segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Caixa de phosphorus (RJ)

Ivan Mendes e Daniela Carvalho em cena
Foto: divulgação

Boas interpretações em mais uma peça sobre relacionamentos

“Caixa de Phosphorus” é mais uma peça sobre relacionamentos. Sem dúvida, esse um dos mais importantes gêneros do teatro carioca haja vista a quantidade mensal que produções desse tipo que estreiam e cumprem temporada, principalmente no Shopping da Gávea, na zona sul do Rio de Janeiro. Essa peça, como todas as outras, tem exatamente a mesma estrutura: um casal se conhece, se apaixona, vive bons momentos. Quando as diferenças começam a ficar muito grandes, as brigas começam e vem a separação. Cada um vai para um lado e o tempo passa. Então, vem o reencontro e a chance de recomeçar. Nesse caso, o nome do casal é Cris e Pedro, interpretados por Daniela Carvalho e por Ivan Mendes. A direção é de Suzanna Kruger e o texto é de Renata Mizrahi. Embora sem grandes diferenciais, o destaque deve ser dado à interpretação dos atores, cuja sintonia alcança o público e faz despertar algum interesse sobre essa forma já tão cansativamente batida. 

O melhor trecho do texto de Mizrahi é a repetição da cena do primeiro encontro, em que ouvimos os personagens confessarem o que sentem diante do que verbaliza o outro em sua frente. Como já ouviu-se o diálogo inteiro na passagem anterior, a atenção agora aumenta sobre as expressões que marcam a aparência que um quer passar para o outro nessa fase em que o casal está se conhecendo. O jogo é inteligente e bastante engraçado e é uma pena que ele não se repita ao longo dos outros momentos. Ao contrário, há o reforço o gênero apontado: as conversas entre si, os depoimentos virados para o público, o reforço das características de cada um, aqueles pontos que os fazem diferentes um do outro, etc.

A direção de Kruger passeia por lugares bastante comuns de um modo geral. Em alguns momentos, notam-se tentativas de criar situações mais ricas, mas nem o texto, nem a gênero as permitem de forma que esses pequenos momentos parecem ficar perdidos no todo. Há mérito na forma envolvente com que os atores usam as pausas e dão a ver um feliz jogo de encenação, o que marca uma direção cuidadosa. 

Carvalho e Mendes estão excelentes. Fazem rir de um jeito natural, expontâneo, positivo. As palavras são bem ditas, os personagens bem construídos, os movimentos são ágeis. Entre os dois, os acordos são bem feitos de forma que convencem a plateia de que há, de fato, alguma química entre eles, o que ratifica a boa interpretação dos personagens. 

Sem grandes cenários ou figurinos (as caixas fazem menção ao título, o figurino paira entre os óbvios tons de azul para ele e tons de rosa para ela), “Caixa de Phosphorus” está em cartaz no sempre congelante Teatro das Artes. Divertido.

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FICHA TÉCNICA
Texto: Renata Mizrahi
Direção: Susanna Kruger
Elenco: Ivan Mendes e Daniela Carvalho
Iluminação: Aurélio de Simoni
Cenografia: Lia Farah e Rodrigo Noroes
Figurinos: Arlete Rua e Thais Boulanger
Trilha Sonora: Susanna Kruger
Arte Gráfica: Roberta Freitas
Fotografia: Alle Vidal
Assessoria de Imprensa: Daniella Cavalcanti
Produção Executiva: Neila de Lucena e Leandro Carvalho
Direção de Produção: Sandro Rabello
Realização: DIGA SIM! PRODUÇÕES

domingo, 25 de agosto de 2013

Nem mesmo todo o oceano (RJ)

Leonardo Brício em
excelente interpretação
Foto: divulgação

Ótimo espetáculo sobre a falta de lugar

De repente, nem no trabalho, nem na própria casa, um homem pode estar. Nem na casa de amigos, na de desconhecidos, nem em um banheiro. Nem nas montanhas, no interior, na cidade. “Nem (em) mesmo todo o oceano.” É sobre isso o terceiro e ótimo espetáculo da Cia. Omondé, dirigido (e dirigida) por Inez Viana. Sobre a situação de um homem que não é bem vindo em lugar algum, por sociedade alguma. Uma espécie de Medeia contemporânea que, ao vingar-se, comete um crime tão abominável que o torna, para sempre e em todo o lugar, um estrangeiro. Atualização do romance homônimo de Alcione Araújo (1945-2012), entre vários pontos positivos, um dos seus méritos é justamente o modo como o espaço foi concebido: o vazio. Aparentemente oposto ao sufocamento claustrofóbico, o vazio, quando vazio demais, acaba por ser tão apavorante quanto a falta de espaço. Outro é o jogo estabelecido entre os atores, em que cada todos eles interpretam todos os personagens. O jogo, que é bem jogado, é um indicativo de que qualquer um de nós poderia estar no lugar do protagonista, quando esse ainda tinha um lugar para estar. Por fim, o mérito maior da produção está em abrir artisticamente a discussão sobre a passagem dos 50 anos do Golpe Militar de 1964. Sem dúvidas, é um período negro da história (muito recente) do país que precisa ser revisitado com olhos bem abertos e coração firme: todos somos responsáveis, mesmo aqueles que não eram vivos, pois muitos já não está mais. 

A história é contada pelo próprio personagem protagonista, de forma que os fatos narrados foram obviamente atravessados pelo seu olhar, por suas emoções. Nascido e criado numa pequena cidade do interior de Minas Gerais, o protagonista vem de uma família muito pobre, contexto esse que é responsável pelo cultivo de uma vontade de “crescer” na vida e dar orgulho para os seus. Com o passar do tempo, as situações vão levando esse personagem ao alcance do seu objetivo. Nesse sentido, temos acontecimentos e personagens impressionistas (uma visão de mundo embaçada pelas emoções de quem o pinta) em uma narrativa realista naturalista (o personagem como fruto do meio, sem culpa, nem mérito), cruzamento esse expressa a complexidade do desafio que Inez Viana tinha em mãos quando se dispôs a adaptar o romance escrito em quase 800 páginas e publicado em 1998. Narrar a trajetória de um médico que, por golpe do destino ou por incapacidade de não sucumbir a ele, se vê entre os torturadores da ditadura e é acusado de ter estuprado uma das prisioneiras é mais do que simplesmente contar, mas se posicionar sobre o fato. De forma excelente, o posicionamento de Viana, expresso na encenação de 80 minutos, é o apenas: é preciso pensar!, que deixa, para o público, o julgamento, opção estética essa que favorece o realismo naturalismo do enredo do romancista. 

Como já se disse, a direção estabelece um jogo bastante inteligente de encenação, fazendo com que os atores (Leonardo Brício, Iano Salomão, Jefferson Schoroeder, Junior Dantas, Luis Antônio Fortes e Zé Wendell) se sucedam na interpretação de todos os diversos personagens, incluindo o do protagonista, sem trocar de roupas. Vestidos com uma calças sociais entre o cinza e o azul marinho, sapatos pretos e camisetas de física, os intérpretes estão neutros, mas informando, o que marca uma excelente concepção de figurino de Flávio Souza. O resultado é dois: de um lado, dentro da encenação, temos o indicativo valoroso de que qualquer um de nós poderia estar na pele do protagonista, o que humaniza a fruição positivamente. De outro, do lado da plateia, valoriza-se a capacidade de entendimento do público que, em início do terceiro milênio, já consegue fruir histórias cujo jogo é mais rápido e as marcas expressivas mais necessárias. 

Há, no entanto, um problema da ordem da direção: o ritmo. Em fim de primeira temporada, “Nem mesmo todo o oceano” chega de forma linear ao público, com frases ditas em altíssima e regular velocidade, cenas estruturadas a partir de ações físicas , e com uma história narrada como sem curvas. A chave da questão é que, assim que se assimilam as regras que dão a ver a encenação (a forma, o excelente, porque criativo, jogo de movimentação e diálogos), a atenção se volta unicamente para o conteúdo. Esse porém, está visto a partir, principalmente, de uma verborragia bem intencionada que, além de causar problemas na dicção dos atores (que acabam por dizer muitas palavras por segundo), faz com que pareça não haver distinção entre os vários acontecimentos da vida do protagonista. Essa segunda consequência é atroz, porque apaga a possibilidade tanto de um conflito inicial, quanto de um ápice e de uma resolução. Inez Vianna não opta por uma linha crescente ou decrescente, quase não faz pausas, expressa muito, mas sustenta pouco, deixando apenas para o texto de Araújo a responsabilidade com o conteúdo. É uma grande história contada no palco, mas que, infelizmente, é quase asséptico como espetáculo, não tocando na ferida com coragem. 

Iano Salomão e Luis Antônio Fortes apresentam bons trabalhos de interpretação: o primeiro bastante forte e o segundo valorizando a ironia, possibilitando personagens realistas que se mostram bastante íntegros (coesos e coerentes). As melhores participações são de Zé Wendell e de Leonardo Brício, cujas presenças cênicas são ativas, determinantes e quase agressivas, dentro da simetria apolínea (e brilhantemente militar) em que Inez Viana fundamenta a diegese. Os olhos são bem direcionados, há foco, há movimentos limpos e entonações bem postas no trabalho de ambos. Brício, que na maior parte do tempo interpreta o protagonista, desponta como uma das melhores interpretações do ano, ao lado de Paulo Verlings (“Maravilhoso”), Thelmo Fernandes e Ricardo Blat (“A arte da comédia”), Bruno Mazzeo (“Sexo, drogas e rock`n`roll”), entre outros. Infelizmente, Jeferson Schroeder e Junior Dantas não têm boas participações, ainda que o primeiro tenha bons momentos. Em ambos, as interpretações parecem calcadas em “tipos” que mais parecem dispostos ao riso fácil que à narrativa em si (com destaque para um péssimo momento em que Dantas interpreta o sogro do protagonista) negativamente. 

A trilha sonora de Marcelo Alonso Neves e o desenho de iluminação de Renato Machado, essa última fundamental para a viabilização da concepção cenográfica de Cláudia Marques e da direção, são essenciais para a expressão de um mundo baseado no tecnicismo cartesiano: cheio de leis de causa e efeito, lógica matemática e equilíbrio, o que, sem dúvida, nunca foi real, porque também não humano. Daí vem a sua contribuição definitiva para a narrativa: ela expressa de forma clara o contexto em que vivem esses personagem, mortos em banheiros ao lado das urinas e das fezes, de que um dia eles quiseram se livrar, depois acabaram por analisar em laboratório, e que, agora, em meio a elas, viverão seus últimos minutos. 

“Nem mesmo todo o oceano”, tendo cumprido temporada no Teatro Sesc Arena Copacabana, retoma uma velha diferença já trazida em “A poética” de Aristóteles. O filósofo, sabiamente, chama a atenção para a diferença entre ação e caráter na análise das tragédias de seu tempo. Segundo ele, um mau ato não caracteriza um mau homem e nem um bom ato pressupõe um bom agente. Desvendar essa complexidade é adentrar nesse universo que, agora, a Cia. Omondé nos felicita. Aplausos. 

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FICHA TÉCNICA
 Autor: Alcione Araújo | Adaptação e Direção: Inez Viana | Consultoria Dramatúrgica: Pedro Kosovski | Elenco: Cia Omondé – Leonardo Bricio, Iano Salomão, Jefferson Shroeder, Junior Dantas, Luis Antonio Fortes e Zé Wendell | Cenário e Figurino: Flávio Souza | Direção Musical: Marcelo Alonso Neves | Iluminação: Renato Machado | Programação Visual: Dulce Lobo | Assistentes de Direção: Carolina Pismel, Debora Lamm e Juliane Bodini | Produção Executiva: Jéssica Santiago | Direção de Produção: Claudia Marques | Um projeto da Cia OmondÉ

Maria Miss (SP)

Daniel Alvim e Tânia Castello em cena de "Maria Miss"
Foto: divulgação

Aplausos e vida longa

“Maria Miss” é um excelente espetáculo construído a partir da adaptação do conto “Esses Lopes”, de Guimarães Rosa (1908-1967). O mérito, que se encontra em vários lugares, está principalmente na atualização de Evill Rebouças, de Yara Novaes e do elenco para o palco, em que se preservam os neologismos de Rosa, mas também todas as estruturas semânticas que estão por trás dessas palavras. Dirigida por Novaes, Tânia Castello é Flausina, a garota pobre que tem seu destino entregue às mãos dos filhos da Família Lopes quando casa-se com um deles ainda menina. Em cena, o mal que é feito a ela é por ela incorporado e revertido em vingança. Nesse sentido, Flausina é estufa onde germina o destino dos outros e “Maria Miss” é, assim, por sua vez, estufa ainda maior onde crescem várias reflexões estéticas sobre relação humana, dominação e poder. Em cartaz no Centro Cultural do Banco do Brasil do Rio de Janeiro, o espetáculo estreou em São Paulo em 2012. 

Com belíssima desenvoltura corporal e vocal, Castello constrói uma Flausina potente: é doce e simples, mas também vingativa e complexa. O modo como fala (as entonações, os tempos, os silêncios, o vocabulário) está completamente relacionado com o todo de sua expressão, contando a própria história enquanto a revive. Plínio Soares e Daniel Alvim dão vida aos outros personagens, mantendo-se positivamente distantes do público, mas próximos entre si – são, pois, parte da narrativa de Flausina para o seu interlocutor. Ouve-se como quem partilha, dá-se atenção como quem sabe que atenção é um tempo que se recebe de volta. Castello, Soares e Alvim, na riqueza de seus usos expressivos, estabelecem e ratificam um laço precioso com o público, que entende o jogo de troca de cenas e de personagens, reconhece os vilões e os nem tanto assim, e embarca positivamente seguro nessa história. Vêm o riso, o enternecimento, a reflexão: a direção de Novaes é marcadamente segura em delicadeza e em força, em tensão e em distensão. 

O cenário e os figurinos de Márcio Medina contróem os elementos essenciais para o estabelecimento da narrativa sem lhe causar entraves, mas, ao contrário, lhe trazendo confirmações que asseguram a concepção. Estão bem articuladas também com a iluminação de Wagner Freire, cujo desenho destaca a sensação da vivência das situações, aprofundando as possibilidades de fruição. A trilha sonora de Rodrigo Mercadante e de Maurício Damasceno colabora com o reconhecimento das partes que compõem a narrativa, sobretudo apresentando bem a protagonista. Com isso, outro mérito de “Maria Miss” é a visível interrelação entre todos os elementos, o que resulta num todo coeso e coerente digno dos elogios que vem recebendo. 

Guimarães Rosa é um dos maiores escritores mundiais pelo seu narrar de dentro pra fora, em que o fluxo de consciência dos personagens corre não por um desejo dele de falar de si, tampouco por uma vontade nossa de ouví-lo, mas pela necessidade que, nesse caso, Flausina, tem que de explicar-se para si própria. Enquanto fala, ela se descobre, se perdoa, se justifica, se condena e também purga a sua dívida. O espectador é testemunha antes de apenas ouvinte e, por estar diante desse renascer, o espetáculo é anterior à cena, pois todo nascer é bonito. “Maria Miss” merece aplausos e vida longa! 

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FICHA TÉCNICA
Direção: Yara de Novaes
Autoria: João Guimarães Rosa
Conto: “Esses Lopes”
Adaptação: Evill Rebouças, Yara de Novaes e Elenco.
Elenco: Tania Casttello, Plínio Soares e Daniel Alvim
Assistente de Direção e Desenho de Movimento: Leonardo Bertholini
Cenografia e Figurinos: Márcio Medina
Assistente de Cenografia: Cezar Rezende, Marcos Tadeu e Maristela Tetzlaf
Costureira: Judite Lima
Visagismo: Leopoldo Pacheco
Iluminação: Wagner Freire
Assistente de Iluminação: Alessandra Marques
Trilha Sonora: Rodrigo Mercadante e Mauricio Damasceno
Gravação Trilha: Estúdio do Barracão
Preparação Corporal: Miriam Rinaldi
Operador de Luz: Isaías Néri
Operador de Som: Kleber Marques
Contra regra: Alex Sander Brandão
Camareira: Mariana Brandão
Fotografia: João Caldas
Programação Visual: Rodolfo Rezende/ Estúdio Tostex
Assistente de Arte: Acauã Novais
Assessoria de Imprensa: Alessandra Costa
Produção de Base: Vânia Alves e Leandro Pexe
Assistente de Produção: Will Sampaio
Produção Executiva: Silvia Rezende
Direção de Produção: Fernando Cardoso e Roberto Monteiro
Idealização: Tania Casttello
Realização: Mesa 2 Produções

terça-feira, 20 de agosto de 2013

O dia em que raptaram o Papa (RJ)

Débora Oliveiri se destaca como Sara Leibowitz
Foto: divulgação

Faz do riso um belo motivo para a reflexão

“O dia em que raptaram o Papa” sinaliza a importância da direção na condução de uma comédia. Escrita nos anos 70, a comédia de João Bethencourt (1924-2006) já passou por 42 países nesses quase quarenta anos. Agora, ganha versão dirigida por Tadeu Aguiar que apresenta bom trabalho de ritmo. Débora Olivieri e Marcos Breda protagonizam a história que têm excelentes participações (virtuais) de Françoise Forton e de Vanessa Gerbelli. Destaque também para o belíssimo cenário de Edward Monteiro. Em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, essa comédia conquista o público aos poucos e recebe aplausos merecidos ao final. 

Contrariando Aristóteles, eis aqui uma comédia que não se esforça em aumentar o lado pior dos seres humanos, mas o seu lado melhor. Em visita oficial, o Papa Alberto IV (Rogério Fróes) está em Nova Iorque, nos Estados Unidos, quando é sequestrado pelo taxista judeu Samuel Leibowitz (Breda). O acontecimento, que ganha repercussão internacional, se desenvolve desde a ciência da própria família Leibowitz até os governos de todos os países do mundo. Os motivos que levaram o taxista a sequestrar o Papa, o modo como o pontífice é tratado na casa da família judaica, o desenrolar dessa trama cheia de meandros do húngaro-brasileiro Bethencourt se desenvolvem em um ritmo bastante veloz, motivo responsável para o tom atual dessa comédia de costumes. Os movimentos de cena parecem coreografados, tamanho respeito que a direção de Aguiar, assistido por Flavia Rinaldi, presta ao ritmo, o que é bastante positivo. As falas valorizam as informações principais, as conversas são pulsantes, as trocas de cena são ágeis. Além do que é encenado, há também as intervenções de cenas filmadas de telejornais em que Forton e Gerbelli participam com brilhante ironia. O jogo que se estabelece entre o telão e a cena, e entre o palco e o que acontece na plateia, é bastante bom igualmente. Porque não é um vaudeville, o texto “O dia em que raptaram o Papa” carece de velocidade para não ganhar mofo, o que felizmente não acontece. 

Renato Rabelo (Rabino Meyer) e Marcos Breda (Samuel Leibowitz), mas principalmente Débora Olivieri (a esposa Sara Leibowitz) apresentam excelente trabalho de composição, mas sobretudo de condução das contra-cenas. Com marcas que são bastante claras, não deixando espaço para dúvidas que prejudicariam a comicidade, os personagens agem para dentro de si tão velozmente quanto para em direção aos demais da narrativa. São ótimas também as participações de Rogério Fróes (Papa Alberto IV) e de Silvio Ferrari (Cardeal O’Hara), mas é muito exagerada a presença de Renan Ribeiro (o filho Irving Leibowitz), fora do tom mantido pelos demais. No seu conjunto, o elenco apresenta um trabalho bastante positivo. 

Edward Monteiro dá a ver um belíssimo cenário para a cena acontecer. O ponto alto é a geladeira em forma de táxi, que sustenta o símbolo do sequestro, sem propriamente sê-lo. Em seu cuidado nos detalhes, o figurino da Espetacular! Produções & Artes também cumpre bem o seu papel de informar sobre os personagens sem deixar dúvidas. 

“O dia em que raptaram o Papa” critica a sociedade, apresentando um momento de trégua para as mazelas da humanidade. Expondo o quão bom poderia ser o mundo, a peça faz do riso um belo motivo para a reflexão. Sem dúvida, um ótimo espetáculo para toda a família. 

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FICHA TÉCNICA
Texto: João Bethencourt
Direção geral: Tadeu Aguiar
Diretora assistente: Flavia Rinaldi

Elenco: Rogério Fróes, Marcos Breda, Débora Olivieri, Renato Rabelo, Renan Ribeiro, Silvio Ferrari, Sabrina Miragaia, Fabio Bianchini e Bruno Torquato.

Participação especial em vídeo: Françoise Forton e Vanessa Gerbelli Ceroni
Cenário: Edward Monteiro
Adereços e Direção de arte: Clívia Cohen
Figurinos: Ney Madeira, Dani Vidal e Pati Faedo - Espetacular! Produções & Artes
Desenho de Luz: Rogério Wiltgen
Desenho de som: Fernando Fortes
Trilha sonora: Tadeu Aguiar
Vídeo: Paulo Severo
Projeto gráfico: Claudia Xavier
Fotos: Gustavo Bakr
Coordenação de cenotécnica: J. Faria
Coordenação Administrativa: Sonia Odila
Coordenação de produção: Norma Thiré
Produção geral: Eduardo Bakr e Tadeu Aguiar

Para sempre ABBA (RJ)

Sabrina Kogut e Rodrigo Cirne em "The name of the game"
Foto: divulgação

Para ser visto muitas vezes!

Para sempre ABBA” é excelente. Seguindo as pistas, sim, de “Beatles num céu de diamantes”, mas também de incontáveis produções antes dela, a montagem celebra as canções do conjunto sueco mais popular do século XX. Composto por Benny Andersson, Anni-Frid "Frida" Lyngstad, Björn Ulvaeus e por Agnetha Fältskog, o grupo atuou de 1972 a 1982 e foi o que mais vendeu discos no seu período no mundo. Ainda hoje é recorde de vendas e a plateia lotada do Teatro Clara Nunes, no Shopping da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, é outra prova de que o sucesso ainda perdura. Idealizado por Carlos Alberto Serpa e por Rodrigo Cirne, e dirigido por Tadeu Aguiar, o espetáculo é vibrante. 

Fazer um musical com canções do ABBA não é propriamente recriar o “Mamma Mia”, em cartaz desde 1999 mundo afora e recentemente no Brasil. Os méritos principais de Cirne, que assina o roteiro e a pesquisa musical, estão em manter as canções interpretadas na sua língua original (o inglês) e em resgatar o referencial semântico em que elas foram compostas. Em primeiro lugar, a música vai além do idioma e respeitar a criação original quer dizer reforçar o imaginário que está presente em cada letra para adiante de qualquer conhecimento que as pessoas possam ter do inglês. Depois, modificar a letra, adaptando para versão em português, além de ser uma escolha puramente comercial, seria modificar metade (ou mais) da obra em questão. As opções de Cirne, por isso, são aplaudidas.

No que diz respeito ao significado do ABBA, o parabéns vai pela rendição ao sucesso inegável do grupo. Cirne não faz crítica, mas aceita o óbvio: cantar ABBA é assumidamente alienar-se. Nos anos 70, a América Latina, a África e a Ásia beiravam o caos político dominado pelas ditaduras militares de extrema direita. A Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética impunham o capitalismo como maior orgulho da primeira nação, envergonhando a segunda. A Europa, cujas diferenças sociais começavam a ficar gritantes, estava dividida em si e em relação ao resto do planeta. Enquanto os jovens politicamente antenados cantavam em metáforas, liam Gabriel Garcia Marquez e exaltavam o cinema europeu, os demais ou escondiam-se no uso forte de drogas pesadas em shows de rock ou cantavam as melodias emotivas, superficiais e cafonas do ABBA. Como em algum momento, politizado ou não, todo mundo já amou ou já perdeu um grande amor, já quis voltar a namorar ou já abafou os sentimentos, o ABBA podia ser minoria no coração de alguém, mas estava presente no imaginário de todos. Sendo uma trégua na luta intelectual ou uma opção estética, nunca houve como negar uma letra, um passo de dança, uma lágrima ou uma gargalhada diante de seus shows ou discos. “Para sempre ABBA” celebra esses momentos. 

Quem conhece as letras consegue perceber um certo caminho dramático que justifica as suas posições no roteiro. Quem não conhece (e não entende inglês) vê o espetáculo de forma mais vertical, mas igualmente positiva. O romance, a decepção, a saudade são lugares comuns que unem as pessoas da plateia em uma só humanidade. Analu Pimenta, Giulia Nadruz, Junior Zagotto, Larissa Landim, Olavo Cavalheiro, Pedro Arrais, Raul Veiga, Rodrigo Cirne, Sabrina Korgut e Sara Marques cantam sozinhos e em conjunto muito bem, oferecendo um resultado não menos que excelente na fruição das melodias, das letras e de seus significados. 

Com destaque para Korgut, Nadruz, Veiga e Cirne, o jogo de cena da direção de Tadeu Aguiar, assistido por Flávia Rinaldi, é ótimo, porque preserva o supervicial valoroso do ABBA: o melodrama, o brilho, o exagero, a adolescência. Sem medo de errar, borrando nas cores, as intenções são ratificadas e, nesse sentido, conquistam o público que se sente seguro em confiar no que está vendo e curtir. O figurino de Beth Serpa é um espetáculo a parte, surpreendendo positivamente em cada cena. Há autorreferência, há beleza, há unidade, há justificativas. Desafiando o perigo de mexer com tantas cores e com tantas modelagens diferentes, Serpa vence com galhardia. 

Para sempre ABBA” é divertimento da melhor qualidade para ser visto várias vezes! 

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Palhaços (SP)

Dagoberto Feliz e Danilo Grangheia em cena
Foto: divulgação

Uma aula sobretudo sobre nós mesmos, mas também um show de interpretação

O mais sublime na montagem de “Palhaços”, do dramaturgo brasileiro Timochenko Wehbi (1943 - 1986), é a sensação de jogo impressa pelo diretor Gabriel Carmona na contracena realizada pelos atores Danilo Grangheia e Dagoberto Feliz. A todo o momento, vemos que um dos personagens parece dominar a cena quando um pequeno gesto do outro retira-lhe a atenção e consequentemente o poder. Fisgado por essa relação, cada vez mais equidistante, paralela e sempre mais próxima, o público avança em fruição rumo ao desfecho que acontece (?) de forma sublime. Uma peça “de ator”, o espetáculo é um grande desafio para os intérpretes que, nesse caso, vencem e, por isso, nos presenteiam. O projeto estreou há 8 anos, em São Paulo, e têm enchido o Teatro Poerinha. É preciso organizar-se para não perder antes que saia de cartaz.

O comerciante Benvindo invade o camarim do circo após a última apresentação. Ele vem cumprimentar o Palhaço Careta, de quem é fã. Na conversa, as histórias de um e de outro vêm à tona, exibindo as distâncias e as proximidades existentes entre os dois homens, ambos metáfora dos homens que lhes assistem na plateia. Toda a cena se dá dentro desse camarim, antessala para o palco ou para o picadeiro que é o mundo na bela dramaturgia de Wehbi. 

É verdade que não há muito o que se esperar do personagem de Careta (Dagoberto Feliz), pois o personagem de Palhaço faz parte do imaginário popular. O ator, com excelência, porém surpreende, porque, em suas quebras, oferece um outro tipo de ironia que não é simplesmente cômica ou ingênua, mas conscientemente ácida. Neste texto, o desafio maior está na composição do personagem de Benvindo: ele precisa ser páreo para a figura carismática do palhaço. Na montagem dirigida por Carmona, Grangheia está excelente. 

Danilo Grangheia exibe um trabalho de interpretação que é honradamente comparável ao de Cacá Carvalho, sobretudo no que diz respeito ao riquíssimo uso da voz. A voz é um signo que se torna teatral através de vários elementos, cuja (boa) exploração é infelizmente rara. Há diversos níveis tonais entre grave e agudo, volumes entre o grito e o sussurro, entonações entre fortes e fracas, ritmos entre rápido e pausado, constante ou não-linear. E há também os silêncios e as pequenas pausas. Grangheia usa (e abusa) de todos esses usos, articulando com louvor todos eles a outros elementos expressivos faciais e corporais. Seus olhares são circulares (as pupilas de seus olhos giram, fugindo e marcando um sentido que o espectador (atento) há de ler), seu rosto está dirigido em diagonal para baixo, seus ombros estão voltados para dentro e caídos e suas mãos são postas uma sobre a a outra. Em alguns momentos, Benvindo se abre para uma possibilidade proposta por Careta, mas, em seguida, vem a retração novamente. Esse jogo de vai e vem marca a fisicamente a presença do personagem que o intérprete dá a ver. A excelência do trabalho de Grangheia faz vir à superfície uma figura obscura que, posta ao lado do colorido do palhaço, estabelece um embate de igual para igual. E é essa equivalência que garante a emoção do jogo. 

Não menos excelente que cada bom uso das múltimas possibilidades dos elementos relacionados apenas à voz em cena, estão os usos do cenário (Flávio Tolezani), do figurino (Daniel Infantini), da trilha e da iluminação (Erike Buzoni). Em conjunto, um a um, vão fazendo a sua parte na construção de um todo que é uniforme, mas não redundante. Assim, “Palhaços” oferece vários níveis de fruição e consequentemente lugares de respiro que propiciem a reflexão para o que está se está vendo. Das ranhuras aos objetos de cena ao colorido das lâmpadas, da gravata larga à música de abertura, o todo se manifesta com potência em cada parte, explicando o sucesso de oito anos dessa montagem que orgulha o teatro nacional. 

Em todos os aspectos, “Palhaços” é uma aula. Para nós, não atores ou pessoas não envolvidas com o fazer teatral, é sobretudo uma lição sobre nós mesmos. 

*

Ficha técnica:
Autor: Timochenko Wehbi
Diretor: Gabriel Carmona
Elenco: Dagoberto Feliz e Danilo Grangheia
Iluminação: Erike Busoni
Cenário: Flávio Tolezani
Operação de Luz: Walace Furtado
Figurino Daniel Infantini
Fotos: Thaty Yazigi
Projeto Gráfico Artefactosbascos
Produção e Administração: Touché Cultural (Ana Barros / Ludmila Picosque)

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Amor e ódio em sonata (RJ)

Amandha interpreta Sônia Tolstói, vencendo bem o desafio
Foto: divulgação
Um bem feito teatro de palavras

“Amor e ódio em sonata” está em sua terceira temporada de sucesso no aconchegante teatro do Centro Cultural da Justiça Federal, na Cinelândia, Rio de Janeiro. Com texto e direção de Leonardo Talarico, a peça tem o mérito de encarar com coragem a vida de Sônia Tolstói (1844-1919), esposa do escritor russo León Tolstói (1828-1910). Ao contrário do que se pensa, a relação conjugal da personagem é apenas mote que pode estar empurrando os espectadores para o teatro, mas não é o que os mantém lá e faz dessa produção dona merecida de tantos elogios desde que estreou. No seu interior, está a história de uma senhora que sobreviveu a um casamento de longos 48 anos, apesar de sentir-se tão carente de atenção, de amor, de reconhecimento. É a ânsia de Sônia por essa “recompensa” que faz a história se movimentar por cento e cinco minutos. São os argumentos distribuídos na narrativa que nos fazem julgar se ela merece ou não o que solicita. Outro mérito, é sem dúvida apresentar-se como um teatro de palavra, de discurso verbal, de retórica. Não há ação dramática, o que faz cair por terra a hipótese (caduca) de que é o movimento que faz o teatro ser (bom) teatro. A ter vida longa! 

Talarico partiu do conto “Sonata a Kreutzer”, de Tolstói, para chegar na dramaturgia em questão. O caminho foi longo. Se lá havia a versão do escritor sobre sua vida familiar, aqui temos a versão de Sônia (personagem interpretada Amandha), que fala em primeira pessoa. O noivado que durou apenas uma semana, os primeiros dias de dura convivência com o novo marido, o nascimento dos treze filhos, a morte de cinco deles, a fama, a nobreza, o árduo trabalho de cópia e de revisão dos textos de Tolstói. Passo a passo, a vida de ambos é contada por Sônia após a morte do marido, ela já uma senhora. Cada lembrança é revivida em sua intensidade: a coragem de menina se transforma em uma carência compulsiva ao longo das quase cinco décadas. León se ausenta na construção dos personagens e das tramas, se dedica à amante (uma camponesa citada), se apaixona por uma crença que ele próprio não pratica e, por fim, a substitui em importância por uma das filhas, Sasha (Juliana Weinem). No final da vida, excomungado pela igreja e odiado pelo governo, Tolstói põe em risco a segurança financeira da família, o que atinge Sônia quase como um golpe fatal. O “amor” e o “ódio” de que se trata no título estão ambos em Sônia, que ama o marido e, ao mesmo tempo, o odeia, nessa uma relação conturbada a que o público tem acesso através dos olhos de Talarico. (A peça não é um documentário, mas um drama realista e talvez seja esse um dos seus maiores méritos.) 

A presença modesta na dramaturgia de Sasha é um bom recurso para a dramaturgia. Ainda que não modifique em nada a curva narrativa, já que Sasha não faz contraponto, a filha-inimiga sustenta a ideia de que há outros pontos de vista na história contada, outros meandros e uma profundidade ainda maior do que já está dado. Não há, em cena, uma briga entre as duas, embora as desavenças estejam bastante claras. A ausência do embate está na certeza de que há apenas um responsável: Tolstói, ao mesmo tempo, marido e pai. A convivência conflitante, na história e no palco, sublinha uma complexidade que o teatro realista psicológico proporciona como raramente outros gêneros: ali está a crítica à hipocrisia das relações sociais e familiares. 

O texto e sua força são melhores do que as interpretações, ainda que essas sejam boas. Amandha está bem em cena, apesar de um mau uso da voz: há muitas palavras que ora não se ouvem ou não são compreendidas, um tom grave que é muitas vezes mal solicitado e uma ausência de sensibilidade, essa quase sempre substituída pela força. Vale lembrar que a atriz é muitos anos mais nova do que a personagem que interpreta, o que abrilhanta o resultado haja vista o desafio transposto. Há bons movimentos, excelentes pausas e boa dosagem das emoções. Juliana Weinem, cujo personagem é dificílimo, tem bom resultado, esse conseguido pela manutenção da frieza, da dura sobriedade, da impassividade que, em um determinado momento, se desmancha, causando seu ápice positivo. Os aplausos seguidos de gritos de “bravo!” que encerram a fruição coroam os bons trabalhos respectivamente de dramaturgia, interpretação e direção. 

Com belíssimo figurino de Marcelo Marques e boa concepção de trilha sonora, “Amor e ódio em sonata” propõe importantes reflexões: a responsabilidade de um com o outro seja na relação conjugal, filial ou em qualquer outra, mas também a importância da manutenção de um teatro cujo drama esteja vertical, em direção a uma profundidade que desvende o homem em sua complexidade e não apenas nas soluções de tramas e sub-tramas entretetedoras. Aplausos e votos de vida longa! 

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FICHA TÉCNICA
Concepção, Texto e Direção: Leonardo Talarico
Supervisão: Amir Haddad
Elenco: Juliana Weinem e Amandha
Participação Especial em off: Luis Melo
Cenografia e Figurino: Marcelo Marques
Projeto de Iluminação: Leysa Vidal
Trilha Sonora: Leonardo Talarico
Produção: Três Ideias e Soluções Culturais
Assessoria de Imprensa: Lu Nabuco Assessoria em Comunicação
Realização: Os Insubmissos Companhia Critica de Teatro

Espelunca (RJ)

Adriano Pelegrini e Roberto Rodrigues em espetáculo
dirigido por Breno Sanches
Foto: divulgação

Nada menos que excelente

Depois de Beckett, a figura de Carlitos, personagem de Charlie Chaplin, nunca mais foi a mesma. O espetáculo “Espelunca”, do Grupo Milongas, traz o que há melhor na atualização do gênero clown: tão contemporâneo, tão humano, tão sublime. Engraçado e ao mesmo tempo profundamente enternecedor, essaa comédia proporciona identificação direta: há uma situação que existe além da vontade daqueles que nela estão envolvidos. Há ações, mas as reações geram acontecimentos sem que esses retirem os personagens do contexto em que estão tragicamente envolvidos(ou presos). “Espelunca”, em cartaz no Bar Barthodomeu, em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, nas segundas-feiras de agosto, é como uma história que foi muito triste quando aconteceu em nossa vida, mas que hoje nos faz rir. E é aí que está toda a complexidade da vida do homem de hoje. Vale muito a pena ver! 

O Garçon (Adriano Pellegrini) vive para servir e sem servir sua vida não faz sentido. Atirado às moscas, o restaurante onde trabalha não permite que ele seja ele mesmo. O asseamento, o cuidado com os clientes, o cardápio, a adega, o histórico do lugar fundado por seus antepassados, tudo está esperando para ser algo além do mero existir. E o tempo passa inevitavelmente sem que nada que se faça pareça fazer com que a história mude. Então, talvez por acaso, há uma redenção: chega um Cliente (Roberto Rodrigues), um pobre músico acordeonista, faminto e errante. Esse “nada”, esse “zero à esquerda” é tudo aquilo que poderá fazer o Garçon ser alguém, mas o Cliente não sabe que tem toda essa responsabilidade. Em uma sucessão de peripécias e reconhecimentos aristotélicos, reviravoltas, atrapalhadas, pastelonadas e momentos dramáticos, “Espeluca” desvenda a alma humana em um corte muitíssimo afiado. Gargalha-se como opção para não chorar. 

Pellegrini e Rodrigues, dirigidos por Breno Sanches, em dramaturgia assinada por esse último, estão excelentes em suas construções, vencendo, no caso da produção vista no Barthodomeu, o terrível desafio da luz e do ambiente local disponível para a apresentação. (O teatro carioca sofre o grave problema de espaços adequados para se apresentar. Os espaços cênicos disponíveis, sejam públicos ou privados, estão constantemente com agendas lotadas, embora nem sempre suas plateias estejam cheias dialeticamente.) “Espelunca” careceria de um lugar cujo infinito fosse mais marcado no ótimo cenário previsto por Arlete Ruas e por Thaís Boulanger. Um desenho de iluminação privilegiaria a obra houvesse no espaço meios para isso. Se, apesar desses desafios, “Espeluca” agrada tanto, quanto melhor seria se visto em um lugar realmente teatral. A obra tem excelente ritmo, ótimo uso da trilha sonora (Adriano Pellegrini, Breno Sanches, Matheus Rebelo e Roberto Rodrigues), essa plenamente articulada com a movimentação dos atores, e trabalhos de interpretação cujas expressões (Rodrigues melhor que Pellegrini nas marcas faciais) são potentes para contar a história e, ao mesmo tempo, falar sobre ela. 

Sai-se do Barthodomeu, muito melhor do que se entrou: mais feliz, mas também mais humano. É Carlitos, mas é também Winnie ou Gogo (Beckett), Cabíria (Fellini) ou Pedro Malazartes (Mazzaropi), ganhando sua versão carioca cada vez e cada vez mais conectando o homem com sua essência. Nada menos que excelente. 

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Ficha Técnica
Direção e Dramaturgia: Breno Sanches
Elenco: Adriano Pellegrini e Roberto Rodrigues
Trilha Sonora: Adriano Pellegrini, Breno Sanches, Matheus Rebelo e Roberto Rodrigues
Edição de Som: Léo Brasil
Cenografia, Figurinos e Adereços: Arlete Rua e Thaís Boulanger
Assessoria de comunicação: Lyvia Rodrigues

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Piquenique front (RJ)

Leo Campos, Alexandre Lino, Mariana Martins e Tom Pires
Foto: divulgação

Má direção de Jacqueline Laurence

A questão mais problemática na montagem de “Piquenique no front” em cartaz no Parque das Ruínas, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro, é que é mal dirigida por Jacqueline Laurence, que, aliás, assina a tradução do texto. Escrita em 1952 pelo dramaturgo espanhol Fernando Arrabal (sua primeira obra teatral), a peça é uma das inauguradoras do teatro do absurdo. Por esse nome, chama-se o gênero cênico-narrativo que se utiliza do realismo justamente para criticá-lo. O espectador/leitor (e o dramaturgo), nesse universo, é como um deus estrategista que vê os personagens de cima, admirando eles agirem sem lógica em um contexto improvável, o que é metáfora para explicar a vida social contemporânea: muitas vezes sem explicações que deem conta dos acontecimentos. Na produção atual, os atores, de um modo geral, conversam em um tempo lento demais, com expressões muito marcadas que beiram ao (mal feito) teatro infantil infelizmente. Mariana Martins apresenta um péssimo trabalho de interpretação. 

Uma guerra no século XX está acontecendo. É domingo e os bombardeios terminaram há poucos segundos. Sozinho e entediado em uma trincheira, o soldado Zapo levanta-se do chão e continua o que estava fazendo antes do cair de bombas: tricotar. Para a sua surpresa, seu pai e sua mãe (o senhor e a senhora Tépan) chegam para um alegre piquenique no campo. Eis que um soldado inimigo aparece, pondo em risco a descontração do momento. Esse é o mote da peça de Arrabal e o teor estético do teatro do absurdo: o inusitado em um soldado tricotar no intervalo entre bombardeios, o improvável nos pais desse soldado atravessarem alegremente o campo de batalha para desfrutar de um piquenique, e o impensável em um inimigo juntar-se a esse grupo está apenas no olhar do espectador, pois os personagens vivem realisticamente. Não é o que se vê na direção de Laurence: os diálogos são lentos, as expressões exageradas, as reações desfocadas. 

Tom Pires (o inimigo Zepo) tem boas expressões faciais, Alexandre Lino (o Sr. Tépan) deixa ver um pai orgulhoso e Leo Campos (o soldado Zapo) contrói um protagonista positivamente ingênuo, mas é na contracena que “Piquenique front” fracassa, pois a estrutura não é só absurda para quem vê, mas também é estranha para os personagens que a interpretam. Mariana Martins usa muito mal a própria voz nas falas da Sra. Tépan, produzindo agudos bastante falsos, além de expressões faciais muito marcadas. O ritmo da direção é pesado, marcado, fazendo com que não apenas o conteúdo seja ilógico, mas também negativamente a forma. O realismo bem vindo nos sacos de areia, nos objetos do piquenique e nos figurinos não encontra eco no pano de fundo (como também nas interpretações como já se disse). As opções estéticas, nesse sentido, estão usadas desequilibradamente. 

Idealizado por Alexandre Lino, o projeto tem o mérito de marcar os 80 anos de Arrabal comemorados em 2012. Valeria também uma mostra de “Fando e Lis”, “O cemitério de automóveis” e “O Arquiteto e o Imperador de Assíria”. 

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FICHA TÉCNICA
Direção e Tradução: Jacqueline Laurence
Texto: Fernando Arrabal
Atores: Alexandre Lino (Sr. Tépan), Mariana Martins (Sra. Tépan), Leo Campos (Zapo), Tom Pires (Zepo), João Fraga (enfermeiro 1) e Diogo Pivari (enfermeiro 2)
Direção Musical: Carol Futuro
Iluminação: Lara Cunha
Cenário: Karlla de Luca
Figurinista: Ticiana Passos
Direção de Produção: Alexandre Lino
Produção Executiva: Denise Lima e Eduardo Almeida
Produtores Associados: Alexandre Lino, Mariana Martins, Leo Campos e Tom Pires.
Design Gráfico: Arthur Schreinert
Fotógrafo: Janderson Pires
Visagismo: Nilton Marques
Assessoria de Imprensa: Mais e Melhores
Assessoria Jurídica: André Siqueira
Idealização do Projeto: Alexandre Lino
Realização: CINE TEATRO PRODUÇÕES

Philodendrus (RJ)

Thiare Maia, Cristina Moura, Fabrício Boliveira,
Felipe Abib e Helena Bittencourt em cena
Foto: divulgação

Um espetáculo exuberante!

Há tempos não se via algo tão interessante como “Philodendrus” na programação de teatro carioca (talvez desde “Adeus à carne”). Sem propor nenhuma história que conduza o espectador para uma caminhada horizontal (quando bom, ascendente), o espetáculo dirigido por Cristina Moura prende o espectador e o dirige, sim, para uma caminhada vertical. Trata-se de uma dissertação cênica, isto é, uma estrutura textual que gira em torno de uma tese, aprofundando (quando bom, como é o caso aqui) a discussão a partir de argumentos sólidos. O homem faz parte de um sistema natural estando em mesmo nível que outras partes, embora se considere melhor. “Philodendrus” chama a atenção para a importância dessas outras colunas da estrutura que chamamos de universo, usando a dança e o teatro como conferencistas. Bastante imagética, a peça em que se encontram Fabrício Boliveira, Felipe Abib, Goos Meeuwsen, Helena Bittencourt e Thiare Maia, além de Moura, está em cartaz no Teatro do Jóquei, na Gávea, zona sul do Rio de Janeiro e vale a pena ser visto. 

Não é possível dizer com certeza quando e onde as cenas começam e terminam. As figuras, que não chegam a ser personagens, também não estão em algum lugar definitivamente marcado aos olhos do público. Dirige-se à plateia, mas não há propriamente uma conversa. Em tudo, “Philodendrus” movimenta a arte contemporânea com vigor e potência, o enaltece o talento e a dedicação de seus realizadores. O adrama (ausência de drama) é tão válido enquanto arte cênica quanto o drama e o pós-drama, mas é preciso coragem para pô-lo em cartaz, devido ao estigma da não comercialidade. Perde quem não paga para ver: os movimentos no palco impõem um estudo corporal e proxêmico (relação espacial) que é sólido, as palavras mas sobretudo as entonações, os volumes, as pausas e as intenções deixam ver uma concepção que é convergente, os signos outros (cores dos figurinos e dos objetos, suas texturas, dimensões e localidadades, as músicas e os movimentos de luz) estão igualmente bem articulados de forma que manifestam-se como os argumentos que defendem (bem) a tese. Apesar de não se movimentarem como os homens, as plantas ocupam o espaço e o tempo de forma a compensar com isso sua existência ao nosso lado. 

Os figurinos de Antônio Guedes, principalmente em Helena Bittencourt e em Fabrício Boliveira, acrescentam porque ratificam o clima sóbrio de conferência/palestra sobre um tema, mas também retificam quaisquer hipótese sobre previsibilidade do comportamento humano (a sunga de tigre). O cenário de Olivia Ferreira e de Pedro Garavaglia ocupam o espaço, oferecendo lugares cênicos que, não usados em cena alguma, podem se tornar depósito de reflexões da fruição. O texto organizado por Gabriel Pardal age enquanto forma no mesmo sentido que conteúdo: existe, mas não se impõe, no que é bastante positivo. 

Em “Philodendrus”, todos os intérpretes estão em grandes momentos, o que amplia a potencialidade da obra. Enquanto olha-se para um, perde-se o outro e a responsabilidade pelas escolhas é do público. Nesse contexto, a peça marca-se como excelente metáfora para o tema que desenvolve: a relação sistêmica entre todas as coisas. Exuberante! 

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FICHA TÉCNICA
Idealização: Coletivo Planta
Direção: Cristina Moura
Criação: Cristina Moura, Fabricio Boliveira, Felipe Abib, Luciana Paes, Goos Meeuwsen, Helena Bittencourt e Thiare Maia
Interpretação: Cristina Moura, Felipe Abib, Fabricio Boliveira, Goos Meeuwsen, Helena Bittencourt e Thiare Maia
Assistente de Direção: Thiare Maia
Iluminação: Francisco Rocha
Cenário: Estúdio Radiográfico
Figurino: Antonio Guedes
Música original: Rabotnik
Videos: Paola Barreto
Direção de produção: Carla Mullulo
Produção Executiva: Lia Sarno
Administração: Carla Mullulo

Vestígios (PE)

Carlos Lira (Cardoso), Marcelo Dias (Marcos)
e Roberto Brandão (Marcelo) em cena
Foto: divulgação

Temática rara em espetáculo bem vindo

“Vestígios” é um bom espetáculo, mas é melhor ainda por suas intenções. Nem o Brasil, nem qualquer outro país tem o direito de esquecer seus anos negros, esses que, talvez, no futuro saberemos, ainda nem passaram de todo. A peça produzida pelo grupo recifense Relicário Produções trata sobre a tortura como marca de uma relação de poder que, mais invasiva e mais terrível que as outras, existiu na história do nosso país em vários momentos de sua história (e ninguém ouse garantir que não exista mais). Dividido em duas partes, o cenário de Doris Rollenberg oferece a sala de tortura e a sala dos investigadores. O prisioneiro é visto por ambos que querem colher dele informações. Trilhando o difícil caminho limiar do melodrama ou do documentário, Antônio Cadengue tem ótimo resultado na direção cênica para esse texto de Aimar Labaki, já montado em 2005 por Roberto Alvim. Carlos Lira, Marcelino Dias e Roberto Brandão oferecem interpretações sólidas no trato desse tema difícil tanto do ponto da vista da estética como de sua fruição. Tendo estado em cartaz no Teatro Ipanema, é ótimo saber que, entre as produções brasileiras, esse tema não foi esquecido pelo teatro, mas aqui enfrentado com galhardia. 

Roberto Brandão interpreta um professor universitário de história que, muito recentemente, em uma de suas aulas, lecionou o tema tortura dentro do programa de história da igreja. Na manhã anterior a ser preso, acordou ao lado da cabeça de um cadáver. Assustado, a imagem lhe remeteu a uma mulher que ele conhecera dez anos antes por quem foi muito apaixonado. Um dia, ela havia lhe contado que tinha encontrado documentos que provavam uma relação obscura entre Estados Unidos, China e Rússia. Nunca foi provado, mas o professor sempre acreditou que essa descoberta foi o motivo do seu desaparecimento. De qualquer forma, o último encontro dele com ela foi há muito tempo e a cabeça do cadáver estava irreconhecível quando ele, assustado, recolheu-a e a deixou em uma mala em frente ao IML. Vítima de sua ingenuidade, as câmeras o identificaram e ele foi preso para dar explicações, a princípio, sobre a mala abandonada. Sem advogados para lhe defender, isolado em uma sala escura, os interrogatórios se sucedem deixando apenas uma coisa clara: na situação, há quem tenha poder e há quem não tenha. 

No texto de Labaki, a relação entre poder e tortura vai se construindo aos poucos. Não há curva dramática, mas apenas ratificação de nós narrativos já feitos, de forma que a evolução das cenas passeia pelos mesmos lugares, deixando o tema ainda mais sólido a cada novo diálogo. O final que é exposto pela dramaturgia aparece como uma surpresa que, na verdade, sempre esteve imanente. Na encenação, esse momento chega positivamente ao natural. É bonito ver o trabalho de Cadengue parecer desaparecer diante do texto e das interpretações: é nesse desaparecer que a direção mais aparece. 

Tem mérito as interpretações de Lira, Dias e Brandão, os dois primeiros dando vida aos papéis de investigadores, porque o lugar em questão é um desafio perigoso. Oficialmente, a tortura no Brasil deixou de existir no início dos anos 80, há trinta anos. Labaki não situa a história nesse contexto, mas num lugar posterior a esse momento embora indefinido. Ou seja, corre-se facilmente o risco do contexto parecer ou um forçoso exercício de museologia teatral, ou uma espécie de documentário, ou um melodrama clichê. Nada disso acontece: temos um drama realista com o peso de que ele precisa e com o peso que esse gênero também oferece. O trio de atores sustenta essa linha tênue com vigor, excelentes intenções, entonações calmas e dedicadas e movimentações precisas. 

Na concepçãoo de cenário (Doris Rollemberg), de iluminação (Saulo Uchôa e Dado Sodi), de figurino (Anibal Santiago) e de trilha sonora (Eli-Eri Moura), o espetáculo ratifica o cuidado que Cadengue, assistido por Rudimar Constâncio, teve na delineação dos personagens de Labaki. A estrutura, como um todo bem articulado, dá a ver uma história coesa e coerente em cujas partes está o cerne do todo. 

“Vestígios” é uma peça rara que presta uma contribuição rara à programação teatral brasileira. Que retorne mais vezes ao Rio. 

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Ficha Técnica:
Texto: AIMAR LABAKI
Direção: ANTONIO CADENGUE
Assistência de Direção: RUDIMAR CONSTÂNCIO

Elenco CARLOS LIRA – Cardoso
MARCELINO DIAS – Marcos
ROBERTO BRANDÃO – Marcelo

Cenografia: DORIS ROLLEMBERG
Figurinos: ANIBAL SANTIAGO
Trilha Sonora Original: ELI-ERI MOURA
Iluminação e Operação: SAULO UCHÔA/DADO SODI
Direção de Movimentos e Preparação Corporal: PAULO HENRIQUE FERREIRA
Preparação Vocal: FLÁVIA LAYME
Programação Visual: CLAUDIO LIRA
Cenotécnica: MARC AUBERT
Assistência de Cenotécnica: KLEBER MACEDO, RAFAEL FIRMINO E FÁBIO FONSECA
Operação de Som: MARINHO FALCÃO
Assistente de Produção/Contrarregragem: ELIAS VILAR
Projeto contemplado com o PRÊMIO FUNARTE DE TEATRO MYRIAM MUNIZ/2012..
Produção Geral: RELICÁRIO PRODUÇÕES E CARLOS LIRA

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Anticorpos (RJ)

Lu Camy em excelente trabalho de interpretação
Foto: divulgação

Ótimas interpretações em espetáculo confuso

Com pinta de “teatro contemporâneo”, a peça “Anticorpos” apresenta uma novela infanto-juvenil em um horário noturno no Mezanino do Sesc Copacabana. Na história, que se passa em uma época que não é a nossa, as pessoas vão tendo o acesso à atualização de partes de seu corpo desde quando nascem, de forma que possam viver para além dos duzentos anos. Não está suficiente claro, mas algumas dessas pessoas sentem-se chamadas a se tornarem, de fato, objetos: tacos de baseball por exemplo, completamente inanimados, mas, eis o lirismo, vivos. Escrito e dirigido por Patrick Sampaio, a história de Jorge começa quando seu tio, dono de um antiquário, entrevista candidatos para a vaga de subgerente. A caminho desse momento, Jorge conhece Glória, que ilegalmente trabalha nesse serviço de transformação de pessoas em objetos. A personagem central, cuja interpretação é o que há de melhor nessa produção, é Anelise, concretizada em cena por Lu Camy. Aos 26 anos, Anelise ainda é totalmente orgânica, isto é, nunca sofreu uma atualização. Por trabalhar no antiquário em questão, ela relaciona, de alguma forma, todos os personagens. O tom pretensioso da forma de contar a história é o que há de pior nesta que é a terceira produção da Brecha Coletivo. 

O jogo de esconde-esconde só é válido quando o público sai ganhando. De outro jeito, o que temos em cena é um exercício, uma atividade que só serve para que digamos “nossa, como é inteligente esse grupo!”. No caso de “Anticorpos”, o que leva o espectador para adiante, cena após cena, não é ver o que vai acontecer com essa ou com aquela personagem, mas entender que situação é essa, quem são essas pessoas e o que elas fazem, informações essas que só são dadas e, ainda sim, parcialmente, nos trechos finais. Próximo do fim, como que exausta pelas cenas curtas e pelos diálogos entrecortados, a dramaturgia de “Anticorpos” se curva ao melodrama. É quando o vilão se mostra vilão e a mocinha se mostra mocinha, ambos respeitáveis enquanto peças de um gênero cênico-narrativo com tanto valor estético como qualquer um outro, mas completamente diferente do que estava anunciado desde o início: a contemporaneidade, em cujas estruturas só cabem personagens profundos, cheios de complexidade e contradições. Porque não encara o ser humano a partir de sua complexidade, a história é infanto-juvenil, o que não é um desvalor.

Funcionária do antiquário do tio de Jorge (Eduardo Cravo) há seis anos, Anelise (Lu Camy) não consegue a promoção de empacotadora de objetos frágeis por ser correta demais. Quando o seu namoro com Luís (Alonso Zerbinato) termina, ela resolve mostrar para si e para o mundo que pode, sim, perder o controle de si própria e expressar quem realmente ela é. Presa em uma delegacia, quem vem salvá-la é Glória (Raquel Alvarenga), responsável legal pelo apartamento onde mora Anelise. Nesse apartamento, há muitos objetos sob a responsabilidade de Glória, ex-seres humanos talvez. Vítima do sistema, Anelise sucumbe no final da peça. (E o personagem de Luís só serve para dar um “colorido” maior aos personagens de Anelise (Luís é seu namorado) e de Jorge (Luís e ele são aficionados pelo mesmo super-herói)) Com enredo interessante, a peça perde por não ser narrada de jeito acessível a quem é apresentada.

Há diversos complicadores na dramaturgia tanto cênica quanto teatral de Sampaio: diálogos cortados, cenas curtas, cenário confuso, figurino mais ainda, iluminação sem coerência e trilha sonora com músicas indie rock (Luana Carvalho e Patrick Sampaio). As falas e as cenas escondem propositalmente informações sem que essa opção se justifique. A ordem das cenas segue o mesmo padrão infelizmente. Composto por pedaços de papel branco no chão e por abajures instalados no fundo, o palco tem também decantadores e outros instrumentos de laboratório químico no chão e no teto. A iluminação (Alessandro Boschini), junto do cenário (Felipe Braga e Julia Paranaguá), deixam ver uma clara necessidade de independência da história, o que aponta para o teatro pós-dramático, mas que é prejudicial nesse caso porque não cumprem a sua função primeira que é o de narrar seja a história dos personagens (drama) seja histórias paralelas (pós-drama). Jorge, Luís e Anelise vestem roupas retrôs (Patricia Muniz ), remetendo a um tempo que não é o mesmo de Glória, desconexão que também quer ser pós-dramática, mas é, na verdade, simplesmente outra obra de arte que não a peça “Anticorpos” (as projeções de Mariana Kaufman e as músicas da trilha vão na mesma direção). 

Zerbinato, Cravo e Alvarenga apresentam grandes trabalhos de interpretação, com destaque para Lu Camy. Apesar de mal construídos dramaturgicamente, as figuras ganham solidez nas cenas pelo reforço das características mais superficiais: a ingenuidade de Anelise, a frieza de Jorge, a infantilidade de Luís e a maturidade de Glória. O texto é bem dito, o discurso é carismático, os movimentos são articulados entre si. O cansativo esforço de juntar as peças que formam a história de cada um e de todos, apesar de não recompensado de todo, dá resultado, isto é, ao final, sabemos de quem se trata cada um. Camy emociona, fisga a atenção, dá eixo para essa tempestade de elementos justapostos mas não articulados que há em cena. Por isso, o destaque positivo a ela. 

Apesar do título, que afinal permanece com significado ainda obscuro infelizmente, “Anticorpos” parece tratar da objetivação do humano. Na sede por se perpetuar no tempo, acaba-se perdendo justamente o que dá vida ao tempo. Nesse espetáculo, a Brecha Coletivo parece ter caído na armadilha que ela mesmo questiona. Com boas intenções de fazer um cenário incrível, um figurino invejável, projeções lindas, esqueceu-se da história e sobretudo de quem a ouve. Ficam felizmente as ótimas interpretações. 

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Ficha técnica:
direção e dramaturgia de Patrick Sampaio
a partir da composição "A Cadeira", de Lu Camy.

atuação e criação Alonso Zerbinato (Luís 04), Eduardo Cravo (Jorge The Moustache), Lu Camy (Anelise) e Raquel Alvarenga (Glória).

assistência de direção-dramaturgia e “stand in” de Anelise Mayara Yamada

colaboração em texto Lu Camy

cenário Felipe Braga e Julia Paranaguá

iluminação Alessandro Boschini

figurino Patricia Muniz
assistência de figurino Cesar Marquez

projeções Mariana Kaufman

música original Luana Carvalho
tocadas nas cenas do término e do toque

trilha sonora Luana Carvalho e Patrick Sampaio
efeitos sonoros Átila Calache

programação visual Felipe Braga

interlocução de roteiro Bruno Mello e Mariana Kaufman
pesquisa preliminar Lu Camy e Raquel Alvarenga
colaboração em pesquisa preliminar Kamilla Oliveira e Livia de Bueno
interlocução filosófica Gabriela Serfaty
visagismo Cesar Marquez

iluminação em “work in process” itinerante Fábio Prestes
produção executiva em “work in process” itinerante Robson Agra
assistência de direção-dramaturgia em “work in process” itinerante Alonso Zerbinato

fotos de estúdio João Gabriel Salomão
fotos de divulgação Bruno Mello

cenotécnica Marmello Arte

pré-produção Estefania Lima
produção executiva Aline Mohamad e Flora Genial
direção de produção Patrick Sampaio

realização BRECHA COLETIVO e SESC RIO

co-realização PROJÉTEIS COOPERATIVA CARIOCA DE EMPREENDEDORES CULTURAIS

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

A vida nova de Laura (RJ)

Neuza Rodrigues e Ana Paula Novellino
Foto: Helmut Hossmann

Para o riso simples

“A vida nova de Laura” é uma comédia de costumes, cujo tema central gira em torno dos relacionamentos amorosos da personagem título. Na situação inicial, ela morreu e, no além, se torna participante de uma espécie de programa de televisão em que os telespectadores votam para decidir sobre para onde deve ir “convidada”. Antes do “julgamento”, Laura conta a sua vida e é a partir dessa narrativa que o resultado virá. Escrito por Neuza Rodrigues e dirigido por Ivan Fernandes, o espetáculo está em cartaz no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro. 

A estrutura simples da dramaturgia encontra eco nas piadas que também clamam por um humor bastante comum. Laura (Neuza Rodrigues), com medo de ficar para “titia”, se envolve com homens casados e com fetiches estranhos, solteiros e com hábitos excêntricos, enrolados e com valores afetivos poligâmicos. Construídos a partir dessas tipologias, os personagens são estereótipos superficiais que bem dizem respeito à proposta da peça. De fato, para a narrativa correr bem, não é possível construções muito profundas. O riso pode vir fácil em quem se identifica com as situações cômicas em que se envolve a personagem. 

De um modo geral, as interpretações são boas, com destaque para Ana Paula Novellino que melhor aproveita o ritmo da comédia. Rodrigues, Gustavo Maranhão e Marcelo Dias atendem aos objetivos, criando bons momentos na encenação com o pouco que a estrutura narrativa lhe proporciona. Os figurinos e os adereços cênicos são bastante simples. Não há cenário e a trilha sonora é retirada de filmes, o que expressa a simplicidade da produção e também sua pobreza em termos estéticos. 

O fechamento da trama é paupérrimo enquanto dramaturgia, optando por um caminho já gasto muitas vezes. No entanto, a última cena é, também, o melhor momento de “A vida nova de Laura”. A surpresa revela não uma decisão, mas uma possibilidade que se abre para se viver o amor.

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FICHA TÉCNICA
Texto - Neuza Rodrigues
Direção - Ivan Fernandes
Elenco - Ana Paula Novellino, Gustavo Maranhão, Marcelo Dias, Neuza Rodrigues
Direção de movimento - Duda Maia
Assistente de direção - Michele Capri
Figurino - Andrea Gaspar
Cenografia - Marcelo Dias
Operador de Som - Christian Dias
Iluminação - Ericeira Jr.
Operadores de luz - Cristiano Gonçalves e Jorge Bastos
Trilha sonora - Rafael Sperling
Assessoria de Comunicação - Lyvia Rodrigues
Produção - Cecília Vaz
Fotos: Helmut Hossmann
Realização - Neuza Rodrigues

O controlador do tráfego aéreo (RJ)

Elenco tem excelente retórica
Foto: divulgação

Experimentação dramatúrgica

Em “O controlador do tráfego aéreo”, Moacir Chaves repete o que já experimentou no bem sucedido “A Negra Felicidade”, isto é, dá forma dramatúrgica a textos de origens diferentes. A primeira parte do espetáculo é composta por prontuários, texto científico e por correspondência médica em que Silvano Monteiro é diagnosticado como um paciente que necessita de cuidados. Além disso, há a relação do personagem com os departamentos da aeronáutica, onde trabalhava até meio dos anos 90. A cena inicial mostra Monteiro no trabalho, controlando o tráfego aéreo a partir da base aérea do Galeão. A segunda parte é formada por canções, textos opinativos sobre a realidade dos moradores de rua de Porto Alegre e textos literários (sem citação de fontes – nenhum programa é também entregue). “Controlador do tráfego aéreo” perde o foco, dispersando o trato do tema inicial sem aprofundar qualquer outro,  ao invés de enfrentá-lo. Em cartaz no Teatro Serrador, com produção do grupo Alfândega88, é um espetáculo de dramaturgia experimental (e já experimentada pelo próprio grupo).

O gênero pós-dramático, porque delega ao espectador a tarefa de dar sentido para o que vê em cena, é o prisma que melhor leitura poderia oferecer para o espetáculo em questão. Sem dúvidas, “Controlador do tráfego aéreo” tem valores estéticos nobres: o excelente desenho de luz de Aurélio de Simoni constrói imagens que contribuem na materialização da solidão humana, com destaque para a cena em que os bancos vazios da plateia são iluminados, deixando pensar na possibilidade da ausência. O cenário, apenas uma mesa, pode fazer permitir pensar na pista de pouco e decolagem de aviões, mas também uma proposta de debate, pois o público está sentado em seu entorno. Danielle Martins de Farias, Fernando Lopes Lima, Kassandra Speltri, Leonardo Hinckel, Luísa Pitta e Rafael Monnheimer dão a ver o texto com excelente retórica, ratificando o tantas vezes elogiado talento de Chaves para dirigir atores e oferecer grandes trabalhos de interpretação. O problema é realmente a dramaturgia. 

“Controlador do tráfego aéreo” é hermético, pois a simples justaposição de vários textos não aprofunda o tema pela galeria de vários lados de um mesmo assunto, como pode ter sido a intenção. O personagem Monteiro, em torno do qual a história gira na sua abertura, se esvai quando o texto abandona o particular para ir em direção ao universal. O personagem morava no Rio e foi transferido para Brasília, o que acentuou problemas familiares que já o punham sob tensão psicológica anteriormente. A crônica e a opinião sobre ela a respeito dos moradores de rua trata de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. É certo que, na história, Monteiro se tornou morador de rua depois de ter pedido desligamento da aeronáutica, mas supor que a realidade dos moradores de rua de Porto Alegre seja a mesma do Rio ou de Brasília é uma visão tão superficial do tema quanto a demonstrada na crônica contestada no texto opinativo. Os textos outros (o crítico Lionel Fischer cita "O mal estar da civilização" (Freud), "Utopia" (Thomas Morus), "Ralé" (Gorki), "Memórias póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis) e "Rei Lear" (Shakespeare)) colorem o tema e o seu trato, mas igualmente apenas entretém sem contribuir na reflexão de forma sólida. 

Silvano Monteiro é também o nome de um dos atores da produção. É ele quem interpreta o controlador do tráfego aéreo na abertura da peça e somos levados a crer que se trata de uma história real. O fato dá força para o projeto, mas não lhe confere peso enquanto obra artística. Como experimento, tem-se aí um bom resultado. 

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Ficha técnica:
Concepção, dramaturgia e concepção cenográfica: Moacir Chaves

Elenco: Danielle Martins de Farias, Fernando Lopes Lima, Kassandra Speltri, Leonardo Hinckel, Luísa Pitta, Rafael Monnheimer e Silvano Monteiro

Figurinos: Inês Salgado
Iluminação: Aurélio de Simoni
Programação visual: Maurício Grecco
Músicas: Silvano Monteiro
Produção executiva: Denise Pimenta
Divulgação: Passarim Comunicação
Fotos: Guga Melgar
Assistência de direção: Danielle Martins de Farias
Estagiária de direção: Maria Grey
Produção: Cia. Alfândega88

domingo, 4 de agosto de 2013

A vingança do espelho (RJ)

Betty Goffman em cena: imperdível
Foto: divulgação

A versatilidade imperdível de Betty Goffman: uma linda homenagem à Zezé Macedo

“A vingança do espelho” é um espetáculo muitas vezes especial. Primeiro, porque é uma linda homenagem a uma das maiores estrelas do teatro e do cinema nacional, a atriz Zezé Macedo (1916-1999). Segundo, porque é uma oportunidade de conhecer um trabalho de interpretação que é excelente em sua vasta versatilidade. Betty Goffman, no papel de Zezé, é um prazer imperdível. Depois, pela força com que a história é contada em cena pela dramaturgia, pela forma como a cena dirigida por Amir Haddad está bem construída, como todos os elementos bem se articulam. Idealizado pelo produtor Eduardo Barata, o espetáculo está felizmente de volta a cartaz no Teatro Leblon, na zona sul carioca. Que tenha vida longa! 

Zezé Macedo estrelou 108 filmes nacionais, comédias que, embora desprezadas pela crítica, tiveram grande público. “A vingança do espelho” diz respeito ao seu sucesso. Ainda criança, na pequena cidade fluminense de Silva Jardim, seu sonho de ser atriz foi abafado por ela não ser considerada “bonita” o suficiente. Dona de uma carreira deslumbrante, sua vida é uma prova de que os presságios não foram (são) invencíveis. Uma prova para si e uma prova para os outros, para quem, plateia desse espetáculo, assiste à essa vida cheia de desafios, com muitos fracassos, mas incontáveis vitórias. 

O texto de Flávio Marinho está bastante bem articulado com a direção de Amir Haddad e com o cenário de Afonso Tostes. A questão é a seguinte: no início do espetáculo, o espectador se vê diante de uma dúvida perigosa. Sobre o quê é “A vingança do espelho”? Sobre atores ensaiando uma peça sobre Zezé Macedo ou sobre Zezé Macedo? O público tem várias marcas, as araras de figurino, as rotundas e bambolinas levantadas, os diálogos de discussão entre os personagens-atores, a repetição da palavra “ensaio”, para estar certo (leia-se: seguro) da primeira opção. Acontece que, com o público bem posicionado diante da obra, a catarse está pronta para acontecer, isto é, o acordo de acreditar no contrato estabelecido com a narrativa pode, então, acontecer. E acontece. A história de Zezé Macedo brota das entranhas do teatro e se materializa na relação palco e plateia. O resultado é excelente. 

Todo o elenco, de um modo geral, apresenta bons trabalhos. Marta Paret, Antônio Fragoso e Tadeu Mello, em papeis menores, contribuem com potência, com força, com riqueza de detalhes, com profundidade na sucessão de personagens que o trio interpreta. Mohamed Harfouch tem o grande desafio: o de a) dar unidade para os elementos cênico-dramáticos e b) conduzir a fruição, mantendo suspensa a atenção do público na história que está sendo contada. O objetivo é plenamente atingido haja vista a sinceridade bonita com que o ator dá vida ao personagem do Diretor Omar. Betty Goffman tem aqui um dos melhores trabalhos de sua carreira, situando a produção como um dos grandes acontecimentos da produção teatral carioca dos últimos anos. Na mesma peça, a atriz consegue fazer o público gargalhar (em especial, na cena da plateia) e, logo em seguida, ir às lágrimas. As difíceis cenas de debate entre os atores do grupo de Omar fazem refletir, os sensíveis quadros de declamação de poesia são sustentados com dignidade, tempo, detalhes e contornos. Goffman dá forma para a personagem de jeito que não é possível quem não se apaixone por ela: pela história de Macedo, pela própria Macedo e, também, pela atriz Goffman. 

“A vingança do espelho” tem excelente uso de movimentação dos atores, de acessórios, de vídeos, de trilha sonora e de iluminação. O desenho de luz de Paulo Denizot cria quadros cujo lirismo ressaltado faz dupla com os poemas escritos por Zezé e publicado em seus quatro livros. São grandes momentos da peça a ser destacados. 

Conhecida pela interpretação do personagem “Dona Bela” no programa humorístico da TV Globo “A escolinha do Professor Raimundo”, Zezé Macedo foi desprezada pela crítica ao longo de sua carreira, recebendo um único troféu, o kikito de melhor atriz (Festival de Cinema de Gramado/RS) em 1986 pelo filme “As sete vampiras”, de Ivan Cardoso. Aplaudir essa homenagem a ela, além de ser um prazer espontâneo, é um dever. Espetáculo imperdível! 

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FICHA TÉCNICA
Texto: Flávio Marinho
Direção: Amir Haddad

Elenco: Betty Gofman, Mouhamed Harfouch, Tadeu Mello, Marta Paret e Antonio Fragoso

Cenário: Afonso Tostes
Figurino: Fernanda Fabrizzi
Programação Visual: Luiz Stein Design
Iluminação: Paulo Denizot
Trilha Sonora: Alessandro Perssan
Idealização: Eduardo Barata
Produção: Barata Comunicação

sábado, 3 de agosto de 2013

Randevu do avesso (RJ)

A peça segue em cartaz no Teatro Café Pequeno
Foto: divulgação

Mais comportado do que poderia: ótimo espetáculo

“Randevu do avesso” é bom, mas podia ser melhor se não fosse tão comportado. Com supervisão de José Possi Neto, a peça está em cartaz no Teatro Municipal Café Pequeno no Leblon e tem bom texto de Claudia Mauro em processo colaborativo com o elenco. A direção é dos atores Alice Borges, Édio Nunes e de Marcos Ácher, que também são destaques nas interpretações ao lado de Beth Lamas. Melhor lido dentro do gênero do Teatro do Ridículo, a produção, infelizmente, parece negar a si própria, agradando principalmente quando escapa de si mesma. São destaques positivos também o cenário de Nello Marrese e os figurinos de Claudio Tovar, além da trilha sonora dirigida por Claudio Lins e por Tony Lucchesi e bastante bem interpretada ao vivo pelo conjunto de atores e músicos.

O gênero Teatro do Ridículo é consequência de dois anteriores: o Teatro Surrealista de Artaud e o Teatro do Absurdo de Ionesco. Enquanto no primeiro, o sonho toma o lugar da realidade e estabelece uma nova lógica, o segundo retira a lógica da realidade e constrói uma versão paralela. Com menos emoção e menos política, o Teatro do Ridículo deu sua contribuição à liberação sexual (O musical Hair foi produzido na Off-Broadway em 1967.), aproveitando-se das cores surrealistas e da comicidade absurda. O resultado é, nada menos, que uma “avacalhação” levada a sério, com antecedentes no teatro burlesco americano que satirizava óperas clássicas, produzindo comédias pastelão. Nesse contexto, justifica-se o chamamento das cenas de “números” no texto de Mauro aqui analisado. 

O musical "Randevu do avesso"conta a história da diva Melinda Melaço, famosa cantora interpretada por Lamas. Como todas as grandes divas, ela tem um histórico pontuado por tragédias e por uma carga genética complicada. A história se passa no camarim de um teatro, numa tarde de ensaio que antecede a noite de estreia de mais um de seus grandes shows. Nervosa, ela bebe muito, chegando a decidir que não irá estrear. Revoltada com a hipocrisia que rege o mundo das artes, usa de várias drogas e tem uma overdose. Dessa forma, seu corpo entra em colapso. “Randevu do avesso” tem esse nome, porque estamos "no avesso" de Melinda, isto é, dentro de seu corpo que, ao longo da narrativa, entra em convulsão. Cada personagem é uma parte desse corpo: o cérebro, os rins, a vagina, os seios, as cordas vocais, etc. Todos se unem para “salvarem-se”, “salvando” Melinda. Como é de costume em espetáculos desse gênero, o texto é apenas motivo para situações cômicas em que o deboche deve correr solto. Infelizmente, esse último elemento aparece formalmente nos diálogos, mas muito pouco nas contracenas entre os personagens, o que é uma falha da direção.

Comportado, esse “Randevu do avesso” é um tanto quanto hermético demais, podendo melhorar na medida em que os atores, nas sucessivas temporadas, forem se sentindo mais à vontade com o texto e com as marcações. Na sessão aqui analisada, houve dois momentos bastante interessantes: em um deles, dois intérpretes começaram a rir (Borges e Ácher), introduzindo questões relativas à produção da peça em si e não em relação à narrativa: quem produz a peça, quem é o dono da cena, quem está roubando o foco, etc. Em outra situação, uma cortina do cenário caiu e virou motivo de piada em outros momentos do espetáculo. Aparentemente renegado pelos atores, esses períodos foram os melhores, porque os mais condizentes com o que o público espera ver. Palavrões, referencias sexuais e ao uso de entorpecentes, questionamento da sociedade, etc, são elementos estéticos que vibram no improviso dionisíaco que o texto, enquanto diálogos, prevê. Na "bagunça", Dionísio do texto expulsa o Apolo que parece imperar nas coreografias sólidas, nas marcações enrijecidas e nas interpretações um tanto quanto duras.

Destacam-se, no elenco, as interpretações de Alice Borges (Maria Têta e Cuzidô), Édio Nunes (Espermaurício), Marcos Ácher (Cirrus Hepáticus e Dona Menô) e de Beth Lamas (Melinda). Responsável pela linha narrativa, Lamas tem uma responsabilidade diferente dos demais na estrutura cênico-dramatúrgica da peça, essa cumprida com força, verdade e com potencia. Os demais citados são os que, na sessão analisada, melhores aproveitaram os momentos para o improviso, a descontração e para o ridículo estético esperado, ressaltados, claro, os seus valores enquanto bons comediantes e cantores e dançarinos.

“Randevu do avesso” é uma continuidade da pesquisa iniciada em “Cabaret Melinda”, musical criado em 2008 e apresentado em casas noturnas como os extintos Canequinho e Canecão, Lapa 40º, de Carlinhos de Jesus, e espaços alternativos como o Rio Scenarium. “Cabaret Melinda” surgiu do desejo de continuidade da parceria de onze atores que trabalharam juntos durante um ano no espetáculo “O Baile”, dirigido por José Possi Neto, que cumpriu temporadas de sucesso no Rio (Teatro Ginástico e Teatro João Caetano) e em São Paulo (Teatro Cultura Artística). Vale a pena ser visto! 

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Ficha Técnica
Texto Anormal: Claudia Mauro
Direção Paranóica: Alice Borges, Édio Nunes e Marcos Ácher
Assistência Pirada de Direção: Marília Araujo
Supervisão Geral da Loucura: José Possi Neto

Elenco / Personagens:
Alice Borges: Sopranina / Cuzidô / Maria Teta / Lili Coca
Anna Claudiah Vidal: Gina Falópio / Tarja Najla, a tarja preta
Beth Lamas: Melinda
Charles Fernandes: Aza, o pensamento / Espermarcos / Laringo-goboy
Claudia Mauro: Afrodite Pinefrina / Ovo Pô-Chê.
Édio Nunes: Pentelho Profeta / Mano Calo / Besteirão / Espermauricio / Telmo Lactina, o hormônio alterado / Maestro Multipotente, a célula tronco
Gisela Saldanha: Lady Adrianina / Espermatilde
Marcos Acher: Cirrus Hepaticus / Espermaurício / Dona Menô
Najla Raja: Mezzo Cotoca, Abigail / Espermarcia
Ruben Gabira: Sanus Insanus / Diretor

Figurinos Bipolares: Claudio Tovar
Cenário Esquizofrênico: Nello Marrese
Iluminação Alucinógena: José Possi Neto e Rogério Medeiros
Trilha Original Tresloucada: Claudio Lins
Direção Musical e Arranjos Dissonantes: Claudio Lins e Tony Lucchesi
Coreografias Desvairadas: Adriana Nogueira, Charles Fernandes, Édio Nunes, Eliane Carvalho (Flamenco), Silvia Matos (ballet moderno), Mabel Tude (Sapateado) e Marília Araujo
Projeto Gráfico Paranóide: Marcos Ácher
Fotos Delirantes: Dalton Valério
Produção Executiva em Delirium: Regina Monteiro
Direção de Produção da Insanidade: Alice Borges, Claudia Mauro, Denise Escudero e Gisela Saldanha
Realização da Catarse: Alice Borges, Claudia Mauro e Catsapá Produções Artísticas
Síndrome Compulsiva de Divulgação: JSPontes Comunicação - João Pontes e Stella Stephany

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

“E foram quase felizes para sempre” (RJ)

Heloísa Périssé apresenta o seu primeiro monólogo
Foto: Saulo Marqks

Grande interpretação apesar de texto ruim
Primeiro monólogo escrito por Heloisa Périssé, “E foram quase felizes para sempre” está longe de ser um bom texto. Mesmo assim, o espetáculo é bom, o que ratifica o talento da atriz como intérprete e grande comediante. Em cartaz no Teatro Vanucci, no Shopping da Gávea, zona sul do Rio de Janeiro, a peça tem excelente cenário de Miguel Pinto Guimarães e iluminação de Maneco Quinderé. Sem dúvidas, a dupla faz a diferença positivamente ao lado de Périssé na conquista dos aplausos a essa produção. 

Desde o título e a primeira frase, estamos diante de mais um entre tantos espetáculos sobre relacionamentos entre homem e mulher. O encontro, o início do relacionamento, o início das brigas, o início do fim, o fim e a possibilidade do retorno são os passos que todos as peças desse tipo trilham sem exceção. Com um excesso de palavrões nos primeiros diálogos, o prenúncio é de um dos primeiros fracassos com a assinatura Périssé. Felizmente, a promessa não se cumpre. Logo, o jogo de troca de personagens torna-se muito mais interessante que a história propriamente em si e é aí que “E foram quase felizes para sempre” ganha o público pela primeira vez. 

Letícia Amado é uma escritora de livros para viagem e está na noite do lançamento do seu livro “Cantinho pra dois”, em que narra suas impressões sobre vários lugares do mundo onde pode ser interessante ir ao lado da pessoa amada. O problema é que faz seis meses que o seu casamento definitivamente terminou e, embora Paulo Vitor, o ex, ainda não tenha chegado na sessão de autógrafos, é possível que ele apareça. Nervosa, ela começa a contar a sua história para os convidados e o mote é o que necessita atriz para fazer ver, na narrativa desse casamento entre duas pessoas tão opostas apesar do amor que as une, uma galeria de figuras que expõem o seu grande talento e a sua técnica. A psicóloga Lorena, a amiga Celestre, a Mãe, a Irmã, o Cunhado, o Pai, o Marrento, a Puta e o próprio Paulo Vitor aparecem em cena todos juntos na pele de Périssé. Sendo um monólogo, temos um grande espetáculo dirigido por Susana Garcia, que parece fazer evoluir bem a sucessão dos personagens, valorizando o que há de melhor no projeto. 

Miguel Pinto Guimarães, mais uma vez ao lado de Maneco Quinderé com um resultado excelente, cria um cenário simples, mas essencial. Um conjunto de retângulos em diversos tamanhos suspensos no palco cria ambientes múltiplos, enquadrando as personagens quando a atriz passa por entre eles. O ciclorama do fundo compõe o quadro ou os quadros, oferecendo uma noção de espaço, esse desenhado verticalmente, que tem alta qualidade estética. A trilha sonora de Alexandre Elias e o figurino criado por Rita Murtinho também têm bom resultado, participando menos da produção, mas com igual qualidade. 

A relação entre Letícia e Paulo Vitor, embora particular, torna-se motivo para o público pensar nas próprias relações amorosas, sexuais, familiares ou amigáveis. “E foram quase felizes para sempre” é entretenimento, mas, ultrapassando a barreira inicial da revisita aos clichês, há de se encontrar uma grande atriz ao lado de bons profissionais do ramo das artes cênicas em trabalho digno de destaque, unido a plateia em um coro único de seres humanos que querem amar e ser amados. Assim, a peça faz pensar e faz gargalhar, cumprindo o seu papel. Aplausos. 

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FICHA TÉCNICA:
Com HELOISA PÉRISSÉ
Autor Heloisa Périssé
Direção Susana Garcia
Iluminação Maneco Quinderé
Cenário Miguel Pinto Guimarães
Figurino Rita Murtinho
Trilha musical Alexandre Elias
Produção executiva Roberta Brisson
Direção de produção Cristiana Lara Resende
Produção Cris Lara Produções Artísticas
Realização HP Produções Artísticas Ltda