domingo, 7 de janeiro de 2018

Bibi, uma vida em musical (RJ)

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Foto: Gulga Melgar


Amanda Acosta no centro


Com enorme sucesso, estreia o mais esperado espetáculo da temporada carioca!

“Bibi, uma vida em musical” estreou para o público no último dia 5 de janeiro, trazendo uma belíssima homenagem à maior estrela viva do teatro brasileiro: a atriz e cantora Bibi Ferreira. Dirigidos por Tadeu Aguiar, um grupo de dezenove atores, mais músicos e outra enorme equipe técnica, apresenta aqui um show para ficar na memória. Em cena, veem-se nomes e partes relevantes da história recente do teatro nacional através de números interpretados por belíssimos músicos e bailarinos. Devem-se destacar Chris Penna, como Procópio Ferreira; e Léo Bahia, como o Narrador; mas principalmente Amanda Acosta, a personagem título, que brilha agora como jamais brilhou nem quando arrebatou o Brasil em sua célebre versão de Eliza Doolitlle, em 2007. Os figurinos de Ney Madeira e de Dani Vidal, o cenário de Natália Lama, mas principalmente as músicas originais de Thereza Tinoco e a direção musical de Tony Lucchesi são outros aspectos que alçam esse grande espetáculo para uma das melhores produções do verão carioca (e quiçá do ano). É correr para aplaudir varias vezes a montagem que fica em cartaz no Teatro Oi Casa Grande, no Leblon, até 1o de abril de 2018.

Velhos problemas de musicais biográficos
“Bibi, uma vida em musical”, do ponto de vista do texto, está inteiramente apoiado no mérito da personagem a qual a peça se refere, no talento dos atores e na ordem do espetáculo, oferecendo muito pouco além de desafios para a produção. A dramaturgia de Luanna Guimarães e de Arthur Xexéu esbarra em um velho problema já muito conhecido nos musicais biográficos: a monótona curva cronológica. Sabendo que (lindamente!) Bibi Ferreira está viva em 2018, quando a narrativa chega a 1950, o público imediatamente calcula que faltam 68 anos de história para a peça terminar. Ou seja, a sensação da passagem do tempo na narrativa fica aparentemente mais lenta, pesada, pois não há surpresas. Dezenas de vezes, muita gente já apontou o mesmo defeito nas várias produções do gênero, mas os dramaturgos seguem teimosos. Simplesmente dispor as cenas de acordo com o ano do acontecimento dos fatos a serem retratados é terrível para o ritmo. Os quadros precisam de melhor articulação entre que si que o simples envelhecer da figura homenageada. 

De modo bastante empobrecido, Guimarães e Xexéu apresentam a história por meio de três narradores: um apresentador de circo (Léo Bahia), uma cigana (Flavia Santana) e uma velha (Rosana Penna). Dizendo-se avó de Bibi Ferreira, essa última é a única que tem uma ligação teórica com a protagonista. Na prática, nenhum dos três tem qualquer envolvimento com a personagem, jamais aparecendo com ela ao longo de toda a narrativa. A admiração pura e simples é a única motivação deles em contar a história a que assistimos. E isso é muito pouco.

Todos os personagens, incluindo a própria Bibi, são desprovidos de conflito, isto é, ninguém na peça sofre alguma modificação interna ao longo de sua extensão. A fama vem para a protagonista como que mais por obra do destino que lhe deu enorme talento e uma família adequada para o florescer da sua carreira do que por seus méritos próprios. As demais figuras todas são meramente ilustrativas, funcionando apenas como ferramentas de um discurso superficial: são pontes utilizadas para a história de Bibi ser narrada.

Amanda Acosta brilha entre excelente conjunto de atores
Felizmente, há outros elementos em “Bibi, uma vida em musical” que, diferente da dramaturgia, estão bastante bem desenvolvidos e garantem o sucesso do espetáculo. Na transformação do material dramatúrgico em obra cênica, é visível a qualidade do elenco dirigido por Tadeu Aguiar. Léo Bahia (o apresentador de circo), Flavia Santana (a cigana) e Rosana Acosta (a avó), com superior destaque para o primeiro, dão vida digna para os diálogos, criando situações por meio de suas expressividades que renovam as frases com sentidos muito interessantes. Bahia, de maneira muito inteligente, dá uma riquíssima oportunidade ao seu personagem de se autocriticar, o que confere à sua figura um caráter complexo dentro do possível. Aliado à sua bela e potente voz, e à sua dicção perfeita, esse recurso garante bons momentos nas cenas difíceis dos narradores.

Simone Centurione, que interpreta Aida Izquierdo, oferece uma abordagem íntegra à mãe de Bibi: com força, com emoção, com poder de influência sobre a filha. Talvez inicialmente condenada à posição secundária na narrativa, devido à sua proximidade a Procópio Ferreira e a personagem título, é da atriz o mérito pelo enorme brilho de sua personagem sobretudo no primeiro ato.

Simone Centurione, Amanda Acosta
e Chris Penna

No melhor papel de sua carreira, Chris Penna apresenta uma das mais vibrantes interpretações em musicais na temporada. Exibindo uma técnica bastante apurada, o ator reconstrói com precisão o modo de falar comum entre os atores (e locutores) brasileiros da era pré-televisão na viabilização de Procópio Ferreira, o pai de Bibi. As consoantes são muito marcadas, o ritmo é rápido, as vogais deslizam pelo céu da boca e se abrem em ondas ao longo das frases. Além disso, em sua intepretação, há todo um gestual fleumático bem como um excelente uso das intenções que reproduzem, em “Bibi, uma vida em musical”, o renomado carisma desse que foi um dos maiores atores da história do nosso país. (A vida de Procópio Ferreira também valeria um musical!)

Por mais que colaborem positivamente quaisquer elementos desse grande espetáculo, nada é comparável com o que traz a ele Amanda Acosta. Ela interpreta Bibi Ferreira ao longo de toda a apresentação, vencendo com galhardia um desafio que seria enorme na carreira de qualquer atriz brasileira. Em primeiro lugar, como dar vida a uma artista que está bem viva e muito atuante como a que se refere aqui? Depois, o que fazer quando se trata de uma das maiores intérpretes do mundo, um fenômeno da natureza, um exemplo de profissional, um monumento histórico vivo da nossa cultura? Já haveria méritos suficientes na coragem de Acosta de aceitar o convite, mas há muitos outros ainda maiores em realizá-lo.

De início, vale elogiar a maneira como Amanda Acosta se apropriou da fala, dos gestos, das expressões que Bibi dirige ao mundo em público. A cabeça baixa em 15 graus, dentes quase nunca à mostra, ombros abertos, voz clara e empostada, dicção perfeita. Há ainda, porém, que se dar vivas à alegria através da qual a homenageada também surge no palco: uma menina faceira, capaz de derreter corações incautos e responsável pelo vasto sucesso de uma carreira incrivelmente longeva; uma mulher forte, discreta e poderosa. Todas essas facetas, e outras mais, vai o espectador encontrar em Amanda Acosta em sua recriação de Bibi Ferreira. Longe de haver uma mera imitação, há aqui um íntegro trabalho de consciência corporal que faz o teatro poder ser orgulhar de ser o que é. Por fim, Amanda Acosta, além de grande atriz, é também excelente cantora e bailarina: uma estrela que, em “Bibi, uma vida em musical”, é capaz de estar em meio à luz de muitos aspectos positivos, mas ainda assim se ressaltar elogiosamente. Desde Laila Garin, em “Elis, a musical”, não se via algo assim no Rio de Janeiro.

No total, a produção conta com dezenove atores no elenco. Sobre todos aqueles que desempenham figuras menores nessa narrativa, vale considerar, antes de qualquer coisa, a seriedade do diretor Tadeu Aguiar, do coordenador de produção Eduardo Bakr e na produtora geral Cláudia Negri na escalação do grupo. “Bibi, uma vida em musical” é inteiramente defendido por atores-cantores de primeira qualidade. Não há ninguém participando do elenco porque é famoso na televisão, porque tem “perfil de captação de público”, nem por qualquer outra justificativa cafona do tipo. O público estará diante de profissionais altamente qualificados, com sólidas carreiras já elogiadas nos palcos e, melhor ainda, em contínua formação. Vale citar Guilherme Logullo, Fernanda Gabriela, Leandro Melo, Analu Pimenta e Carlos Darzé apenas para trazer alguns nomes presentes. Os dezenove estão de parabéns!

Um show de boa música
Entre os demais elementos que compõem a estrutura espetacular, a trilha sonora é obviamente uma parte muito relevante sobretudo porque esse se trata de um musical. O que, de modo mais positivo se pode destacar, é a maneira como a banda sonora está articulada entre si e com os demais elementos. Ela pode ser dividida em dois momentos que, ao longo do espetáculo, se alternam: a música original e as canções de repertório. “Bibi, uma vida em musical” apresenta belas composições originais de Thereza Tinoco. A que abre e fecha a sessão, por exemplo, defende de maneira eficaz a concepção geral de todo o trabalho. O espetáculo homenageia uma grande atriz de quase 96 anos de idade que está viva e que cuja carreira não terminou. “O circo não pode parar” resume, assim, os votos de que Bibi Ferreira permaneça com saúde e também alargando sua biografia para a nossa graça.

A outra parte é composta por canções que se mantiveram vivas na carreira da protagonista. É impossível não pensar em Bibi Ferreira e não lembrar de “My fair lady”, de “Alô, Dolly!”, de “Brasil: profissão esperança”, de “Homem de La Mancha”, de “Gota d`água”, de Piaf e de Frank Sinatra pelo menos. Tony Lucchesi, que assina a direção musical e os arranjos, viabiliza uma bela união entre todo esse repertório e as canções originais com positiva unidade. Há, porém, duas questões que impedem o ótimo ritmo de chegar ao topo: as recorrências de introduções e de apoteóses em todas os números. Pela primeira, se entende que, toda vez que um personagem fica sozinho em cena e um acorde se dá a ouvir, haverá um solo. Pela segunda, se compreende que todos os quadros musicais terminarão com um grande agudo no final. A repetição insistente desses dois movimentos no texto espetacular enrijece o todo, prejudicando-lhe a velocidade.

Ainda no quesito música, dois pontos merecem atenção. Sueli Guerra, ao assinar as coreografias, colabora bastante bem com a construção de um espetáculo alegre, jovial, glorioso. Os quadros preenchem o palco, dominam as cenas e enchem os olhos do público como deve acontecer em musicais de grande porte. Por fim, o desenho de som de Gabriel D’Ângelo, equalizando as vozes dos atores e os diversos instrumentos e recursos sonoros-musicais sobre os quais se apoia o espetáculo, vence todos os desafios e valoriza o trabalho como um todo. 

São destaques os belíssimos figurinos de Ney Madeira e de Dani Vidal
“Bibi, uma vida em musical” oferece ainda ao seu público a glória de um belíssimo guarda-roupa e o êxtase de um conjunto de cenários que demostram o quanto os produtores valorizam o projeto e também a audiência dele. Os figurinos de Ney Madeira e de Dani Vidal são um acontecimento raro no teatro carioca. Talvez tenha-se visto algo similar em “60! Década de arroma – Doc. Musical”, mas, de um modo geral, no Rio de Janeiro, são poucos os tão largos investimentos nesse item. A cada nova cena, há uma mudança radical no vestuário de modo que cada quadro enche os olhos de uma visualidade impactante. Podem-se destacar os figurinos usados no medley de “My fair lady”, que encerra o primeiro ato; e no medley de “Alo, Dolly!”, que dá início ao segundo. Tudo bem cortado, com cores articuladas ao conjunto, sólidas referencias à história: é um figurino exuberante. Desse, não se pode apartar a colaboração do visagismo de Ulysses Rabelo na composição dos personagens: (as perucas, suas maquiagens, a aparência facial das figuras). Um belíssimo trabalho de direção de arte.

O cenário de Natália Lana não perde em nada para os demais elementos, mas ganha ainda mais força quando há a melhor colaboração do desenho de luz de Rogério Wiltgen. Quando esses dois conjuntos estéticos parecem estar bem entrosados, o resultado fica ainda mais vibrante. Vale destacar positivamente as cenas de fundo do palco sob praticáveis, em que a imagem de claro e escuro serve como um ponto significativo para a narrativa também. No primeiro ato, quando há maiores entradas e saídas de grandes (e belos!) cenários, a luz abdica de suas potencialidades em alguns momentos, deixando a obra negativamente isolada. Esses pontos, certamente, hão de melhorar com a continuidade da longa temporada.

Viva, Bibis!
Negri e Tinoco Produções Artísticas, através de Tadeu Aguiar, de Eduardo Bakr e de Cláudia Negri, dão um presente para o público brasileiro contando a vida de Bibi Ferreira. Homenagens a ela nunca serão demais, mas, considerando que a própria ainda está viva e atuante, essa é ainda mais especial. Trata-se de uma bela vida que está conosco, que vive, respira, luta como nós e que tem tanto a nos ensinar. E que agora ganha o seu duplo: Bibi permanece linda em Amanda Acosta. Se assistir aos espetáculos da própria Bibi Ferreira ainda em cartaz é obrigação, aplaudir “Bibi, uma vida em musical” é um prêmio. Celebremos a vida e aproveitemos essa oportunidade! Viva, Bibis!

*

FICHA TÉCNICA – “BIBI, uma vida em musical”
Texto Artur Xexéo e Luanna Guimarães
Música original Thereza Tinoco
Direção musical e arranjos Tony Lucchesi
Direção Tadeu Aguiar
Coreografia Sueli Guerra
Cenário Natalia Lana
Figurino Ney Madeira e Dani Vidal
Desenho de luz Rogerio Wiltgen
Desenho de som Gabriel D’Ângelo
Visagista Ulysses Rabelo
Assistência de direção Flavia Rinaldi
Assistência de coreografia Olivia Vivone
Assistência de direção musical Alexandre Queiroz
Assistência de iluminação Wagner Azevedo
Coordenação de produção Eduardo Bakr
Produção geral Cláudia Negri
Realização Negri e Tinoco Produções Artísticas

Elenco [ordem alfabética]
Amanda Acosta
Analu Pimenta
André Luiz Odin 
Bel Lima
Caio Giovani
Carlos Darzé
Chris Penna
Fernanda Gabriela
Flavia Santana
Guilherme Logullo
João Telles
Julie Duarte
Leandro Melo
Leo Bahia
Leonam Moraes
Luísa Vianna
Moira Osório
Rosana Penna
Simone Centurione