terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Gente (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: Aline Macedo

Patrick dos Santos e Bianca Barbosa

28 atores em ótimo espetáculo produzido entre moradores do Complexo da Maré

"Gente" é o espetáculo realizado a partir do "Projeto Entre Lugares: Terras onde pisei, histórias que contei" , realizado pela G. I. Produções Culturais com moradores do Complexo da Maré no Rio de Janeiro. Durante o ano inteiro, desde 2012, jovens entre 12 e 18 anos participam de diversas oficinas e a produção é um meio de dar sentido à parte do que foi aprendido no processo. A peça foi apresentada na própria comunidade, mas também na Biblioteca Parque Estadual e no Teatro do Parque das Ruínas, em Santa Teresa, zona central do Rio de Janeiro. Sua dramaturgia foi criada a partir de histórias reais colhidas pelos oficinandos entre os moradores, seus vizinhos e familiares. 28 atores estão no elenco e apresentam um bom trabalho que emociona e diverte. A programação teatral carioca, nesse fim de 2015, tem nessa montagem motivos para se orgulhar.

Dramaturgia surge de histórias reais da Comunidade do Complexo da Maré
São cinco histórias colhidas entre os moradores da Comunidade da Maré. A peça começa com a narrativa da mullher mal tratada pelo marido que vem para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Sua voz é descoberta por um cantor e uma carreira começa ao lado de um novo romance e uma nova oportunidade. O envolvimento do filho, já adolescente, com o crime traz à protagonista muitas tristezas no entanto. Depois, conhece-se a senhora acumuladora que, apesar da bondade, incomoda os vizinhos por causa do mal cheiro que vem de sua casa. Ela é maltrada pelos próprios filhos e sua situação acaba fazendo com que a opinião dos outros sobre ela se modifique. Eles então a ajudam a melhorar de vida. Há ainda o menino explorado pela mãe que exige que ele saia pela feira pedindo comida de graça. Também a professora de espanhol que, motivada por um espírito evangélico, resolve levar sua aluna transexual para participar de um culto. Ambas sentem forte preconceito das pessoas na igreja, o que lhes entristece. Na sala de aula, a violência no entorno da escola traz outros acontecimentos tristes ao seu pensamento, mas que  não lhes impedem de continuar acreditando em um mundo melhor. A peça termina com uma divertida história de amor de um casal que se une por procuração, resolvendo o problema da distância entre eles.

As esquetes mais longas são entrecortadas por entremezes em que pequenos monólogos oferecem um contexto que oxigena a fruição do espetáculo como um todo. Na encenação, todos os atores estão sentados ao redor da cena, assistindo com o público às histórias apresentadas. O drama, gênero que melhor lê a narrativa, não limita o aspecto cômico, mas informa sobre as bases que parecem ter guiado Renata Tavares, que assina a dramaturgia, na viabilização da obra. O bem e o mal estão bem claros e essa apresentação nítida ajuda o ritmo, bem como a leitura das referências. "Gente" é um espetáculo que tem como tema a riqueza humana da sociedade em meio a qual o espetáculo foi criado. E atende aos objetivos com méritos a serem aplaudidos.

Elenco numeroso apresenta bom trabalho
A direção de Renata Tavares e de Tiago Ribeiro tem o mérito de atravessar a pouca experiência dos intérpretes no palco profissional e apresentar um espetáculo que em nada perde para seus pares na programação de teatro carioca. Ao longo de mais de cento e vinte minutos, a narrativa cruza o tempo e o espaço com opções criativas e dispostas à fruição com vibrante desenvolvimento. Os jovens atores apresentam, de um modo geral, boa noção de movimentos, conhecimento de suas habilidades vocais e corporais e ótimas expressões nas ações e nas reações. O espetáculo, atentendo aos objetivos, diverte, emociona e promove essencial reflexão. Patrick Santos, Bianca Barbosa, Vanessa Azevedo, Leona Kali e Taiane Gomes se destacam no elenco pelo modo delicado e profundo com que se expressam na apresentação dos seus personagens em seus quadros. O elenco também é composto por Amanda Maria, Ana Karolina, Anderson Alexandre, Andressa Vargas, Angela Pereira, Arlison Campos, Bianca Mollinari, Edson Martins, Fernanda Pontes, Hyan Victor, Jhenefer Braz, Larissa Castro, Lucas Borges, Matheus Frazão, Nzage Dias, Pedro Nascimento, Rafael Lima, Roger Neri, Thiago Santos, Thiago Souza, Vanusa Azevedo, Victória Mel e Yury Jesus em trabalhos qualificados.

O cenário de Flávio Vidaurre e o figurino de Rosa Ebee colaboram para o espetáculo porque, sem entraves e com potência, dão conta do essencial para a apresentação dos personagens e dos contextos narrativos em que eles aparecem. A iluminação de João Gioia, sobretudo considerando a realidade da produção e do tipo de palco para o qual ela foi criada, tem méritos em destacar o elenco como um todo e favorecer as reflexões que o espetáculo promove desde antes da narrativa.

O "Projeto Entre Lugares: Terras onde pisei, histórias que contei" 
"Gente" renova, no teatro, o compromisso da arte em celebrar o homem em sua riqueza, em sua complexidade, na natural enorme possibilidade de expressões. Além disso, ele nos lembra de que talento e técnica são características que aparecem e se desenvolvem em qualquer contexto, ainda que esse seja um tão difícil como se sabe ser o do Complexo da Maré. O "Projeto Entre Lugares: Terras onde pisei, histórias que contei" merece os parabéns, mas mais do que isso a atenção, o valor e novas e mais longas temporadas. Muitos aplausos! Feliz 2016!


*

Ficha técnica:
Coordenação geral: Vanessa Greff
Coordenação artística: Flávio Vidaurre
Autora: Renata Tavares
Direção de cena: Renata Tavares e Tiago Ribeiro
Figurino: Rosa Ebee
Cenário: Flávio Vidaurre
Iluminação: João Gioia
Registro fotográfico: Aline Macedo
Projeção e Imagens: Mutante Produções
Operador de som: Alexandre Mero

Elenco:
Amanda Maria, Ana Karolina, Anderson Alexandre, Andressa Vargas, Angela Pereira, Arlison Campos, Bianca Barbosa, Bianca Mollinari, Edson Martins, Fernanda Pontes, Hyan Victor, Jhenefer Braz, Larissa Castro, Leona Kali, Lucas Borges, Matheus Frazão, Nzage Dias, Patrick Santos, Pedro Nascimento, Rafael Lima, Roger Neri, Taiane Gomes, Thiago Santos, Thiago Souza, Vanessa Azevedo, Vanusa Azevedo, Victória Mel e Yury Jesus.

domingo, 27 de dezembro de 2015

Mamãe (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: Bárbara Lopes


Álamo Facó


Monólogo tocante é cheio de méritos


"Mamãe" é o monólogo em que Álamo Facó, a partir do processo investigativo por ele chamado de "A síntese do relevante", apresenta algumas reflexões estéticas surgidas do fato real do falecimento de sua mãe. Em 2010, a arquiteta Marpe Facó Soares Drummond foi diagnosticada com um tumor no cérebro e faleceu cem dias depois, deixando três filhos - o ator Álamo entre eles. O espetáculo, com muita sensibilidade, torna um fato particular um motivo para celebrar a vida de um modo geral. Poético, tocante e sensível, a peça esteve em temporada durante o mês de dezembro na Sala Multiuso do Espaço SESC Copacabana e seguirá em cartaz no Teatro Sérgio Porto a partir de 9 de janeiro de 2016.

Excelente uso das marcas de performance 
Na dramaturgia dessa performance, o ator Álamo Facó modificou o nome real da personagem de Marpe para Marta. Os três filhos aparecem na narrativa como se fossem apenas um, chamado Lázaro. Outros aspectos também ganharam, na ficção, novos contornos. O mais relevante, enquanto discurso estético, é o modo como, em primeiro lugar, todos os elementos aparecem embasados em um conjunto bem articulado de marcas. Elas são capazes de criar suatentação para cada novo gesto acontecido em cena, amparando um excelente desenvolver das ações. Depois, com méritos, Facó sustenta uma poderosa névoa entre o que aconteceu fora e dentro da ficção, servindo-se do conceito de performance para fisgar a atenção do público. A dificuldade em saber o que é personagem e o que é vida "real" faz toda a diferença no modo positivo como a audiência se envolve com o espetáculo.

No que diz respeito à encenação, "Mamãe" se utiliza com potência de vários elementos para apresentar o espetáculo de modo mais profundo. Dirigido por Facó e por César Augusto, o ritmo propõe e mantém um clima confortável que talvez seja capaz de atingir o público mais diretamente no trato com um tema tão difícil quanto a morte da própria mãe. Longe de ser um dramalhão pesado e superficial, o monólogo traz o acontecimento ainda terrível, mas com certa naturalidade que o deixa profundo.

O cenário de Bia Junqueira, articulando cadeiras de policarbonato, fumaça e luzes vermelhas, azuis e brancas sustenta o contexto de representação, envolvendo o espectador que passa a colaborar mais efetivamente com os acordos da narrativa. Em outras palavras, o público não apenas vê a peça, mas participa ativamente dela transformando o quadro geral disposto no palco na sala do hospital e nos demais ambientes onde a história se dá. Ao optar pelo não realismo, Junqueira convoca a plateia para, através dessa postura mais ativa, sentir-se parte de um contexto que irá emocioná-la, atribuindo-lhe sentido.

A trilha sonora de Álamo Facó e de Rodrigo Marçal, o figurino de Ticiana Passos e a luz de Felipe Lourenço mantêm lugares escuros e não vestidos onde se é possível respirar além de referências mais populares que ratificam a fluência dos acordos, a oxigenação da obra e o ritmo alternado e vivo. Todos os elementos estão envolvidos em um conceito bem amarrado que movimenta a estrutura do espetáculo com força.

Monólogo sobre o valor da vida
É bonito ver como "Mamãe" deixa de ser sobre o falecimento de Marpe Facó e passa a ser sobre o valor da vida, cuja importância contraditoriamente fica nítida na possibilidade da morte. Um fato particular, privado, individual se torna, através da arte celebrativa que é o teatro, onde seres humanos desconhecidos se encontram, algo universal. Não há dúvidas de que esse resultado aponta para os méritos dos realizadores e também daqueles que participaram da realização no momento da peça. Fica a certeza de que esse é um ótimo espetáculo. Parabéns!

*

Ficha Técnica:

Texto e atuação: Álamo Facó
Direção: Álamo Facó e Cesar Augusto
Direção de produção: Carlos Grun
Direção de movimento/ co-direção: Luciana Brites
Direção Musical: Rodrigo Marçal
Cenário: Bia Junqueira
Luz: Felipe Lourenço
Trilha Sonora: Álamo Facó e Rodrigo Marçal
Direção Musical do Performer: Lan Lanh
Figurino: Ticiana Passos
Preparação Vocal: Sonia Dumont
Fotos: Julio Andrade e Miguel Pinheiro
Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Projeto gráfico: Mary Paz
Produção e Realização: Bem Legal Produções e Álamo Facó
Parceria: Sábios Projetos
Colaboração Artística: Dandara Guerra, Fernando Eiras, Remo Trajano, Julio Andrade, Tamara Barreto, Lidoka Martuscelli, Andrucha Waddington, Lully Villar, Marina Viana, Victor Garcia Peralta, Cristina Flores e Renato Linhares

Raia 30 - O musical (SP)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: divulgação

No alto, Cláudia Raia


Bonito espetáculo marca os 30 anos de carreira de Cláudia Raia

"Raia 30 - O musical" é o espetáculo que celebra os 30 anos de carreira de Cláudia Raia. Em 1983, ela participou da montagem brasileira do célebre "A Chorus Line" e, no ano seguinte, esteve no elenco do programa de humor "Viva o Gordo!", seu primeiro trabalho na televisão. Com dramaturgia de Miguel Falabella e com direção de José Possi Neto, o musical cumpre temporada até o fim de janeiro no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon. Apesar das sensibilidades no texto, é uma oportunidade interessante de se reencontrar com uma das nossas maiores estrelas em sua merecida auto-homenagem.

Problemas na dramaturgia não tiram o brilho do espetáculo
Os problemas centrais da dramaturgia de Miguel Falabella se veem na forma como a personagem está mal apresentada, mas principalmente como o desenvolver da narrativa se dá de modo superficial. O espetáculo enumera fatos da história profissional de Cláudia Raia, mas eles estão estruturados sem força prejudicialmente. Não há conflito, não há problema e, portanto, é como se não houvesse heroína, nem vencedora. Embora se saiba que as coisas não foram "bem assim", parece que tudo foi muito fácil na vida de Raia no modo como a história está sendo defendida. A dramaturgia, por isso, perde a oportunidade de melhor contribuir para o todo. 

Falando em primeira pessoa, em elogiável ótima relação com o público, Cláudia Raia consegue se servir pouco do contexto narrativo para argumentar em favor do aniversário de sua carreira. Felizmente, em performance exuberante, ela consegue sucesso ao se apoiar em seu carisma marcante. Ao longo da apresentação, o público sente a forma como ela se relaciona com os seus pares no elenco, em especial, o ator Marcos Tumura, seu parceiro durante tantos anos. O feito gera uma energia positiva que é contagiante e dribla os problemas que o texto ruim oferece.

A direção de José Possi Neto, em que colaboram as vibrantes coreografias de Tania Nardini, une quadros que remetem aos vários trechos da carreira de Cláudia Raia. Aparecem menções aos musicais "A Chorus Line" (1983), "Sweet Charity" (2006) e "Cabaret" (2011), mas também à trilogia "Não fuja da Raia" (1991), "Nas Raias da loucura" (1993) e "Caia na Raia" (1996). Ainda sobre o envolvimento da atriz/cantora/bailarina com o palco, há quadros que recuperam suas participações em espetáculos de ballet e de teatro de revista realizados antes de 1983.

As personagens Tancinha, da telenovela "Cambalacho" (1986); e Tonhão, do programa humorístico "TV Pirata" (1988-1992), que Raia interpretou com muito sucesso, também surgem. Todos esses momentos aguçam a memória afetiva do público, mas nenhum deles aparece como um argumento em favor do crescimento da personagem. Apesar do aparecimento não-cronológico dos quadros, o ritmo de "Raia 30 - O musical" permanece linear em função disso.

Vibrante direção de arte de Gringo Cardia
O visual visto pela direção de arte de Gringo Cardia, que se inspira no estilo da decoradora americana Dorothy Draper, é um dos pontos altos da produção. Célebre nos anos 20, o exagero de Draper encontrou eco no glamour da passagem dos anos 70 para 80 no Brasil que vivia o (falso) crescimento econômico (da ditadura militar). Esse clima estético contextualiza a maior parte dos fatos narrados em "Raia 30 - O musical", conferindo exuberância para a produção. Os figurinos de Fábio Namatame e a luz de Drika Matheus confirmam o mapa conceitual do todo, permitindo que o espetáculo exiba uma estrutura positivamente sólida e com méritos.

A direção musical de Marconi Araújo apresenta com unidade standards do repertório de Cláudia Raia, que sua voz grave defende ao lado do coro. No entanto, entre todos os aspectos, o mais positivo elemento de "Raia 30 - O musical" é o modo como a intérprete se relaciona com o público. O diálogo franco, sincero e aberto sinalizam que se trata de uma estrela amada pela audiência. Os méritos acumulados nos anos de carreira certamente são as bases para essa notória mútua admiração. Que venham outros aniversários a comemorar!

*

Ficha técnica:
Texto: Miguel Falabella
Direção: José Possi Neto
Direção Musical e Vocal: Marconi Araújo
Coreografia: Tania Nardini
Produção Geral: Sandro Chaim
Direção De Arte, Cenografia e Design da Identidade Visual: Gringo Cardia
Figurino: Fabio Namatame
Design De Luz : Drika Matheus
Design De Som: Tocko Michelazzo
Visagismo: Dicko Lorenzo, Henrique Mello, Robin Garcia
Elenco: Claudia Raia, Marcos Tumura, Alberto Goya, Alessandra Dimitriou, Carol Costa, Daniel Cabral, Estela Beraldi, Elton Towersey, Luana Zenun, Mariana Barros, Marilice Cosenza, Matheus Paiva, Rodrigo Negrini e Ygor Zago.
Produtores Associados: Claudia Raia e Sandro Chaim

Cara de fogo (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral 

Foto: Renato Mangolin



Johnny Massaro e Júlia Bernat


Texto afiado em ótimos trabalhos de interpretação

Dirigida por Georgette Fadel, a produção brasileira do texto “Cara de fogo”, do alemão Marius von Mayenburg, traz pela primeira vez o autor para o sudoeste do país. Dele também são as peças “Parasitas” e “O feio”, dirigidas respectivamente por João Pedro Madureira e por Mirah Laline em montagens gaúchas que infelizmente não cruzaram o Rio Mampituba ainda. Os atores Isaac Bernat e Soraya Ravenle estão no elenco, interpretando os papéis de pais de sua filha na vida real, a atriz Julia Bernat. Ao lado dos três, estão também em cena Alexandre Barros e Johnny Massaro, esse último interpretando o papel título. Com muitos méritos estéticos, a produção repete no Brasil o sucesso que o texto já fez em montagens internacionais desde 1998, quando foi pela primeira vez encenado. A temporada no Teatro III do Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro do Rio de Janeiro, seguirá até o fim de janeiro de 2016. Vale a pena ser visto!

Texto fisga a atenção do início ao fim
Vencedor do Prêmio Kleist, “Cara de fogo”, escrito em 1997, é o primeiro texto de Marius von Mayenburg (1972) e foi encenado pela primeira vez no ano seguinte em Munique, no sul da Alemanha. A história se utiliza do fogo para sugerir debates acerca da contemporaneidade. O protagonista Kurt (Johnny Massaro) é um garoto na puberdade que se diverte incendiando pássaros mortos enquanto vai descobrindo a sexualidade. Vivendo com ele na mesma casa, a irmã mais velha Olga (Julia Bernat) está prestes a perder sua virgindade com seu namorado Paul (Alexandre Barros). Na outra ponta da vida, os pais de Kurt e de Olga (Isaac Bernat e Soraya Ravenle) têm vivências sexuais rarefeitas. Nesse sentido, “o fogo” da sensualidade arde de modo diverso em cada um dos personagens e Kurt, que passa a senti-lo por último, é quem mais sofre as consequências. Nas palavras desse personagem, o fogo simboliza, ao mesmo tempo, algo bom e ruim.

Ao longo da peça, a narrativa vai evidenciando a disfuncionalidade da família de Kurt: a desconexão entre pais e filhos, a conexão incestuosa entre os irmãos, as diversas reações de todos em relação ao namorado Paul. O desejo incendiário de Kurt, um modo radical de restaurar a lógica no seu mundo, começa a crescer na metáfora de Mayenburg ao longo da peça. Cheio de simbolismo, como a cena em que as velas de Kurt e de Olga passam a queimar em uma só chama, o texto tem diálogos econômicos, certeiros, essenciais. Com cenas chocantes, dispostas a mobilizar a o espectador, “Cara de fogo” fisga a atenção do início ao fim. 

Com méritos, direção de Georgette Fadel apresenta concepção que não se esclarece em todos os aspectos
Com qualificado ritmo no desenvolvimento da narrativa, além dos méritos no uso da paleta de cores, a direção de Georgette Fadel esconde uma concepção mais clara da obra em alguns elementos do seu discurso espetacular. Por exemplo, penduradas nos primeiros figurinos de Olga, várias ferramentas pesadas compõem a personagem. A Mãe aparece, em alguns momentos, também carregando esses objetos, que se espalham pelo palco durante a encenação. A opção, que é abandonada lá pelas tantas, não se esclarece no entanto. 

Ainda no que diz respeito aos figurinos (assinados por Beth e por Joana Passi de Moraes), os cinco personagens parecem ter saído de histórias diferentes. O Pai (Isaac Bernat) tem uma aparência muito realista enquanto os demais se apresentam de formas e níveis diferentes. Kurt está completamente no lado oposto do pai. O movimento visível que se dá na análise dos figurinos é interessante, mas sua contribuição para o todo é pouco nítida.

Do mesmo modo, a trilha sonora de Davi Guilherme participa de modos diferentes da defesa da narrativa. Há momentos em que há um investimento no melodrama, em outros ela se contrapõe, oferecendo novas referências. Se, ao ressaltar discordâncias no discurso, Fadel almejou usar a teatralidade para manter o espectador consciente, o feito nem sempre atinge sua máxima potência.

O cenário de Aurora dos Campos e a iluminação de Tomás Ribas são dois elementos que, bastante bem articulados, se impõem na defesa de uma metáfora que seja simbólica. Ela é capaz de propor universo paralelo através do qual se pode pensar o mundo não-ficcional brilhantemente. 

Ótimas interpretações de elenco qualificado
Todos os trabalhos de interpretação são ótimos, o que é outro mérito da direção de Fadel. Alexandre Barros (Paul) é um namorado viril que é incapaz de lidar com situações mais complexas e que fogem à sua moral. Isaac Bernat apresenta o Pai de modo carismático, ressaltando com docilidade a pouca compreensão dele acerca da realidade de seus filhos. Soraya Ravenle traz a Mãe com força e delicadeza, pautando a oposição entre esposa, mãe e mulher que marca sua personagem. O clamor dela diante de alguma sensação mais íntima é um dos momentos mais destacáveis do espetáculo.

Julia Bernat e Johnny Massaro estão intensos, plenos, entregues aos seus personagens Olga e Kurt. Seus olhares revelam o ponto de vista deles sobre seu mundo, incluindo o espectador nas bases que os fazem tomar aquelas atitudes e auxiliando a compreensão do contexto em que estão envolvidos. Tocados em momentos delicados de suas vidas, seus personagens se rebelam contra o mal em seu entorno e, apesar de provocar também um mal ainda pior, trilham seus caminhos em direção a algo que lhes parece bom. Um dos melhores momentos da peça é quando, quase no fim dela, há uma bifurcação que os separa em seu caminho. É lindo o modo como ambos intérpretes dão conta de expressar as reações deles diante dessa despedida.

Pais e filhos, em “Cara de fogo”, vislumbram momentos limítrofes de suas vidas: esses estão diante da vida adulta e aqueles contemplam a velhice. O futuro é assustador para ambos. Entre várias possibilidades, o fogo pode representar a liberdade dos padrões que deixam de existir quando ele os consome. Eis aqui um belo espetáculo! Aplausos!

*

Ficha técnica:
Texto: Marius von Mayenburg
Tradução: Letícia Liesenfeld
Direção: Georgette Fadel
Elenco: Alexandre Barros, Isaac Bernat, Johnny Massaro, Julia Bernat e Soraya Ravenle
Cenografia: Aurora dos Campos
Iluminação: Tomás Ribas
Figurino: Beth Passi de Moraes e Joana Passi de Moraes
Visagismo: Gebran Smera
Maquiagem: Lívia Brasil
Trilha original: Davi Guilherme
Colaboração musical: Guilherme Borges
Colaboração de som: Gabriel D’Ângelo
Gravação e edição da trilha: Antônio van Ahn e Davi Guilherme

Músicos:
Voz: Soraya Ravenle
Piano e Teclados: Davi Guilherme
Clarone, Clarinete e Requinta: Frederico Cavalieri
Percussão eletrônica: Rick de la Torre

Projeto Gráfico: Bruno Dante
Fotos: Renato Mangolin
Gerenciamento de redes sociais: Léo Ladeira
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna e Paula Catunda
Assistente de direção: Julia Ariani
Assistente de cenografia: Paula Tibana
Estagiária de cenografia: Alice Cruz
Adereços de cenografia: Luciana Vilanova
Cenotécnico: André Salles
Operador de Luz: Vitor Emanuel
Operador de Som: Gustavo Ottoni
Contrarregra: Leandro Brander
Gestão financeira: Rodrigo Gestner
Assistente de produção: Pedro Pedruzzi
Produção executiva: Débora Paganni
Direção de produção: Ana Paula Abreu e Renata Blasi
Produção: Diálogo da Arte Produções Culturais
Produtores Associados e Idealização: Isaac Bernat, Johnny Massaro, Julia Bernat, Pablo Sanábio e Soraya Ravenle
Realização: Crysolitha Produções Artísticas

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

O livro dos monstros guardados (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: divulgação

Erom Cordeiro e Carolina Pismel

João Fonseca dirige nova montagem de premiado texto de Rafael Primot

O livro dos monstros guardados”, de Rafael Primot, ganhou segunda montagem e está em cartaz no Teatro do Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia, até o início de fevereiro. Escrito em 2005 por Rafael Primot, o texto já foi encenado em 2009 sob direção de Zé Henrique de Paula. Na ocasião, o dramaturgo recebeu os prêmios Shell-São Paulo e CPT (Cooperativa de Teatro Paulista) de Melhor Autor por esse trabalho. A versão atual é dirigida por João Fonseca e por Primot. No elenco, além do próprio Rafael Primot (Max), Carolina Pismel (Magali), Erom Cordeiro (Mojo), Guilherme Gonzalez (Maurício), Jefferson Schoroeder (Milton), Laila Zaid (Madá) e Leandro Daniel Colombo (Mestre M) apresentam bons trabalhos de interpretação. Tratam-se de sete monólogos justapostos sobre a precariedade humana. Vale a pena ser visto.

Dramaturgia tem mérito na construção dos personagens
Madá (Laila Zaid) trabalha em um serviço de atendimento viva voz, ouvindo pessoas que telefonam para relatar o que vêm sentindo. Cansada de apenas ouvi-las, ela passa a fazer algo que possa ajudá-las de um modo mais efetivo segundo sua própria opinião. E assim começa a fazer crimes, acreditando salvar o mundo com eles. Magali (Carolina Pismel) é uma garotinha cujos pais acabaram de se separar. Vivendo os primeiros desafios da pré-adolescência, ela toma sozinha e em segredo decisões importantes sobre a sua vida. Milton (Jefferson Schroeder) é um jovem senhor maníaco por limpeza que se casa com uma jovem aparentemente com os mesmos posicionamentos que ele. O modo metódico através do qual ele interage com o mundo revela o prazer que ele sente em estar livre da sujeira. Maurício (Guilherme Gonzalez) é um garotinho que tem problemas de bexiga. No caminho de sua escola para casa, há senhora que está sempre observando algo através de sua janela. Ele a observa e fica curioso para saber o que a intriga.

Mestre M (Leandro Daniel Colombo) é um pai de família que esconde de todo mundo sua preferência por sexo sado-masoquista. Mojo (Erom Cordeiro), personagem do conto “Manual para atropelar cachorro”, de Daniel Galera, é um rapaz que trabalha em uma videolocadora. Para se livrar do estresse, ele sai à noite de carro, procurando por cachorros a fim de atropelá-los. Max (Rafael Primot), personagem do conto “O voo das ovelhas”, de Daniel Pelizzari, acredita apenas interpretar um louco, sendo psicologicamente são, para continuar morando em um sanatório. Nos intervalos da visita anual de sua mãe, ele cria personagens.

No texto, os monólogos aparecem aos poucos e, lá pelas tantas, há algumas pistas de que pelo menos alguns deles vão se relacionar entre si de alguma forma. Desde então, a curiosidade deixa de ser o universo de cada um, mas se destina ao modo como essa possível relação pode se dar. Ao final, a estratégia parece ser mais interessante do que as peças em si, o que gera alguma frustração. Fora a letra inicial M em todos os nomes e um universo particular que cada um mantém, há pouco além de uma bela construção de personagem.

Elenco apresenta bom conjunto de interpretações
O aspecto mais positivo de “O livro dos monstros guardados” é o fato de que todos os trabalhos de interpretação são positivos. De um modo geral, mas também em cada parte, os atores aproveitam as oportunidades para gerar atenção do público por sobre a história que está sendo apresentada. Pequenas ações, como o aumento de uma pausa, uma intenção mais clara ou um gesto mais pontual, fazem com que o texto fique mais interessante. Como são positivos os trabalhos de todo o grupo, crescem os méritos do quadro como um todo. Isso é, sem dúvida, mérito da direção de João Fonseca, sempre hábil articular os elementos narrativos em uma concepção bem definida.

O cenário e os figurinos de Nello Marrese parecem estar positivamente dispostos a manter próximos os personagens do público. A iluminação de Adriana Ortiz colabora bem com a defesa de momentos individuais com sutil participação do coletivo. A trilha sonora do autor e do diretor participa bem da apresentação da narrativa.

Uma declaração de amor à humanidade
Na dramaturgia de “O livro dos monstros guardados” , não há uma única marca que assegure alguma relação entre os personagens: é a audiência que, observando algumas similaridades, faz as pontes e imagina algum parentesco ou alguma proximidade entre eles. Não havendo contracenas, a justaposição dos monólogos faz do espetáculo uma sugestão para o retrato complexo da humanidade que a dramaturgia bem apresenta. É uma peça em que se revela o universo íntimo, esse tão apaixonante por qualquer um que tenha apreço por sua espécie.

*

Ficha técnica:

Texto: Rafael Primot
Direção: João Fonseca e Rafael Primot
Elenco: Carolina Pismel, Erom Cordeiro, GuilhermeGonzalez, Jefferson Schroeder, Laila Zaid, Leandro Daniel e Rafael Primot
Cenário e Figurino: Nello Marrese
Iluminação: Adriana Ortiz
Trilha Sonora: João Fonseca e Rafael Primot
Sound Design: Andre Aquino
Direção de Produção: Giba Ka
Produção Executiva: Letícia Napole
Assistente de direção: Philipe Carneiro
Assistente de cenografia: Maria Estephania
Assistente de figurino: Gustavo Henrique
Assistentes de produção: Julio Rosemberg e Sergio Dias
Operador de som e Diretor de Palco: Tallys Moreno
Operador de luz: Robson Cruz
Design Gráfico: Letícia Andrade
Fotografia: Leo Viana
Assessoria de Imprensa: JSPontes
Realização: Dois Pontos Produções e 5 Letras Produções Artísticas

Ideia fixa (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: divulgação


Silvia Buarque e Guta Stresser

Adriana Falcão assina texto de ótimo espetáculo dirigido por Henrique Tavares

Ideia fixa” é um ótimo espetáculo que cumpriu temporada no Teatro Poeira no fim da primavera de 2015. No texto original escrito por Adriana Falcão, duas mulheres foram abandonadas pelo mesmo homem e, presas às lembranças do relacionamento que tiveram com ele, não conseguem sair do lugar e para dar prosseguimento às suas vidas. Rodrigo Penna e Silvia Buarque, mas principalmente Guta Stresser estão no elenco em ótimos trabalhos. Dirigido por Henrique Tavares, o espetáculo tem cenário e figurino de Ronald Teixeira, uma das direções de arte mais vibrantes do ano teatral carioca.

Excelente texto de Adriana Falcão
O texto é excelente. O limbo, esse lugar imaginário onde as personagens sem nome vividas por Silvia Buarque e por Guta Stresser vivem, surge em máxima concretude. Se fora da ficção, ele é um lugar caudaloso, difícil de descrever e duro de apalpar, na peça, ele aparece íntegro, delimitado e bastante visível. No passado, as duas personagens foram abandonadas pelo de Rodrigo Penna e, desde então, habitam esse terreno povoado de velhas lembranças. Filosofias fúteis de banca de jornal, nas quais é possível se agarrar e continuar existindo, se espalham e dão a impressão de que o tempo está passando, embora não garantam a saída dali.

O diálogo entre as duas começa cinco anos após um silêncio constrangedor. O personagem de Penna, que liga o das duas, aparece quando menos é esperado, mantendo-as sob o jugo de suas lembranças e frustrações. As conversas são engraçadas dentro de um plano tragicômico que permite ao público facilmente se reconhecer. Os movimentos da narrativa são acompanhados da torcida por uma situação melhor. Eis aqui mais uma grande contribuição de Adriana Falcão à dramaturgia brasileira.

Direção de Henrique Tavares dá maior relevância ao texto
A direção de Henrique Tavares parece ter colocado as duas personagens em visível oposição apesar de se encontrarem quase na mesma situação. Enquanto o de Silvia Buarque está mais acostumada com o limbo e presa a lembranças mais maduras, o de Guta Stresser ainda sofre cada momento revivido. Se uma tem um tom de falar mais moderado, a outra grita, chora, se impõe mais. No quadro, o espectador vê um todo em que talvez uma seja o futuro da outra, a outra o passado da primeira e ambas possam estar a espera de uma terceira.

O espectador enxerga a figura de Rodrigo Penna durante o tempo inteiro da encenação como sendo uma lembrança constante do diálogo entre as duas protagonistas. O jogo dele com elas e entre os três se mantém firme, com regras claras.

No entanto, o melhor da direção de Tavares é notar a teatralidade que preencheu o diálogo de Falcão. Ela dá novo contexto duas mulheres falando de um homem, enriquecendo a situação através do aumento de suas possibilidades. “Ideia fixa” tem o mérito de parecer simples, sendo um todo em que se articulam concepções complexas sobre os relacionamentos. Um ótimo trabalho!

Guta Stresser em ótima atuação
Pelo modo como reagem, Rodrigo Penna e Silvia Barque parecem ter tido personagens com menor evolução. Suas expressões, por vezes quase inaparentes, revelam pouco o lugar de conflito que suas falas depõem. Já Guta Stresser, quase raivosa em manifestações um tanto exageradas em alguns momentos, tem o mérito de expressar onde sua personagem está e sobretudo para aonde ela quer e pode ir. Ao longo da peça, a paisagem diante do de Buarque e do de Stresser se modifica de maneira que ambos vão traçando novos objetivos. É interessante notar que, em todas as construções de personagem, há modificação.

A direção de arte de Ronald Teixeira é um entre os vários pontos altos de “Ideia fixa”. No cenário, tem-se um espaço circular sobre o qual galhos secos giram em um longo espiral até o teto, com o chão coberto de revistas coloridas. Móveis velhos, tortos, um baú fazendo as vezes de mesa de centro, uma luminária no fundo: o contexto dá conta do romantismo ingênuo, tolo e complexo em que as duas mulheres estão presas. Os vestidos com motivos florais, cheios de rendas e os relógios pendurados no pescoço as fazem parecer poetisas alienadas em suas rotinas do século XIX. A teatralidade do aspecto visual, assim como no gestual, nas movimentações e no jeito de falar, revela o quão autoral são as histórias que as personagens criam em torno de si próprias e de suas vidas.

“Ideia fixa”, com trilha sonora de Rodrigo Penna e de Ricco Vianna (música tema de Clarice Falcão e de Ricco Vianna) e com iluminação de Beto Bruel, tem méritos em todos os aspectos de sua estrutura espetacular. Quando é possível identificar marcas da concepção nas pequenas assim como nas grandes amarras de cada elemento, percebem-se aí as justificativas para um ótimo espetáculo, como aqui é um caso. Aplausos!

*

Ficha técnica:
Autor: Adriana Falcão
Direção: Henrique Tavares
Atores: Guta Stresser, Silvia Buarque e Rodrigo Penna
Trilha sonora: Rodrigo Penna e Ricco Vianna
Música tema: Clarice Falcão e Ricco Vianna (Rick de la Torre – bateria)
Cenário e Figurino: Ronald Teixeira
Iluminação: Beto Bruel
Design: Ronaldo Alves
Diretor Assistente: Alfredo Boneff
Direção de movimento: Jahayne Hildefonso
Fotógrafa: Nil Caniné
Visagista: Chico Toscano
Assistente de Cenografia e de Figurinos: Guilherme Reis
Confecção e cenotecnia cenário: George Bravo
Assessoria de Imprensa: Rafael Barcellos / Stratosfera
Operador de Luz: Walace Furtado
Operador de Som:Andrey Brandão
Contrarregra: Ricardo Silva
Direção de Produção: Cássia Vilasbôas
Coord. de Produção: Fernando Duarte
Assistente de Produção: Mayara Maia
Produção: NOVE Produções
Realização: Chevalier de Pas, NOVE Produções, Guta Stresser e Silvia Buarque

Labirinto (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: divulgação

Paula Calaes
Espetáculo sobre mito grego tem ficha técnica inchada e texto ruim

“Labirinto” cumpriu temporada entre novembro e dezembro no Teatro Oi Futuro no Flamengo sem sucesso. O texto, escrito pelos filósofos Alexandre Costa e Patrick Pessoa, é uma versão muito fechada que parcamente se refere ao mito grego do Minotauro. A intenção de apresentar-se como uma longínqua metáfora para a situação política atual não se estabelece na ordem do conteúdo porque o enredo não está minimamente claro. Dirigido por Daniela Amorim, com Alcemar Vieira, Otto JR. e Paula Calaes no elenco, o único ponto positivo do espetáculo é o desenho de luz de Renato Machado. Com uma ficha técnica inchada, a produção que não se esforça em se comunicar com o público pode dar margem para outras reflexões.

Dramaturgia muito fechada em si própria
A história está no Livro VIII de “Metamoforses”, de Ovídio ( 43 a.C. – 18 d.C.), mas também em diversas outras obras de autores contemporâneos. Por ter perdido a guerra, Atenas é condenada a enviar durante nove anos catorze jovens de sua cidade para alimentar o Minotauro que está preso em um labirinto mandado construir por Minos, Rei de Creta. A criatura - corpo de gente e cabeça de touro - é filha da Rainha Pasífae, que teve relações sexuais com um touro na ausência de Minos. Após três anos de pagamento da dívida, o príncipe ateniense Teseu resolve partir junto com as outras vítimas intentando matar o Minotauro e livrar seu país do terrível mal. A fim de conseguir ajuda de Ariadne, filha de Pasífae e de Minos, Teseu jura amor falsamente. A princesa, sem saber que será enganada, dá ao amado uma espada para matar o Minotauro e um fio de linha com o qual Teseu conseguirá encontrar o caminho de volta na saída do labirinto. Assim é que começa a aventura de Teseu e do Minotauro a que essa peça se refere.

Nada disso fica claro no espetáculo “Labirinto”. Pela dramaturgia, mas também pela encenação, o espectador não tem meios de entender nem a situação, nem os personagens e muito menos uma suposta metáfora dos seus autores em relação à situação política atual. Passando a ter enorme responsabilidade, o texto do programa entregue ao público pela produção explica a peça, mas se torna uma muleta negativa. Ao longo de sessenta minutos, o todo é monótono e confuso além de muito pretensioso. O espetáculo não se comunica com o público.

Atuações perdidas
Os atores Alcemar Vieira, Otto JR. e Paula Calaes interpretam Teseu e os outros jovens que estão com ele dentro do labirinto. São também o Minotauro, Ariadne, Pasífae e Egeu, o pai de Teseu. No entanto, as trocas de personagens, as articulações entre as cenas, as voltas no tempo da narrativa acontecem em meio a uma enorme justaposição de frases de efeito filosóficas que não dão conta da história, mas antes opinam fora de contexto sobre a realidade do homem atual. Abandonados sob o desafio de defender uma narrativa que não narra, os atores ficam diante do público ainda mais suscetíveis.

No quadro cenográfico de Brígida Baltar (ambientação cênica), não há níveis de modo que tudo é visto sempre. É possível pensar que há aí uma sugestão de que o labirinto é uma situação interna, mas essa reflexão também não se estabelece pelo texto e pelas atuações e acaba sendo mera suposição. Peças de roupas estão espalhadas pelo palco talvez em uma tentativa de incluir aqueles que já foram mortos anteriormente pelo Minotauro. Talvez, não.

A luz de Renato Machado é o único ponto positivo da produção. Os recortes podem ser esforços em construir o labirinto em que esses personagens estão: a busca pela sobrevivência, a submissão ao destino, o poder do amor e da natureza na tomada de decisões.

O figurino de Paula Ströher, como o texto, é uma confusão de texturas e de cores, que levam o espetáculo para várias épocas sem aprofundar a discussão em qualquer uma. A direção musical, com canções originais de Rômulo Fróes e de Cadu Tenório, investe em melodias cheias de aventura, se dedica a apresentar um que outro personagem e situação dramática, mas paira igualmente confusa no todo.

Ficha técnica inchada
A direção de Daniela Amorim, sem movimentar uma concepção que dê conta das muitas possibilidades, fecha o espetáculo para o público ao invés de convidá-lo para a reflexão. No entanto, há outras questões possíveis e uma delas diz respeito ao tamanho da ficha técnica.

No palco, cujo cenário nunca se modifica e o figurino tem pequenas alterações, há três atores durante uma hora de encenação. No entanto, “Labirinto” apresenta, em sua ficha técnica, 2 diretores, 1 assistente de direção, 1 diretor de cena, 1 diretor de movimento, 2 preparadores corporais e 2 contrarregras. Os outros itens da lista (figurino e cenário, por exemplo) também têm longa lista de participantes. Totalmente produzido com dinheiro público, é justa uma interrogação sobre uma peça que almeja falar da dívida dos atenienses para com o Rei de Creta. Façamo-la!

*

Ficha técnica:

Direção: Daniela Amorim
Codireção: Patrick Pessoa
Elenco: Alcemar Vieira, Otto JR. e Paula Calaes
Texto: Alexandre Costa e Pessoa
Colaboração dramatúrgica: Pedro Kosovski
Ideia original: Paula Calaes
Orientação teórica: Alexandre Costa
Direção de Produção: Rossine A. Freitas
Iluminação: Renato Machado
Ambientação cênica: Brígida Baltar
Figurino: Paula Ströher
Trilha sonora e Direção musical: Cadu Tenório e Rômulo Fróes
Canção de ninar e acordar minotauro: Rômulo Fróes e Alexandre Costa
Preparação corporal: Toni Rodrigues e Carol Franco
Visagismo: Rafael Fernandez
Programação visual: Felipe Braga
Fotografias de divulgação: Andrea Nestrea
Assessoria de Imprensa: Bianca Senna – Astrolábio Comunicação
Redes sociais: Marcelle Morgan
Produção executiva: Flavia Cândida
Assistente de direção: Tomaz Gama
Assistente de iluminação: Rodrigo Maciel
Assistente de figurino: Patrícia Cavalheiro
Assistente de produção: Romário Marques
Diretor de cena: Gustavo di Mello
Operador musical: Emygio Costa
Operador de luz: Maurício Fuziyama
Contrarregras: Douglas Gadelha Cunha e Marcos Babu
Cenotécnicos: Rebecca’s Art Cenografia e Construcena Serviços Cenotécnicos
Tricot: Ticiana Passos
Administração: Flavia Cândida
Produção: Allure Filmes e Produções Artísticas

sábado, 19 de dezembro de 2015

Uma Ilíada (RJ)


Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: divulgação



Alana Alberg e Bruce Gomlevsky



Bruce Gomlevsky em uma das melhores interpretações do ano


Na plateia de “Uma Ilíada”, o espectador sabe desde sempre que está diante de um espetáculo teatral da melhor qualidade. O monólogo dirigido e interpretado brilhantemente por Bruce Gomlevsky parte de um corte proposto pelos americanos Lisa Peterson e Denis O’Hare em 2012 a partir da tradução de Robert Fagles do poema épico “Ilíada”, atribuído a Homero (760 – 710 a.C.). A versão que está em cartaz no Rio de Janeiro, até a próxima segunda-feira, dia 21 de dezembro, tem tradução e adaptação assinada por Geraldo Carneiro. Trata-se de um dos melhores trabalhos de interpretação do ano, um espetáculo tocante cuja beleza enaltece a programação de teatro carioca nesse fim de 2015. Sob todos os aspectos, vale a pena ser visto e, por isso, precisa de temporadas ainda mais longas.

Ilíada: o mais antigo texto literário do ocidente

“Ilíada”, o mais antigo texto literário do ocidente, é um poema épico dividido em 24 cantos escrito principalmente em um dialeto jônico artificial (que talvez nunca tenha sido falado). Os 15.693 versos foram escritos na estrutura hexâmetro dactílico (cada linha é composta por seis “ondas”, ou pés, em que, nos primeiros cinco, a primeira sílaba longa é seguida por duas breves, e a última é formada por uma longa e uma breve ou duas longas), a métrica preferida pelos poetas gregos. No texto bastante elogiado por Aristóteles trezentos anos depois, Homero (ou quem quer que tenha posto a poesia no papel) narra fatos acontecidos quinhentos anos antes envolvendo ficção e realidade.

A antiga cidade de Troia ficava onde hoje é o noroeste da Turquia (as ruínas ainda estão lá). O lugar, divisa entre a Europa e a Ásia, era parada obrigatória para os navios mercantes que levavam produtos de um lado a outro. Isso fazia da cidade um local de grande movimentação financeira e do Rei Príamo, governador na época da guerra (entre 1.250 e 1.200 a.C.), um homem muito poderoso e capaz de despertar a inveja de vários de seus vizinhos. Troia, em grego, era chamada de Ilion, daí que o título “Ilíada” significa “Sobre Troia”.

“Ilíada” compreende 51 dias no nono e último ano da Guerra de Troia. Na narrativa de Homero, a história começa quando Agamenon, rei da cidade grega Micenas se nega a devolver a cativa Criseida ao seu pai, o sacerdote Crises, e, por causa disso, o deus Apolo pune o exército grego na sua batalha contra Troia. Aquiles, o principal herói grego, discute com Agamenon por causa disso e esse, como vingança, devolve Criseida, mas toma de Aquiles sua escrava Briseida. Em retaliação, Aquiles abandona a guerra, o que dá ao exército liderado por Agamenon ainda piores problemas.

Relações entre o texto do monólogo e o original

A peça “Uma Ilíada” essencialmente começa no canto XVI de “Ilíada”. Munido com as armas de seu melhor amigo (ou amante?) Aquiles, Pátroclo vai à guerra e é morto pelo príncipe troiano Heitor. Tal como faz Homero, os autores americanos Peterson e O’Hare, mas também o brasileiro Geraldo Carneiro, se aproveitam desse momento para situar o leitor/espectador sobre os antecedentes do conflito. Dez anos antes, o irmão de Heitor, o príncipe Páris, havia raptado (?) Helena, tomando-a como amante. Ela era esposa de Menelau, Rei de Esparta, irmão de Agamenon. Sua partida foi o estopim para a união de todos os reinos do entorno contra a rica Troia. A morte de Pátroclo por Heitor, que toma do morto a armadura que pertencia a Aquiles, faz esse retornar à batalha.

“Uma Ilíada” apresenta quase integralmente, apesar da linguagem, os últimos três cantos do original homérico. Na versão americana do monólogo, o narrador é um professor de literatura universal que, alcoolizado, apresenta a seus alunos a luta entre Aquiles e Heitor. Ele sugere, a partir daí, a relação entre a guerra descrita por Homero e as muitas guerras sangrentas que devastaram a civilização humana ao longo dos últimos 32 séculos. A versão brasileira, de modo diferente, mas talvez ainda mais interessante, coloca o texto em lugar mais solene, com melhores apontes ao aspecto ritual sem que o diálogo jamais se distancie do público.

Ainda no plano das diferenças entre o texto literário e o texto da peça, vale dizer que, no primeiro, a maior parte dos versos são falas dos personagens. Ou seja, o narrador tem lugar menor na narrativa homérica. Dentre as várias consequências disso, está o fato de que, embora haja um certo privilégio ao protagonismo de Aquiles, grego como Homero, o texto dispensa um tom moralizante que pudesse pender para um lado em detrimento do outro. Se hoje “Ilíada” e “Odisseia” são textos meramente literários, na antiguidade, ambos eram obras de consulta sobre todos os aspectos: morais, religiosos, políticos. Em “Uma Ilíada”, Aquiles e Heitor são protagonistas, mas o narrador, muito mais participativo nessa narrativa do que na de Homero, tem lugar mais destacado.

Uma das melhores interpretações de 2015

O melhor do espetáculo “Uma Ilíada” é o modo como Bruce Gomlevsky torna significativo o contexto descrito por Homero no século VIII a. C..Todo o conjunto de regras e de valores, a forma como o plano dos heróis e o dos deuses se relacionam, o tom trágico através do qual se preserva o livre arbítrio, mas se reconhece o destino como brinquedo divino: tudo isso chega ao público carioca com força bastante que é capaz de oferecer respostas às questões contemporâneas. Gomlevsky emociona e chama ao pensamento, envolvendo o espectador em uma viagem que une sentimento e reflexão.

O texto é dito com clareza, o tom mantém o diálogo com o público fluente sem dispensar a solenidade, os quadros evoluem trazendo força para a fruição seguir adiante. O desafio é enorme, mas os méritos vão se mostrando cada vez maiores ao longo da encenação. A cena final, um dos momentos mais bonitos do ano carioca, é um quadro que concentra em si a vasta potencialidade significativa de toda a estrutura do espetáculo.

A trilha sonora de Mauro Berman é interpretada ao vivo pela contrabaixista Alana Alberg. Como aconteceu na Broadway, ela é a musa a quem o narrador da obra se dirige e que simboliza o interlocutor no monólogo que se dá a ver em cena. Através da manutenção desse aspecto, o discurso, permanecendo belo, fica ainda fluente.

O desenho de luz de Elisa Tandeta, alargando as possibilidades do palco com vitalidade, dá movimento à narrativa e ajuda a apresentar quadros de vasta beleza. O narrador interpretado por Gomlewsky sustenta a sua presença contra a escuridão, unindo um passado distante e remoto, mas que continua sendo essencial para entender o presente. Nesse sentido, também colabora o figurino de Carol Lobato através do uso do vermelho, mas principalmente pela utilização dos rasgos vestimenta.

“Uma Ilíada” é um espetáculo de primeira grandeza, que parte da alta literatura e chega a alto teatro. E faz do público uma plateia melhor. Aplausos efusivos!

*

Ficha técnica:
Texto: Lisa Peterson e Denis O”Hare
Tradução: Geraldo Carneiro
Direção, Cenário e Interpretação: Bruce Gomlevsky
Contrabaixo acústico: Alana Alberg
Assistente de direção: Lorena Sá Ribeiro
Direção de movimento: Daniella Visco
Iluminação: Elisa Tandeta
Operador de Luz: Rodrigo Miranda
Figurino: Carol Lobato
Fotos: Dalton Valério
Efeito especial: Derô Martin
Trilha sonora original: Mauro Berman
Arte e identidade visual: Maurício Grecco
Projeto Gráfico: Thiago Ristow
Assessoria de imprensa: João Pontes e Stella Stephany
Direção de Produção: Carlos Grun / Bem legal produções
Idealização e Realização: Bruce Gomlevsky / BG ArtEntretenimento LTDA

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Versão brasileira Möeller & Botelho – 25 anos de musicais (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral


Foto: divulgação

Malu Rodrigues e Cláudio Botelho


As bodas de prata do teatro musical no Brasil

“Versão brasileira Möeller & Botelho – 25 anos de musicais” marca o aniversário de carreira de Charles Möeller e de Cláudio Botelho, também conhecidos como “Os Reis dos Musicais no Brasil”. O show se constrói a partir da narrativa de alguns aspectos da trajetória dos dois, mas é principalmente lugar para Botelho e para Malu Rodrigues encantarem o público com belíssimo repertório do teatro musical internacional. Boa parte das canções são apresentadas em português, intercaladas com falas que relembram seu contexto na carreira da dupla. A temporada no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, mostrou uma produção que guarda em si todo o rigor estético que caracteriza os Reis e a oferta de momentos de êxtase estético da melhor qualidade.

Canções de musicais no belíssimo repertório
O repertório começa com “Let’s call the whole thing off” (Ou “You say ‘tomato’, I say ‘tomato’) do musical “Shall we dance” que remete à produção brasileira “Hello, Gershwin”, de 1990. Nele, sob direção de Marco Nanini, Claudio Botelho dividia o palco com Claudia Netto com figurinos assinados por Charles Möeller. Foi, há 25 anos, que os dois trabalharam juntos pela primeira vez. Segue a entrada de Malu Rodrigues em cena quando ela e Botelho cantam “Sixteen going on seventeen”, lembrando o musical “A noviça rebelde” (2008). Rodrigues interpretava Luisa, uma das filhas do Capitão Von Trapp e foi lá que a dupla a conheceu. Ainda nesse trecho, Malu canta “The hills are alive” e outra de “O Despertar da Primavera” (2009), que ela protagonizou. Há ainda “On my own” e “I dreamed a dream”, de “Les Miserables”, cuja versão brasileira assinada por Botelho foi levada à cena sob direção do britânico Ken Caswell em 2001. “Maria” e “There’s a place for us”, de “West Side Story” (2008) aparecem antes de “If I was a richman”, de “O violinista no telhado” (2011), e “Money”, de “Cabaret”.

Canções que remetem a “7 – O musical” (2007), “Ópera do Malandro” (2003), “Sassaricando – E o Rio inventou a marchinha” (2007) e “Todos os musicais de Chico Buarque em 90 minutos” (2014) também têm lugar. O melhor momento da noite é dedicado a “Send in the clowns”, de “Little Night Music”, composta por Stephen Sondheim. “Let’s the sunshine in”, de “Hair” (2010), termina o show com alegria e exuberância.

Cláudio Botelho e Malu Rodrigues em ótimos momentos
Apesar de ser um show, “Versão Brasileira Möeller e Botelho” é facilmente analisável sob o âmbito do teatro porque todas as suas canções advêm do cenário das artes cênicas. Nesse sentido, pode-se dizer que Cláudio Botelho e que Malu Rodrigues têm registros de expressão diferentes na defesa do espetáculo. Enquanto ele investe em marcas mais claras de evolução das sensações, ela é mais sóbria, mais contida, mas não menos potente. O conjunto é bastante bom: juntos eles se equilibram. Malu Rodrigues é uma estrela de primeiríssima grandeza, a maior de sua geração para o orgulho do teatro brasileiro. Cláudio Botelho preenche com interpretação as canções e emociona também. Vê-los em cena é um privilégio.

O cenário é composto por um conjunto de sofás, abajures e tapetes que, trazendo muita elegância para o palco, preenche a cena enquanto enche os olhos. O contexto, com cores sóbrias, cria um clima aconchegante e íntimo que auxilia o espectador a adentrar no universo de cada canção. Os músicos Edgar Duvivier, Marcelo Castro e Thiago Trajano, que de certa forma também fazem parte do aniversário que tematiza a obra, participam do quadro reforçando o aspecto afetivo da produção, mas também obviamente sua altíssima qualidade. Os três também estiveram em “Versão brasileira”, espetáculo produzido pela dupla em comemoração aos seus vinte anos de carreira no mesmo formato.

Quem ganha é o público
Cláudio Botelho e Charles Möeller, enfrentando o preconceito que pairava sobre o gênero musical, deram novo ar para as produções brasileiras. Seus padrões estéticos altíssimos, seu rigor formal e seu apreço pelo melhor público estabeleceram uma classe de artistas e técnicos que hoje é plenamente reconhecida. Mais do que isso, depois deles, e de suas 36 produções, fica difícil fechar os olhos para o mal feito. O aniversário é deles, mas quem ganha é o público.


*

Ficha técnica:

Direção: Charles Möeller

Com: Cláudio Botelho e Malu Rodrigues

Músicos: Edgar Duvivier, Marcelo Castro e Thiago Trajano

Enfim, nós (RJ)


Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral


Foto: divulgação

Fernanda Vasconcellos e Cássio Reis


Boa comédia romântica em cartaz no Rio

“Enfim, nós”, dirigido por Cláudio Torres Gonzaga, volta ao Rio com Cássio Reis e com Fernanda Vasconcellos no elenco. Escrito pelo diretor e por Bruno Mazzeo, o espetáculo tem cumprido diversas temporadas no país há quase dez anos. É uma divertida comédia romântica que está em cartaz no Teatro Clara Nunes até 20 de dezembro.

Com habilidade, o texto apresenta boas reviravoltas
Na história, Zeca (Cássio Reis) e Fernanda (Fernanda Vasconcellos) são recém casados e vão comemorar juntos o primeiro dia dos namorados como marido e mulher. Quando a peça começa, ele toma banho e ela se veste dentro do banheiro do apartamento onde os dois moram. Lá pelas tantas, a maçaneta da porta se solta nas mãos de Zeca e eles ficam presos. A partir de então, talvez pela primeira vez, ambos têm a oportunidade de se conhecer mais a fundo. Enquanto uma solução não é encontrada, eles transam, brigam, sua casa é assaltada e o casal se (re)descobre. No texto escrito por Cláudio Torres Gonzaga e por Bruno Mazzeo, o maior mérito são os pontos de virada dos diálogos, sempre hábeis em dar novo contorno à narrativa.

Trata-se de uma comédia romântica e nela todos os clichês do gênero estão preservados. A diferença entre homens e mulheres, os estereótipos do jovem casal contemporâneo, as boas e velhas piadas de sempre. A plateia se diverte, os objetivos são alcançados: “Enfim, nós” não surpreende, nem tampouco desagrada, cumprindo seu objetivo com relativos méritos.

Fernanda Vasconcellos e Cássio Reis em bons trabalhos de interpretação
Cássio Reis (Zeca) e Fernanda Vasconcellos (Fernanda) apresentam bons trabalhos de interpretação dentro da proposta. Eles são carismáticos, apresentam ótima movimentação e alternam bem todas as intenções do texto em cada fala. Há, no entanto, uma questão que vale destaque na análise. Reis apresenta uma construção bastante efeminada do marido que, de início, não colabora com o personagem e com a situação dramática proposta. Porém, da metade para o fim, a força no humor vence a desconfiança primeira e passa a ser divertido acompanhar a história dos dois personagens.

O cenário de Edward Monteiro preenche o palco, sugerindo com galhardia o banheiro onde se dá toda a narrativa. O realismo, dentro do mínimo necessário, está posto com méritos. O figurino usa a paleta de cores da bandeira nacional (verde, amarelo e azul) de um modo estranho. A iluminação de Luiz Paulo Nenén faz ótimas participações: a luz branca do banheiro dá lugar para focos mais íntimos de acordo com a apresentação da história. A trilha sonora de Mú Carvalho é pontual.

As comédias românticas, em que se discutem os problemas de relacionamento de casal, haviam dado lugar para os musicais biográficos na programação teatral do Rio de Janeiro. Com sucesso desde que sejam bem feitas, como aqui é o caso, elas também merecem ser aplaudidas quando atendem a sua proposta.


*

Ficha técnica:
Texto: Bruno Mazzeo e Cláudio Torres Gonzaga
Direção: Cláudio Torres Gonzaga
Elenco: Cássio Reis e Fernanda Vasconcellos
Cenário: Edward Monteiro
Iluminação: Luiz Paulo Nenén
Trilha sonora: Mu Carvalho
Direção de Produção: Lucia Regina de Souza
Produção: Caravana Produções
Vozes em Off: Luciano Huck, Heloísa Perissé e Leandro Hassun
Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação 

domingo, 13 de dezembro de 2015

Eu, o Romeu e a Julieta (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: divulgação

Gabriel Pardal

A vitalidade das interrogações contemporâneas

A montagem atual de “Eu, o Romeu e a Julieta” não tem nada a ver com a anterior de mesmo título e com o mesmo diretor. E é muito melhor. Se lá havia um desejo de partir para outro tipo de contexto narrativo que não se realizava de fato, aqui a coragem parece ter vencido. Produzido pela Companhia da angústia das pessoas, a montagem tem direção de Emanuel Aragão e, além dele, estão no elenco Antonio Pedro Coutinho, Gabriel Pardal, Liliane Rovaris, Marina Provenzzano, Renato Linhares e Rossini Vianna Jr. Sem quase qualquer ligação com a tragédia shakespeariana, o espetáculo é algo novo que oferece à pauta do teatro carioca mais uma experiência do que propriamente algo para apenas se assistir. Para quem está preparado para um espetáculo cuja duração é indeterminada, a peça fica em cartaz no Teatro Poeira até 30 de dezembro, às terças e quartas-feiras. Vale a pena conferir.

As marcas de liberdade no discurso cênico do espetáculo
Quando o público entra no teatro, os atores estão no palco, observando os movimentos da plateia. Desde o início, o clima é de não divisão entre palco e quem assiste (o que não quer dizer que quem entra será chamado a tomar parte no espetáculo que está para começar). O tom que se constrói, através dessa estética, é de cordialidade, de identificação, de celebração coletiva. Começam aí os valores e também a única questão negativa dessa versão de “Eu, o Romeu e a Julieta”.

De posse da palavra e do comando de todas as situações a que se assiste, os atores apresentam uma série de quadros todos eles repletos de marcas de liberdade. Alguns deles: Emanuel Aragão, esticando a mão, pergunta o que é preciso fazer para que o público sinta sua mão como se fosse sua. Renato Linhares lê alguns textos, entre eles o de uma família que discute o papel dos biscoitos recheados na alimentação. E narra uma história sobre o funeral de sua (?) avó. Linhares, Marina Provenzzano e Gabriel Pardal começam uma dança-luta que atravessa o tempo e o espaço. Pardal intercala os quadros com leituras de “cartas de suicídio” e Liliane Rovaris apresenta falas de grandes autores-mestres da história do teatro. Emanuel e Rossini têm entre si uma conversa sobre o amor. Durante toda a sessão, Antonio Pedro Coutinho preenche o palco com copos e taças cheias de água.

Em todos esses quadros, é bastante fácil de perceber que, embora eles estejam minimamente previstos, acontecem dentro de um sistema de regras que foge à marcação do teatro tradicional. Em termos de estética, são várias as consequências. Para começar, o momento (que é vivido por atores e por público ao mesmo tempo) fica cheio de atualidade, isto é, se destina a pontuar a importância do aqui e do agora que está acontecendo seja de um lado seja do outro da cena. Considerando que os personagens Romeu e Julieta se conheceram, se apaixonaram, se casaram e morreram em um espaço de cinco dias, o tempo é um dos aspectos da temática da tragédia shakespeariana que essa montagem recupera.

O lugar da palavra é outra questão relevante. Respondendo à pergunta feita por Aragão na abertura da peça, basta que se diga “esta mão é de vocês” para que o corpo do ator possa ser do público, pois isso faz parte do contrato entre palco e plateia realizado (e confirmado) há quase três milênios. Shakespeare, um dos maiores autores do barroco inglês, celebrou a importância da palavra em vários momentos, sobretudo na célebre cena do balcão na segunda cena do ato II.

Os copos que, ao longo de toda a peça, preenchem o palco remetem imediatamente à discussão sobre o risco físico de que o teórico mineiro André Carreira tão bem tratou. Quando o ator se coloca em situação arriscada fisicamente diante do público, o aspecto humano da audiência invade a relação que ele tem com a peça de forma avassaladora. Deslizando por entre taças de vidro com habilidade, os atores mantêm presa a atenção da plateia que reconhece o perigo e teme por quem está em cena. Vida e morte, como se sabe, são temas que dividem o lugar com o amor em “Romeu e Julieta”, de William Shakespeare.

O modo inteligente e sensível com que a Companhia da angústia das pessoas opera com os vários sentidos de seu espetáculo (alguns deles foram sugeridos aqui) não lhes tira, porém, o lugar de comandante das ações. Em outras palavras, a participação do público, mesmo que apenas silenciosa em empregar sua atenção nos quadros propostos, é importante, mas ainda assim não é ela quem determina a hora da sessão começar nem terminar. Apenas os atores fazem isso (a menos que o público se levante e vá embora). Cento e quarenta minutos de espetáculo exigem muita habilidade em manter o elo sem maior fragilidade. E o contrato fica prejudicado na percepção dos méritos. Esse é o único ponto negativo de “Eu, o Romeu e a Julieta”.

A habilidade da produção em disfarçar reflexão teórica profunda
Há que se valorizar o modo como os intérpretes viabilizam o espetáculo como um todo e como ele se apresenta (ou se constrói) com a audiência. O desenho de luz e a trilha sonora, no seu todo dentro do tempo e do espaço da encenação, criam um quadro onde aparentemente se é prazeroso de estar. “Eu, o Romeu e a Julieta”, na sua ingenuidade que disfarça bem uma reflexão teórica profunda e privilegiada, remete à alegria da juventude que não entende a dureza dos conflitos entre Capuletos e Montéquios embora saiba que eles existam. Dá vontade de estar lá.

Desapegado do contorno da narrativa tradicional, mas sem desfazer-se dela, o pós-dramático é uma resposta da contemporaneidade às interrogações do hoje. Vale à pena manter os ouvidos abertos e o coração puro. Avante! 

*

Ficha Técnica

De e com:
Antonio Pedro Coutinho
Emanuel Aragão
Gabriel Pardal
Liliane Rovaris
Marina Provenzzano
Renato Linhares
Rossini Vianna Jr.

Arte:
Felipe Braga

Produção:
Gabriel Bortolini

Realização: da angústia das pessoas

A voz humana (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral

Foto: Genilson Coutinho


Claudia Ohana

Com coragem, Claudia Ohana vence desafios em célebre monólogo

O célebre monólogo “A voz humana”, do francês Jean Cocteau (1889-1963), ganha ótima interpretação de Claudia Ohana sob direção de José Lavigne. Na peça, uma mulher amargurada conversa ao telefone com um homem que a abandonou por outra. O texto sugere várias reflexões sobre as relações amorosas, mas principalmente sobre o poder da tecnologia na comunicação. Em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, eis uma montagem que difere da programação normal do lugar. Por isso, mas por além, merece aplausos.

O aspecto surrealista que mantém o texto caro à contemporaneidade
Escrito em 1928, “A voz humana” estreou em 1930 em uma produção da Comédie-Française, com interpretação de Berthe Bovy (1887-1977). Tendo recebido avaliações diversas, o aspecto surrealista foi visto de modos diferentes ao longo das décadas desde então. Apesar do texto continuar sendo atual, o tom onírico que a situação revelava naquele momento hoje é dificilmente legível. Apesar de já existir há cinquenta anos na capital francesa, o uso do telefone, principalmente para longas conversas, ainda não era popular entre os anos 1920 e 30. Na peça, sobrevivente de uma tentativa de suicídio, uma mulher conversa por telefone com o homem que recentemente a abandonou. Ela ainda está apaixonada por ele e sofre na esperança de manter o laço afetivo.

O espectador não ouve a voz do interlocutor da personagem, mas a vê em uma situação que nem sempre concorda com o modo como ela fala de si para ele. A conversa é interrompida várias vezes inclusive pela entrada de uma terceira pessoa (que também não se vê nem se ouve) que surge em linha cruzada. Para fruir melhor a narrativa, o espectador há de perceber a oposição entre, pelo menos, dois mundos: aquele que se vê e aquele sobre o qual fala a protagonista.

Para além de todas as questões que a dramaturgia revela sobre relacionamentos, “A voz humana” antecipa uma discussão sobre a virtualidade. Caro à sociedade contemporânea, o tema tem a ver com redes sociais e com o modo como elas, de alguma maneira, modificaram as relações. Presa a uma imagem, que no contexto da peça só é defendida por uma voz, a protagonista lida com o presente. Sem nem mesmo ouvir esta voz, o espectador faz suas reflexões. Sem dúvida, uma obra essencial para entender o século XX e aquele em que já vivemos.

O desafio imposto pelo público
Com bastante sensibilidade, Claudia Ohana exibe bela entrega à personagem. A evolução do monólogo é facilmente identificada pelo jeito expressivo como a intérprete dá conta das nuances, das variações de tom, do aprofundar das questões mais essenciais. A dosagem das emoções, os tempos em que as falas são ditas, o modo comedido e pontual de seus movimentos, a feminilidade e a sensualidade na condução do corpo materializa com méritos o lugar sensível da protagonista.

O cenário, assinado por Edgar Duvivier, usa o vermelho de modo abstrato para oferecer algum contexto não-realista para a obra. Soltando o contexto no grande palco do Teatro Clara Nunes, o feito não dá conta de suas intenções. Quase um espelho, o painel de fundo com linhas superiores em diagonal remete a um expressionismo pouco colaborativo no quadro. A cor e a forma, ao lado do figurino de Carla Garan e do visagismo de Pino Gomes, só ratificam a ligação entre Ohana e Natasha, essa célebre personagem que a atriz interpretou na novela “Vamp”, de Antônio Calmon, no início dos anos 90. Aquela ótima comédia televisiva nada tem a ver com esse texto de Jean Cocteau, o que enche de desafios a intérprete em defender novo trabalho. Faz essencial participação a luz de Felipe Lourenço.

Há ainda outra questão que, não sendo da ordem da estética, também impõe dificuldades à valorosa encenação. A preferência da programação dos teatros do Shopping da Gávea por comédias de costumes atravessa as alternativas que se surgem possíveis. “A voz humana” é um ótimo texto e que é apresentado com qualidade no âmbito da interpretação dirigida por José Lavigne com delicadeza. Mas o público, dado ao riso mais fácil, sem saber (?) como se põe o celular no silencioso e disposto a reencontrar no palco o que já vê na televisão atrapalha aquele que está disposto a aproveitar o que o palco lhe sugere em via alternativa. Isso aumenta o mérito de Claudia Ohana.

Eis um trabalho que precisa ser valorizado. Aplausos.



*



Ficha técnica:

Texto de Jean Cocteau

Direção: José Lavigne

Com: Claudia Ohana

Cenário: Edgar Divivier

Iluminação: Felipe Lourenço

Figurino: Carla Garan

Visagismo: Pino Gomes



Produção Caravana Produções e Ohana Produções

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Radiofonias brasileiras (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral


Foto: divulgação




Problemas no primeiro musical de Bosco Brasil

Primeiro musical escrito por Bosco Brasil, “Radiofonias brasileiras” sofre diante de vários problemas. Dirigido por Diego Molina, o espetáculo diz narrar uma história, mas conta outras em uma confusão que se alonga por mais de duas horas infelizmente. No elenco protagonizado por Reinaldo Gonzaga, têm destaque as atuações de Adriana Seiffert e de Alessandro Brandão. A peça está em cartaz até o dia 19 de dezembro no Teatro Alcione Araújo da Biblioteca Parque Estadual no centro do Rio de Janeiro.

Problemas na dramaturgia de Bosco Brasil
O texto de “Radiofonias brasileiras” começa com a morte do personagem Amílcar Maranhão (Reinaldo Gonzaga), autor fictício de radionovelas da Rádio Nacional. No além, ele é recebido por uma Diaba (Maíra Lana) que concede a ele a chance de contar sua história a partir de um determinado ponto a sua escolha. Ele opta por começar em 1963, ano em que uma novela sua, “O palácio dos destinos”, terminou fazendo muito sucesso. Horas antes do último capítulo ir ao ar, Maranhão é procurado pela radioatriz Fúlvia (Adriana Seiffert) que pede a ele um emprego para seu irmão Tristão (José Mauro Brant), perseguido em São Paulo por atividades consideradas subversivas (leia-se: de esquerda). Então, Villarino (Pedro Lima) assume a chefia da emissora e, em nome de um governo militar (a Rádio Nacional é uma estatal desde a Era Vargas), passa a investigar possíveis inimigos do novo regime. Com medo de ser investigado, Maranhão dá aulas de interpretação para o irmão de Fúlvia e ele se torna um grande ator, o que não o livra de ser investigado.

De repente, depois de identificar uma relação sexual entre Tristão e a redatora Nice (Luciana Bollina), o espectador de “Radiofonias brasileiras” sabe que houve uma história de amor entre Amílcar e ele. Começam aí os problemas na dramaturgia de Bosco Brasil. Já em busca de pistas que justifiquem a história que Maranhão está narrando para a Diaba momentos depois de sua morte, o espectador passa a ter novo trabalho: reconhecer os motivos que fizeram com que Amílcar defendesse Tristão da ditadura. A questão parece deixar de ser ética e passar a passional. Nisso, ganham importância dois outros personagens: o radioator Zero (Alessandro Brandão), que se nega a colaborar com o governo militar na perseguição de esquerdistas; e Fúlvia, que está em busca do irmão perseguido. É possível que, no texto, Nice também tenha recebido maior importância, mas essa não fica clara no espetáculo, cuja direção será analisada a seguir.

Ao final, o protagonista Amílcar Maranhão afunda levando consigo um espetáculo que quis ser sobre a ditadura militar. Submerso em frases longas, preocupadas em apresentar referências que vão de Shakespeare a Wagner passando por Mozart, e que não definem nem o personagem, nem seu conflito e tampouco seu movimento, o texto, apesar das intenções, não é bom.

Adriana Seiffert e Alessandro Brandão se destacam
As interpretações, o cenário, o figurino e a trilha sonora não ajudam o texto a chegar ao público de modo mais claro. Nesse sentido, não colaboram com o espetáculo. Reinaldo Gonzaga (Amílcar Maranhão), Pedro Lima (Villarino) e Luciana Bollina (Nice) têm excelentes vozes e essas brilham nas cenas em que seus personagens radioatores aparecem trabalhando. Porém, os três trabalhos de interpretação surgem sem expressões corporais, faciais e gestuais que deem conta da história que eles poderiam estar defendendo. Do início ao fim, apesar de tudo o que acontece em cena, eles parecem ser as mesmas pessoas, o que enche o texto de uma responsabilidade muito difícil para ele. José Mauro Brant, cujo Tristão narrativamente conquista vários personagens, interpreta com esforço um galã sem sucesso na empreitada. Diante das enormes dificuldades que o texto lhe confere, Maíra Lana (Diaba) tem alguns méritos, assim como Adriana Seiffert (Fúlvia) e como Alessandro Brandão (Zero). Esses últimos conseguem, nas raras oportunidades que têm, alçar suas personagens para lugares de maior importância no todo mesmo mantendo-se como coadjuvantes.

Cenário de Aurora dos Campos não valoriza a época
A história se passa entre 1963 e 1973, mas o cenário de Aurora dos Campos parece ter achado isso pouco relevante à narrativa. Em um excesso de alumínio aparente, portas de madeira sem pintura e acrílico, o que se vê nem ambienta os corredores da Rádio Nacional nessa época, nem o Brasil nesse período. Máquinas de escrever, um toca-discos e um detalhe nos microfones são muito pouco para garantir o lugar onde essa história, que se vê no todo da caixa cênica sem rotunda nem coxias, ser apresentada. Os figurinos de Colmar Diniz pouco acrescentam à beleza do espetáculo. A direção musical de Tato Taborda, com méritos para a Banda Hétera (Antônio Ziviani, Breno Góes, Felipe Ridolfi e Pedro Leal David), preferiu optar por canções pouco conhecidas e, nesse sentido, quase nada referenciais. O repertório, negando o gênero musical em que o espetáculo se insere naturalmente, emperra a narrativa que dura mais de duas horas. A luz de Aurélio de Simone faz excelentes participações.

Por essas questões, a direção de Diego Molina não expressa boa articulação entre todos os elementos que compõem o todo do espetáculo. Parte da programação que ainda celebra a passagem dos cinquenta anos do Golpe Militar de 1964, a produção não apresenta bons resultados infelizmente.

*

Ficha técnica:
Texto: Bosco Brasil
Direção: Diego Molina
Direção Musical: Tato Taborda

Elenco:
Reinaldo Gonzaga – Amílcar Maranhão
Adriana Seiffert – Fúlvia
Alessandro Brandão – Zero
José Mauro Brant – Tristão
Luciana Bollina – Nice
Maíra Lana – Diaba
Pedro Lima – Villarino
George Luís Prata – Sonoplasta

Músicos – Banda Hétera
Antônio Ziviani
Breno Góes
Felipe Ridolfi
Pedro Leal David

Luz: Aurélio de Simoni
Cenário: Aurora dos Campos
Figurino: Colmar Diniz
Direção de movimento: Sueli Guerra
Adereços: Tuca
Preparação vocal: Pedro Lima
Assistente de direção: Carolina Godinho
Assistente de cenografia: Paula Tibana
Assistente de figurinos: Katerina Amsler
Assistente de direção de movimento: Priscila Vidca
Visagismo: Diego Nardes
Fotos e vídeos: Ananda Campana
Programação visual: Thiago Sacramento
Assessoria de imprensa: Daniella Cavalcanti
Sonorização: Cláudio Serrano (Dioclaw)
Assistente de visagismo: Paula Inez
Operador de luz: Rodrigo Bispo
Produção executiva: George Luis Prata, Thamires Trianon e Valéria Alves
Assistente de produção: Igor Miranda
Realização: 2BB2 Produções Artísticas