardavid (Dr. Spivey),
Junior Prata (Ruckley),
Lorena Sá Ribeiro (Enfermeira Flinn),
Marcelo Morato (Cheswick),
Rafael Oliveira (Auxiliar Williams),
Ricardo Lopes (Auxiliar Warren),
Ricardo Ventura (Scanlon),
Tatiana Muniz (Sandra),
Tatsu Carvalho (R.P. McMurphy),
Vitor Thiré (Billy Bibbit),
Zé Guilherme Guimarães (Martini)

Texto: Dale Wasserman
Tradução: Ricardo Ventura
Direção: Bruce Gomlevsky
Ass. de direção: Lorena Sá Ribeiro
Direção de produção: Rafael Fleury e Tatsu Carvalho
Cenário: Pati Faedo
Iluminação: Elisa Tandeta
Técnico de luz: Rafael Tonoli
Figurinos: Alessandra Padilha e Jerry Rodrigues
Visagismo: Uirande Holanda
Trilha original: Mauro Berman
Programação visual: Ana Andreiolo
Fotografia: Felipe Diniz
Ass. de produção e camareira: Fernanda Moura
Assessoria de imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Coordenação de projeto: Midday Produções Artísticas e Culturais