quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Noés (RJ)

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Foto: divulgação

Leonardo Netto, Plínio Soares, Maureen Miranda, Raquel Alvarenga, Rick Yates e Alexandre Mofati

Oportunidade para estar dentro do Cassino da Urca


A montagem de “Noés” tem dois aspectos muito positivos. O primeiro deles é o conjunto de ótimas interpretações e o segundo é o fato do espetáculo ter cumprido sua primeira temporada nas ruínas do antigo Grill-Room, o teatro do Cassino da Urca. A peça foi escrita por Rafael Neumayr e dirigida por Carlos Gradim. Em sua narrativa, há a intercalação de três histórias diferentes, ficando para o público a tarefa de reconhecer (e de decidir sobre) os elos de ligação entre elas. O título diz respeito a Noé, personagem bíblico a quem Deus teria dado a tarefa de construir uma grande arca capaz de proteger sua família e um casal de cada espécie animal para ser salvos de um enorme dilúvio que destruiria a Terra. Alexandre Mofati, Plínio Soares, Leonardo Netto, Raquel Alvarenga, Maureen Miranda e Rick Yates estão no elenco. A produção ficou em cartaz até o último domingo, dia 20 de novembro e espera-se que ela volte para novas oportunidades.

Falsa analogia
As histórias são bem escritas individualmente, mas o modo como elas aparecem impõe ao espectador o desafio de buscar o sentido possível de sua articulação no espetáculo como um todo. E é aí que está o problema, pois facilmente se identifica uma falsa analogia entre a obra de Rafael Neumayr e a alegoria de Noé a qual o título da peça se refere.

Na narrativa, as ruas estão paradas porque o povo está se manifestando contra o governo. Por causa disso, três duplas ficam impossibilitadas de seguir seu caminho. Lucas (Alexandre Mofati) foi visitar seu amigo Aldo (Plínio Soares), que não sai de casa há tempos porque desenvolveu uma fobia de elevador. Pedro (Leonardo Netto) e Natália (Maureen Miranda) são dois atores que, depois do fim da última apresentação de uma peça, se preparam para ir para suas casas. Moça (Raquel Alvarenga) e Moço (Rick Yates) são dois personagens que estão presos dentro de um carro no meio do trânsito parado. Ela é prostituta e foi contratada por ele, que é professor de língua portuguesa, para um programa sexual. A imobilidade obriga as seis figuras a permanecerem em suas conversas por mais dolorosas que elas possam vir a ser.

Lá pelas tantas, um personagem diz para o outro que, em alguma medida, somos todos como Noé, pois, em meio ao dilúvio, nos abrigamos em uma arca onde esperamos a chuva passar. A lenda de Noé, que repercute em outros personagens similares na mitologia grega, egípcia, chinesa, africana e em muitas outras, é narrada no livro do Gênesis entre os capítulos 5 e 10. Esse livro, cuja autoria é atribuída a Moisés, é considerado sagrado pelos judeus, pelos cristãos e pelos muçulmanos em todas as suas variações. Utilizando a bíblia como parâmetro, é possível aferir que o dilúvio teria acontecido, na Mesopotâmia (onde hoje fica o Iraque), entre 2.370 e 2.072 a.C., isto é, pelo menos, há quarenta séculos. Sua narrativa teria sido transmitida oralmente de geração em geração até ser escrita mil anos depois. Segundo ela, Deus teria se decepcionado com a humanidade e, por causa disso, decidido destruí-la, salvando apenas Noé e sua família. Mandou, por isso, que ele construísse uma arca e abrigasse nela um casal de cada espécie de animal. Depois, durante quarenta dias e quarenta noites, uma chuva torrencial inundou o mundo, matando tudo o que não havia sido salvo por Noé.

Entre essa história e a de Neumayr, há uma contradição. O Noé bíblico vai para a arca para salvar-se a mando de Deus que o privilegiou entre os demais homens da Terra. Os personagens da peça estão presos em lugares distintos por causa das manifestações que visam a um mundo melhor contra a corrupção. Ou seja, no primeiro, o personagem cumpre uma determinação que é externa, uma ordem. No segundo, as figuras estão presas pelo acaso. Noé sabe do que vai acontecer (Gn 6,17) do lado de fora da arca e pacientemente espera durante o dilúvio. Os personagens Neumayr, quando chegaram aos lugares onde estão no início da peça, não sabiam que de lá não poderiam sair. Faz-se, assim, uma analogia entre dois pontos que não são análogos. Sendo falacioso, o argumento da peça desaba, prejudicando a construção do seu sentido. 

A encenação dirigida por Carlos Gradim enfrenta dois desafios. O primeiro deles é da ordem do modo como a dramaturgia está construída e essa questão já foi tratada no parágrafo acima. O segundo diz respeito ao espaço onde o espetáculo acontece. “Noés” fez sua primeira temporada nas ruínas do antigo Cassino da Urca, um lugar importantíssimo para história da cultura brasileira. De maneira controversa, por isso, o espaço acaba funcionando como um espetáculo independente e que concorre com a narrativa que nele acontece.

A história do Cassino da Urca
O Cassino da Urca foi construído sobre o antigo Hotel Balneário, esse que datava de 1922, época do centenário da independência. Foi aberto em 1933 e, durante treze anos, foi um dos lugares mais luxuosos do Rio de Janeiro. No palco do Grill-Room, nome da área onde aconteciam as apresentações artísticas, brilharam nomes como Carmen Miranda, Grande Otelo, Francisco Alves, Emilinha Borba, Dalva de Oliveira além de Josephine Baker, Nat King Cole e Bing Crosby e de muitos outros ao som de três orquestras que se alternavam em cada noite com estilos musicais diferentes. Na plateia, astros e estrelas internacionais eram assíduos. Entre eles, estavam Walt Disney e seus executivos, que haviam colaborado, ao lado de Getúlio Vargas, para a “política de boa vizinhança”, através da qual o Brasil ganhou notoriedade artística no mundo entre guerras. Em abril de 1946, sem resistir às pressões do jornal O Globo e da igreja católica, o jogo foi proibido no Brasil e o Cassino foi fechado. (Conta-se que a mãe de Roberto Marinho havia exigido do filho que ele parasse de frequentar o lugar, do qual era vizinho, sob pena de ser retirado do comando da empresa.)

Em 1954, a TV Tupi, que havia inaugurado a televisão brasileira no país quatro anos antes, passou a utilizar o antigo Cassino como estúdio, funcionando daí até julho de 1980, quando sua concessão não foi renovada pelo General Figueiredo. Abandonado, o prédio quase foi demolido em 1986 quando foi tombado pela prefeitura. Vinte anos depois, o Instituto Europeo de Design passou a funcionar no local e, desde então, há o projeto de restauração do lugar. Hoje em dia, pilhas de escombros dividem o espaço com a vegetação que cresce nas paredes e com os morcegos, atuais zeladores. Tudo isso tenta, mas não consegue esconder de todo a memória presente no ambiente, essa que é muito forte e, em vários momentos, supera o interesse de qualquer coisa que possa acontecer por lá. Assim, por melhor que seja tudo na peça, a atenção facilmente se perde, impondo barreiras quase intransponíveis ao ritmo da narrativa tanto dramatúrgica quanto cênica.

Ótimo conjunto de elenco e méritos nos demais elementos
Alexandre Mofati (Paulo), Plínio Soares (Aldo), Leonardo Netto (Pedro), Maureen Miranda (Natália), Raquel Alvarenga (Moça) e Rick Yates (Moço) apresentam ótimos trabalhos de atuações. Movimentando-se por caminhos tortuosos, eles exibem segurança plena. Suas vozes ecoam pelo espaço de modo claro e com excelentes entonações. Nas contracenas, mas também individualmente, todos eles deixam ver os contornos de cada quadro em nobre luta contra os desafios, defendendo a narrativa com galhardia no que cabem óbvios elogios à direção de movimento de Daniela Carmona e sobretudo à direção geral de Carlos Gradim.

O desenho de luz de Telma Fernandes, a trilha e instalação sonora de Dr. Morris e o cenário de André Cortez oferecem colaboração aos méritos do todo, aproveitando o espaço nas suas enormes possibilidades quanto à ambientação e à acústica. Como já dito, tudo isso faz o espaço ficar ainda mais importante do que já é, o que é um ponto positivo e ao mesmo tempo negativo nessa montagem complexa. Não há destaques no figurino, esse também assinado por Cortez.

De “Noés”, além das ótimas interpretações, fica o mérito do uso do espaço pelo espetáculo. Visitar o Cassino da Urca é uma oportunidade. Que venham outras!

*

FICHA TÉCNICA:
DIREÇÃO-GERAL: Carlos Gradim
TEXTO: Rafael Neumayr
ELENCO: Alexandre Mofati, Leonardo Netto, Maureen Miranda, Plínio Soares, Raquel Alvarenga e Rick Yates
DIREÇÃO DE MOVIMENTO: Daniela Carmona
DESIGN DE LUZ: Telma Fernandes
CENOGRAFIA E FIGURINO: André Cortez
TRILHA E INSTALAÇÃO SONORA: Dr Morris
PROGRAMAÇÃO DE ÁUDIO: Bruno Carneiro
PRODUÇÃO EXECUTIVA: AM Produções - Mara Vieira
ASSISTÊNCIA DE DIREÇÃO: Tiago Muller
ASSISTENTE DE FIGURINO: Sammara Niemeyer
ASSISTENTE DE CENÓGRAFO: Rodrigo Abreu
ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO: Marcelo Aquino e Cacá Araújo
OPERAÇÃO DE LUZ: Tamara Torres
OPERAÇÃO DE SOM: Vitor Vieira
CENOTECNIA: Utopia Arte e Cenografia - Nahin Fernandes
PROJETO GRÁFICO: Alexandre Muner
ASSESSORIA DE IMPRENSA: Approach Comunicação
EQUIPAMENTO DE SOM: Rz Sound
FILMAGEM E EDIÇÃO: Fitamarela - Arthur Silva
FOTOS: Elisa Mendes
VISAGISMO (Personagem "Moça"): César Marquez
ASSISTENTE ADMINISTRATIVO: Gabriela Carneiro
REALIZAÇÃO: Instituto Odeon
WEBSITE DO INSTITUTO ODEON
www.institutoodeon.com.br

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Laura (RJ)

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Foto: divulgação

Fabricio Moser


Ótimo monólogo sobre as avós e seus netos

No ótimo “Laura”, o ator Fabricio Moser oferece ao público uma oportunidade de celebrar com ele as relações existentes entre as avós e os seus netos. Partindo de sua própria história com a mãe de sua mãe, ele constrói um espetáculo interativo e plenamente sensorial em que os laços familiares surgem como elemento forte na construção da identidade de cada um. A peça é repleta de imagens bonitas que fazem valer a pena assistir à montagem que fica em cartaz, em sua quarta temporada, na Galeria do Centro Cultural Municipal Sérgio Porto, no Humaitá, na zona sul do Rio de Janeiro, até o próximo dia 18 de dezembro. Seu cenário e figurino, ao lado de depoimentos do público, fazem parte de uma instalação que fica aberta ao público também em horários mais amplos.

Dramaturgia sobre histórias e relações familiares
O sul-mato-grossense Fabricio Moser não conheceu sua avó materna porque ela, Dona Laura, foi assassinada na esquina de sua casa em maio de 1982 quando ele ainda não tinha completado um ano de vida. Em “Laura”, o público fica sabendo desde o início que, quando o crime aconteceu, ela estava voltando de um baile aonde havia se divertido com as amigas quando um senhor conhecido por Candoca atirou nela, suicidando-se logo em seguida. O ciúmes é a justificativa mais apontada do crime, esse ocorrido na cidade de Cruz Alta, no noroeste do Rio Grande do Sul, onde ela morava.

Em sua dramaturgia, “Laura” não se concentra nem na biografia da homenageada, nem exatamente nos detalhes em torno de sua morte. Na peça, o texto gira em torno, de um lado, na relação entre as avós e seus netos e, de outro, no mérito do ir em busca da própria história familiar. Mais importante que o primeiro, o segundo acaba valendo como um nobre convite a quem assiste à montagem.

Ao longo da encenação, Moser fala diretamente com o público usando a primeira pessoa em um reforço das marcas que podem fazer esse espetáculo ser recebido como uma obra documental. Objetos de seu acervo particular, depoimentos de outros membros de sua família e seu relato particular de seu próprio processo de pesquisa dividem o lugar com cenas mais poéticas de dança e alguns quadros em que Laura ganha corpo na pele do intérprete.

Na narrativa, há espaço ainda para a participação do público. Em três momentos, a maioria da plateia decide sobre a qual quadro assistir. Em um deles, Moser propõe mostrar um entre três documentos do crime que vitimou sua avó (os autos do processo, a certidão de óbito ou recortes de jornais da época são opções). Em outro, ler um entre três depoimentos de outros familiares de Dona Laura (um filho, uma neta ou outra), que também são parentes seus. Há ainda a possibilidade de Laura benzer algum quebranto de alguém do público, fazer uma leitura de tarot, um chá de baratas ou simplesmente um café. É possível também as pessoas dividirem com os demais presentes suas memórias em relação às suas famílias.

De um modo geral, todos essas opções da dramaturgia colaboram para a construção de um clima afetivo entre palco e audiência sem qualquer desmerecimento das possibilidades estéticas da obra. Música, dança, projeções de vídeo e iluminação principalmente surgem como partes do discurso e não apenas como recursos que o viabilizam. E isso é muito positivo no que diz respeito ao desenvolver do argumento. Sem a presença de uma curva narrativa desde aparentemente sua concepção, o texto de “Laura” atinge seu objetivo, esse que parece ter sido o trato de temas caros à humanidade que estão intimamente ligados: identidade e família.

Espetáculo coeso e coerente
A encenação de “Laura” tem méritos na interpretação de Fabricio Moser e no modo como ele usa os demais elementos para apresentar o espetáculo. A peça abre com um número de chula, uma dança típica do folclore gaúcho, pontuando o lugar de onde a narrativa se conta: o neto e não sua avó. Há a queima de incenso, o que colabora para o teor religioso presente na relação de alguém vivo com alguém que já se faleceu. Fotografias, móveis antigos e cartas valorizam a questão da memória, projeções em vídeo trazem outras pessoas e panoramas à defesa da proposta.

A voz de Moser é baixa, mas clara o bastante para toda a plateia entender o que ele diz e, melhor que isso, sentir-se em um ambiente íntimo. Sua movimentação é calma, o que aponta para um ritmo mais cordial e menos ficcional. Ele opera o som, a luz e os vídeos e troca de figurinos sem sair de cena, o que ratifica o interesse da produção em talvez criar a ilusão somente onde ela for inevitável. Ou seja, em todos os aspectos, o texto espetacular se mostra coeso e coerente, o que justifica os elogios que a ele cabem. Não há grandes méritos em cada parte, mas destacável valor no todo.

Teatro documental
Na programação teatral do Rio de Janeiro, “Laura” está ao lado de “Mamãe”, de Álamo Facó; de “Processo de Conscerto do Desejo”, de Matheus Nachtergale; e de “Estamira – À beira do mundo”, de Dani Barros, entre outros, todos esses monólogos em que seus intérpretes/realizadores tematizam suas próprias histórias e relações familiares. Eis um gênero que ganha força ultimamente e que merece mais atenção pela qualidade com que têm aparecido nos palcos cariocas. Parabéns.

*

Ficha técnica:
Criação e Atuação: Fabricio Moser
Colaboração Artística: Ana Paula Brasil, Cadu Cinelli, Francisco Taunay, Gabriela Lírio, Nathália Mello e Rafael Cal
Assistência de Produção: Ricardo Martins
Apoio: Espaço Cultural Municipal Sergio Porto, Secretaria de Cultura, Prefeitura do Rio de Janeiro e Projeto Entre

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

M.U.R.S. (Espanha)

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Foto: divulgação


Público no espaço onde a peça acontece



O catalão La Furia dels Baus traz ao Brasil seu smartshow M.U.R.S.


“M.U.R.S.” é a quinta produção do grupo catalão La Fura dels Baus que vem ao Brasil. Dirigida por Pep Gatell e por Carlus Padrissa, com colaboração de Jürgen Müller, essa montagem proporciona ao público uma interessante oportunidade estética de vivenciar a proposta e de não apenas assisti-la. Em outras palavras, quem não embarca na ideia corre o risco de aproveitar metade do que é oferecido. Na temática, estão questões caras à contemporaneidade: a tecnologia, a preservação da natureza, as relações interpessoais. A falta de profundidade talvez seja o preço pago pelo nobre interesse em falar de modo claro para muita gente ao mesmo tempo. Depois de quatro apresentações em São Paulo, o espetáculo chegou ao Rio de Janeiro no último dia 19 e fica até hoje, terça-feira, 22 de novembro no Armazém da Utopia, no Boulevard Olímpico (Cais do Porto).

Dramaturgia propõe reflexão sobre a contemporaneidade
Antes da peça começar, o espectador é convidado a fazer download de um aplicativo chamado “M.U.R.S.” no seu celular ou tablet. A palavra, que também dá nome à produção, quer dizer “muros” ou “paredes” e por aí já se tem uma ideia de sobre o que é a proposta. Através do aplicativo, o público será inicialmente dividido pela produção em quatro grupos. O amarelo diz respeito à Segurança, o azul à Bem Estar, o vermelho à Economia e o verde à Meio Ambiente. Em lugares distintos do espaço onde o espetáculo acontece, a cada grupo são apresentadas cenas diversas. Todo mundo assistirá a tudo nessa primeira parte, mas os quadros acontecerão em ordem diversa para cada um. Durante toda a peça, o público assiste à montagem em pé, movimentando-se pelo ambiente.

O mais interessante desse primeiro momento é o modo como as situações se dão. Tudo é positivo, tudo é alegre, tudo é vibrante. É bom sentir-se seguro e valoriza-se o cuidado à saúde. A busca pelo dinheiro diz respeito à liberdade, a preservação do meio ambiente devolve à humanidade momentos de paz. Em todos os aspectos, a tecnologia está a serviço do homem e colabora para o desenvolvimento dos melhores aspectos da sua existência. Lá pelas tantas, porém, todo o quadro se modifica. E é aí que “M.U.R.S.” fica mais interessante em termos de sua dramaturgia.

Um determinado acontecimento modifica as regras do jogo, obrigando os jogadores a enfrentarem uma grande crise. No meio dela, tudo precisará ser reavaliado e, nesse contexto, estarão disponíveis as reflexões mais essenciais que a montagem quer estimular. De que modo a necessidade de sobrevivência interroga os nossos melhores valores? Qual o lugar do dinheiro, do meio ambiente, da tecnologia e da estética quando é preciso lutar para se manter vivo?

Por fim, após o auge da crise, o aparecimento de um “culpado” dá início a uma terceira fase da narrativa. A partir daí, entram em avaliação as cláusulas do contrato das relações pessoais. Dividido entre eu e aqueles que devem ser eliminados, o mundo de “M.U.R.S.” oferece-se como espelho da realidade, convocando seus habitantes à reflexão. O que acontece na peça é uma ótima metáfora para esse mundo “Black Mirror” com o qual temos que lidar cotidianamente.

“M.U.R.S.”, que estreou em junho de 2014 na Espanha, é o quinto espetáculo do grupo catalão La Fura dels Baus (o nome faz referência aos furões – roedores caçadores de ratos – e a um esgoto que existia na cidade de Moià, em Barcelona, até os anos 70). Fundado em 1979, eles vieram para cá, pela primeira vez, em 1991, com “Suz/o/Suz”. Depois, voltaram, em 1997, com “Manes”; em 2010, com “Cielo Arte”; e, em junho de 2016, com “El amor brujo – El fuego e La palavra”. Todas essas produções sempre se marcaram por uma estética em que os limites entre palco e plateia são bem diferentes dos espetáculos tradicionais.

Espetáculo propõe interação
Quanto à encenação, que dura 75 minutos, “M.U.R.S.” valoriza o conceito de performance segundo o qual o espectador não tem o que é encenação e o que não é exatamente claros. Ou seja, reconhecem-se, em alguns aspectos, quem está atuando e quem está só assistindo, mas, em outros, isso não é possível. Além disso, essa produção do La Fura dels Baus pode ficar melhor se a plateia fizer da assistência um meio de participar da peça, entrando no jogo que é proposto. Para isso, será preciso interagir com o aplicativo baixado, com o cenário espalhado pelos quatro ambientes, com atores-performers e sobretudo com as demais pessoas presentes. Desse modo, o espetáculo propõe uma experiência sensorial que pode ser interessante a quem atender aos seus convites quanto à maneira específica de se fruí-la.

Os nove atores europeus e os vinte e oito atores brasileiros que dão a ver a proposta se empenham em, de início, “quebrarem o gelo”, propondo situações que acolham o público, deixando claras as informações necessárias sobre como a peça acontecerá. Depois, esses grupos se dividem entre aqueles que lideram o espetáculo, aqueles que, misturados na plateia, ratificam as marcas de performance e aqueles que garantem a segurança do acontecimento geral. Se talvez não haja um grande trabalho de interpretação, pode ser possível acreditar que a montagem justamente não busque isso, mas ao contrário esteja direcionada para a construção de um espaço mais lúdico que distante. Nesse sentido, a excelência da interpretação deve ser aqui medida pela habilidade de fazer quem veio para assistir entrar na proposta. E isso acontece de modo geral positivamente. Xabier Artieda, María Cadenas, Carles Fígols, Juanjo Herrero, Diana Kerbelis, Blanca Pascual, Rosa Serra, Lawrence Stanley e Sergio Vega são os performers do elenco principal.

O figurino, o cenário de Irene Dobon, de Masters e do grupo, a luz de Pere Anglada e de Marco Mattarucchi, a música de Carles López Campmany e de Àlex Ferrer, o som de Oriol Llistar e principalmente as colaborações relacionadas a vídeo (Sara Lopez e Nico Di Masso), conectividade e a networking (Iglor Audio Solutions, Pedro Lorente, Fran Inglesias e Alicia de Manuel, bem como a interatividade e a programação (Pelayo Méndez e Rafael Redondo) são realmente o diferencial dessa produção. “M.U.R.S.” se apresenta como “o primeiro smartshow da história”, o que é um autoelogio um tanto quanto corajoso (e talvez exagerado), e isso evidencia a força dos seus aspectos tecnológicos.

Ao lado de “Black Mirror”
Produzida há dois anos, “M.U.R.S.” está no Brasil em uma época em que o mundo comenta a série “Black Mirror”, de Charles Brooker, cuja primeira temporada saiu no fim de 2011. Em ambas, há um questionamento sobre o comportamento humano em relação às transformações tecnológicas. Se a obra televisiva atinge o contexto de modo mais profundo, fica a peça valorizada por aquilo em que o teatro tem de mais sublime há três mil anos: uma oportunidade cada vez mais ímpar do homem de estar diante de outro exemplar de sua própria espécie. A temporada brasileira foi garantida pelo Ministério da Cultura, pela Cielo e pela Kabuki Produções.

*

FICHA TÉCNICA

Direção:
La Fura dels Baus
Pep Gatell
Carlus Padrissa

Colaboração de criação:
Jürgen Müller

Música:
La Fura dels Baus
Carles López Campmany

Elenco:
Xabier Artieda, María Cadenas, Carles Fígols, Juanjo Herrero, Diana Kerbelis, Blanca Pascual, Rosa Serra, Lawrence Stanley e Sergio Vega.

Technical Management:
Kiku Martínez i Masana

Direção de produção:
Nadala Fernández

Assistência de produção:
Sergio Vega
Helena Fernández García-Ruz

Coproduzida por:
Ono, Le Manege, BCNLab, Grec Festival de Barcelona

quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Shopping and fucking (RJ)

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Foto: divulgação

Felipe Ávlis, Felipe Bustamante e Rebecca Leão


Ótimo conjunto de interpretações

Com ótimo conjunto de atuações, “Shopping and fucking”, do inglês Mark Ravenhill, é o primeiro espetáculo dirigido por Jopa Moraes. O texto escrito há vinte anos é um símbolo da juventude pós-yuppie, essa mundialmente marcada pelas perdas da AIDS seja por drogas, seja por sexo sem proteção. Na peça, três jovens correm atrás da sobrevivência por entre os desafios da comida congelada e de relações mais ainda. O melhor da produção, que a faz se destacar na programação teatral da cidade, são as interpretações de Felipe Bustamante, Rebecca Leão, Felipe Ávlis, Daniel Braga e do diretor. Por elas, vale a pena assistir à montagem que fica em cartaz, até 4 de dezembro, no Espaço da Cia. Armazém na Fundição Progresso, na Lapa, zona central do Rio de Janeiro.

Célebre texto de Mark Ravenhill
Quando a peça começa, Mark (Felipe Bustamante) está bastante debilitado principalmente pelo consumo de heroína. Por isso, ele sai de casa, deixando seus amigos Lulu (Rebecca Leão) e Robbie (Felipe Ávlis) com ainda mais dificuldades de se manterem sozinhos. Em busca de um emprego como atriz, Lulu acaba conhecendo Brian (Daniel Braga), que a coloca para vender ecstasy, uma droga comercializada clandestinamente em forma de pílulas coloridas. O grande conflito da narrativa começa quando, em uma festa, Robbie distribui a “bala” entre seus amigos, causando uma dívida fenomenal com o tráfico. Brian dá a eles alguns dias para juntarem dinheiro para pagar o que devem e nisso consiste a aventura principal de “Shopping and fucking”.

No outro lado da narrativa, Mark (mesmo nome do autor) paga Gary (Jopa Moraes) por prazer sexual, mas, de algum modo, eles acabam se envolvendo emocionalmente. Isso dá a ver uma trama paralela. E as duas histórias acabam por se encontrar. Gary tem 14 anos e busca por uma relação sob determinados modos agressiva, o que talvez vá em linha oposta aos demais personagens no ponto mais interessante da abordagem. Nesse contexto, Ravenhill argumenta sobre uma visão negativa do mundo na contemporaneidade, caracterizando-o como um lugar onde a artificialidade nas relações é, antes de outra coisa, uma das consequências do consumismo exacerbado.

“Shopping and fucking” tem sido muito elogiado em várias cidades do mundo nas últimas duas décadas desde sua estreia. No entanto, sob alguns aspectos, já é possível sentir hoje que o texto envelheceu (não tanto como “Closer”, de Patrick Marber, escrito um ano depois). O modo como o mundo se modificou nesse período faz ver essa dramaturgia, em vários momentos, como mais um contexto para quadros um tanto quanto agressivos do que propriamente uma narrativa. As cenas são longas, as falas extensas e as curvas pouco claras. O modo como a encenação se dá nem sempre ajuda também. Aqui vale dizer, no entanto, que essa reflexão é um retrato importante de uma época que ainda não passou. Em 1999, dirigida por Marco Ricca, a peça ganhou uma montagem célebre no Brasil. Oito anos depois, houve outra dirigida por Fernando Guerreiro.

Desafios e méritos da direção de Jopa Moraes
A versão de Jopa Moraes tem o mérito e o desvalor de centrar todo o espetáculo no trabalho dos atores. O problema disso é que a montagem se apresenta um tanto quanto desprovida de imagens que oxigenariam a narrativa e dariam mais fluência para o todo. O bom é que os intérpretes apresentam ótimo trabalho nessa produção, esforçando-se para segurar o ritmo cuja manutenção se dá com suor devido a várias questões de sua ordem.

O piso e o fundo branco, por exemplo, assim como a proximidade do público em relação ao palco, eliminam algumas chances da peça de criar a ilusão. Por causa disso, a defesa das cenas (a injeção de heroína, por exemplo) enche os atores de uma responsabilidade que eles, embora esforçados, nem sempre dão conta. Essa opção, entre outras coisas, torna o discurso árduo de ser defendido porque a narrativa fica consequentemente muito racional e pouco clara. Por outro lado, quando o efeito é conseguido, reconhecem-se os motivos para elogiar a interpretação.

Jopa Moraes
Felipe Bustamante (Mark), Rebecca Leão (Lulu) e Felipe Ávlis (Robbie) exibem destacável entrosamento entre si. O jeito como eles dizem o texto valoriza as palavras, chamando a atenção para o aspecto realista do discurso na ótima tradução das falas, essa assinada por Laerte Mello. Além disso, seus corpos, através das expressões faciais e dos gestos, surgem plenos no processo de construção de cada quadro, o que é um feito ainda mais nobre na arriscada apresentação em palco aberto de semi-arena e sem cenário. Daniel Braga e Jopa Moraes, cujos personagens são mais periféricos, também parecem aproveitar bem as possibilidades.

A peça de 1996 e o hoje
Como já apontado anteriormente, a cenografia de Ricardo Martins expõe negativamente o texto de Ravenhill, trazendo mais desafios para o ritmo da encenação. A luz de Paulo Moraes, coerente com o cenário, acaba por agir em mesma direção. O figurino de César Marquez se esforça em aproximar “Shopping and fucking” de 2016, aproveitando a moda atual de valorizar os anos 90. No entanto, essa concepção também age no sentido de limpar a sujeira sobre a qual Mark Ravenhill estruturou sua história e seus personagens. A trilha sonora de Miguel Travassos surge, ao lado dos atores, no esforço homérico de melhorar o desenvolvimento, obtendo sucesso em algumas passagens.

Em época de redes sociais e de “endireitamento” do mundo, a questão de uma juventude mergulhada nas drogas e no sexo sem compromisso já não tem o mesmo lugar na pauta que talvez tinha na época em que “Shopping and fucking” foi escrito. Embora essas questões continuem válidas, há um quê de museológico nessa abordagem que, entre outros méritos, vale como ponto de reflexão sobre o hoje. Essa montagem, com um vibrante trabalho de interpretação, tem seu ponto mais positivo no elenco. E esse, sem dúvida, é um ótimo motivo para assistir-lhe. Vida longa!

*

Dramaturgia: Mark Ravenhill | Direção: Jopa Moraes | Tradução: Laerte Mello | Elenco: Felipe Bustamante, Rebecca Leão, Felipe Ávlis, Jopa Moraes e Daniel Braga | Iluminação: Paulo de Moraes | Cenografa: Ricardo Martins | Figurinos: César Marquez | Gravação de vídeo e fotografas: Nityam | Videografsmos: Tiago Sacramento | Trilha Sonora: Miguel Travassos | Projeto gráfco: Jopa Moraes | Operação de luz, som e projeção: Joshua Moraes | Bilheteria: Amanda Candido | Produção: Jopa Moraes




quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Alguém acaba de morrer de lá fora (RJ)

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Foto: divulgação

Ágatha Castanheda, Tamires Rodrigues, Hugo Moura, Gabriela Chalub e Marcos Bruno Cunha

Formal demais, montagem faz comédia de Jô Bilac falecer


A comédia "Alguém acaba de morrer de lá fora", escrita por Jô Bilac em 2006, marca a estreia de Paulo Verlings como diretor. A narrativa parte do encontro de quatro personagens em um café: um garçom e três clientes. A morte de alguém do lado de fora do estabelecimento estrutura o que acontece dentro dele. Em momentos distintos, o espectador se vê diante de uma história mais ou menos diferente a partir de uma possível identidade de quem morreu. O jogo é muito interessante, deixando ver uma reflexão sobre o valor da vida humana. Formal demais e com uma encenação ainda mais enrijecida, no entanto, ele aparece em montagem difícil. O texto, que já recebeu duas produções anteriores por aqui, vem dessa vez interpretada por Ágata Castanheda, Gabriela Chalub, Hugo Moura, Marcos Bruno Cunha e Tamires Rodrigues. Todos eles apresentam trabalhos muito ruins porque absolutamente presos em marcas sem vida. A peça fica em cartaz até dia 20 de novembro no Espaço da Cia. Armazém, na Fundição Progresso, na Lapa, zona central do Rio de Janeiro.

10 anos de carreira de Jô Bilac
No Café 12:45, Cláudio (Marcos Bruno Cunha), Laura (Ágata Castanheda) e Marcela (Tamires Rodrigues e Gabriela Chalub) estão esperando alguém. Eles não se conhecem, mas de algum modo se identificam por serem todos mal recebidos por Dodô (Hugo Moura), o garçom do lugar. Cláudio marcou um primeiro encontro com uma mulher que ele não conhece, usando uma rosa vermelha para se identificar. A princípio, ele pensa que essa pessoa é Laura, mas ela está à espera de alguém que usa muletas. Já Marcela está aguardando sua irmã gêmea.

Dodô não espera qualquer pessoa. E o modo como ele deixa isso claro aos clientes na hora de atendê-los causa, no grupo, certa indignação que os une. De repente, ouve-se o barulho de um acidente do lado de fora e Dodô traz a notícia: alguém acaba de morrer atropelado e não é possível, naquele momento, identificar a vítima.

Nessa dramaturgia de Jô Bilac, que em conteúdo lembra "All that fall", de Samuel Beckett, o momento em que aconteceu a tragédia do lado de fora do Café congela no ar. Por três vezes mais além da primeira, a história voltará a esse ponto e o espectador terá a oportunidade de perceber de maneiras diferentes os personagens.

O texto de "Alguém acaba de morrer lá fora" foi escrito por Jô Bilac em 2006, ano considerado por ele como o de sua estreia como dramaturgo por causa da encenação (dirigida por ele mesmo) de "Bruxarias urbanas". Sua primeira peça foi "Sangue na caixa de areia", escrita três anos antes. Até agora, somando seus textos maiores a esquetes que se tornaram espetáculos ao lado do trabalho de outros autores e a dramaturgias organizadas a partir de coletâneas de cenas originais suas, tem-se um total de 31 (trinta e um!) textos encenados seus. Essa peça em específico foi produzida pela primeira vez em 2012 em montagem dirigida por Pedro Neschling e em 2014 em outra dirigida por Iara Roccha.

Jogo pelo jogo
Os méritos da direção de Paulo Verlings nessa montagem de "Alguém acaba de morrer lá fora" se concentram em dois aspectos: o uso do palco e o modo como a personagem Marcela acontece na cena. Quanto ao primeiro, cabe elogiar o jeito como a direção reconstrói a circularidade do texto no espetáculo. Ao longo da peça, a cena gira, oferecendo ao público quatro pontos diferentes de percepção. Quanto ao segundo, a personagem Marcela é interpretada ao mesmo tempo por duas atrizes, o que cria uma abordagem humana ao conflito que ela vivenciará na narrativa, além de ótimas possibilidade de jogo na defesa do ritmo do espetáculo.

No entanto, o trabalho de Verlings sofre com um conjunto de interpretações tão ruim. Ágata Castanheda (Laura), Gabriela Chalub (Marcela), Hugo Moura (Dodô), Marcos Bruno Cunha (Cláudio) e Tamires Rodrigues (Marcela) apresentam, ao longo de toda a encenação, um roteiro de expressões corporais e faciais que não deixa ver qualquer reação. Em outras palavras, é como se os intérpretes não se ouvissem entre si, preocupados apenas em executar as marcas e dizer o texto pontualmente. Em uma comédia cuja narrativa é sobre o valor do ser humano e que é estruturada sobre personagens solitários, essa opção estética não tem justificativa clara. 

Outro fator negativo do todo da encenação diz respeito ao ritmo. O excesso de regularidade com que os atores viabilizam a história elimina a curva dramática que a justaposição dos atos no texto de Jô Bilac revela. A dramaturgia, que de antemão é bastante formal, fica assim ainda mais hermética e, portanto, inanimada. O conteúdo desaparece e, lá pelas tantas, só se vê a estrutura.

O hermetismo que transparece pelas interpretações dos atores também se vê nos figurinos que eles usam. Assinadas por Flávio Souza, as roupas expressam mais uma gramática do que propriamente uma linguagem, auxiliando a produção no seu negativo processo de enrijecimento. "Alguém acaba de morrer lá fora" tem bom cenário de Mina Quental (Ateliê da Glória), iluminação de Thiago e de Fernanda Mantovani e trilha sonora de Marcello H., mas tudo isso sem destaque.

O aniversário de dez anos de carreira de Jô Bilac merece ser melhor comemorado.


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| Ficha Técnica |
Texto: Jô Bilac
Direção: Paulo Verlings
Assistente: Elizabeth Monteiro
Elenco: Ágata Castanheda, Gabriela Chalub, Hugo Moura, Marcos Bruno Cunha e Tamires Rodrigues
Figurino: Flávio Souza
Iluminação: Thiago Mantovani e Fernanda Mantovani
Cenário: Mina Quintal I Ateliê na Glória
Direção Musical: Marcello H
Fotografia artística e Projeto Gráfico: Daniel Barboza
Maquiagem e cabelo para foto de divulgação: Josef Chasilew
Direção de Produção: Sol Miranda
Produção Executiva: Aliny Ulbricht
Realização: Cia Coletivo Encontro e Grupo Emú Produções
Assistente de cenografia: Éllen Rambo
Cenotécnica: Adriano Farias I TS 18 Produções
Preparação Corporal: Rafaela Amado
Assessoria de Imprensa: Duetto Comunicação

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Lista de peças encenadas com texto de Jô Bilac (em ordem alfabética)

1. 2 p/ viagem (com Miguel Thiré e Mateus Solano)

2. A dona do fusca laranja

3. Alguém acaba de morrer lá fora

4. Amanda

5. Arara vermelha (parte componente de "5 x comédia")

6. Beije minha lápide

7. Bette Davis e a máquina de Coca-cola (com Renata Mizhari)

8. Bruxarias urbanas

9. Cachorro!

10. Conselho de classe

11. Cucaracha

12. Delírio e vertigem

13. Desesperadas

14. Enterro dos ossos

15. Flor carnívora

16. Fluxorama

17. Infância, tiros e plumas

18. Kama-Sutra secreto (parte componente da peça "Fatal")

19. Limpe todo o sangue antes que manche o carpete

20. Mamutes

21. Matador de santas

22. Nada menos que muito

23. Nuvens de Iceberg

24. O gato branco

25. Paraíso zona sul

26. Petit monstre

27. Popcorn - Qualquer semelhança não é mera coincidência

28. Rebu

29. Sangue na caixa de areia

30. Savana glacial

31. Serpente verde sabor maçã (parceria com Larissa Câmara)

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Renato Russo - O musical (RJ)

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Foto: divulgação

Bruce Gomlevsky

A volta de um grande momento do teatro musical brasileiro

O excelente “Renato Russo – O musical” fez uma pequeníssima, mas gloriosa temporada no Theatro Net Rio, em Copacabana, agora durante o mês de outubro. Ela faz parte da celebração dos vinte anos de falecimento do líder da banda Legião Urbana, o cantor e compositor Renato Russo (1960-1996). O espetáculo, que estreou no fim de 2006, atravessou essa última década, fazendo apresentações muito festejadas em várias cidades do país. Tudo isso se deve à altíssima qualidade de todos os aspectos envolvidos nessa produção da BG ArtEntretenimento e da Gávea Filmes. A dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho, a direção de Mauro Mendonça Filho, a direção musical de Marcelo Alonso Neves, a iluminação de Wagner Pinto, o videografismo da Apavoramento, a banda Arte Profana e principalmente a interpretação de Bruce Gomlevsky marcam a peça como um dos pontos altos da história recente do teatro brasileiro. Há outra temporada programada para o próximo verão no Teatro Riachuelo, no centro. Eis algo para se aplaudir muitas e muitas vezes!

Daniela Pereira de Carvalho e os bons tempos do musical biográfico
A dramaturgia “Renato Russo – O musical” faz parte dos bons tempos do musical biográfico. Em 2016, vive-se uma ressaca de dezenas de outras montagens que vieram nesse encalço nos últimos anos, mas rever o trabalho de Daniela Pereira de Carvalho hoje significa perceber o quanto, em determinada época, tudo isso foi bom. O maior mérito, dentre tantos a ser destacado aqui, diz respeito ao modo como o personagem está apresentado. No texto, o Renato Russo da narrativa (nunca se chegará ao que, de fato, o homem foi) está exposto de maneira plena. Seus valores, suas qualidades, mas também seu lado obscuro, suas sombras, seus períodos de crise. O espectador não assiste com devoção, mas vê a peça também para se identificar, para refletir sobre si mesmo.

Além disso, a história se organiza a partir de excelente articulação de suas partes. É um monólogo, isto é, só há um ator em cena, e, além disso, ele está praticamente sem cenário e sem figurino. Essas questões fazem recair na interpretação, mas também no texto, enorme responsabilidade. Na dramaturgia de Carvalho, o todo é dividido em partes. Em outras palavras, é como se “Renato Russo – O musical” fosse uma união de vários pequenos monólogos, todos eles independentes, mas que juntos dão a ver a complexidade do homenageado. Em cada um deles, a fala dá conta de informar o lugar, a situação, as questões envolvidas, solicitando ao público que ele inclua tudo aquilo que será necessário para o estabelecimento da narrativa com sua imaginação e experiência. Então, vem um determinado acontecimento que modifica a estrutura inicial da cena e exige a reformulação dela. E, assim, quadro após quadro, todos eles dispostos em ordem cronológica, o todo vai acompanhando a vida de Renato Russo a partir de suas vitórias e derrotas em cada desafio.

Assim, sem superficializar o personagem nem tampouco as situações a partir de qualquer tipo de endeusamento, nem tampouco fazer da cronologia a máxima justificativa para a organização da narrativa, a dramaturgia de “Renato Russo – O musical” é um dos seus maiores valores no todo dessa obra teatral.

Magnífico empenho da teatralidade!
A direção de Mauro Mendonça Filho, que recebeu o Prêmio Shell de 2006, tem o mérito organizar a narrativa cênica no âmbito de três relações distintas: aquelas em que o personagem está sozinho consigo mesmo, aquelas em que ele fala com alguém e aquelas em que está diante do público ficcional. A plateia real, essa que assiste a tudo, vê todo o espetáculo como presença onisciente (porque conhece de um modo geral a história contada, o que se vê pela participação da audiência cantando com o ator as músicas da peça) e também onipresente. Ao longo de duas horas, aproveitando a qualidade do ritmo da dramaturgia e propondo melhor ainda relação com o cenário, o figurino e principalmente com a luz e com o videografismo, Mendonça Filho assina um quadro onde Bruce Gomlevsky consegue brilhar aqui. Ele é rico, coeso e coerente, mas também complexo e interessante, qualidades essas que se veem pelo modo como os elementos estão articulados. Não se trata de justaposição, mas de intensa colaboração em que economia não é marca de despojamento, mas de fluidez.

O cenário de Bel Lobo, todo composto de objetos pretos, faz o personagem vir à frente. O figurino de Jeane Figueiredo participa sensivelmente sem estetizar o quadro. O videografismo da Apavoramento (Rodrigo Lima, Cila Mac Dowell e Gustavo Vaz) dá movimento, mas sobretudo une a história narrada com tudo aquilo que de fato aconteceu e que o público traz como base para sua fruição. A iluminação de Wagner Pinto é quase um espetáculo à parte. (quase) Sem cores e com uma profusão de focos limitados cuja participação se dá em íntima relação com a música, com o texto e com a interpretação, a luz amplia o espaço e também o diminui, deixando-o íntimo e público, vivo e reflexivo. Um trabalho belíssimo!

A excelência de Bruce Gomlevsky e da Banda Arte Profana
Bruce Gomlevsky dá a ver o personagem título, fazendo pontes entre informações vindas de registros documentais de Renato Russo e outras que surgem do seu próprio encontro com o público nesses dez anos de encenação. O resultado é uma figura humana, concreta, que assina e defende a viabilização do espetáculo no momento presente de sua apresentação. Isso auxilia no convite à emoção, ao divertimento e também à reflexão, comportamentos esses que visivelmente se dão na fruição desse espetáculo tão meritoso. Com enorme repertório de expressões corporais e vocais, o intérprete apresenta também nessa peça excelente trabalho (como sempre).

“Renato Russo – O musical”, além de seus méritos enquanto obra artística, providencia um outro espetáculo: a participação do público. Ao longo da sessão, a plateia canta junto com o ator trechos (ou inteiramente) as 22 canções que compõem a narrativa e que, nesses últimos trinta anos, têm celebrado gerações no país. É lindo fazer parte desse momento, ver um grupo desconhecido de pessoas se irmanar em letras e em melodias enquanto individualmente libera memórias. A participação da banda Arte Profana – os músicos Ziel de Castro (guitarra), Maninho Bass (baixo), Juba Califónia (teclado) e Marcos Vinni (bateria) estão ao vivo em cena – define os pontos positivos desse momento. A direção musical é de Marcelo Alonso Neves.

Diferente de um filme que pode ser revisto na hora e por quem quiser, uma peça de teatro dura o tempo em que demorar a apresentação dela. O resto é memória. Vale a pena agendar-se para ver (ou rever) “Renato Russo – O musical”.

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Ficha Técnica (conforme enviado pela assessoria):

Texto: Daniela Pereira de Carvalho

Direção: Mauro Mendonça Filho

Direção Musical: Marcelo Alonso Neves

Iluminação: Wagner Pinto

Cenógrafo: Bel Lobo e Bob Neri

Figurino: Jeane Figueiredo

Produção: Bianca De Felippes

Herculano é o assassino (RJ)

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Foto: divulgação


Carmen Frenzel e Alexandre Barros

Problemas não resolvidos

“Herculano é o assassino” é a mais nova peça de Cynthia Reis, que dirigiu “Consertam-se imóveis” no ano passado. Escrita por Lucília de Assis, a comédia atual tem, no elenco, Alexandre Barros e Carmen Frenzel, ela com melhores oportunidades que ele no que diz respeito à dramaturgia. O texto é difícil e impõe muitos desafios à encenação como um todo. Alguns deles são vencidos, a maioria não infelizmente. A temporada do espetáculo, que está em cartaz no porão do Teatro Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro, vai até o dia 15 de novembro.

Mais problemas do que méritos na dramaturgia
A dramaturgia de “Herculano é o assassino” traz dois problemas grandes à montagem. O primeiro deles diz respeito aos aspectos externos ao texto, isto é, aquilo que contextualiza a obra. O segundo tem a ver com o que ela espera da assistência. Nessas duas dimensões, os desafios impostos à encenação são altos demais.

A peça começa pelo fim. Quando o público entra, sabe-se que os personagens estão mortos. Nos primeiros segundos, os intérpretes (esses também interpretando intérpretes) põem-se de pé e agradecem o público, dizendo aqueles velhos jargões do teatro: “Se gostaram, indiquem aos amigos. Se não gostaram, aos inimigos” – ou algo assim. Então, eles voltam para a situação inicial, que é a final da narrativa, e começam a história que irá contextualizar esse quadro de abertura. Com isso, a dramaturgia cria um problema sobre quem narra além da narrativa propriamente dita. Ou seja, além da piada, faz a piada sobre a piada em um processo de metalinguagem, que, mesmo que esforçada em se espalhar por outros elementos, não encontra justificativas claras nem tampouco coerência.

O segundo problema diz respeito ao que a narrativa espera do espectador. Nos sessenta minutos da peça, só tem uma única informação que o público descobre ao mesmo tempo que os personagens. Essa, que surge um pouco antes da peça terminar, redefine os momentos finais da história, mas todo o resto é uma novidade apenas para quem assiste. Lá pelas tantas, o jogo de “esconde-esconde” – que não se inverte e nem, ao menos, se equilibra – cansa.

Herculano (Alexandre Barros) e Hermínia (Carmen Frenzel) são dois irmãos gêmeos que, cansados das dificuldades da vida como professores, decidem sequestrar alguém e, com o dinheiro, ganhar sua independência. Ao longo da peça, se descobre que o parentesco entre eles, as semelhanças e diferenças, onde estão, o que fazem e quais suas motivações. Também descobrimos sobre o sequestrado e as pessoas envolvidas. Enquanto isso, dezenas de frases de efeito preenchem os diálogos, querendo ser instrumento cômico, mas prejudicando o ritmo.

Desse modo, e por tudo isso, “Herculano é o assassino” funciona bem como exercício, mas chega à forma final com mais problemas do que méritos na dramaturgia.

O esforço da direção de Cynthia Reis
A direção de Cynthia Reis, com direção de movimento de Rodrigo Condim deixa visível enorme esforço da encenação em encontrar (e possibilitar) situações de comédia para o texto de Lucília de Assis. As interpretações investem em construções melodramáticas, figurino e cenário fazem a sua parte na criação de um lugar lúdico. Essas são boas propostas, mas, no conjunto, elas expõem a pouca certeza da concepção. Em termos estéticos, enquanto alguns aspectos pautam o espetáculo “Herculano é o assassino” em um lugar realista, outros vão para o absurdo. Embora a realidade seja um elemento que participe desses dois gêneros, eles são distintos, propondo relações diversas entre o público e a obra.

A falta de articulação entre tudo o que dá a ver a peça prejudica o ritmo dela. Sem entrar “de cabeça” na proposta, em tampouco entendê-la bem, fica-se verdadeiramente nem lá e nem cá. Sessenta minutos é um limite conveniente capaz de argumentar aos valores da montagem. Eles existem!

Alexandre Barros (Herculano) e Carmen Frenzel (Hermínia) dispõem bem de diversos recursos expressivos, favorecendo-lhes as melhores oportunidades. Frenzel tem mais sucesso que Barros porque o personagem dela acaba por se mostrar com mais quebras: Hermínia começa tão algoz quanto seu irmão, mas vai se distanciando dele, evidenciando mais curvas. Já Herculano se mantém o mesmo durante toda a narrativa. Ambos intérpretes estabelecem e mantêm ótima relação com a plateia, essa sentada em três dos quatro lados do espaço cênicos e bem próxima da cena.

O cenário e o figurino de Nívea Faso para “Herculano é o assassino” apresenta os personagens com fortes sugestões do universo clown. Linhas horizontais coloridas (a la Mondrian, mas sem preenchimento) em papelão claro e com muitas caixas do mesmo material constroem lugar mais alternativo para a história. Ela se passa na residência de uma senhora idosa e rica, mas, como as outras informações da peça, essa é algo que o público vai ter que descobrir. Como já dito, a proteção de algumas informações faz parte do argumento da montagem. Por essa abordagem, o resultado é positivo. Não há destaques na iluminação de Tadeu Freire e nem na paisagem sonora de Alexandre Dacosta.

Lugar histórico
O porão do Teatro Ipanema é um lugar especial para a história do Teatro Ipanema. Foi lá que, há trinta anos, Rubens Corrêa interpretou Antonin Artaud em célebre monólogo dirigido por Ivan Albuquerque. Antes de qualquer outra coisa, “Herculano é o assassino” vale a visita a esse local.

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FICHA TÉCNICA

TEXTO – Lucília de Assis

DIREÇÃO – Cynthia Reis

ELENCO – Alexandre Barros & Carmen Frenzel

DIREÇÃO DE ARTE – Nívea Faso

ILUMINAÇÃO – Tadeu Freire

TRILHA SONORA – Alexandre Dacosta

IDEALIZAÇÃO – Alexandre Barros, Carmen Frenzel e Lucília de Assis

PRODUÇÃO – Diálogo da Arte Produções Culturais

REALIZAÇÃO: Dupla Companhia, Falantes e A Palavra Forte Produções Artísticas

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Até o final da noite (RJ)

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Foto: divulgação


Rogério Garcia, Letícia Cannavale, Isio Ghelman e Angela Vieira

Isio Ghelman e Angela Vieira brilham em nova comédia de Julia Spadaccini

O ótimo “Até o final da noite” é o mais novo espetáculo com texto de Julia Spadaccini e direção de Alexandre Mello, dupla que já assinou os bastante elogiados “Quebra-ossos (2012)” e “Um dia qualquer (2013)”. Trata-se de uma comédia de boulevard: na casa de um deles, dois casais de gerações distintas se encontram e, pelas oposições entre eles, surgem conflitos que os distanciam e os aproximam. O público se diverte, mas também leva algumas reflexões interessantes para enfrentar o seu dia a dia. Com Rogério Garcia e Letícia Cannavale em boas colaborações, a peça tem ótima atuação de Angela Vieira e excelente trabalho de Isio Ghelman. Vale a pena conferir a montagem que fica em cartaz até o próximo dia 14 de novembro no Teatro Ipanema, na zona sul do Rio de Janeiro.

Na dramaturgia, dois mundos que se encontram
Olavo (Isio Ghelman) e Ana Lúcia (Angela Vieira) estão casados há trinta anos. Ele é um contador e ela dona de casa. Juntos eles tiveram um filho que se mudou há pouco tempo para o Leste Europeu, deixando uma sensação de vazio principalmente nela. A peça começa quando eles se preparam para receber Edu (Rogério Garcia) e Branca (Letícia Cannavale), que vêm para jantar. O encontro de um casal mais novo com um mais velho cheira a “Quem tem medo de Virgínia Woolf?”, mas as semelhanças realmente param na situação similar.

Em “Até o final da noite”, pairam dois mundos em conflito: aquele que deixa de existir e aquele que toma o seu lugar. De um lado, estão os relacionamentos físicos, os laços duradouros, o papel jornal, a cebola que precisa ser cortada, os segredos mantidos. Do outro, estão as relações virtuais, o imediatismo, o bluetooth, a ansiedade. O texto de Spadaccini não avalia um pelo outro, mas os justapõe, revelando a beleza e o horror de cada um deles.

Enquanto aceita as motivações do texto de “Até o final da noite”, o espectador se vê em uma história que abre caminhos, mas que, talvez ciente de sua verve mais reflexiva, não faz do seu fechamento uma obrigação. De modo habilidoso, Julia Spadaccini deixa para o público, se quiser, a colocação de um ponto final. Ele pode, no entanto, deixar tudo continuar, assumindo daí sua culpa (ou seus méritos) na longevidade dessa história.

Isio Ghelman brilha!
A direção de Alexandre Mello, assistida por Renato Livera, tem o valor de abrir espaço, no texto, para a contribuição dos atores na viabilização dos quatro personagens. É bonito ver como cada intérprete parece ter (ou não) aproveitado as oportunidades para tornar o diálogo ainda mais próximo do público. Não há grandes movimentações, nem muito exercício de teatralidade, mas, como parece convir ao texto, sobra excelente ritmo nos diálogos, na estruturação das cenas e na articulação delas no todo da comédia.

Rogério Garcia (Edu) aproveita pouco as poucas chances que tem e, embora apresente boa colaboração, não se destaca. Letícia Cannavale (Branca) chama para si mais atenção, defendendo uma personagem que, ainda que aparentemente segura, está vivendo uma crise que há de explodir a qualquer momento. E sua sensibilidade em sustentar essa tensão lhe vale elogios. Angela Vieira (Ana Lúcia), com uma postura belíssima, vai deixando, de modo muito sutil e cenicamente inteligente, ver níveis mais íntimos de sua personagem, expondo sua problemática e filtrando a dos demais.

“Até o final da noite” é mais uma oportunidade do público carioca de conferir uma excelente interpretação de Isio Ghelman. Nesse espetáculo, com habilidade, o ator apresenta enorme repertório de expressões que abraça o público na medida em que sensibiliza a plateia com seu enorme carisma. O feito, que ecoa em todos os demais personagens, em especial em Vieira, eleva os níveis estéticos do espetáculo.

A busca da felicidade
A peça tem figurinos de Ticiana Passos, luz de Renato Machado e trilha sonora de Leandro Baumgratz, atingindo seus objetivos sem aparentemente muitos problemas nem grandes desafios. O cenário de Beli Araújo, corajosamente, investe mais no lúdico do que no realismo, criando um conflito na relação com todos os elementos. A opção positivamente oxigena a recepção do espetáculo, impondo leveza e mantendo o interesse.

Para além de questões acerca dos relacionamentos, “Até o fim da noite” sugere uma belíssima reflexão sobre a busca da felicidade. Para uns, talvez ela se esconda de quem a procure. Para outros, não buscá-la é um pecado. Sem muitas pretensões, a montagem sai ganhando. E quem assiste mais ainda!

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FICHA TÉCNICA
Autora: Julia Spadaccini
Direção: Alexandre Mello

Elenco:

Angela Vieira – Ana Lucia
Isio Ghelman – Olavo
Letícia Cannavale – Branca
Rogério Garcia – Edu

Direção de produção: Rogério Garcia
Iluminação: Renato Machado
Cenografia: Beli Araújo
Figurinos: Ticiana Passos
Direção de movimento: Márcia Rubin
Produção: Paula Loffler
Assistente: Felipe Porto
Programação Visual: Humberto Costa Ribeiro
Assessoria de imprensa: Daniella Cavalcanti