quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Será que a gente influencia o Caetano? (RJ)


Foto: Dany Garcia


Fábio Guará e Andrey Lopes

Comédia de Mario Bortolotto tem montagem enrijecida


“Será que a gente influencia o Caetano?” cumpriu temporada carioca no Espaço Tom Jobim, no Jardim Botânico entre os meses de setembro e de outubro. A peça é uma produção da Companhia Tarturfaria de Atores que atualiza a comédia escrita em 1985 pelo paranaense Mario Bortolotto. Dirigida por Marcello Gonçalves, a produção traz no elenco Andrey Lopes e Fábio Guará, interpretando os personagens Beto e Mário. Eles são jovens que vislumbram a própria fama internacional como respectivamente poeta e músico. Com muitos problemas na direção, o espetáculo tem bons trabalhos de interpretação, mas que não conseguem atribuir ao todo o melhor resultado. É uma pena.

Texto dos anos 80 denuncia a celebrização
Os nomes dos personagens, Beto e Mario, são referências à primeira montagem do texto. Ela trazia, no elenco, os atores Roberto Virgílio e Mario Bortolotto, que escreveu e dirigiu essa versão. Produzida pelo Grupo de Teatro Chiclete com Banana, em Londrina, no Paraná, a comédia denunciava, de um modo irônico e também poético, os sonhos de sucesso de dois jovens tolos. Sem dedicarem-se aos estudos de literatura e de música, Beto e Mario gastavam seu tempo livre em sonhos com a fama. Em sua imaginação, eles viam a si próprios como poeta e músico capazes de revolucionar o mundo, ganharem dinheiro, conquistarem garotas e influenciarem artistas já renomados.

O título é revelador, porque ele situa a questão central do texto. Para os personagens Beto e Mario, o sucesso é muito mais importante que a arte. Em outras palavras, influenciar o Caetano (Veloso) vale muito mais que a composição de uma bela canção e de uma letra marcante. É interessante notar que, há quase trinta anos, não havia internet e o acesso à informação era, comparado como o é hoje, muito precário. Nesse sentido, a atualidade do texto é brutal, pois vive-se em um mundo onde a celebridade definitivamente não é sinônimo de virtuosismo. Em suas cenas finais, o tom poético coroa a crítica. Mário Bortolotto, depois de denunciar o mal da superficialidade, consegue ver nela o bem da alegria, da coragem e da ingenuidade.

Direção investe nas expressões e perde a leveza
A marginalização é uma marca identitária da dramaturgia de Mário Bortolotto. Em seus quase cinquenta textos, seus personagens vivem em meio à sujeira, ao obscuro, aos vícios, e esse universo não é ponto de partida para a vida, mas a própria vida. A decisão por ir na contracorrente dessa estética fez, da direção de Marcello Gonçalves, a possível responsável pelos desméritos dessa montagem de “Será que a gente influencia o Caetano?”. Com personagens presos em partituras corporais e marcas que enrijecem os movimentos pelo palco, a montagem chegou, ao seu último dia de temporada, dura demais e pouco fluída. Ficam unicamente para o texto a tarefa da ironia e o desafio da piada, embora os atores se esforcem nessa luta. Todas as reações são planejadas, o tempo é ocupado nos seus mais pequenos detalhes, não há folga: como um todo, a peça paira dura, pesada e resistente às bufonarias de Mario e de Beto.

Os atores Andrey Lopes (Beto) e Fábio Guará (Mario) revelam trabalho disciplinado, com expressões bem exploradas. Tudo é limpo, bem traçado, seguro. Porém, no âmbito da produção como um todo, seus personagens perdem a chance de fazer da adolescência apenas convite para a metáfora que poderia vir (mas não vem). Esvai-se a possibilidade da crítica na encenação que alarga o texto e se empenha em redizer, no meio e no fim, o que já foi dito, através das palavras e do corpo, nas cenas de abertura. A repetição de gags, a falta de sutileza e a ausência de distanciamento aproximam a peça de uma comédia mais rasgada que o texto não favorece.

Os blocos de madeira e o fundo, na direção de arte de Alex Brollo e de Rafael Ronconi, não dizem nada, mas oferecem a possibilidade de exploração de níveis superiores e inferiores no palco. Os figurinos, com sutilíssimo movimento no uso de poucos acessórios (suspensório, chapéu,...) também podem ter sofrido limitação pelo valor dado aos movimentos e às expressões. A trilha sonora, quase toda composta por canções de Caetano Veloso, é ótima porque, de acordo com o texto, faz o contraponto, promovendo a reflexão. A luz de Felipe Lourenço atua bem na viabilização de ritmo, com recortes bem fechados, poética e com planos abertos.

Publicado no “Volume 4 – Doze Peças de Mario Bortolotto”, da Editora Atrito Art, em 2003, o texto de “Será que a gente influencia o Caetano?” foi montado recentemente com direção de Claudinei Brandão e por Henrique Stroeter com Pierre Bittencourt e Mario Matias, esse último que também esteve na montagem de 2009. O Rio não recebeu essa montagem, mas aguarda por ela.


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FICHA TECNICA
Texto: Mário Bortolotto
Direção: Marcello Gonçalves
Elenco: Andrey Lopes e Fábio Guará
Iluminador: Felipe Lourenço
Diretor de Movimento: Márcio Vieira
Direção de Arte: Alex Brollo e Rafael Ronconi
Produção: Bruna Fachetti
Programador Visual: Carol Vasconcellos
Assistente de Direção: Bruce Brandão e Karini Oliveira
Administração: Bruna Fachetti
Fotografia: Dany Garcia e Felipe Oliver
Realização: Tartufaria de Atores
Assessoria de Imprensa: Minas de Ideias

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Fluxo (SP)

Foto: divulgação

Bruno Autran e Thiago Ciccarino


Bruno Autran em bom espetáculo sobre a violência no trânsito

“Fluxo” termina sua primeira temporada carioca no próximo dia 26 de setembro. O espetáculo, produzido em São Paulo, estreou em 2014 e fez duas temporadas por lá. Escrita e dirigida por Thiago Ciccarino, a peça tem excelente interpretação de Bruno Autran, dividindo o palco com o autor. Em cartaz ainda no Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia, eis aqui uma proposta interessante que sugere uma reflexão sobre a violência no trânsito. Mais do que isso, propõe um debate atual sobre fatalidades de toda ordem as quais qualquer um está sujeito tanto na situação de vítima como na de algoz.

Um possível reencontro
Dois personagens se encontram em um bar. Um deles (Thiago Ciccarino) está em uma cadeira de rodas. No passado, o segundo (Bruno Autran) atropelou um homem de quem nunca mais ouviu falar. Desde a primeira cena, a culpa aproxima esses dois inicialmente desconhecidos, começando um diálogo que evolui pela ironia e pela curiosidade. Os reencontros atingem o jogo mórbido e sarcástico em que a superioridade, na cena, define seus jogadores. Talvez um tenha sido o responsável pelo presente do outro. Quem sabe o outro motive um novo futuro para o anterior. Em pauta, está o homem incapaz de decidir todos os caminhos de seu destino, mas condenado a lidar com as consequências de diversas situações de sua existência.

Verborrágico demais em alguns momentos, nem sempre o ritmo dos diálogos consegue prender a atenção. Unicamente apoiado na exuberância da interpretação de um dos personagens, por vezes, o desequilíbrio sobra. Citações ao universo do teatro, recorrências à comédia e explorações retóricas esvaziam a obra negativamente em poucas passagens. Mesmo assim, a direção apresenta um belo trabalho. Assistido por Renato Jacques, Thiago Ciccarino lentamente descortina o panorama de lugares mais e menos claros até chegar ao embate final.

Interpretação brilhante de Bruno Autran
Com trabalhos de interpretação completamente diferentes nos termos de sua concepção, destaca-se o ator Bruno Autran pelo excelente trabalho corporal e pelo vibrante colorir de todas as suas expressões vocais. Bailando em volta de um passado que seu personagem cria para si, enquanto tenta disfarçar um fato em que ele acha que esteve envolvido, o ator brilha em cena. Thiago Ciccarrino se empenha nas pausas como fontes de tensão da contracena positivamente.

O cenário de Dartagnan Zavala se aproveita da simbologia de uma faixa de pedestres, mas não faz qualquer menção ao bar onde a situação acontece pobremente. O figurino de Daniel Infantini apresenta bem o personagem de Autran, mas não investe no de Ciccarino. A iluminação de Celso Melez, cheia de responsabilidade, vence o desafio com galhardia.

Decisões pautadas em aparências de realidade
É verdade que “Fluxo” insere a temática da violência no trânsito na programação teatral carioca. No entanto, o espetáculo pode ser visto como além. Aparências de realidade pode dar margem para diversas reações, nem todas elas exatamente apropriadas. E, observando por esse aspecto, essa peça tem potencial para envolver muito mais o público. Vida longa!



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FICHA TÉCNICA:

Texto e direção: Thiago Ciccarino

Elenco: Bruno Autran e Thiago Ciccarino

Cenário: Dartagnan Zavala

Figurino: Daniel Infantini

Luz: Celso Melez

Assistente de direção: Renato Jacques

Produção executiva e direção de produção no RJ: Paulo Lessa

Rosencrantz & Guildenstern estão mortos (RJ)


Foto: divulgação

Hugo Souza, Breno Sanches e Leonardo Hinckel


A nova produção assinada por Breno Sanches

“Rosencrantz & Guildenstern estão mortos” é uma das novas e boas produções da Cia. Teatral Milongas, dirigido por Breno Sanches e em cartaz no Castelinho do Flamengo, na zona sul do Rio. O texto tornou mundialmente famoso o dramaturgo inglês Tom Stoppard, um dos grandes nomes do teatro do Reino Unido ainda em atividade. A comédia, escrita em 1966, parte de uma frase extraída de “Hamlet”, de William Shakespeare, para propiciar uma reflexão sobre o quanto pessoas anônimas podem ser usadas como massa de manobra. O espetáculo, no entanto, embora se esforce em aproximar o difícil enredo do público brasileiro, perde por não investir mais na leveza em favor do aspecto filosófico que, no original, é apenas consequência. Hugo Souza, Leonardo Hinckel e o diretor estão em bons trabalhos de interpretação. Para quem conhece bem o clássico shakespeariano, essa boa sugestão na programação do teatro carioca fica em cartaz até 18 de outubro.

O premiado texto de Tom Stoppard
“Hamlet”, escrita na passagem do século XVI para XVII, é a peça mais comentada da história do teatro universal ainda hoje. A história do príncipe da Dinamarca que, levado por uma missão impingida pelo fantasma de seu pai, se embrenha pelo mistério de seu assassinato, suscita diversas considerações em áreas que vão da estética à psicologia, da política à filosofia. Protagonistas na comédia de Tom Stoppard, os jovens Rosencrantz e Guildenstern são personagens secundários na tragédia de Shakespeare. Os dois, amigos de infância de Hamlet, são envolvidos em um plano que pretendia matar o príncipe, mas esse, tendo descoberto a tempo, afasta-se da morte e os leva até ela. Dentre várias significações possíveis, a morte de Rosencrantz e de Guildenstern, anunciadas pelo embaixador inglês no quinto ato, pode dar conta do fim da inocência e do encerramento da juventude, marcando um período da vida em que nada mais pode ser fruído puramente.

Associados a Gogo e a Didi, de “Esperando Godot”, de Samuel Beckett, Rosencrantz e Guildenstern aparecem em Stoppard como protagonistas em uma situação que propositalmente nem fica clara, nem tampouco tem suas relações bem definidas. Bastante próximo do contexto brechtiano, há uma força superior que movimenta os personagens de um ponto a outro sem que eles saibam exatamente a origem, o fim e as intenções dela. Diferente, porém, é o papel das referências. Enquanto “Esperando Godot” é uma obra completamente original, “Rosencrantz & Guildenstern estão mortos” se movimenta em paralelo a “Hamlet”. Por isso, se o lugar do espectador, em Beckett, é o vazio compartilhado pelos personagens com o público, em Stoppard, ele é apenas identificado pela melhor audiência como um traço da situação da narrativa.

Premiado várias vezes, o texto de Tom Stoppard revela o quanto pessoas anônimas podem ser facilmente usadas como massa de manobra. Tanto em Shakespeare como aqui, Rosencrantz e Guildenstern são portadores de uma carta ao rei da Inglaterra em que Claudio, tio de Hamlet e atual rei da Dinamarca, requisita a morte do príncipe. A diferença é que, embora o bardo não tenha deixado claro se os dois jovens sabiam do conteúdo da missiva, os personagens de Stoppard estavam conscientes da missão. Eis o seu protagonismo nessa versão. Para ela, há subjugo, mas não há alienação.

Tom Stoppard é o mesmo autor de “15 minute – Hamlet” (1976), texto a partir do qual o espetáculo “Hamlet ou Morte!”, em cartaz atualmente no Teatro Fashion Mall, em São Conrado, foi escrito.

O peso de Shakespeare
A direção de Breno Sanches, com supervisão de César Augusto, infelizmente parece ter se rendido à necessidade da referência a Shakespeare e ao trato com as questões relativas à linguagem teatral citadas por Stoppard. Como uma peça unicamente voltada à classe teatral, essa montagem quase não sobrevive aos impasses de ritmo. A viabilização do código, sobre o qual entende-se que Rosencrantz e que Guildenstern serão interpretados por quem quer que esteja vestindo determinados casacos, acontece relativamente bem, mas os trabalhos de interpretação estão presos às marcas de movimentação e de tons dos diálogos de maneira que, embora a narrativa evolua, o ritmo parece constante (e monótono).

As três figuras interpretadas por Leonardo Hinckel, Hugo Souza e pelo diretor, essas que desde a dramaturgia dão a ver todos os personagens, demoram a oferecer leveza, característica fundamental para a comédia. Como sempre, Hinckel apresenta excelente uso da voz, enquanto Sanches e Souza reforçam nas ótimas variações corpo-faciais.

“Hamlet” é uma peça complexa para qualquer povo no mundo, mas aos povos anglo-saxões sua trama é mais próxima culturalmente. Em outras palavras, o texto ao qual “Rosencrantz & Guildenstern estão mortos” se refere é mais distante do público brasileiro, o que visivelmente confere à encenação mais desafios e, na mesma medida, mais méritos no seu alcance.

Jovem diretor Breno Sanches merece destaque
Essa montagem tem excelentes resultados estéticos nos âmbitos de direção de arte (Bruno Perlatto e Tuca), iluminação (Marcela Andrade) e da direção musical (Dani Carneiro). Tudo é explorado com visível cuidado, articulando conceitos cheios de complexidade e apreço pela obra. Falta, no entanto, a possiblidade do divertimento capaz de dar sentido a Rosencrantz e a Guildenstern, esses tão comuns quanto qualquer um de nós. Breno Sanches, um jovem diretor cuja carreira é cada vez mais relevante no cenário teatral do Rio de Janeiro, merece atenção.


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FICHA TÉCNICA
Autor: Tom Stoppard
Direção: Breno Sanches
Supervisão de Direção: Cesar Augusto
Elenco: Breno Sanches, Hugo Souza e Leonardo Hinckel
Adaptação: Breno Sanches, Hugo Souza e Matheus Rebelo
Direção Musical: Dani Carneiro
Preparação Corporal: Daniela Carvanellas
Direção de Arte: Bruno Perlatto
Cenário, Figurino e Adereço: Tuca
Iluminação: Marcela Andrade
Vídeo: Fabio Steinberger – Fluxos Filmes
Designer Gráfico: Ivi Spezani
Assessoria de Imprensa: Lyvia Rodrigues – Aquela que Divulga
Produção: Pagu Produções Culturais

Amargo Fruto - A vida de Billie Holiday (RJ)


Foto: divulgação

Milton Filho, Lilian Valeska e Vilma Mello


Mais outro musical biográfico

“Amargo fruto – A vida de Billie Holiday” é mais outro musical biográfico com os mesmos problemas tantas vezes descritos. Ao longo de um par de horas, uma sucessão monótona de fatos que começam pelo nascimento da homenageada e terminam com sua morte são relatados enquanto as canções de seu repertório vão sendo apresentadas. Como aspectos positivos, nessa produção, há os belíssimos figurinos de Marcelo Marques e a direção musical de Marcelo Alonso Neves. A iluminação de Paulo César Medeiros e a interpretação de Vilma Mello ficam em excelente destaque. Lilian Valeska dá corpo ao jeito peculiar de Billie Holiday com méritos, mas tem participação como atriz pouco relevante. Como um todo, o espetáculo dirigido por Ticiana Studart, que está em cartaz no congelante Teatro Carlos Gomes até o próximo domingo, 27 de setembro, perde várias oportunidades infelizmente, mas vale a pena ser visto pelo seu bom gosto musical.

Texto confirma o mito, mas desaparece com o lado humano de Billie Holiday
Em termos de dramaturgia, duas entre várias oportunidades são perdidas por Jau Sant’Angelo e por Ticiana Studard, autores desse musical. A primeira delas diz respeito à motivação. Billie Holiday (1915-1959) foi uma cantora americana bastante importante para a consolidação do jazz como fenômeno da música mundial. Ao investir pura e superficialmente no relato biográfico, “Amargo fruto” abre mão da chance de se utilizar do teatro como arte capaz de construir símbolos coletivamente. Cena após cena, a dramaturgia particulariza a personagem – já célebre antes da peça – ao invés de aproximá-la do público por meio daquilo que eles possam ter em comum. Dona de um talento natural já explorado desde criança, Lady Day foi vítima de vários preconceitos: nasceu negra, filha de pais adolescentes que nunca foram casados, conviveu com a prostituição e com as drogas desde pequena, atravessou a Grande Depressão americana e fez sucesso em um tempo em que não havia a valorização dos direitos autorais. O espetáculo, no entanto, embora cite essas questões, não faz do seu próprio universo motivo para reflexão nem sobre preconceito, nem sobre qualquer dentre os vários temas possíveis ali com os quais qualquer um pode se identificar. A peça, assim, paira negativamente como uma wikipédica celebração vazia de significado.

A segunda questão tem a ver com a pesquisa. Na cena de abertura, Billie Holiday (Lilian Valeska) surge no palco do Carnegie Hall, no fim de 1956, para um dos últimos de seus grandes shows. Dois meses antes, havia sido publicada uma autobiografia (coescrita por William Dufty), chamada “Lady sings the blues” em resposta aos boatos que a mídia incansavelmente publicava sobre ela. Com inteligência, a dramaturgia de “Amargo fruto” começa lançando o contraponto entre o que Lady Day oficialmente narra no livro e a verdade sobre sua vida, que foi tema do documentário-homenagem de mesmo título dirigido por Sidney Furie e lançado em 1972. Assim, o interessante jogo de “verdades”, que poderia evoluir e dar a ver uma visão ainda mais humana sobre o mito, é abandonado em favor da versão histórica. A voz de Billie desaparece infelizmente.

Lilian Valeska canta bem, mas Vilma Mello está brilhante
Quando cantava, Billie Holiday, assim como Piaf por exemplo, quase não se mexia e suas expressões faciais eram bastante limitadas. Lilian Valeska, como a cantora que ela interpreta, oferece no palco sua excelente potência e afinação vocal e representa com magnitude a complexidade do timbre carregado de Lady Day. Aqui como lá, as canções conseguem lindamente dar a ver a dor da homenageada, essa sem dúvida a maior fonte de beleza desse repertório. O problema, no que diz respeito à interpretação, é a inexpressividade de Valeska nas cenas em que não se canta. Começando no início dos anos 30 e indo até o fim da década de 50, a atriz apresenta as mesmas ralas intenções através dos inúmeros momentos retratados no palco. Milton Filho, várias vezes elogiado aqui, está apático estranhamente em todos os seus vários personagens. Em exata oposição, Vilma Mello, mais uma vez brilhante, atribui graça até mesmo às falas apenas informativas, sendo, em termos teatrais, a única no elenco capaz de garantir o jogo.

O figurino de Marcelo Marques é uma obra de arte em separado. Com óbvio maior destaque para os vestidos da personagem-título, há beleza e refinamento em todas as peças. O cenário de Aurora dos Campos é apresentado de forma brilhante pelo desenho de luz de Paulo César Medeiros. É de se destacar o modo como a iluminação recorta Billie Holiday, valoriza as sombras, separa o ambiente, opina sobre as cenas, fazendo evoluir a narrativa. A direção musical de Marcelo Alonso Neves, como de costume, garante que o som brote do palco e atinja o público sem falhas, mas com as sutilezas capazes de anunciar ampla gama de cores nas melodias e também nos diálogos mais perfeitos. Os problemas e os méritos aqui levantados de “Amargo fruto” dão conta da avaliação do trabalho de Ticiana Studart como diretora geral nessa montagem.

O esgotamento do gênero
Sofre o teatro enquanto arte nesse esgotamento cada vez mais comentado do gênero musical biográfico no Rio de Janeiro. A repetição dos mesmos problemas são sinais de que a investigação estagnou, tendo sido substituída pelo objetivo esquisito de oferecer ao público aquilo que a internet já faz. Estão na rede, afinal de contas, a biografia de todos os artistas e eles próprios cantando suas próprias canções. É preciso refletir em que medida as produções teatrais podem ser únicas, como é, aliás, o teatro. Viva Billie Holiday!

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Ficha técnica:
Texto: Jau Sant’Angelo e Ticiana Studart
Direção: Ticiana Studart
Direção Musical e Arranjos: Marcelo Alonso Neves
Elenco: Lilian Valeska, Milton Filho e Vilma Mello
Músicos: Berval Morais (baixo acústico), Emile Saubole (bateria), Gabriel Gabriel (saxofone) e Rodrigo Marsillac (piano)
Iluminação: Paulo César Medeiros
Cenografia: Aurora dos Campos
Figurino: Marcelo Marques
Desenho de som: Branco Ferreira
Visagismo: Ernane Pinho
Preparação Vocal: Mona Vilardo
Direção de Movimento: Sueli Guerra
Preparadora de Língua Inglesa: Alma Thomas
Programação Visual: Clara Melliande
Assessoria de Imprensa: Ney Motta
Direção de Produção: Maria Inês Vale
Coordenação Geral: Maria Vitória Furtado
Idealização: Jau Sant’Angelo
Realização: Vitória Produções

quinta-feira, 10 de setembro de 2015

Queime isso (RJ)


Foto: divulgação


Alcemar Vieira, Karine Carvalho, Tatsu Carvalho e Celso André


A primeira montagem de Lanford Wilson no Brasil

“Queime isso”, nova peça dirigida por Victor Garcia Peralta, fica em cartaz até dia 17 de setembro no Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia. O texto, escrito pelo americano Lanford Wilson (1937-2011), tem recebido, desde a estreia em 1987, na Broadway, críticas bastante elogiosas. No elenco, estão Karine Carvalho, Celso André, Tatsu Carvalho e Alcemar Vieira, os dois últimos em ótimos trabalhos. A produção assinada por Ana Beatriz Figueras e por Tatsu Carvalho promove uma reflexão interessante sobre os laços que unem as pessoas, mas também sobre arte, homofobia, contemporaneidade e sobre família.

John Malkovich interpretava o papel de Pale na primeira montagem
A peça começa quando a jovem coreógrafa Anna (Karine Carvalho) volta do enterro de Robbie, que morreu ao lado do namorado em um acidente de barco. Ela e ele, juntamente com o publicitário Larry (Alcemar Vieira), moravam juntos em um loft de Manhattan em cuja sala toda a peça acontece. Na cena de abertura, Anna narra para Larry e para Burton (Celso André), amigo dos dois, a noite que passou ao lado da família de Robbie. É, no entanto, com a entrada de Pale (Tatsu Carvalho) que o conflito inicia. No meio da madrugada, completamente alterado, ele invade o apartamento dizendo ter vindo buscar as coisas do irmão mais novo falecido.

Ao longo da história, o forte impacto da presença de Pale modificará a vida dos três personagens. Anna, encontrando nele o companheiro ausente, precisará escolher entre a elegância de Burton e a selvageria de Pale. Burton, por sua vez, experimentará o sabor do desafio pela primeira vez. Larry, uma espécie de bobo da corte, talvez descubra um motivo que o ligue aos demais. Nova versão de Stanley Kowalski, Pale terá outra chance de conhecer o irmão bailarino cuja dança ele jamais dedicou-se a assistir quando pode.

“Queime isso”, escrita na segunda metade dos anos 80, é uma reflexão sobre os laços que a AIDS estava modificando em Nova Iorque e o faria para sempre no resto do mundo. Escrita sob fortes influências de Anton Tchékhov e de Tennessee Williams, a peça é sobre a força de um personagem que, resistindo à própria morte, une pessoas e dá a elas nova oportunidade de ressignificarem as próprias vidas. Elogiadíssima na primeira montagem, no inverno de 1987, na Broadway, a produção trazia John Malkovich no papel de Pale. No Brasil, Lanford Wilson era inédito até agora. O autor ganhou o Pulitzer, em 1980, por “Talley’s Folly”.

Problemas de ritmo, mas bom jogo de oposições
Dirigido por Victor Garcia Peralta, o espetáculo, em vários momentos, parece ser mais longo do que precisava pela banalidade com que muitos diálogos são ditos. A opção por um quadro atemporal nem aprofunda a situação original, nem aproxima aquela realidade dos dias de hoje. Embora os personagens se vistam como em 2015, não há celulares entre eles e os tempos continuam fieis à dramaturgia. Só que a AIDS e a internet modificaram o mundo e a peça, ao eximir-se de marcar a comunicação entre essas duas eras, perde a oportunidade de ser mais que a representação do texto.

Ainda no que diz respeito à direção, os ótimos trabalhos de Tatsu Carvalho (Pale) e de Alcemar Vieira (Larry) destoam muito da linearidade pouco convincente de Karine Carvalho (Anna). Os méritos de Vieira, privilegiado pelas melhores falas do texto, são perigosos na medida em que seu personagem é o menos claro na narrativa. Por outro lado, é bastante interessante o marcado jogo de oposições entre as figuras de Celso André (Burton) e de Tatsu Carvalho.

Tatsu Carvalho e Alcemar Vieira brilham
É bastante fácil identificar as proximidades entre McMurphy, que Tatsu Carvalho interpreta na montagem de “Um estranho no ninho”, e sua versão para Pale, aqui em “Queime isso”. Melhor ainda é perceber suas distâncias. Estão claras as quebras que modificam o seu personagem aqui ao longo da narrativa, ele que incialmente modifica as vidas de todos os seus pares tanto nessa quanto na outra história. Como na interpretação de Alcemar Vieira, há ótimo uso da voz e do corpo, em que diferentes níveis são responsáveis por maior profundidade. Em Karine Carvalho, vários momentos escapam pelo modo excessivamente regular com que a atriz apresenta sua Anna. Celso André, discreto nas expressões e naturalmente vistoso no porte, colabora bem para a narrativa.

Miguel Pinto Guimarães apresenta um cenário que responsabiliza o texto e os atores pelos méritos no contorno da narrativa. Ainda que bonito, o visual traz belos desafios para a direção na sustentação do ritmo, nem todos eles vencidos infelizmente. No mesmo sentido, age a trilha sonora de Mauro Bernan. Os figurinos de Alessandra Padilha marcam com elegância a evolução do tempo. A iluminação de Felipe Lourenço valoriza o ambiente, no qual se mistura, marcando bem as horas do dia em que as cenas acontecem positivamente.

Depois de ler um bilhete, queimá-lo significa destruir tudo a seu respeito menos a informação lida. Nesse sentido, para além do palpável fica o essencial, muitas vezes invisível aos olhos. Ao sugerir essa reflexão, “Queime isso” se anuncia como uma boa opção na grade teatral do Rio. Vale a pena assistir.

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Ficha Técnica:
Texto: “Queime Isso” (Burn This) de Lanford Wilson
Direção: Vitor Garcia Peralta
Direção de Movimento: Toni Rodrigues
Tradução: Ricardo Ventura
Cenário: Miguel Pinto Guimarães
Figurinos: Alessandra Padilha
Iluminação: Felipe Lourenço
Design Gráfico: Ana Andreiolo
Trilha: Mauro Berman
Atores: Tatsu Carvalho, Karine Carvalho, Alcemar Vieira e Celso Andre
Produção: Tatsu Carvalho e Ana Beatriz Figueras
Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação

terça-feira, 8 de setembro de 2015

Ataulfo Alves – O bom crioulo (RJ)

Foto: divulgação

Marcelo Capobiango e Wladimir Pinheiro


Mais um monótono musical biográfico

“Ataulfo Alves – O bom crioulo” é mais um espetáculo biográfico que traz boa parte de todos os problemas apontados repetidamente em produções do gênero na cidade. Preparada para homenagear o compositor mineiro (1909-1969), autor de canções como “Ai que saudades da Amélia” e “Mulata assanhada”, a produção se perde entre a biografia cronológica e linear e a interpretação anunciada de seu repertório mais célebre. Com texto superficial de Enéas Carlos Pereira e de Edu Salemi, e direção esforçada de Luiz Antônio Pilar, a peça traz no elenco os já várias vezes elogiados Wladimir Pinheiro e Édio Nunes, entre outros, aqui sem grandes destaques. A montagem estreou nesta sexta-feira, dia 4/9, e ficará em cartaz até o início de outubro no Teatro Dulcina, na Cinelândia.

Os mesmos problemas de sempre
A dramaturgia de Enéas Carlos Pereira e de Edu Salemi é muito ruim por dois motivos: a apresentação do personagem-título e o ritmo da narrativa. Em primeiro lugar, tomando o personagem a partir da peça, Ataulfo Alves (Wladimir Pinheiro) se tornou cantor por acaso, virou famoso facilmente, teve algumas brigas com alguns colegas, mas morreu velho em uma mesa de cirurgia cercado pela amada esposa e por seus filhos queridos. Para a peça, em uma visão romântica e superficial, os fatos da vida do homenageado aconteceram separadamente, sem que houvesse frustrações, lutas e dificuldades. Todos sabemos que, na realidade, as coisas não aconteceram assim.

Em segundo lugar, o texto de “Ataulfo Alves – O bom crioulo” dispensa tudo o que semanalmente a crítica teatral vem apontando, nos últimos anos, acerca dos musicais biográficos. Quando a peça começa, e o protagonista diz que já morreu e, logo em seguida, cita a sua terra natal – Miraí/MG –, resta ao espectador esperar para ver um show em que as músicas mais famosas dividem lugar com a apresentação cronológica de alguns fatos da vida do cantor. Bastará, para a plateia, fazer as contas e acompanhar, no programa, a quantidade de músicas que faltam para saber quando a peça vai terminar. Por melhor que sejam a direção e as interpretações, isso é fatal para o ritmo da encenação. Nos últimos anos, a programação de teatro carioca vem oferecendo oportunidades constantes de reflexão sobre esse aspecto, mas os autores parecem ter achado por bem “inventar a roda” e cometer os mesmos erros infelizmente. É uma pena.

A excelente direção musical de Alexandre Elias
Com méritos, a direção de Luiz Antônio Pilar se esforça em valorizar as situações paralelas na biografia desse fictício Ataulfo Alves. Ao longo de duas horas, os melhores momentos da encenação são os jogos criados para os personagens coadjuvantes. Os bêbados e seus conflitos amorosos, as pastorinhas, os alfaiates e as imitações caricatas de personagens reais são alguns que podem ser citados. Considerada a enorme dificuldade, é possível dizer que houve, na estreia, quadros bem estruturados e capazes de manter a atenção.

Não há trabalhos relevantes nas interpretações. Wladimir Pinheiro (Ataulfo), um excelente cantor e ator da cidade, apresenta ótimo trabalho aqui, mas não melhor do que já trouxe em outras produções. Édio Nunes (Pixinguinha) mostra elogiável habilidade em dança, mas essa também já foi melhor destacada na crítica de outros espetáculos. Luciana Balby (a Morte) e Marcelo Capobiango (o Barman) têm boas participações também, mas pouco espaço na hierarquia da construção do sentido. Como um todo, o elenco apresenta bom trabalho, sem grandes problemas.

“Ataulfo Alves – O bom crioulo” investe em grande quantidade de figurinos (Helena Affonso), mas muitos deles precisam de melhor acabamento. O cenário de Doris Rollemberg participa com curvas que tanto servem a um declínio da art deco como ao apogeu do modernismo. Com isso, os painéis retratam da primeira metade do século XX até o fim dos anos 60 modestamente. A iluminação de Daniela Sanchez não tem grandes momentos. De tudo, nessa produção, o melhor é a direção musical de Alexandre Elias. Nessa versão, o espetáculo aproxima as composições do homenageado, reforçando as relações entre samba e viola, bolero e marchinhas, entre dor e alegria.

Com quatorze pessoas no palco (dez atores e quatro músicos) e uma grande equipe, “Ataulfo Alves – O bom crioulo” sugere a importância do compositor homenageado. Fica, porém, devendo enquanto espetáculo musical de qualidade realmente elogiável. O esforço da direção e a alta qualidade da direção musical esbarram pelo texto monótono infelizmente. Vale dizer, no entanto, que a celebração da música brasileira nunca é demais!


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FICHA TÉCNICA
Direção Geral: Luiz Antonio Pilar

Autores: Enéas Carlos Pereira e Edu Salemi

Diretor Assistente - Édio Nunes

Assistentes de Direção - Madara Luiza

Direção Musical: Alexandre Elias

Cenografia: Doris Rollemberg

Figurinos: Helena Affonso

Iluminação: Daniela Sanchez


Som designer: Branco Ferreira

Direção de Produção - Mariana Campos

Assistentes de Produção - Caroline de Silva e Vilson Almeida

Coreógrafo - Édio Nunes

Preparadora Vocal e Musicista ensaiadora - Ananda Torres

Cabelo/Make – Gal

Assistente de Direção Muiscal: Victor Huggo

Músicos: Bezaleel Ferreira,Caio Marcio dos Santos,Rafael Mallmith, Reginaldo Vargas Operadora de luz: Katia Barreto

Designer Gráfico - Maria Júlia Ferreira

Cenotécnica – Fátima de Souza

Cenotécnica Montagem / Contra regra - Renato Silva

Maquinista – João Paulo Santos

Costureira Cênica – Nice Tramontin

Camareira: Maria Célia Silva


Elenco:

Wladimir Pinheiro – Ataulfo Alves

Alexandre Vollú – Ari Barroso / Mario Lago

Dany Stenzel – Carmem Miranda / Alda (pastora)

Édio Nunes – Pixinguinha / Wilson Batista

Luciana Balby – Silvia / Olga (pastora)

Marcelo Capobiango – Barman / Pai do Ataulfo

Marcelo Gonçalves – Almirante / Sergio Bittencourt

Marco Bravo – Seu Antunes / Mister Evans

Patricia Costa – Judite (velha) / Abigail (pastora)

Shirlene Paixão – Judite (jovem) / Marilu (pastora)

Querido Brahms (SP)

Foto: divulgação

Werner Schunemann, Carolina Kasting e Olavo Cavalheiro

Pouco além de informação

O espetáculo “Querido Brahms” encerrou, no fim de agosto, a temporada no Teatro SESC Ginástico no centro do Rio. A peça, que estreou em São Paulo em fevereiro, é dirigida por Tadeu Aguiar e tem texto assinado pelo paulista José Eduardo Vendramini. Os dois têm carreiras sólidas marcadas por produções bastante elogiadas, mas essa infelizmente não é o caso. Carolina Kasting interpreta Clara que está desesperada com o estado mental do marido, o compositor Robert Schumann, interpretado por Werner Schunemann. Por isso, ela chama o amigo também compositor Johannes Brahms, vivido por Olavo Cavalheiro, mas esse pouco pode fazer para ajudá-la. Lentíssima, e estritamente baseada em fatos reais, a narrativa prende o elenco, a direção e toda a arte em uma situação açucarada demais para o século XXI.

Com méritos à pesquisa, problemas na dramaturgia
Publicado em 2013, pela editora Giostri, o texto de José Eduardo Vendramini é tão romântico quanto a arte defendida pelos personagens reais que ele retrata. Em ato único, a história se passa em uma manhã de fevereiro de 1854, na Alemanha, na casa do casal Robert Schumann (1810-1856) e sua esposa Clara (1819-1896). Casados desde 1840, quando ela era uma pianista de fama internacional e ele um compositor renomado, quando a peça começa, os dois estão à bancarrota. Devido à evolução de diversas doenças, inclusive a sífilis, o estado de saúde de Robert (Werner Schunemann) o impediu de manter-se em empregos fixos. Perseguido por visões de toda a ordem, com humor alterável facilmente e com o físico debilitado, ele já não consegue, na situação de abertura, sustentar a família que crescia com a chegada do oitavo filho que Clara (Carolina Kasting) espera 

Sobrou pouco à versão do texto para o palco
Na peça de Vendramini, o espectador fica sabendo de toda a situação dos Schumann a partir da chegada de Johannes Brahms (Olavo Cavalheiro). Ele atende a um chamado de Clara, que quer sua opinião sobre a possível internação do marido em um sanatório. Schumann, que, um ano antes, havia celebrizado o jovem amigo Brahms (1833-1897) através de uma crítica, surge e confirma a descrição feita por sua esposa ao visitante. Depois de uma hora de encenação, a peça termina sem que o texto tenha desenvolvido a situação inicial. Sai o espectador do teatro com uma enorme quantidade de informações sobre os personagens que sugere o mérito do dramaturgo em sua pesquisa, mas com quase nada além disso.

Fiel ao texto, a direção de Tadeu Aguiar não teve para aonde ir. Seu mérito está em fazer com que os atores se esforcem para evitar o exagero sempre que possível, mas isso nem sempre visivelmente pode ser atingido. Enquanto teatro, “Querido Brahms” se exime de toda a pesquisa de linguagem dos últimos cem anos. Ao voltar-se ao naturalismo do fim do século XIX, a peça sustenta a quarta parede, visa emocionar os corações mais puros da plateia e se constitui em uma obra burguesa que exige da plateia mínimo repertório de música clássica. Ao citar banal e constantemente (Felix) Mendelssohn, (Frantz) Liszt, (Richard) Wagner, entre outros contemporâneos dos personagens, a narrativa delimita um território a que uma pequena parcela do público infelizmente hoje tem acesso. Além de representar os personagens, sobrou pouco à versão do texto para o palco.


Werner Schunemann (Schumann), Carolina Kasting (Clara) e Olavo Pinheiro (Brahms) colaboram nos esforços da direção em ultrapassar as insólitas barreiras do texto. Sem autopiedade, mas com algumas reservas de autocrítica, Schunemann e Kasting apresentam trocas de níveis dentro das possibilidades. Por seu turno, Cavalheiro, o papel-título, dá conta da pequena função de interlocutor dos personagens (através de quem toda a pesquisa da dramaturgia chega à plateia). As referências à “interpretação televisiva”, que a crítica especializada tem atribuído ao elenco, parecem ter sido propositais. “Querido Brahms” habita mesmo entre romantismo e realismo das telenovelas, mas isso não é ruim.

O que se disse a respeito das interpretações vale para o figurino de Ney Madeira e de Dani Vidal, a luz de Cizo de Souza, a sonoplastia de Fernanda Barrichello e para o visagismo de Hugo Daniel. Em todos esses aspectos, a produção apresenta esmero em construir um todo coerente capaz de deixar a plateia segura. O cenário de J.C. Serroni destoa quanto ao seu uso no momento em que os ambientes interno (a sala) e externo (jardim) se confundem. A direção musical de Miguel Briamonte tem destaque na bela interpretação à capela de “Im wundershchonen monat mai” por Olavo Cavalheiro. Ela é a primeira das dezesseis canções escritas por Schumann em 1840 a partir dos poemas de Heinrich Heine.

Sabe-se, pela história real, que Robert Schumann solicitou ele mesmo a própria internação em um sanatório, onde faleceu dois anos depois. Também que Brahms e Clara permaneceram “amigos” durante quatro décadas seguintes, morando em cidades diferentes, ele apaixonado por ela, ela em luto eterno ao marido. Nenhuma das três situações, no entanto, fazem de “Querido Brahms” algo mais que informativo.


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Ficha Técnica
Autor: José Eduardo Vendramini

Direção: Tadeu Aguiar

Elenco: Carolina Kasting, Werner Schünemann e Olavo Cavalheiro

Direção Musical: Maestro Miguel Briamonte

Diretora de Produção: Rosana Penna

Produtora executiva: Keila Blascke

Luz e Co-Produção: Cizo de Souza
Visagismo: Hugo Daniel

Cenário: J.C.Serroni

Figurinos: Ney Madeira e Dani Vidal

Sonoplasta: Fernanda Barrichello

Iluminador: Sidney Rosa

Contrarregra e Assistente: William Alves

Camarins: Cristina Zimmerle

Coordenador Geral: Lucas Olles

Assessoria de imprensa: Lúdicos Comunicações

Não nem nada (SP)


Foto: divulgação
Atores em cena

Um dos espetáculos mais elogiados de 2014 finaliza curta temporada no Rio


“Não nem nada” é um dos espetáculos mais elogiados desde 2014, quando estreou em São Paulo. A produção, que tem texto de Vinícius Calderoni e direção dele e de Rafael Gomes, fez uma temporada no Teatro Poeirinha recentemente. No elenco, além dos ótimos trabalhos de interpretação do autor e de Geraldo Rodrigues, há os excelentes de Mayara Constantino e de Renata Gaspar. Foi um prazer ter visto mais essa montagem assinada pelo Empório de Teatro Sortido, também autor do lindo “Músicas para cortar os pulsos”.

Texto merecidamente ao Prêmio Shell de 2014
O espetáculo é a primeira parte da trilogia “Placas Tectônicas”, que será completada por “Ãrrã” e por “Chorume”, ainda a serem produzidos. O texto de “Não nem nada” é formado por doze cenas em que microdramaturgias são estratégias do autor para dar conta da desarticulação do sentido. As situações de ataque, resposta, de esquiva e os diálogos velozes bem podem ser lidos como próximos da dramaturgia do maranhense Dionísio Neto. Embora com um repertório mais popular e uma situação mais esfacelada, o texto também está ao lado dos do francês Bernard-Marie Koltès. Monólogos que também são diálogos, e vice-versa, preenchem o tempo, subvertem a cronologia e dispensam a lógica sem depender do teatro do absurdo.

O homem, visto como um hospedeiro de informações de toda ordem, aparece desde a primeira cena quando a relação entre taxista e passageiro surge. A partir daí, com grandes momentos no jantar entre homem e mulher que completarão 65 anos de casados e no programa de entrevista com Átila Bulhões, todo o texto faz da palavra a mais alta responsável pela performance. Ao final, paira a imagem do mundo que há dentro de nós e do universo como algo que engloba o homem ao mesmo tempo em que, por ele, é produzido. Indicado merecidamente ao Prêmio Shell de 2014, o texto de Vinícius Calderoni é excelente.

As excelentes Renata Gaspar e Mayara Constantino
A direção do autor e de Rafael Gomes aponta para a força do texto sem eximir-se da função de dar-lhe viabilidade cênica. A fragmentação surge no palco no modo como as placas da plataforma de Valentina Soares e de Wagner Antônio ambientalizam os sons das palavras. Cheio de alçapões, pontos de escape, desníveis e de encaixes, o tablado onde as cenas também acontecem é metáfora para o ritmo da dramaturgia. Assistida por Guilherme Magon, a direção abre o quadro, situando o “palco” no centro do palco, alargando a duração, incluindo o intervalo e, assim, questionando o real além da narrativa sobre suas marcas de realidade. O ritmo é vibrante e melhor ainda é a capacidade do vazio da cena de oferecer sempre novas evoluções. Palmas!

Os trabalhos de interpretação no conjunto são ótimos, mas é preciso destacar as excelentes participações de Renata Gaspar e de Mayara Constantino. A grande variedade dos usos das vozes, tons, ritmos e das entonações não surge apenas como amostra de técnica e de talento. O uso delas, mas também das potencialidades corporais, são fontes de sentido para o quadro que a peça parece querer representar. Excelentes atuações.

A estética do espetáculo surge em plena e fluida relação com sua aparente proposta. Os figurinos de Valentina Soares e a luz de Wagner Antônio e de Robson Lima têm participações pequenas. Elas equilibram o todo já fortemente preenchido pelo texto e pela encenação.

“Não nem nada”, por não parecer a realidade, fica mais real. Assim, o teatro, em novas produções como essa, permanece na investigação do homem e na busca por novas linguagens. Parabéns!

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FICHA TÉCNICA:
Texto e direção: Vinicius Calderoni
Elenco:Geraldo Rodrigues, Mayara Constantino, Renata Gaspar e Victor Mendes
Codireção:Rafael Gomes
Assistência de direção: Guilherme Magon
Cenografia: Valentina Soares e Wagner Antônio
Desenho de luz: Wagner Antônio e Robson Lima
Figurinos:Valentina Soares
Preparação corporal: Fabrício Licursi
Direção de produção: Cesar Ramos e Gustavo Sanna

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

War (RJ)


Foto: divulgação

Clara Santhana, Verônica Reis, Natasha Corbelino, Ricardo Gonçalves, Fabrício Polido e Camilo Pellegrini


Novo texto de Renata Mizrahi traz Verônica Reis no melhor momento de sua carreira


“War”, novo espetáculo a partir de texto de Renata Mizrahi, celebra o aniversário de dez anos da Companhia Teatro de Nós. O espetáculo, que tem direção de Diego Molina, cumpriu temporada no Teatro I do Sesc Tijuca e agora entra em cartaz no Teatro do Sesi, na região central do Rio de Janeiro. No elenco, Camilo Pellegrini, Clara Santhana, Fabrício Polido, Natasha Corbelino, Ricardo Gonçalves e Verônica Reis, essa última em grande momento de sua carreira, apresentam ótimas interpretações. No texto, três casais de velhos amigos se encontram para jogar uma partida de War, mas, ao longo da noite, talvez o alcance desse objetivo não se realize plenamente. Eis uma ótima opção na programação de teatro carioca.

Renata Mizrahi vence mais uma vez!
Quando a história começa, faz seis meses que o casal André (Ricardo Gonçalves) e Marília (Natasha Corbelino) se mudou para um apartamento próprio, comprado por ela, afastado da zona sul do Rio. Eles estão juntos há mais de dez anos, tendo se unido quando ele, ainda bem jovem, fez sucesso com o roteiro de um filme que o projetou para o mundo. Agora, no entanto, a frustração profissional o faz sentir-se inferior à esposa, cujas promoções no trabalho são constantes. Na nova casa, a sensação de fracasso, tanto dele que não consegue pagar as próprias contas, quanto dela que se percebe incapaz de agradar ao marido, explodem na noite em que o casal recebe, pela primeira vez, antigos amigos para uma partida de War. Gustavo (Fabrício Polido) e Roberta (Verônica Reis), que moram juntos mesmo após a separação, são os primeiros a chegar. Parecido com o que acontece com o casal anfitrião, entre os convidados, é ele quem se sente frustrado pela perda de poder por sobre a ex-esposa, essa desempregada há um longo tempo. Por fim, chega Sérgio (Camilo Pellegrini), trazendo sua nova namorada Laura (Clara Santhana) para a surpresa do grupo que nunca o havia visto em um relacionamento sério.

Nessa dramaturgia original de Renata Mizrahi, o melhor é observar como, tal qual nos textos de “Os Sapos” e de “Silêncio!”, da mesma autora, um evento social acaba por ser campo de batalha onde os personagens revelam o pior de si mesmos. Aqui, como nesses dois textos anteriores, a intimidade compartilhada por parte do grupo permite a emergência de sentimentos mais profundos. As mágoas jogadas para fora, porém, acabam por ficar ainda maiores no olhar daquele que, na situação ficcional, é estranho aos demais. Laura, de “War”, assim como é Paula, de “Os Sapos”, e Flávio, de “Silêncio!”, garante o lugar constrangido do espectador dentro de um vulcão de relações que entra em erupção depois de tanto tempo. Incapaz de tomar alguma atitude para resgatar aqueles que se sujam na lama do íntimo revelado, resta o riso nervoso, a reflexão e a catarse.

War, jogo da Grow lançado no Brasil em 1972, originalmente criado pelo cineasta francês Albert Lamorisse (1922-1970), surge como falsa chave que dá acesso aos conflitos da ficção. Diante do mapa do mundo, os jogadores duelam entre si pela posse de territórios, vencendo quem primeiro atingir o objetivo pessoal e secreto sorteado antes do início da partida. Nesse confronto de estratégias, não há quem fique imune à experiência do próprio ego. Não é, por isso, tola a aproximação dessa dramaturgia com a de “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”, do norte-americano Edward Albee, pois em ambos as brincadeiras ácidas, o álcool e o avançar da madrugada, além dos convidados estranhos, são caminhos através dos quais os protagonistas buscam o limite para, quem sabe daí, vislumbrarem um recomeço. Renata Mizrahi vence mais uma vez!

A excelente atuação de Verônica Reis
A direção de Diego Molina aponta caminhos, mas não oferece o melhor do quadro que ela mesma bem propõe. A evolução da narrativa marca as proximidades e as distâncias entre os casais: quem está junto mas separado, quem está separado mas junto e quem, além de junto, está próximo. Na encenação, as teses marcantes da escrita de Mizrahi, também estão claras: o amor pode unir célebres e fracassados, a atração sexual não anula a história compartilhada, a reinvenção da realidade tem limite como meio de sobreviver à vida. No entanto, a falta de dosagem na sucessão de quadros enche de responsabilidade o texto como quase o único elemento capaz de falar sobre as quebras de cada personagem. Em outras palavras: no panorama apresentado por Molina, os personagens chegam ao final exaustos, mas com as mesmas visões do início apesar de habitarem em um ambiente formalmente destruído. O melhor momento da direção é o olhar final de Roberta (Verônica Reis) ao beijo entre Sérgio e Laura (Camilo Pellegrini e Clara Santhana): não só uma saudade do amor em seu estado inicial, mas uma pontinha de esperança de que tudo sempre pode recomeçar.

Todos os atores de “War” apresentam ótimos trabalhos de interpretação, mas há maior destaque nos de Natasha Corbelino (Marília) e principalmente no de Verônica Reis (Roberta), essa última em uma das melhores atuações de sua carreira. É vibrante acompanhar, através do olhar de Reis, uma criteriosa opinião sobre todos os acontecimentos que sua personagem presencia. Com menos oportunidades, o mesmo pode ser visto em Camilo Pellegrini.

A cenografia de Lorena Lima e do diretor faz discreta referência ao movimento proposto última e celebremente por Daniela Thomas em “Pterodáctilos” sem a força devida. Também em pequena participação, os figurinos de Patrícia Muniz opinam pouco sobre o universo dos personagens. A luz de Anderson Ratto, mantida nas tradicionais varas superiores, contribui para a negativa linearidade aparente da ação. Apesar da ótima colaboração da trilha sonora de Renata Mizrahi, o quadro todo perde ótimas oportunidades de argumentar em favor de uma estética mais sensível.

“War” é a sexta peça adulta da Companhia Teatro de Nós. Um trabalho que vale a pena ver!

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FICHA TÉCNICA
Texto: Renata Mizrahi
Direção: Diego Molina
Cenário: Lorena Lima e Diego Molina
Elenco: Camilo Pellegrini, Clara Santhana, Fabrício Polido, Natasha Corbelino, Ricardo Gonçalves e Verônica Reis
Direção de arte e Figurinos: Patrícia Muniz
Iluminação: Anderson Ratto
Trilha Sonora: Renata Mizrahi
Direção de movimento: Juliana Medella
Assistente de direção: Carolina Godinho
Fotos e Vídeos: Ananda Campana
Programação visual: IviSpezani
Intérpretes de Libras: JDL Acessibilidade na comunicação
Direção de produção: Maria Alice Silvério
Produção e Realização: Companhia Teatro de Nós