sábado, 1 de abril de 2017

Vamp - O musical (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação


Ney Latorraca e Claudia Ohana

A tão esperada volta de Vlad


“Vamp – O musical” é a versão para teatro da novela das sete de enorme sucesso. A produção escrita por Antônio Calmon e dirigida por Jorge Fernando foi protagonizada por Claudia Ohana e por Ney Latorraca, indo ao ar no horário das sete na TV Globo entre 1991 e 1992. Agora, com os mesmos nomes liderando a equipe, a narrativa voltou em março ao público em grande produção assinada pela Aventura Entretenimento. Claudia Netto, Erika Riba, Evelyn Castro e grande elenco completam o quadro com coreografias de Alonso Barros e direção musical de Tony Lucchesi. Se há problemas no cenário e no figurino, vale elogiar as vitórias da dramaturgia e principalmente dos trabalhos de interpretação. Em cartaz no Teatro Riachuelo, na Cinelândia, até junho, eis aqui uma oportunidade de matar a saudade de ótimo momento da teledramaturgia brasileira que ressurge aqui para permanecer inesquecível.

A novela: um sucesso de audiência no horário das sete
A história começa quando o misterioso conde Vladymir Polanski (Ney Latorraca) entra na vida de Natasha (Claudia Ohana), uma bela jovem que não consegue emplacar sua carreira como cantora de rock. Ele, que é um poderoso vampiro, promete ajudá-la em troca de sua alma para sempre. Ela concorda e Vlad morde seu pescoço, fazendo de Natasha uma vampira também. Em Veneza, na Itália, o célebre produtor de rock Gerald Lamas (Guilherme Leme Garcia) ouve sua voz e a torna uma celebridade mundialmente famosa, cumprindo a promessa de Vlad.

Por trás do interesse de Vlad por Natasha, há um passado que aos poucos foi se tornando conhecido pelo público ao longo da novela. Em 1781, Vlad foi muito apaixonado por uma mulher chamada Eugênia Queiroz (Ohana), mas ela amava outro, o nobre cavaleiro Felipe Rocha (Reginaldo Faria). Logo depois de ser mordida pelo conde, Eugênia apunhalou-se em suicídio, entregando-se à morte por amor. Desesperado, Vlad matou Rocha, mas foi também atingido em batalha por fiéis que empunhavam uma poderosa e brilhante Cruz de São Sebastião. Debilitado, Vlad perdeu a forma humana durante séculos em que a cruz ficou esquecida.

De volta ao século XX, o irmão de Eugênia - Diogo Queiroz (Marcos Breda), também chamado Anjo Rafael – reaparece para proteger Natasha, a reencarnação da donzela. Ele revela à roqueira o paradeiro da cruz perdida que poderá salvar o mundo contra Vlad. Como objeto histórico, a cruz foi resgatada do fundo do mar na Armação dos Anjos, cidade litorânea do Rio de Janeiro, onde mora o Capitão Jonas Rocha (Reginaldo Faria), a quem deve Natasha pedir ajuda. Trata-se da reencarnação do cavaleiro Felipe.

A antiga ligação entre Felipe e Eugênia não se repete com Jonas e Natasha. No início da novela, o Capitão, que é viúvo e pai de seis filhos, conhece a historiadora Carmen Maura (Joana Fomm), ela também viúva e mãe de outros seis. Os dois se conhecem, se apaixonam e se casam e juntos passam a ser pais de doze crianças e adolescentes, administrando uma pousada. Em busca da Cruz de São Sebastião, a roqueira Natasha se hospeda lá, se tornando a sensação da cidade. Em seu encalço, a investigadora inglesa Mrs. Alice Penn Taylor Smith (Vera Holtz), que é, na verdade, uma caçadora de vampiros.

Tão logo fica sabendo do paradeiro de Natasha, Vlad arma o seu exército. O prefeito Matoso (Otávio Augusto), sua esposa Mary Ramos, seus filhos e outras pessoas, vão se tornando vampiros por Vlad. Uma nova guerra vai se armando na narrativa original de Calmon, com colaboração de Tiago Santiago, Vinícius Vianna e de Lilian Garcia. Atualmente, a novela se encontra lançada em DVD para quem quiser saber como ela terminou. Em suas últimas palavras, Vlad diz que os homens são piores que o pior dos vampiros. E que poderá morrer, mas deixará no mundo coisas horríveis como a fome, a miséria, a injustiça e as guerras. E afirma: “Eu voltarei!”.

Muitos méritos na dramaturgia teatral
A dramaturgia do musical se empenha nos mesmos valores do roteiro da novela com algumas modificações. Estão lá, o passado de Vlad (Ney Latorraca), de Eugênia (Claudia Ohana) e de Felipe Rocha (Luciano Andrey), como também o início da aventura de Natasha (Ohana) depois de ter sido mordida por Vlad: a fama ajudada por Gerald (Pedro Henrique Lopes) e a fuga dela da caçadora de vampiros Mrs. Penn Taylor (Evelyn Castro). Na Armação dos Anjos, Carmem Maura (Erika Riba) e Capitão Jonas (Andrey) não têm na peça tantos filhos quanto tinham na novela, mas o impacto aqui é outro. Mary (Livia Dabarian), na TV, era uma atriz pornô aposentada. No teatro, ela surge como uma irmã de Carmen Maura, mas que igualmente se casa com Matoso (Osvaldo Mil), indo fazer parte do exército de Vlad.

Sumiram na peça todas as referências à igreja católica (e a outras religiões e crenças) que havia na novela. A Cruz de São Sebastião, que ficou no fundo do mar por dois séculos, se tornou o Medalhão do Poder, passando de pai para filho desde os ancestrais de Felipe Rocha até o Capitão Jonas Rocha, que dá a peça de presente de casamento à Carmem Maura. A personagem, assim, passa a ter maior importância nessa narrativa do que possivelmente teria sem o objeto. Frei Bartolomeu, Padre Osvaldo, Padre Estevão e Padre Garotão, como também o Pai Gil desapareceram, concentrando suas importâncias na figura da personagem Mrs. Penn Taylor. De novidade, essa versão da narrativa trouxe Madrácula (Cláudia Netto), a mãe do Conde Vlad, por quem ele chamava desde a novela, mas que lá não tinha aparecido. De ascendência portuguesa, ela reforça o aspecto infantiloide de Vlad que, na versão para TV, mas ainda aqui, é tão positivamente forte.

Em termos de estrutura narrativa, “Vamp – O musical”, segue contendo as contradições que dão corpo para a história. Por causa disso, ela pode continuar sendo interessante tanto para crianças como para adultos. O segundo grupo vai se divertir com vampiros e não-vampiros e com as lutas entre esses grupos. Há também os shows de rock, os morcegos e as pessoas bonitas na praia. Já os adultos poderão refletir melhor, por exemplo, sobre o fato de Natasha ter almejado tanto a fama a ponto de trocar por ela sua alma, mas, a tendo conseguido, prefere voltar ao passado, pois sente o peso da eternidade. Há também a força da maternidade que dá poder à Carmem Maura e à Madrácula, ainda que essas sejam mães de lados opostos na guerra entre o bem e o mal. E, por fim, e mais importante, o lado humano que pode ser encontrado no Conde Vladymir Polanski. A tese de que Natasha é a reencarnação de Eugênia faz dele um homem fiel à mulher que ama através dos séculos, almejando ser amado na mesma medida em que ama: eternamente.

De problemas na dramaturgia, talvez se possa apontar que o núcleo “jovem-praia” da versão para teatro pesa um pouco demais o ritmo da narrativa. Não se pode, no entanto, deixar de perceber, nessa avaliação, que a força da trama central (Vlad-Natasha-Jonas-Maura-Penn Taylor) depende dos respiros oferecidos pelas menores. Em outras palavras, como em um carro na troca de marchas, é preciso diminuir a velocidade às vezes para aumentá-la. “Vamp – O musical”, em termos de dramaturgia, é por tudo isso a melhor produção da Aventura Entretenimento desde “Se eu fosse você – O musical”.

Aspectos da direção de Jorge de Fernando e de Diego Morais
Quanto à direção de Diego Morais (com direção geral de Jorge Fernando), a peça tem, de modo controverso, a tosquice que a novela tinha. Vale dizer que, do jeito como foi produzida, a novela “Vamp” talvez não encontraria hoje lugar na grade de programação televisiva, porque os tempos são outros. Ao longo dos últimos vinte e seis anos, os padrões visuais se modificaram, o olhar estético do público contemporâneo é muito mais exigente, a responsabilidade das qualidades técnicas são maiores. Quem perdia um capítulo da novela só podia sonhar com uma reprise dele no Vale a Pena Ver de Novo, uma realidade impensável atualmente. Nesse sentido, “Vamp – O musical”, com diversos problemas nas trocas de cenário – contrarregras arrastando móveis em cena aberta e cabos sendo colocados a olhos vistos –, exige do espectador maior compromisso do que talvez ele tenha para (ou queira) oferecer. Fosse uma peça de Brecht, justificar-se-ia tudo isso como uma opção estética em favor do reavivamento da fruição em busca de um engajamento político da audiência em relação à cena. Mas aqui são só falhas toscas que muito bem poderiam ser evitadas, porque elas prejudicam demais o ritmo da encenação.

Claudia Ohana e principalmente Ney Latorraca, como intérpretes queridos de uma memória cara que o público mais adulto pode conservar, são fortes em cena o bastante para alterar a organização dos signos felizmente. Dito de outro modo, suas presenças, nessa versão de “Vamp”, são carregadas por valores que vão além de suas marcas expressivas, dizendo respeito às suas relações com a obra anterior. Esse é um dos motivos pelos quais, em toda vez que eles não estão em cena, o ritmo tende a cair naturalmente. Nesse sentido, sem desmérito aos outros artistas que fazem parte desse elenco, talvez os resultados seriam mais positivos houvesse outros atores da novela além de Ohana e de Latorraca colaborando para o equilíbrio da nova versão.

O brilho mágico de Ney Latorraca
De um modo geral, os trabalhos de interpretação são muito positivos. Para analisá-los, como sempre!, é preciso considerar seus desafios. Esses podem ser divididos de acordo com sua relação com a novela – sejam originais ou novas leituras – ou somente no que diz respeito à peça. Thadeu Matos (Matosão), Osvaldo Mil (Matosão), Livia Dabarian (Mary Matoso), Xando Valois (Matosinho), Pedro Henrique Lopes (Gerald) e Evelyn Castro (Mrs. Penn Taylor) são artistas que enfrentam, nessa versão, o desafio de oferecer novas abordagens de personagens que foram defendidos na TV por atores que eram (e são) queridos pela audiência. Ou seja, antes deles conseguirem trazer suas leituras, precisam enfrentar as expectativas que o público traz. E conseguem com galhardia o feito! Vale destacar o belíssimo trabalho de Castro, talvez um dos melhores destaques aqui, nessa peça. Com voz fulgurante, alto carisma e presença viva, a atriz imprime sua marca sem que se esqueça, mas se valorize também o que foi feito por Vera Holtz no passado. A voz de Dabarian também é aplaudida com alegria.

Luciano Andrey e Erika Riba também tiveram desafio parecido, mas dificuldades ainda maiores porque seus personagens – Capitão Jonas e Carmem Maura – são mocinhos contra vilões tão fáceis de se apaixonar como Natasha e Vlad. Considerado isso, vale aplaudir Erika Riba, atriz de longa carreira no teatro musical brasileiro mas cada vez mais merecidamente valorizada, que, na pele que já foi de Joana Fomm, oferece uma heroína pela qual vale a pena torcer. Oscar Fabião, como o Lipe de Fábio Assunção, tem desempenho comparável, mas em menor escala. Riba e Fabião melhoram “Vamp – O musical” com suas vozes que bem servem à proposta em meio a outros elementos de elogiável construção.

Claudia Netto, em duas aparições, apresenta sua Madrácula em cenas de grande destaque. Observando a força de Vlad, a mãe dele consegue parecer ainda maior, o que revela que, até mesmo alguém grande, pode ser pequeno. O público adora! Netto, cujo talento já foi tantas vezes elogiado, é mais uma feliz aposta dessa produção que a valoriza pelo modo criativo e forte com que dela participa. Dos papeis menores, vale destacar Renan Mattos cujo empenho faz sobressair figuras rápidas, mas que acabam por ficar marcantes.

Claudia Ohana, antes de tudo, desafia a ciência. Vinte e cinco anos depois do último capítulo da novela (que foi ao ar em fevereiro de 1992), ela continua igualmente jovem e linda. (Será ela uma vampira de verdade? rs) Melhor quando o registro musical é o rock, a intérprete não faz da fama da personagem uma desculpa, mas evidencia empenho na defesa de sua Natasha para essa nova geração de espectadores. Sob vários aspectos, há marcas visíveis de humanidade em contexto tão controverso que Calmon criou e recriou e que ela defende com galhardia vibrante.

“Vamp – O musical” parece ser de Ney Latorraca cujo Vlad é um dos personagens mais queridos da história da teledramaturgia brasileira. Ele é malvado como uma criança: poderoso, potente, carismático. Além disso, é dele a responsabilidade maior da peça, que é a de aproximar o público do palco. Inúmeras vezes, como fazia na novela, ele quebra a quarta parede, saindo da narrativa e lembrando o público de sua presença diante de uma obra estética. (Em uma cena da novela, o diretor Jorge Fernando atuava como um pequeno personagem que era seu inimigo. Foi ao ar uma fala de Latorraca dizendo: “Até o diretor contra mim?!”, que trazia à narrativa uma informação que não era de ordem estética, mas da produção.) Com a plateia totalmente entregue, o ator garante os melhores momentos da encenação, fazendo valer a pena estar ali. Aplausos!

Ainda em se tratando das interpretações, é mister falar das excelentes coreografias de Alonso Barros, em especial, a do fim do primeiro ato: o quadro de “Thriller”. Ele sucede um longo momento com ritmo bastante lento, empurrando o público para o intervalo com vontade de voltar e ver o resto da montagem. No todo, Barros colabora muito para a direção de Jorge Fernando e de Diego Morais, esses assistidos por Pedro Rothe.

Problemas do cenário e méritos da direção musical
A cenografia de José Claudio Ferreira repete incessantemente o uso das escadas de modo pouco criativo e que, em sua execução como um todo, mais traz problemas do que ganhos. Os figurinos de Lessa de Lacerda, em resultado um pouco melhor que o cenário, são interessantes, mas também perdem oportunidades caras. Ferreira e Lacerda são nomes técnicos que participaram da versão de “Vamp” para televisão, mas que, diferente de Ohana e de Latorraca, pouco contribuem na releitura. Trata-se do velho erro da Aventura Entretenimento de não perceber que teatro não é o mesmo que a televisão e que, portanto, exige quadros técnicos específicos. Na equipe criativa, assim, a iluminação de Maneco Quinderé fica com muitos problemas. Dito de outro modo, luz, cenário e figurino notoriamente não foram criados dentro de uma mesma proposta e surgem pessimamente articulados no palco.

Ao lado do já citado Alonso Barros, vale destacar com elogios a colaboração de Tony Lucchesi, diretor musical cuja carreira é cada vez mais positivamente reconhecida no cenário do teatro musical brasileiro. Como foi na novela, a trilha sonora de “Vamp – O musical”, tanto em termos das canções já criadas como naquelas originais (em que o compositor Tauã Delmiro colaborou), é excelente. O público se diverte enquanto acompanha a história, valorizando o trabalho dos atores, mas também os músicos que interpretam ao vivo o repertório.

Musical de Telenovela: novo subgênero
“Vamp – O musical”, ao lado de “Estúpido Cupido” recentemente produzido, talvez marque o início de um novo subgênero do teatro musical brasileiro. Depois do biográfico, vem aí o musical de telenovela. Mal de pode esperar por “Que Rei sou Eu?”, por “Perigosas Peruas” e por tantas outras comédias escritas originalmente para TV que também agradariam. 

*

Ficha Artística
Texto – Antonio Calmon
Concepção e Direção Geral – Jorge Fernando
Direção – Diego Morais
Coreografia – Alonso Barros
Direção Musical, Arranjos e Preparação Vocal - Tony Lucchesi
Cenografia – José Claudio Ferreira
Figurino – Lessa de Lacerda
Visagismo – Martin Macias
Desenho de Luz – Maneco Quinderé
Desenho de Som – Carlos Esteves
Produção de Elenco – Marcela Altberg
Assistente de Direção – Pedro Rothe
Assistente de Coreografia – Alan Resende
Orquestração e Assistente de Direção Musical – Alexandre Queiroz
Assistente de Cenário - Daniele Fontes
Figurinista Assistente – Teresa Abreu
Elenco: Ney Latorraca, Claudia Ohana, Evelyn Castro, Claudia Netto, Luciano Andrey, Erika Riba, Pedro Henrique Lopes, Xande Valois, Livia Dabarian, Thadeu Matos, Osvaldo Mil, Gabriella Di Grecco, Oscar Fabião, Mariana Cardoso, Duda Santa Cruz, Daniel Brasil, Rafa Mezadri, Talita Real, Mariana Gallindo, Lana Rodhes, Laura Ávila, Carol Costa, Carol Botelho, Jessica Gardolin, Renan Mattos, Lucas Nunes, Matheus Paiva, Leonardo Senna, Franco Kuster, Murilo Armacollo, Gustavo Della Serra, Marina Mota, Gabriel Querino, Andressa Tristão, Leonardo Rocha

sexta-feira, 24 de março de 2017

Bita e a imaginação que sumiu (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação



Elenco em cena




Delicioso musical traz para palco sucesso entre as crianças

“Bita e a imaginação que sumiu” é a versão para teatro do universo Bita, famoso personagem para crianças lançado em 2011 pela dupla de pernambucanos João Henrique Souza e Chaps Melo ao lado de Enio Porto e de Felipe Almeida. Assinada por Souza, a dramaturgia une algumas histórias já conhecidas pelo público do mercado editorial, da internet e da TV. Com as canções, essas composições originais de Melo, acontece o mesmo. A trilha sonora é cantada ao vivo pelos atores Rodrigo Drade, Bárbara Ferr, Isabela Quadros, Robson Lima, João Manoel, em ótimos trabalhos ao lado de João Velho, esse em excelente atuação. A direção é assinada por Alessandra Colasanti na produção de Bianca de Felippes e de Gabriel Bortolini que fica em cartaz até domingo, dia 26 de março, no Teatro ABEL, em Niterói.

O mundo Bita
A peça começa quando dois habitantes do distante planeta Plot (Rodrigo Drade e Bárbara Ferr) começam a sofrer a falta de imaginação, seu combustível motor. Sem ela, é como se eles vivessem sem oxigênio, correndo o sério risco de deixar de exigir. Por isso, recorrem a Bita (João Velho), o grande sábio intergalático. Para resolver o problema, ele recorre aos seus amigos Lila, Tito e Dan (Isabela Quadros, Robson Lima e João Manoel), um trio de crianças na Terra em quem se pode confiar. Primeiro eles precisam voltar a produzir e a enviar imaginação aos plots. Depois, vão ter que descobrir se há algo bloqueando a comunicação entre os dois planetas. As crianças precisarão se unir.

A direção de Alessandra Colasanti, assistida por Lorena Morais com direção de cena de Lucia Martinusso, abre caminho em cena para que o público, principalmente o infantil, possa participar da peça. Os personagens, em vários momentos, dialogam com as crianças, mantendo-as interessadas na narrativa da qual elas vão tomando ciência e aparentemente gostando. Ao longo do espetáculo, a algazarra comum do apagar das luzes vai dando lugar à participação uníssona, sinal de que a plateia está envolvida. Nos trechos finais, a excitação de quem está curtindo volta a tomar conta e é uma alegria contagiante lembrar de como é bom ser criança e acreditar que é possível, como heróis do cotidiano, mudar o mundo. Os adultos que assistem à peça, se se porem no lugar dos pequenos, poderão levar para casa a sensação desse gostinho de retorno ao olhar infantil do qual nunca é bom se afastar de todo.

Mantendo um ritmo adequado à integração do público de idades bem pequenas até as maiores, a encenação tem o mérito de não fazer do previsível um problema, mas uma espécie de poesia sempre bom de ser recontada. As aventuras de Bita, em sua simplicidade narrativa, vai se parecendo um mito repassável de boca e em boca, e isso, tendo sido valores dos positivos dos trabalhos de criação, de dramaturgia e de direção, chega à audiência do teatro graças aos dos atores.

O enorme carisma de João Velho
Robson Lima (Tito), João Manoel (Dan) e principalmente Isabela Quadros (Lila) apresentam ótimo trabalho de atuação, contribuindo aos méritos do espetáculo sobretudo em termos de canto e de dança. Bárbara Ferr e Rodrigo Drade, na viabilização de diversos personagens menores, vão ainda além por defender um conjunto grande de pequenas figuras com elogiável profissionalismo. O trio, mas principalmente a dupla de intérpretes elevam a qualidade do trabalho como um todo positivamente, valendo destacar o modo como empregam grande repertório de marcas expressivas na construção de uma narrativa cênica que, dentro da proposta, vai muito a contento.

João Velho (Bita), com enorme carisma tantas vezes destacado, aqui recebe contínuos parabéns. Com delicadeza, o ator agrega ao texto uma dose de complexidade que ele talvez não tenha, buscando incluir o público adulto nos conflitos mais profundos das situações dentro dos limites a que o contexto parece ter se proposto. Em outras palavras, a atuação de Velho deixa ver a problemática do personagem título na busca por salvar seu mundo, providenciando de sobra uma melhora na Terra, sempre percebendo a importância do feito e também suas dificuldades.

Um mundo melhor
“Bita e a imaginação que sumiu” se constrói a partir de belos efeitos dados a ver através da direção de arte de Clívia Cohen e da iluminação de Russinho, mas também da direção de movimento de Renato Linhares e da preparação vocal de Pedro Lima. Quase sem fazer uso de tecidos estampados, em preferência a quadros lisos e de cores fortes, o panorama aproxima o palco das versões da narrativa para outros contextos artísticos visuais, como as ilustrações nos livros e os vídeos na internet. A opção se define como voltada ao público de idade mais tenra, interessado nas paletas menos complicadas e mais chamativas. Assim, talvez, permita a mais rápida identificação de quem vá ver a peça já conhecendo os personagens de antes dela.

As canções de Chaps Melo, todas elas composições originais do personagem, divertem as crianças que, já apropriadas dos personagens antes da peça, cantam ao longo do espetáculo. “Bita e a imaginação que sumiu”, por tudo isso, acaba sendo uma festa onde todos se divertem, aprendem e redescobrem o prazer de lutar por um mundo melhor.

*

Ficha técnica:

Texto: João Henrique Souza

Músicas: Chaps Melo

Direção Artística: Alessandra Colasanti

Produtores Associados: Bianca de Felippes e Gabriel Bortolini



Elenco:

Bárbara Ferr

Isabela Quadros

João Manoel

João Velho

Robson Lima

Rodrigo Drade



Direção de Arte: Clívia Cohen

Direção Vocal: Pedro Lima

Direção de Movimento: Renato Linhares

Iluminação: Russinho



Assistente de Direção: Lorena Morais

Visagismo: Auri Alex Mota

Sonoplastia: Roberto Silva

Direção de Cena: Lucia Martinusso

Programação visual: Leonardo Gomez

Produção Executiva: Marcela Epprecht

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Desesperados (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação


Pedroca Monteiro, Marcus Majella e Pablo Sanábio

Deliciosa comédia

“Desesperados” é a nova ótima comédia dirigida por João Fonseca. Escrita por Fernando Ceylão, ela narra as desventuras de Bia e de Marcondes em dias preenchidos por mais de quatro dezenas de outros personagens tão desesperados quanto eles. Marcus Majella, Pablo Sanábio e Pedroca Monteiro, esse último indicado ao Prêmio APTR de Melhor Ator Coadjuvante de 2016, estão no elenco em atuações engraçadíssimas que revelam, além disso, suas vastas variedades expressivas aqui disponíveis. A peça estreou na última sexta-feira, dia 17 de fevereiro, no Teatro Abel, em Niteroi (RJ), e segue para Americana (SP), Manaus (AM) e para outras cidades desse enorme Brasil nas próximas semanas.


Ótimo texto de Fernando Ceylão
São várias histórias paralelas justapostas que, talvez, se encontram de alguma forma na excelência do texto de Fernando Ceylão. Cheia de problemas familiares, a designer Bia (Pablo Sanábio) levou um fora do namorado na mesma época em que foi demitida e agora está inconsolável. Em outra região da cidade, em uma noite, o antigo brigão da escola Marcondes (Marcus Majella) esbarra com Ricardo (Pedroca Monteiro), uma de suas vítimas e por ele se apaixona. Só que Ricardo é hétero e, no momento, está tentando oxigenar seu casamento, obtendo novas fontes de renda. O público acompanha, ao longo da narrativa, as desgraças nas vidas desses personagens e de muitos outros em volta deles.

Com maestria, Ceylão emparelha inúmeras anedotas, permitindo que, aos poucos, o público estabeleça (ou perceba) relações muito sensíveis entre elas. Lá pelas tantas, o emaranhado é tão grande que, no melhor momento da dramaturgia, a narrativa ultrapassa seus limites e invade a linguagem. Quem assistir descobrirá uma “rebelião” do conteúdo sobre a forma, expondo de modo interessantíssimo o quanto esses dois pontos de vista estão misturados.

João Fonseca e os outros méritos da produção
A direção de João Fonseca, contribuindo com a proposta do texto, faz com que o jogo entre os atores na encenação assuma o seu protagonismo no argumento. Os três atores – Sanábio, Majella e Monteiro – dão vida aos mais de quarenta personagens de “Desesperados” por meio de composições corporais e vocais, mas essas são bastante ajudadas por um elemento cenográfico: placas com indicações verbais das figuras interpretadas e dos objetos participantes. Durante o espetáculo, os intérpretes colam (e descolam) no próprio corpo palavras que, em primeiro momento, ajudam o público a compreender a evolução dos quadros, mas depois se tornam o próprio quadro. O ritmo é exuberante em mais uma meritosa direção de Fonseca.

O cenário de Daniel de Jesus cumpre movimento similar às placas na construção do sentido de “Desesperados”. Inúmeras mesas e cadeiras de plástico vermelhas, compondo um fundo e invadindo o palco na composição das cenas, ajudam a destacar os personagens vestidos de preto em panorama essencialmente da mesma cor. Porém, elas dão a ver uma espécie de teia em que os inúmeros personagens estão envolvidos, essa um sistema que, mesmo fora da ficção, é capaz de fazer todos se desesperar. Consequentemente, o cenário assim aponta o heroísmo de quem mantém a sanidade em meio ao caos. A peça tem figurino da Reserva, luz de Daniela Sanchez e trilha sonora de Carol Portes, essa que assina também a assistência de direção. Vale destacar a coreografia de Clara da Costa em uma deliciosa brincadeira dessa peça com o filme “La La Land”.

Os três intérpretes oferecem ótimas atuações, valorizando as intenções, o jogo da comédia, o fluxo cheio de quebras da narrativa e sobretudo o vibrante diálogo com o público. Cheio de carisma, o trio traz a atenção da audiência e a sustenta ao longo de toda a sessão de modo elogiável. Sai-se do teatro, levando para casa seus personagens favoritos e suas piadas preferidas, o que marca o alcance do objetivo com sucesso na defesa de valores estéticos.

Um viva para a boa comédia
Talvez um dos resquícios de nosso longo período de colonização seja o pouco apreço que damos às comédias apesar desse ser nosso gênero preferido na hora de escolher ao que assistir seja no televisão, no cinema ou no teatro. Por que quase nunca as narrativas cômicas são indicadas a prêmios e os intérpretes que mais frequentemente se envolvem com esse tipo de composição são pouco valorizados? Nosso país - tão célebre pelo seu carnaval, capaz até mesmo de fazer piada com suas piores desgraças - deveria “sair do armário” e assumir aquilo que mais espontaneamente leva o nosso aplauso. Vale a pena aplaudir “Desesperados” e se divertir com esse trabalho da Gargalho e da Chaim Produções. Vida longa!

*

FICHA TÉCNICA
Texto e Concepção: Fernando Ceylão
Direção: João Fonseca
Assistente de Direção: Carol Portes

Elenco:
Marcus Majella - Marcondes / Leila / Marcia / Strip / Ladrao / advogado / Dependente 1 / Chefe
Pablo Sanábio - Bia / Advogado / Strip / Amigo / Dependente 3 / TV Divã/ Diretor / Ladrao / Mente de Ricardo / Garçons / Uber
Pedroca Monteiro - Ricardo / Monica / Marcondes ideal / Amigo / Crispim / Daniel / Renato / Polícia / Manicure / Cabeleireiro

Cenário: Daniel de Jesus
Trilha Sonora: Carol Portes
Figurino: Reserva
Iluminação: Daniela Sanchez
Coreógrafa: Clara da Costa
Música da Bia: Tony Lucchesi
Operador de luz: Rayner Basilio
Operador de Luz e Contrarregra: Tallys Moreno
Produção Executiva: Arthur Monteiro
Produção Geral: Sandro Chaim
Idealização: Marcus Majella e Pablo Sanábio
Realização: Gargalho Produções e Chaim Produções

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Egotrip (BA)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação

Rafael Medrado, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e Alexandre Moreira


Ótima comédia de João Sanches

“Egotrip - Ser ou não ser? Eis a comédia” é o quinto espetáculo do grupo soteropolitano Tribo. A comédia narra a aventura de quatro amigos que saem de Salvador e viajam pelo interior da Bahia em busca de um anel de nobreza que um deles teria herdado de seus parentes portugueses. Enquanto se diverte, o público vê nascer dentro de si a saudade das amizades antigas e dos relacionamentos duradouros, esses que ajudam a enfrentar o futuro. Escrita e dirigida por João Sanches, a peça é interpretada por Alexandre Moreira, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e por Rafael Medrado, todos eles em excelentes interpretações. Ao vivo, Leonardo Bittencourt participa com a trilha sonora. A produção fica em cartaz até 19 de fevereiro no Teatro do Sesi, no bairro Rio Vermelho, na zona sul da capital baiana.


Aventuras pelo interior da Bahia
Rafael (Rafael Medrado) está às portas do casamento com sua antiga namorada quando descobre que seu pai herdou de seus familiares portugueses um anel de nobreza. A notícia vem com uma revelação estarrecedora: por desvalorizar o objeto, o tal foi dado a um primo distante. Rafael quer o anel e, sem contar nada para a noiva, combina de empreender com seus dois melhores amigos – o coxinha Alexandre (Alexandre Moreira) e o marxista Jarbas (Jarbas Oliver) – uma rápida viagem até Morro do Chapéu, cidade onde mora o referido parente. O que deveria durar um simples pernoite acaba por levar bem mais tempo que isso.

Os problemas do trio começam quando Galego (Igor Epifânio) surge no meio de uma rodovia e é atropelado pelo carro de Rafael. Ao levá-lo para o hospital, o automóvel é roubado e, por causa disso, todos vão parar em Bom Jesus da Lapa, a oitocentos quilômetros de Salvador. A mudança na rota acaba por incluir, entre outras coisas, um forró, uma velório, um duelo e um belo amanhecer em situações cheias de novos e engraçados personagens.

“Egotrip”, sem trocas de cenário e de figurino, tem uma encenação quase que inteiramente sustentada na composição de personagens pelo trabalho de corpo e de voz dos quatro atores. Seus méritos como intérpretes na viabilização da dramaturgia fazem ver os melhores valores do texto principalmente em termos do ótimo ritmo da narrativa. Em outras palavras, a análise da peça inicia pela contribuição de João Sanches, mas chega inevitavelmente a de Alexandre Moreira, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e de Rafael Medrado.

Uma ótima comédia de João Sanches
O texto começa, se estabelece e termina com simplicidade. O fato dos nomes dos personagens serem iguais aos primeiros nomes dos intérpretes e o modo como esses se apresentam para o público e dão início à narrativa já defendem o caráter da obra em sua abertura. Essa é uma peça sobre a amizade e sobre o valor das coisas simples apesar de, em superfície, falar de um anel de nobreza e se organizar a partir de mil aventuras insólitas. A dramaturgia de Sanches traz o problema a ser resolvido de modo muito claro, a curva dramática é repleta de pontos de virada bem tradicionais e o final, ainda que com uma pequena “barriguinha”, corresponde equilibradamente a todas as intenções possíveis. Em tudo, a comédia tem força.

A qualidade dos diálogos reclama e sustenta o interesse. O ritmo é ágil, as estruturas são inteligentes e os momentos são criativos. O texto de “Egotrip”, de um modo geral, é envolvente sobretudo pelas situações nas quais os personagens se veem envolvidos e pelas quais eles têm a oportunidade de se deixarem conhecer.

A encenação de cem minutos assinada pelo dramaturgo equilibra os valores dos personagens. Jarbas e Alexandre, nem de longe, são tão bem construídos no texto como Galego e como Rafael. Isso revela, como mais adiante se tratará, a qualidade da interpretação de Jarbas Oliver e de Alexandre Moreira, mas antes vale destacar o jogo proposto pela direção de João Sanches.

As cenas são articuladas de modo a esconder o que as divide, defendendo uma narrativa bem estruturada em um só fôlego. Além dos personagens principais, os atores interpretam os coadjuvantes. Diferente de todos, Isabel – a namorada de Rafael – ganha vida pelos quatro intérpretes ao longo da peça em uma proposta que auxilia na autorreferência do texto espetacular. Lá pelas tantas, há cinco personagens ao mesmo tempo em cena e, por causa disso, um deles deixa de ganhar corpo, mas permanece presente, acontecimento esse que deixa ver, de um lado, a coragem dos autores e, de outro, a habilidade do público em decodificar o discurso proposto. Em termos de dramaturgia bem como de direção, eis um grande trabalho de Sanches.

Não há destaques no cenário de Erick Saboya, Igor Souza e de Sanches e no figurino do diretor. Ambos elementos, assim como a iluminação de Alexandre Moreira e de Sanches (que é operada em cena pelos próprios intérpretes), colaboram com o ótimo ritmo da narrativa por não acrescentarem muitas novas informações relevantes.

Excelente conjunto de elenco
Alexandre Moreira (Alexandre), Igor Epifânio (Galego), Jarbas Oliver (Jarbas) e Rafael Medrado (Rafael) apresentam, em conjunto, excelentes contribuições, mas seus méritos se fazem ver por motivos diferentes. Moreira e Oliver partem de protagonistas não tão bem construídos pela dramaturgia, como já se disse. Pelo texto, quase não se sabe qualquer coisa sobre seus Alexandre e Jarbas a não ser que são opostos politicamente e de orientações sexuais diferentes (um é homossexual e o outro heterossexual). No entanto, as colaborações dos atores acabam por ser tão carismáticas quanto a dos demais, o que, consideradas as dificuldades iniciais, é um feito destacável.

A verdade sobre o passado do Galego de Igor Epifânio nutre o terceiro quarto da narrativa, o que faz desse personagem até aí e durante esse momento uma figura muito interessante desde a dramaturgia. Porém, o modo como o ator participa de “Egotrip” com sua versão de Isabel e com o pai de Joaquim (o tio do pai de Rafael) é brilhante. Essas são figuras inesquecíveis no espetáculo, sem dúvida.

Rafael Medrado é o protagonista na dramaturgia por ser em torno de quem toda a narrativa acontece. De um jeito muito sutil, pouco a pouco, o intérprete vai deixando ver que há um conflito interno por trás de seu personagem capaz de driblar a aparente superficialidade inicial de sua figura. O público acaba por ser convidado a torcer por uma reviravolta em sua vida, o que aproxima ainda mais a audiência da história. Com menos desafios em termos de variedade de composições – pois Medrado praticamente interpreta o mesmo personagem durante a peça inteira –, o ator teve mais chances de aprofundar seu material, aproveitando todas elas elogiosamente. É por isso também um ótimo trabalho.

O quadro de “Egotrip” se completa com a participação de Leonardo Bittencourt que permanece visível no fundo do palco ao longo de toda a apresentação. Discreto, mas participativo, sua presença, além de ser outro sinal da fluência linguística da encenação, colabora por manter firme o diálogo proposto pela peça na abertura. Em termos de direção musical, o trabalho de Bittencourt é responsável por ótimos efeitos cômicos além dos méritos em termos de ritmo do conjunto como um todo.

Grupo Tribo em seu 12o ano de trabalho
“Egotrip - Ser ou não ser? Eis a comédia” estreou no início de julho de 2016 e acumula até agora indicações ao Prêmio Braskem de Teatro Baiano de Melhor Texto, Melhor Direção e de Melhor Ator (Igor Epifânio). Os vencedores serão conhecidos em abril de 2017. Vale ver o espetáculo para também torcer por eles nessa seleção, mas principalmente pelo contínuo trabalho desse grupo de artistas tão valoroso. Aplausos.


*

Ficha Técnica:
Texto e Encenação: João Sanches
Elenco: Alexandre Moreira, Igor Epifânio, Jarbas Oliver e Rafael Medrado
Trilha musical ao vivo: Leonardo Bittencourt
Figurino: João Sanches
Cenário: João Sanches, Erick Saboya e Igor Souza
Iluminação: João Sanches e Alexandre Moreira
Produção: Wanderley Meira e Carambola Produções

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Indicados ao Prêmio APTR de Teatro 2016



Indicados ao Prêmio APTR de Teatro 2016


Vinte e dois espetáculos receberam indicações ao Prêmio APTR de Teatro por suas temporadas em 2016 na grade de programação carioca. “Dorotéia”, “Nós”, “O camareiro”, Os realistas” e “Se eu fosse Iracema” receberam três nominações cada um. Os líderes na lista são “Auê”, “Gritos” e “Os cadernos de Kindzu” com quatro indicações cada. O prêmio está previsto para ser entregue em abril de 2017. Veja abaixo a lista completa dos indicados.

Melhor FIGURINO
· Beth Filipeck e Renaldo Machado por “O camareiro”
· Carol Lobato por “Cinderella”
· Kika Lopes por “Auê”
· Lulu Areal por “Dorotéia”
· Marina Reis por “Galileu Galilei”

Melhor CENOGRAFIA
· Andre Cortez por “O camareiro”
· Daniela Thomas e Camila Schmidt por “Os realistas”
· Fernando Mello da Costa e Estúdio Radiográfico por “Céus”
· José Dias por “Dorotéia”
· Márcio Medina por “Galileu Galilei”

Melhor MÚSICA
· Alfredo Del-Penho e Beto Lemos por “Auê”
· Beto Lemos e Marcello H. por “Gritos”
· Luciano Moreira e Felipe Vidal por “Cabeça – um documentário cênico”
· Nando Duarte por “Gilberto Gil, Aquele abraço – O musical”
· Stephane Brodt por “Os cadernos de Kindzu”

Melhor ILUMINAÇÃO
· Artur Luanda Ribeiro e Hugo Mercier por “Gritos”
· Beto Bruel por “Os realistas”
· Jorge Farjalla, Patrícia Ferraz e José Dias por “Dorotéia”
· Maneco Quinderé por “O como e o porquê”

Melhor ATRIZ em papel PROTAGONISTA
· Adassa Martins por “Se eu fosse Iracema”
· Claudia Mauro por “A vida passou por aqui”
· Debora Bloch por “Os realistas”
· Julia Lund por “Amor em dois atos”
· Laila Garin por “Gota d`água [a seco]”
· Suzana Faini por “O como e o porquê”

Melhor ATRIZ em papel COADJUVANTE
· Clara Carvalho por “Anti-Nelson Rodrigues”
· Juliana Guimarães por “Sucesso”
· Luciana Lopes por “Os cadernos de Kindzu”
· Lydia del Picchia por “Nós”

Melhor ATOR em papel PROTAGONISTA
· Kiko Mascarenhas por “O camareiro”
· Marcos Caruso por “O escândalo Philippe Dussaert”
· Otto Jr. por ”Amor em dois atos”
· Zécarlos Machado por “Gata em telhado de zinco quente”

Melhor ATOR em papel COADJUVANTE
· Ary França por “Galileu Galilei”
· Gustavo Damasceno por “Os cadernos de Kindzu”
· Pedroca Monteiro por “Sucesso”
· Stephane Brodt por “Os cadernos de Kindzu”

Melhor AUTOR
· Claudia Mauro por “A vida passou por aqui”
· Felipe Vidal por “Cabeça - um documentário cênico”
· Fernando Marques por “Se eu fosse Iracema”
· Grace Passô por “Vaga carne”

Melhor DIREÇÃO
· Aderbal Freire-Filho por “A paz perpétua”
· Artur Luanda Ribeiro e André Curti por “Gritos”
· Duda Maia por “Auê”
· Márcio Abreu por “Nós”

Melhor ESPETÁCULO
· “A paz perpétua” da Somar Produções Artísticas
· “Auê” da Barca dos Corações Partidos
· “Gritos” da Cia. Dos à Deux
· “Nós” do Grupo Galpão

Categoria ESPECIAL
· César Augusto pela multiplicidade de ações artísticas
· Eduardo Rieche pelo lançamento do livro “Yara Amaral, a operária do teatro”
· Flávio Marinho pelo lançamento do livro “Teatro é o melhor programa”
· Rio Diversidade
· Wolf Maia pela construção do Teatro Nathalia Timberg.

Os jurados foram Beatriz Radunski, Daniel Schenker, Lionel Fischer, Luiz Felipe Reis, Macksen Luiz, Rafael Teixeira, Rodrigo Fonseca, Rodrigo Monteiro e Tânia Brandão.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

60! Década de Arromba – Doc. Musical (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação

Wanderléa e elenco em cena


Oportunidade rica para lembrar de uma década e para aplaudir Wanderléa

Dentro do que se propõe, “60! Década de Arromba – Doc. Musical” é um ótimo espetáculo. A produção é dirigida por Frederico Reder e tem roteiro assinado por Marcos Nauer. Tony Lucchesi assina a direção musical, Victor Maia as coreografias e o figurino é de Bruno Perlatto. O elenco formado por vinte e três atores-cantores-bailarinos é complementado por Wanderléa, a estrela da Jovem da Guarda que, não fossem os vários outros méritos da produção, valeria o aplauso sozinha aqui. O título, o programa e o material de divulgação deixam claro ao público o que esperar da peça. Trata-se de um documentário musical dos anos 60, um apanhado das canções nacionais e internacionais que, a partir do Brasil, marcaram a época. Com base nessa perspectiva, é possível encontrar os pontos positivos e os negativos da produção. Porque são bem menos numerosos, comecemos por aquilo que não foi tão bom para depois chegar ao principal. Fica em cartaz no Theatro Net Rio, em Copacabana, até 19 de fevereiro.

A força dos Estados Unidos na década
A dramaturgia de Marcos Nauer é superficial demais. O roteiro é uma casca sem qualquer aprofundamento organizado única e exclusivamente para emoldurar espaço para outros elementos da encenação. Dispostos cronologicamente, há dez quadros no total, um para cada ano da década. O primeiro ato vai de 1960 a 1965 e o segundo de 1966 a 1969. Nauer aparentemente evita tomar partido, não oferecendo qualquer opinião, limitando-se a dividir as canções dentro dos blocos e desaparecendo logo em seguida. 

Sobre esse aspecto da proposta, é preciso levantar algumas questões. A primeira dela diz respeito às justificativas do fato. O valor que costumeiramente se dá aos anos 60 é mérito ( ?) dos Estados Unidos e ratificar essa celebração é oferecer provas, antes de tudo, do quanto fomos (ou somos) colonizados. Nessa época, a Guerra Fria chegou ao auge, separando o mundo nos lados capitalista e socialista. A década iniciou após a Revolução Cubana, começou com a construção do Muro de Berlin, avançou pelas ditaduras militares na América Latina e terminou com o início do Guerra do Vietnã. Para os Estados Unidos, centro do mundo comercial, exportar o quão bom era ser americano era mais importante do que jamais tinha sido.

No Brasil, através do consulado americano, construíam-se escolas, estradas e indústrias. O governo yankee patrocinava aqui a tecnologia militar e a mídia, polarizando a política de modo brutal. Nas eleições presidenciais de 60, com o apoio do ultrarreacionário Carlos Lacerda (Governador do Estado da Guanabara), Jânio Quadros venceu contra o Marechal Teixeira Lott, mas seu vice Milton Campos perdeu. Na época, votava-se em separado para presidente e para vice. João Goulart, que tinha sido o vice de Jucelino Kubitschek, se tornou também vice de Jânio, esse que, ao longo do primeiro semestre de 1961, foi se tornando cada vez mais esquerdista para o horror de Lacerda (e dos Estados Unidos).

Em agosto daquele ano, Lacerda declarou na TV Excelsior – emissora que tinha iniciado suas atividades com incentivo americano pela tecnologia do videotape – que Jânio queria fechar o congresso nacional e isso levou o presidente à renúncia no dia seguinte. Os ministros militares, que já haviam tentado dar um golpe de estado na ocasião do suicídio de Getúlio Vargas, tentaram mais uma vez, mas foram impedidos pelo Movimento da Legalidade, protagonizado por Leonel Brizola. Sob regime parlamentarista, Jango assumiu o Palácio do Planalto tendo Tancredo Neves como Primeiro Ministro. Em 1963, através de um plebiscito, o povo escolheu voltar ao sistema de governo anterior, o presidencialismo. Um ano depois, em março, deu-se outra tentativa de golpe, dessa vez com sucesso. Os Estados Unidos varriam do país a esquerda. Em 1954, o mesmo tinha acontecido no Paraguai. Em 1966, aconteceu na Argentina. Em 1968, no Peru. Em 1971, no Uruguai e na Bolívia. Em 1972, no Equador. Em 1973, no Chile.

A música, as roupas, os comportamentos no mundo mudavam. Iniciado em 1962, o Concílio Vaticano II terminou em 1965, abolindo as missas em latim, colocando, no mundo todo, os padres de frente para as pessoas na missa e autorizando o uso de roupas convencionais para todos os religiosos. A minissaia, o biquíni, o rock`n`roll inspiravam uma sociedade mais livre do preconceito de raça, de gênero, de orientação sexual e de religião. Pregando a liberdade de um lado e espalhando a ditadura de outro, os Estados Unidos venceram por aqui nessa década tão controversa.

No roteiro de “60! Década de Arromba”, Marcos Nauer não comenta qualquer dessas questões. Em lugar disso, empilha fatos como o lançamento das bonecas Barbie, Ken e Christie; as mortes de Marilyn Monroe, Edith Piaf e Ary Barroso, dentre outros; a conquista da Lua; os lançamentos de filmes de sucesso; e a explosão da Bossa Nova, da Jovem Guarda e da Tropicália. A aparentemente despretensiosa listagem de inúmeros eventos da década acaba, pela escolha de uns e não de outros, expressando uma opinião. E qual é ela? A de que somos todos impregnados do consumo cultural dos produtos principalmente americanos. E esse, pelo tamanho enorme da seleção feita – a peça dura mais de três horas – se torna o maior mérito do todo de seu trabalho como dramaturgo aqui. E talvez o único.

Dentre vários aspectos positivos, os figurinos de Bruno Perlatto são excelentes!
A partir do roteiro, “60! Década de Arromba” surge como um produto de simples entretenimento a partir das excelentes contribuições da direção musical de Tony Lucchesi, das coreografias de Victor Maia, dos figurinos de Bruno Perlatto, mas também do cenário de Natália Lana, da luz de Daniela Sanchez, do vidografismo de Thiago Stauffer / Studio Prime e sobretudo de alguns trabalhos de interpretação. No todo da obra, vê-se facilmente o bom trabalho da direção de Frederico Reder assistido por Alessandra Brantes.

Tony Lucchesi dá unidade para material tão diverso, vasto e rico em um dos seus melhores trabalhos de sua carreira. Ao longo de toda a extensão da peça, o repertório imenso se desenvolve com vibrante fluidez de modo que as horas passam voando no oferecimento de uma estrutura espetacular divertida e bem defendida pelos dez músicos ao vivo no palco, pelos técnicos (o desenho de som é assinado por Talita Kuroda e por Thiago Chaves) e principalmente pelos atores em seu conjunto. Victor Maia, cada vez melhor como coreógrafo, brilha ao seu lado em números cheios de méritos em que se destacam os quadros das bonecas Barbie, Ken e Christie. Com excelência, as cenas oferecem motivo de êxtase para o público, que se diverte enquanto vê o ótimo desempenho dos intérpretes em dar vida aos seus intentos complicados e belos.

São também bastante positivas as colaborações do cenário assinado por Natália Lana, esse composto por inúmeros objetos reais da época que surgem em cena trazendo viva a década de cinquenta anos atrás. Vê-se extremo bom gosto em todas as escolhas e também quanto ao seu uso no palco. E fora dele também, pois, na moldura do palco, há vários objetos fixados na parede explorando o consumismo da época retratado pela dramaturgia. A luz de Daniela Sanchez e o videografismo de Thiago Stauffer / Studio Prime participam do ótimo ritmo com protagonismo a que se deve aplaudir sem exceção. No entanto, são os figurinos de Bruno Perlatto o ponto mais alto dos signos estéticos de “60! Década de Arromba”.

É difícil descrever o tamanho do mérito dos figurinos de Bruno Perlatto em “60! Década de Arromba”. O guarda-roupa é imenso, porque o espetáculo é longo e o elenco numeroso, mas, em nenhum momento, se vê economia nem em termos de pesquisa, nem em termos de realização. Cada peça é cheia de detalhes, esses compõem vários todos que juntos elevam para altíssimos níveis o valor estético da obra. Podem-se destacar os quadros dos calangos na inauguração de Brasília, do incêndio do circo em Niterói, “Hair”, “Tropicália”, da cena final e as roupas usadas por Wanderléa, mas há que se dizer que todos são excelentes. Perucas, sapatos, gravatas, além dos belíssimos vestidos, cada detalhe há que ser visto com atenção e efusivamente aplaudido.

A oportunidade de ver Wanderléa
No que diz respeito às interpretações, vale dizer de início que tratam-se de desempenhos em termos de canto e de dança essencialmente, pois não há, no melhor sentido do termo, construção de personagens. Contando Wanderléa, são vinte e três pessoas no elenco e, nesse grupo, valem algumas menções. Erika Affonso e Marcelo Ferrari apresentam trabalhos muito bons ao lado de Matheus Ribeiro, de Leo Araújo, de Julie que estão ótimos e principalmente de Cássia Raquel que está excelente! Rodrigo Naice e Tauã Delmiro, nas figuras mais cômicas, são bastante carismáticos e se destacam no todo pelo modo como aproximam o público também. É um prazer reencontrar boa parte desse grupo numeroso - e conhecer a outra parte – para lembrar do quão potente está o nosso teatro musical no que se refere ao talento dos nossos intérpretes. Cantam e dançam lindamente!

Wanderléa, que em 2016 completou 70 anos de vida e 56 de carreira, é uma estrela capaz de fisgar a atenção e de manter o sorriso aberto. Belíssima, ela surge no fim do primeiro ato e faz diversas aparições ao longo do segundo, cantando e fazendo o público cantar também com ela. Suas primeiras gravações datam de 1962 e, ao fim dos anos 60, ela já era uma artista famosa em rede nacional, sucesso mantido ao longo das décadas. Vale a pena assistir a “60! Década de Arromba” também pela oportunidade de vê-la.

Não há, no Rio de Janeiro, equipe receptiva tão qualificada quanto a do Theatro Net Rio. Tudo lá parece servir ao público, ao seu prazer, à sua confortabilidade, ao seu bem. Da compra dos ingressos à recepção, da higiene à qualidade dos serviços de copa e de banheiros, do bom gosto no interior do teatro ao cuidado na saída da sessão, tudo é feito com delicadeza, afinco, elegância e gentileza. Sem dúvida, essas questões são motivos que explicam parte do sucesso das produções que lá estão em cartaz. No caso de “60! Década de Arromba – Doc. Musical”, dirigido por Frederico Reder, um dos administradores do teatro, os méritos do espaço se confundem com os méritos do espetáculo destacados acima e juntos eles oferecem uma ótima noite. Aplausos!

*

FICHA TÉCNICA:

Roteiro e Pesquisa: Marcos Nauer

Direção: Frederico Reder

Direção Musical: Tony Lucchesi

Elenco: Wanderléa, Amanda Döring, André Sigom, Bel Lima, Cássia Raquel, Deborah Marins, Erika Affonso, Fabiana Tolentino, Giu Mallen,

Jade Salim, Jullie, Leandro Massaferri, Leo Araujo, Marcelo Ferrari, Mateus Ribeiro, Pedro Arrais, Rachel Cristina, Raphael Rossatto, Rodrigo Morura, Rodrigo Naice, Rodrigo Serphan, Rosana Chayin, Tauã Delmiro

Coreografia: Victor Maia

Figurino: Bruno Perlatto

Cenário: Natália Lana

Iluminação: Daniela Sanchez

Diretora Assistente: Alessandra Brantes

Videografismo cenário: Thiago Stauffer

Desenho de Som: Talita Kuroda e Thiago Chaves

Direção de Produção: Juliana Reder e Frederico Reder

Produtores Associados: Tadeu Aguiar e Eduardo Bakr

Produtor Executivo: Leandro Bispo

Produtor Assistente: Allan Fernando

Estagiária de Produção: Joelma Di Paula

Diretor Executivo: Léo Delgado

Gerente de Marketing: Mauricio Tavares

Direção de Arte: Barbara Lana

Assistente de Direção Musical: Alexandre Queiroz

Operador de Som: Talita Kuroda e Thiago Chaves

Figurinista Assistente: Teresa Abreu

Assistente de Figurino: Karoline Mesquita

Estagiária de Figurinista: Tayane Zille

Estagiária de Figurinista: Jemima Oliveira

Estagiária de Figurinista: Gabriela Silva Fernandes

Coreógrafa Assistente: Clara Costa

Dance Captain: Rodrigo Morura

Cenógrafa Assistente: Marieta Spada

Assistente de Cenografia: Guilherme Ribeiro

Camarins: Vivi Rocha e Kaká Silva

Gritos (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: divulgação




O espetáculo mais inspirador de 2016

“Gritos”, a nova peça da Cia. Dos à Deux, é o espetáculo mais inspirador de 2016 no Rio de Janeiro e está em cartaz até o próximo dia 16. André Curti e Artur Luanda Ribeiro apresentam aqui três poemas gestuais metafóricos em um todo sem falas preparado para atingir todos os públicos e oferecer uma obra estética de primeiríssima grandeza. A peça, que estreou em 17 de novembro, está em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil, no centro da cidade, e depois seguirá para Brasília, São Paulo e Belo Horizonte. É correr para ver!

"Alta arte"
A primeira coisa que se deve dizer a respeito de “Gritos” é que, ao sair do teatro, se sabe ter estado diante de uma obra de “alta arte”. O termo é horroroso, porque pressupõe – de modo grosseiro – uma arte menor. Então, é preciso descrevê-lo. O novo espetáculo da Dos à Deux, como foi com “Irmão de Sangue” no ano passado, está além das perspectivas. O modo como os signos que estruturam o espetáculo estão dispostos é tão esteticamente explosivo que, nos lugares em que a conexão talvez não seja possível de ser identificada, reconhece-se mesmo assim seu brilhantismo. Porque rico demais, torna-se a peça a melhor imagem para descrever o adjetivo “inspirador”. 

A dramaturgia se organiza em três quadros. Seus títulos são: “Louise e a velha mãe”, “O muro” e “Amor em tempos de guerra”. O primeiro traz uma transexual que mora com a mãe, essa última imobilizada em um cadeira e, por isso, totalmente dependente. A relação entre as duas revela o preconceito, o desgosto, a mágoa que habita nelas. O segundo é uma imagem surrealista de um homem cuja cabeça está separada do corpo, ambas as partes presas apesar da liberdade. O terceiro apresenta o ponto de vista de uma mulher do islã a respeito dos homens do seu mundo: a feminilidade e a maternidade em meio a necessidade de sobrevivência na guerra social e religiosa que se vive.

Com exceção de um brevíssimo momento em que há uma voz em off, não há diálogos verbais ao longo de todo o espetáculo. Isto é, o verbo não é usado enquanto signo estruturante da linguagem. No entanto, de modo vibrante, os personagens conversam entre si e consigo mesmos durante toda a peça, dando a ver diferentes contextos narrativos e poéticos capazes de viabilizar o discurso espetacular, como já disse, com grande potência.

O visual é um dos aspectos mais relevantes e essa é a segunda questão que precisa ser dita sobre “Gritos”. O modo como o cenário, a luz e a movimentação dos atores acontecem no palco parece ter sido organizado pelas regras renascentistas da perspectiva pelo excesso de triangulação entre o fundo e o público. Isso pauta um ponto de vista muito específico sobre o papel do olhar do espectador na fruição da obra. Talvez, com isso, a Dos à Deux queira humanizar o contexto, dizendo que tudo o que está em cena só pode ser compreendido a partir do homem e jamais de forma fria e mecanizada.

Da manipulação de bonecos como extensão dos corpos dos atores ao movimento dos objetos cênicos na espacialização dos ambientes, a tridimensionalidade normal do teatro ganha aqui uma aparência rara que é belíssima. A cenografia é assinada pela dupla de realizadores Ribeiro e Curti e eles tiveram a colaboração da marionetista russa Natacha Belova e do brasileiro Bruno Dante. André e Artur tiveram partes dos seus corpos – cabeça, mãos, pés e braços – esculpidos com gesso e depois trabalhados em diferentes materiais. Os figurinos dos atores e dos bonecos são assinados por Thanara Schonardie.

O belíssimo desenho de luz é assinado por Ribeiro e por Hugo Mercier. Sobre esse ponto, vale dizer que aqui a luz não apenas ilumina, mas “em-cena” todo quadro, isto é, contextualiza os contornos, as profundidades, as formas de tudo através do quê se vê a peça, tornando os signos outras coisas, multiplicando com isso suas potencialidades significativas brilhantemente.

O som é ainda mais um espetáculo à parte. Em primeiro nível, estão a criação musical de Beto Lemos e a trilha sonora de Marcello H. É um trabalho vibrante, que envolve as narrativas sem tomar o lugar delas, elevando a qualidade estética já altíssima da obra. Em segundo nível, estão as respirações dos bonecos inanimados, as vozes das conversas não ouvidas e principalmente os gritos jamais proferidos, esses que dão nome ao texto. O jeito como os atores, a mobilização dos objetos e a luz constroem a sensação do som é o mais interessante dessa produção.

Capaz de alimentar o público por muito tempo
André Curti e Artur Luanda Ribeiro apresentam um belíssimo trabalho de corpo na interpretação dos seus personagens. Seus gestos são minuciosos na construção de cada imagem, construindo um todo delicado, sensível e tocante. Das expressões mais pequenas aos movimentos mais largos, seu balanço se estende a tudo aquilo que está no palco ao seu lado - os bonecos, os objetos, a luz -, tornando todas as coisas, para além do cênico, em material poético de primeira grandeza. Excelente!

“Gritos” é uma daquelas obras capaz de alimentar o público em termos de estética por muito tempo. É um privilégio enorme assistir-lhe! Aplausos efusivos e gritos de Bravo!

*

FICHA TÉCNICA

Espetáculo: Gritos

Concepção, dramaturgia, cenografia e direção: Artur Luanda Ribeiro e André Curti

Interpretação: Artur Luanda Ribeiro e André Curti

Criação e realização objetos/bonecos: Natacha Belova e Bruno Dante

Criação Musical: Beto Lemos

Trilha sonora: Marcelo H

Cenotécnico: Jesse Natan

Iluminação: Artur Luanda Ribeiro e Hugo Mercier

Programaçao visual: Bruno Dante

Realização próteses: Dra. Rita Guimarães

Produção Brasil: Sergio Saboya - Galharufa

Produção executiva: Ana Casalli e Ártemis

Difusão - França: Drôles de Dames
Fotos: Renato Mangolin

Vem buscar-me que ainda sou teu (RJ)

Curta nossa página no Facebook: www.facebook.com/criticateatral
Siga-nos no Instagram: @criticateatral
Foto: Danillo Sabino


Saulo Segretto, Fernanda Gabriela e Leonam Moraes


Saulo Segreto, Joana Mendes e Fernanda Gabriela no novo espetáculo do CEFTEM


“Vem buscar-me que ainda sou teu” é o novo espetáculo da turma de Prática de Montagem do CEFTEM, escola de musicais dirigida por Reiner Tenente. Dirigida por João Fonseca, a peça foi escrita pelo dramaturgo santista Carlos Alberto Soffredini (1939-2001) e, nessa versão, tem músicas originais de Tony Lucchesi. O texto é uma declaração de amor ao teatro. Na trama, uma companhia tem sua história confundida com a da peça que ela apresenta: “Coração Materno”, do português Alfredo Viviani. Saulo Segreto e Joana Mendes se destacam ao lado de Fernanda Gabriela em ótimas atuações. A produção fica em cartaz no Teatro Serrador, na Cinelândia, até o dia 12 de fevereiro.

O mérito de Tony Lucchesi
“Coração Materno” é uma peça radiofônica escrita por Alfredo Viviani em resposta ao sucesso da canção homônima do cantor carioca Vicente Celestino (1894-1968). A música, um dos últimos grandes sucessos desse que foi uma das maiores estrelas da música brasileira na primeira metade do século XX, foi baseada no poema “A canção de Maria dos Anjos, do francês Jean Richepin (1849-1926), que havia sido traduzido para o português por Guilherme de Almeida em 1936. Na letra, uma mulher pede ao seu amante, como prova de seu sentimento, o coração da mãe dele. Cego de paixão, o obstinado jovem comete matricídio, mas, no caminho até o encontro com a amada, tropeça e deixa cair o órgão. Nesse momento, a voz da mãe morta é ouvida. Ela perdoa o filho como sinal da devoção incondicional do amor materno. Além da peça de Viviani, a canção inspirou também um filme dirigido pela franco-brasileira Gilda de Abreu (1904-1979), atriz e cantora que foi, durante muito tempo, casada com Celestino. Essa diretora foi uma das primeiras mulheres a dirigir cinema no Brasil. “Coração materno”, que tinha Abreu e Celestino como protagonistas, foi lançado em 1951.

O texto de “Vem buscar-me que ainda sou teu” foi escrito entre 1978 e 1979 e a sua primeira versão teatral foi produzida pelo Grupo de Teatro Mambembe. A peça, que ficou em cartaz em São Paulo, foi dirigida pelo israelita-brasileiro Yacov Hillel e teve, como interpretação mais destacada, a de Rosi Campos no papel da vedete pseudo-argentina Amada Amanda.

A história se passa nos bastidores de uma companhia de circo-teatro em uma pequena cidade do Brasil. Ela é dirigida por Aleluia Simões, que luta bravamente pelo sustento de seus artistas e do seu negócio desde que herdou a lona dos seus pais. Ela é mãe de Campônio, que está cego de paixão pela ambiciosa Amada Amanda, uma das dançarinas do grupo. Um dia, a chegada da talentosa Cancionina Song e partida do sedutor Lologigo incendeiam a inveja de Amada, que estimula Campônio a matar Aleluia para deixar o caminho livre no comando da empresa. A dramaturgia, ao lado da de “Na carreira do divino”, também de Carlos Alberto Soffredini, ganhou os prêmios APCA, APETESP e MAMBEMBE de melhor texto na temporada de 1979. O crítico Sábado Magaldi elogiou o trabalho, mas apontou negativamente o excesso de melodrama nas curvas finais.

As canções originais de Tony Lucchesi são bonitas, mas pesam o ritmo da dramaturgia em vários momentos. Dividido em vinte e uma cenas, todas elas previamente anunciadas, o texto sofre pela previsibilidade. Toda vez que a narrativa já emperrada estanca para a entrada da música, o enredo parece ainda mais longo. Apesar disso, Lucchesi merece ter seu trabalho elogiado pelo valor de uma composição original que se dedica a uma história tão querida principalmente por quem gosta de teatro e reconhece o valor da arte popular.

Saulo Segreto, Joana Mendes e Fernanda Gabriela
A direção de João Fonseca valoriza o melhor do texto que é a homenagem dele ao teatro. Nos vários momentos em que o olhar do público atua como mais um personagem entre as figuras da narrativa de Soffredini, Fonseca impõe um diferencial sobre a expressão delas de modo que o que é passa a conviver com o que deve parecer e, no meio do caminho entre os dois, estão os conflitos maiores da trama. Com exceção dos personagens Virgínia e Brilhantina, todo mundo é ator ali e até mesmo esses dois tem sua história com o ato de atuar que modifica o seu caráter. Essa influência da arte cênica sobre a vida daqueles através de quem a história se dá aparece em “Vem buscar-me...” de modo muito sutil, elegante e meritoso.

Além dos problemas da participação das canções já apontados, o ritmo de “Vem buscar-me que ainda sou teu”, em alguns momentos, também sofre com intepretações ruins. A cena dos temperos, em que Soffredini homenageia a revista “Tim tim por tim tim”, de 1889, do português António de Sousa Bastos (1844-1911), é inteiramente defendida por atores que nem atuam bem, nem cantam bem nessa produção infelizmente. Quanto aos demais do elenco, Gabriel Querino (Lologigo Valadão) e Mariah Viamonte (Amada Amanda) têm bons momentos seguidos por Leonam Moraes (Ruy Canastra), Jeff Fernandéz (Brilhantina) e Sophia Dornellas (Cancionina Song) em melhores participações.

Há que se valorizar os entrechos em que não é a tensão que faz ver as melhores marcas interpretativas, mas a operação de sensibilidades. É ela que é capaz de oferecer verdade aqui, considerando que, embora elogie a farsa, essa peça não é um exemplo dela. Em outras palavras, os célebres personagens do teatro popular, como a Dama (Aleluia), a Cínica (Amada), a Ingênua (Cancionina), entre outros, são referências aqui para os quadros em que há um teatro dentro do teatro, mas esses não acontecem sempre nessa narrativa. É nesses que se veem os melhores trabalhos de interpretação: Saulo Segreto (Campônio), Joana Mendes (Dona Virgínia) e principalmente Fernanda Gabriela (Aleluia). Os dois primeiros apresentam ótimas atuações e a última, além disso, canta lindamente em toda as suas oportunidades. Segreto e Mendes se movimentam bem na farsa, mas, com habilidade, permitem igualmente que as partituras os mantenham aparentemente vivos. Gabriela nunca vai pra farsa, mas, considerando que essa é uma peça de teatro musical, sua voz a destaca ao mesmo tempo em que eleva os méritos do espetáculo como um todo.

Votos de uma longa carreira pela frente
Em “Vem buscar-me que ainda sou teu” há que se valorizar o figurino de Carol Lobato e o cenário de Nello Marrese como elementos bastante colaborativos ao espetáculo. O ambiente promove um misto de circo e de teatro de variedades e o guarda-roupa lida bem com o desafio de uma peça que às vezes está dentro de outra peça. As coreografias de Victor Maia e a iluminação de Luiz Paulo Nenén são sem grande destaque.

Para algumas pessoas do elenco, esse é o primeiro trabalho profissional. Qualquer coisa menos positiva que se aponte, por isso, deve ficar por trás do incentivo a quem há de ter uma longa carreira no futuro. Vale a pena ver “Vem buscar-me que ainda sou teu”, um famoso marco na dramaturgia brasileira contemporânea.

*

Ficha técnica:

Texto de Carlos Alberto Soffredini
Direção e Adaptação: João Fonseca
Direção Musical & Músicas originais: Tony Lucchesi
Coreografia: Victor Maia
Cenário: Nello Marrese
Figurino: Carol Lobato
Iluminação: Luiz Paulo Nenén

Elenco:
Fernanda Gabriela
Saulo Segreto
Leonam Moraes
Gabriel Querino
Mariah Viamonte
Jeff Fernandéz
Joana Mendes
Sophia Dornellas
Andressa Tristão
Bruno Rasa
Eduardo Barbuto
Ingrid Manzini
Gustavo Henrique
Luiz Felipe Carvalho

Banda:
Guilherme Borges
Victor Pires
Leonardo Fiuza
Carlos Bach
Patrick Grossman

Atores alternantes: Maíra Garrido, Augusto Volcato, Gabirel Leal, Murici Lima, Vitor Louzada, Yuri Izar, Hamilton Dias, Rhuan Santos, Marina Mota, Carol Baptista, Priscila Diniz e Tecca Ferreira

Assistente de direção: Pedro Pedruzzi
Preparação vocal e Assistente de direção musical: Maíra Garrido
Direção de produção: Reiner Tenente, Joana Mendes e Gabriel Querino
Produção Executiva: Gabriela Tavares e Tecca Ferreira
Idealização: João Fonseca e Reiner Tenente
Realização: CEFTEM