quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Doce pássaro da juventude (RJ)

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Foto: divulgação

Pierre Baitelli e Vera Fischer

Grande elenco em ótima montagem de clássico

“Doce pássaro da juventude” é uma ótima surpresa no teatro carioca no ano de 2017. A peça, escrita entre 1956 e 1959 pelo americano Tennessee Williams (1911-1983), é um clássico do teatro que é pouco montado no Brasil provavelmente pelo tamanho do elenco exigido: no original, são dez homens e seis mulheres. Com excelência, Vera Fischer e Pierre Baitelli protagonizam uma produção com mais oito pessoas no grupo, entre elas, Mario Borges e Ivone Hoffmann com Clara Garcia e Renato Kruger, esses últimos menos famosos que os primeiros mas, como eles, apresentando também belíssimos trabalhos de interpretação. Dirigida por Gilberto Gawronski, a ótima montagem ficou em cartaz entre 5 de outubro e 26 de novembro no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes no centro do Rio, e merece a espera por nova oportunidade de aplaudi-la.

Linda dramaturgia do autor de “Um bonde chamado desejo”
A narrativa se dá nos anos 50 quando a já aposentada estrela de cinema Alexandra del Lago, escondida sob o pseudônimo de Princesa Kosmonópolis, acorda em um hotel na pequena cidade de St. Cloud no centro do Estado da Flórida, no sul dos Estados Unidos. Ela foi levada até lá pelo jovem (e belo) Chance Wayne, de 29 anos, que ela conheceu em Palm Beach alguns dias antes quando ele lhe passava creme de mamão à beira d`água. Ele quer resgatar Celeste, sua antiga namorada da adolescência, e, com a ajuda da grande atriz decadente, conseguir uma “chance” para ambos em Hollywood. Para conseguir o favor, Chance grava a atriz narrando, sob efeito de drogas, detalhes de sua vida privada.

Quando a peça começa, Chance encontra sua cidade natal diferente da que ele abandonou onze anos antes, quando foi para Nova Iorque tentar a vida como ator em musicais. A pequena localidade, que admirava suas enormes beleza e masculinidade, agora parece odiá-lo. Isso porque, em sua última rápida visita, Chance fez algo terrível com Celeste, que desde então está transtornada. O pai dela, Boss Finley, é um dos políticos mais ricos do sul dos Estados Unidos. Com enorme influência, ele lidera o povo em movimentos ultrarreacionários, manifestando posições favoráveis como por exemplo à segregação racial. Ao saber que Chance está na cidade, Finley exige a expulsão imediata do rapaz.

O mais bonito de toda a história é acompanhar as muitas metáforas às quais o dramaturgo se refere para tratar do significado da juventude sobretudo para quem vive o fantasma da velhice. Todos os personagens principais, de alguma maneira, se movimentam pela questão: os cabelos que caem, a beleza que se modifica, o corpo que se transforma, o mundo que é outro. Em nível não menos importante, mas muito mais sutil, está o modo como a Princesa e o “Plebeu” se aproximam. Em um determinado ponto da história, é belíssimo acreditar que a única pessoa no mundo que realmente está ao lado de Chance é Alexandra. A partir dessa percepção, e talvez somente dela, é que se é possível identificar a profundidade desse clássico da dramaturgia neorrealista americano. Por esse viés, sabe-se que à estética não interessa exatamente como é a realidade, mas como ela é vista por determinado ângulo. É nesse sentido que as reflexões dos personagens levantam as paredes que faltam no cenário.

Glauce Rocha e Mauro Mendonça
Em 1959, quando a peça foi lançada, Tennessee Williams já era um escritor muito famoso sobretudo por sucessos como “À margem da vida” (1944), “Um bonde chamado desejo” (1947) e “Gata em teto de zinco quente” (1955), entre várias outras obras menos conhecidas no Brasil. “Doce pássaro da juventude” foi adaptada para a linguagem audiovisual duas vezes. A primeira é de 1962 e tem Paul Newman e Geraldine Page nos papeis de Chance e de Alexandra, e Ed Begley, que ganhou o Oscar do ano por esse trabalho, como Boss Finley. A segunda é de 1989 e tem Mark Harmon e Elizabeth Taylor nos papeis principais. No Brasil, houve duas montagens teatrais conhecidas: uma em 1960 (um ano depois da estreia mundial do texto), dirigida por Ademar Guerra, com Mauro Mendonça e Glauce Rocha (APTC de Melhor Atriz por sua participação); e outra em 1976, dirigida por Carlos Kroeber, com Nuno Leal Maia e Tônia Carrero.

A montagem atual de “Doce pássaro da juventude” se serve bastante bem de uma ótima tradução de Clara Carvalho e de uma boa adaptação de Marcos Daud. Em cena, a obra de Tennessee Williams recebe uma direção aparentemente preocupada em valorizar as palavras, consciente do movimento que os sentidos fazem ao longo das frases que são ditas e confiante do excelente ritmo que trabalhos de interpretação habilidosos são capazes de oferecer. A falta de triangulação que se vê em vários momentos parece ter um motivo bastante óbvio: é uma medida que expressa a solidão dos personagens abandonados em seus próprios pensamentos. Os cortes feitos no texto potencializaram a ação central com vistas a uma fruição mais qualificada em relação às necessidades de hoje, mas também do público brasileiro, que está desobrigado da tarefa de conhecer os meandros da cultura e da história norte-americana. Nesse sentido, pode-se afirmar que não há considerável perda do sentido dentro da proposta original do dramaturgo, essa bastante clara nos textos curtos de que a versão final de 1959 partiu.

Aplausos a Vera Fischer, Mario Borges e, em especial, a Pierre Baitelli
Quanto às atuações, vale dizer de início que Vera Fischer é visivelmente a pessoa perfeita para o papel de Princesa Kosmonópolis. Em primeiro lugar, sua enorme beleza, graças à qual foi Miss Brasil em 1969, fez dela uma atriz bastante requisitada principalmente pelo cinema e pela televisão ao longo das últimas quase cinco décadas. Ou seja, para além de ela ser uma artista, trata-se de uma estrela, de um fenômeno midiático cuja imagem é reconhecida por milhares de pessoas há muito tempo. Em segundo lugar, sua biografia é atravessada por notícias de suas relações com homens mais jovens e contaminada por histórias com o uso de drogas ilícitas. Essas duas questões pertinentes ao significado de sua figura pública no imaginário coletivo fazem muito bem ao papel que ela interpreta relativamente bem agora no teatro. Durante quase toda a sessão, não é difícil cogitar a possibilidade de que as palavras ditas no palco são dela e não de uma versão de Carvalho e de Daud para o original de Tennessee Williams. Considerando a especificidade do signo teatral, esse o único impossível de ser separado do artista que o criou e do momento em que o cria, a experiência estética fica enormemente qualificada.

Aparte os valores que Fischer traz em sua pele à protagonista de “Doce pássaro da juventude”, pode-se destacar positivamente um aparente empenho particular na elaboração de seu discurso cênico. Distribuindo marcas de relativa ingenuidade ao longo da maior parte da encenação, a atriz mantém viva, através da sua personagem, uma tensão que é vital para a fruição da obra. Em outras palavras, espera-se para ver as reações de sua Alexandra del Lago aos impropérios ditos e às maldades feitas por Chance Wayne. E essa torcida em favor dela vai alimentando as negociações entre o público e a narrativa teatralizada, pelo menos, enquanto não se aprofunda o suficiente as idiossincrasias do antagonista. Isso tudo é ótimo. Se algo em contrário pode ser dito, é sobre o péssimo uso da voz pela intérprete que, por vezes, corrompe a beleza no uso dos outros aspectos de sua atuação.

A montagem de Gilberto Gawronski tem ainda ótimos trabalho de interpretação de Renato Krueger, que interpreta com valentia um pequeníssimo personagem e que, por isso, o torna marcante; e de Clara Garcia, que dá corpo à Miss Lucy, a amante de Boss Finley. Com presenças firmes, textos bem ditos e intenções claras, esses dois atores potencializam seus personagens e os fazem ascender na narrativa positivamente. Em duas belas cenas, Ivone Hoffmann inclui afetividade na defesa de sua Tia Nonnie, a única parente de Wayne na história, tornando o contexto menos brutal e mais humano. É uma delícia assisti-la outra vez! De entre os personagens coadjuvantes, a atuação de Mario Borges, como Boss Finley, é nada menos que brilhante. O ator, com excelente uso da voz, mastigando cada sílaba das palavras de Carvalho, de Daud e de Tennessee Williams, alarga o tempo e funda o seu próprio espaço dentro da narrativa. Eis aqui um grande trabalho de interpretação na grade teatral carioca de 2017.

Para além de tudo o que for de mais positivo nesse “Doce pássaro da juventude”, vale dizer que a produção traz à cena fluminense mais uma oportunidade para conferir o talento de Pierre Baitelli, um dos melhores atores de sua geração no contexto nacional. Há que se destacar o modo como seu Chance Wayne vai ganhando contornos cada vez mais profundos, como a alma do personagem vai sendo exposta a cada nova aparição e como a complexidade dela vai se tornando excelente metáfora para o mundo em que vivemos. De um lado, a dúvida cruel entre aproveitar a vida e lutar por ela. De outro, os valores morais, as expectativas sociais, a ética. O Chance de Baitelli surge mergulhado na barafunda desses caminhos por vezes opostos, colhendo frutos por suas escolhas erradas, vivíssimo em cena e no imaginário a partir de tão valoroso trabalho de interpretação. O ator está plenamente entregue e mobiliza enorme repertório de marcas expressivas capaz de dar conta da grandeza de seu protagonista em um dos trabalhos mais elogiáveis da temporada. Aplausos!

Belíssimo figurino de Marcelo Marques
São bastante interessantes as participações dos demais elementos estéticos, como cenário, trilha sonora e figurino por exemplo. Acerca dos dois primeiros, vale dizer que a paisagem assinada por Mina Quental e por Ateliê Glória, assim como inserções musicais criadas originalmente por Alexandre Elias, estimulam a obra a parecer cheirar a velha. Antes que se pense que isso é negativo, elogiem-se os efeitos semânticos da impressão. A St. Cloud ficcional da peça é uma cidade extremamente conservadora, onde os afrodescendentes são considerados, pela cor de sua pele, uma ameaça em potencial aos demais membros da população. Lá, por ter vindo de família humilde, aparentemente Chance Wayne não teria chances de crescer e, assim, seu espírito livre e sua vontade de subir sempre foram vistas com maus olhos mesmo antes do personagem ter se tornado um bad boy. Nesse sentido, é bom que o visual imagético e sonoro remeta a uma estética já ultrapassada. O figurino criado por Marcelo Marques, em especial o último vestido de Vera Fischer, é belíssimo. Destaca-se a aparência dourada dos dois protagonistas na abertura da peça que vai sendo substituída por mais cores ao longo da encenação. O preto e o branco de Celeste têm sentidos opostos ao que se imagina, contrastando os momentos mais e menos tristes da vida da personagem. Eis um elogiável guarda-roupa.

Um ótimo espetáculo
Produzido por Luciano Borges e por Edson Fieschi, com produção executiva de Joana D’Aguiar, “Doce pássaro da juventude” marca a bravura do teatro carioca em, apesar da crise, oferecer ao público uma bastante qualificada oferta. Parabéns!

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Ficha Técnica
Texto: Tennessee Williams
Tradução: Clara Carvalho
Adaptação: Marcos Daud
Direção: Gilberto Gawronski
Elenco: Vera Fischer, Pierre Baitelli, Mario Borges, Ivone Hoffmann, Bruno Dubeux,
Clara Garcia, Dennis Pinheiro, Juliana Boller, Pedro Garcia Netto, Renato Krueger.
Cenário: Mina Quental
Figurinos: Marcelo Marques
Iluminação: Paulo César Medeiros
Trilha sonora original: Alexandre Elias
Fotos estúdio: Marcelo Faustini
Produção Executiva: Joana D´Aguiar
Produção Geral: Luciano Borges e Edson Fieschi
Realização: Borges & Fieschi Produções Culturais

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